"Diálogo é amar com coragem e esforço. É um jeito de ser Igreja renovada e reformada criando laços perenes e plenos de amor verdadeiro. Este é o desafio dos obreiros aqui na terra ao buscar as graças infinitas do Deus Pai de Jesus, o Santo de Deus. Rezando sempre, pois como orientava João Calvino, é preciso orar 'para que nosso coração esteja sempre inflamado com o desejo de buscar a Deus, amá-lo, servi-lo, recorrendo a Deus como uma âncora sagrada, em cada necessidade'. Assim o caminho VIVO E ALEGRE do diálogo é o Evangelho", escreve Fernando Altemeyer Junior, assistente doutor na PUC-SP.
Vivemos tempos de intransigência e de monólogos. Entretecidos na era das redes e ambientes virtuais, mas desconectados ou depressivos em solidão no meio da massa. Dizemos amor mais que o experimentamos. Falamos em comunhão fechados em denominações e muros. Proclamamos Cristo Salvador, mas com um gosto amargo de posse e intolerância. Vivemos na multidão, mas ninguém escuta a nossa voz. Solitários entre milhões. Liquefeitos entre muros sólidos e discursos de identidade endógenos. O diálogo se empobreceu e nosso coração ficou como que empedrado. Temos mais perguntas que respostas. Muitos se apresentam como vendedores de felicidades e desejos celestes, quase proprietários das promessas de que só Deus é Senhor. Apropriam-se e querem vender algo que é gratuito. Querem esconder a graça. Querem manipular Deus. Comercializam o que não é mercadoria. Fetichizam as pessoas e as igrejas pretendendo vender o céu, o milagre e até os sacramentos.
O atual processo civilizatório e cultural fez a vida tornar-se liquefeita e fragilizada. Zigmunt Bauman dirá que até o amor está sendo dissolvido, liquefeito e mercantilizado. Assim escreve: “E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço. Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos (Zigmunt Bauman. Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos, Rio de Janeiro: Zahar, 2004, p. 11-12)”. Se até o amor foi feito mercadoria, objeto descartável, que será do ser humano? Que será do nosso planeta? Que será das igrejas? Há lugar para a pequenina esperança? Podemos celebrar a fé em Cristo de forma unida e não dividida? E o amor pode ser o nosso alimento vital para vencer o medo social e a angústia existencial?
Diante desta grave questão retomo o pensamento lúcido de Martin Buber, quando escrevia em 1923 que “toda vida real (verdadeira) é um encontro”: “Uma época de genuínos colóquios religiosos está se iniciando – não dos que assim se denominavam e eram fictícios, nos quais ninguém realmente olhava para seu parceiro e nem a ele se dirigia, mas uma época de diálogos genuínos, de certeza para certeza e também de uma pessoa receptiva para outra pessoa receptiva. Somente então aparecerá a comunidade autêntica, não aquela de um conteúdo de fé sempre autêntico, supostamente encontrado em todas as religiões, mas a comunidade da situação, da angústia e da expectativa”. (Martins Buber. “Do Diálogo e do Dialógico”, São Paulo: Editora Perspectiva, 1982, pág. 40).
O Deus pessoal entra em contato com a humanidade para fazer comunidade. Estas pessoas se revelam mutuamente. Cada parceiro cria relação e adquire uma identidade completa e única. Cada parceiro irá afetar ao outro. Diálogo é uma conversa de amor entre pessoas que vivem esta relação fecunda e dinâmica. Diálogo é o amor autêntico carregado de significado. Ainda diz Buber: “Na conversação genuína, o voltar-se para o parceiro dá-se numa verdade total, ou seja, é um voltar-se do ser. O verdadeiro voltar do seu ser para o outro ser inclui esta confirmação e esta aceitação. No que quer que seja que eu seja contrário ao outro, eu disse Sim à sua pessoa, aceitando-a como parceiro de uma conversação genuína (Ibidem, p. 153-154)”.
Para os cristãos de confissão católica tornou-se uma chave essencial a Encíclica pontifícia denominada Ecclesiam Suam, publicada pelo papa Paulo VI em 06 de agosto de 1964. Nesta sua carta programática, aquele que foi bispo de Roma assumia uma questão urgente: Por que caminhos a Igreja deve hoje realizar seu mandato? E respondia a partir de três eixos pastorais: consciência, renovação e diálogo. No coração da sua carta lemos: “A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio” (ES 38 in: Ecclesiam Suam, Documentos de Paulo VI, São Paulo: Paulus, 1997, p. 45).
Estes dois intelectuais nos ajudam a enfrentar a superficialidade dos tempos atuais e construir algumas pontes em favor da fraternidade universal. Martin Buber, judeu e Paulo VI, intelectual católico e bispo de Roma, podem ser bússolas para nortear a reflexão de tantas igrejas, pastores, pastoras, episcopisas, presbíteras, obreiros, leigos, professores/as de teologia, missionários/as e de grupos religiosos ecumênicos que buscam abrir horizontes amplos para vencer o fechamento ou intolerância ainda persistentes. Para semear o Evangelho como diálogo e assumir a pregação cristã como uma brisa leve de Deus em nossos corações e na história humana. Algo tão suave que faz do obreiro uma testemunha fiel que experimentou o coração aquecido pelo Espírito Santo. Algo que recebemos gratuitamente de Deus por meio de algum pregador abençoado.
Dialogamos por nos sentirmos situados e comprometidos com uma causa comum: a paz e a justiça social de nossos povos e o respeito ao planeta em que vivemos. Nicolau de Cusa, em 1453, publicou o livro De Pace Fidei, a paz pela fé, verdadeiro manual para o encontro de religiões e culturas propondo o tema da concórdia universal. O livro deste cardeal alemão terminava com a utopia de um Concílio em Jerusalém para reconciliar todas as religiões. Na mesma direção aberta ouvimos anos atrás esta fala do Rabino Henry Israel Sobel aos meus alunos na PUC-SP: “judeus não buscam construir um mundo mais judaico, mas um mundo mais humano”. Unir, apoiar a humanidade, escutar outras vozes e respeitar as diferenças sem submissão nem superficialidades é tarefa gigantesca e delicada. O diálogo é caminho e método. O diálogo é um convite feito por Deus. É uma abertura na nossa vida para o diferente, para o outro e para aprender a ouvir o que nosso irmão nos fala e compartilha. O diálogo “foi aberto espontaneamente por iniciativa divina: Deus foi o primeiro a amar-nos (1 Jo 4,10). A nós tocará outra iniciativa, a de prolongarmos até os homens esse diálogo, sem esperar que nos chamem (ES42)”.
No Brasil existe um número imenso de obreiros que conhecem os segredos da Palavra de Deus. É preciso nomeá-los com gratidão e profundo respeito, pois são também eles e elas filhos da promessa e parceiros da comunidade de situação. Podemos alegremente citar com amor imenso por cada um/uma deles/as: pastor luterano da IECLB Bertholdo Weber, frei carmelita Carlos Mesters, pastor luterano Milton Schwantes, frei dominicano Gilberto Gorgulho, biblista católica Ana Flora Anderson, cardeal Paulo Evaristo Arns, sociólogo congregacional Jether Pereira Ramalho, sociólogo católico Pedro Assis Ribeiro de Oliveira, biblista Francisco Orofino, monge beneditino Marcelo Barros, biblista católico Rafael Rodrigues, biblista católico Pedro Vasconcelos, religiosa salesiana Ivone Brandão, fma, especialista em grego e Apocalipse prof. Dr. Domingos Zamagna, e ainda os teólogos e teólogas: Carlos Arthur Dreher, Pablo Richard, Gottfried Brakemeier, Haroldo Reimer, Paulo Augusto de Souza Nogueira, Rudolf von Sinner, Tércio Machado Siqueira, Uwe Wegner, Geraldo Graf, Hermann Wille, Elena Silva Pinto, rev. Orlando dos Santos Olviera, rev. Sergio M. Pinto Lopes, Rev. Tércio Avena da Silva, Etienne Higuet, Tomiko Born, Hugo Assmann, padre jesuita João Batista Libanio, dom Sumio Takatsu, Romi Bencke, Lauri Wirth, Flávio Augusto Borges Irala, dom Teodoro Mendes Tavares, bispo em Cabo Verde, Africa; Paulo Ayres, Leonardo Boff entre os muitos e muitas que seguem a Palavra viva da Unidade, pois quem é de Deus ouve as Suas palavras (Jo 8,47).
O dinâmico pastor do metodismo, Wesley já propunha esse belo programa de vida: “Faça todo o bem que puder, por todos os meios que puder, de todas as maneiras que você pode, em todos os lugares que você puder, em todas as vezes que você puder, para todas as pessoas que você puder, enquanto você pode sempre”.
O diálogo fecundo e autêntico exige que se assumam as dores e angústias de toda a humanidade, particularmente dos que são submetidos aos dramas mais profundos do viver: o fatalismo, a finitude e a fragilidade. No tratado talmúdico Sanhedrin diz: “Salvar uma vida humana é como salvar o universo inteirinho, e destruir uma só vida é equivalente a destruir o próprio universo”. Sem esta vontade decidida de comunhão não iremos a lugar nenhum. Quem dialoga nunca pode mentir. Mentira engendra o mal e nos prende ao vazio. Esconder o certo é porta para uma vida infeliz. Para fazer acontecer um colóquio autêntico precisamos esculpir em nós mesmos quatro qualidades ou características essenciais: Clareza, mansidão, confiança e prudência. Sem uma delas o diálogo naufraga nas aguas turvas da intolerância e do medo.
Diz o papa Paulo VI certamente inspirado pela leitura do Apóstolo Paulo no hino ao Amor: “O diálogo supõe e exige compreensibilidade, é transfusão de pensamento, é estimulo do exercício das faculdades superiores do homem. O diálogo não é orgulhoso, não é pungente, não é ofensivo. A autoridade vem-lhe da verdade que expõe, da caridade que difunde, do exemplo que propõe; não é comando, não é imposição. O diálogo é pacífico, evita os modos violentos, é paciente e generoso. Produz confidências e amizade, enlaça os espíritos em uma adesão mútua ao Bem, que exclui qualquer interesse egoísta. O diálogo atende às condições psicológicas e morais de quem ouve (ES 47)”.
Aqui exemplifico outra plêiade de irmãos e irmãs unidos pelo amor de Cristo Jesus e sintonizados com as dores do povo brasileiro e engajados na transformação e no serviço emancipador da vida e da liberdade. São entre centenas de obreiros e obreiras, exemplos de amor. Constroem a unidade das Igrejas sem monolitismos nem arrogância de sua confissão religiosa de origem. Inspirados na fé cristã creem no amor infinito de Deus que nos une.
Eis alguns nomes inscritos pela mão dos anjos de Deus: os apóstolos de Cristo, os evangelizadores das igrejas, Paulo, Agostinho, Priscila, Madalena, Barnabé, os irmãos John e Charles Wesley, os reformadores Martinho Lutero, Zwinglio, João Calvino, Jan Hus; os missionários mendicantes Francisco de Assis e Domingos de Gusmão, os precursores da evangelização em terra brasileira: reverendo Pierre Richier, pastor Wilkman Lowis, capelão anglicano Robert C. Crane, casal de missionários da Igreja Congregacional, Robert Reid Kalley (escocês) e Sarah Poulton Kalley (inglesa), Missionário presbiteriano estadunidense Ashbel Green Simonton, primeiro pastor presbiteriano brasileiro José Manuel da Conceição, reverendo metodista Junius Estaham Newman (americano), reverendos batistas Richard Ratcliff e Robert Porter Thomas, missionários anglicanos Lucien Lee Kinsolving e James Watson Morris, Louis Francescon (italiano), fundador da Congregação Cristã do Brasil, primeiro missionário adventista Albert B. Stauffer, fundação da Assembleia de Deus pelos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, em Belém do Pará, adotando primeiramente o nome de Missão da Fé Apostólica, fundação da Igreja do Evangelho Quadrangular pelos missionários Harold Edwin Willians (americano) e Emílio Vasquez. Recentemente podemos elencar um grupo de missionários do ecumenismo como o pastor luterano Dr. Rolf Schunemann; as religiosas católicas da congregação de Sion, ir. Gisa Fonseca e ir. Isabel Sampaio Wilken; frei Leonardo Martin; padre católico Humberto Porto; bispo católico José Ivo Lorscheiter; bispos orientais católicos Edgar Madi, Fares Maakaroun, Volodemer Koubetch, Meron Mazur, Daniel Kozelinski Netto, Vartan Waldir Boghossian; e o padre jesuíta Jesús Hortal; frei franciscano Félix Neefjes; padre católico José Bizon; pastor presbiteriano Zwinglio Mota Dias, pastor presbiteriano Leonildo Campos, teólogo João Dias de Araújo, padre dehoniano Marcial Maçaneiro; padre católico Elias Wolff; bispo católico Mauro Morelli; cardeal Aloísio Leo Lorscheider; bispo católico Helder Pessoa Câmara; o intelectual e valioso pensador metodista uruguaio Julio de Sant’Anna; pastor luterano Walter Altman, pastor luterano e eminente biblista Milton Schwantes; intelectual católico Faustino Teixeira; bispo católico Luciano Pedro Mendes de Almeida, S.J.; pastor metodista Dorival Beulke, bispo católico Décio Pereira; historiador católico José Oscar Beozzo; pastor presbiteriano Jaime Nelson Wright, pastora metodista Nancy Cardoso Pereira, pastora luterana Haidi Jarschel, pastor metodista Claudio de Oliveira entre aqueles/as antenados com as causas sociais e a vida dos pequeninos.
Entre encontros e desencontros entre os cristãos reconhecermos que o Espírito do Ressuscitado vai agindo suavemente. Nada será possível sem oração forte e fiel. Atribui-se a Martinho Lutero esta oração: “Vê, Senhor, que sou um vaso que carece muito de ser preenchido. Meu Senhor, enche o vaso, pois sou fraco na fé. Fortalece-me, pois sou frio no amor. Aquece-me e torna-me quente, para que meu amor transborde para o próximo. Não tenho fé robusta e forte, acontece que sou acometido de dúvidas, não podendo confiar em ti inteiramente. Ó Senhor, ajuda-me, faze crescer minha fé e confiança. Tudo o que tenho se encerra em ti. Eu sou pobre, tu és rico e vieste para receber em misericórdia aos pobres. Eu sou pecador, tu és justo. Comigo está a doença do pecado, em ti está a plenitude da justiça. Por isso quero ficar contigo, não preciso dar de mim para ti, de ti posso receber. Amém.”
Ao nosso redor há centenas de novos movimentos religiosos, novas igrejas, novos pastores, novos Evangelhos e suas propostas inusitadas. Todos em busca da verdade. Algumas mentirosas como a teologia da prosperidade e outras inspiradas na mensagem da misericórdia e do perdão. Geram muitas expectativas e utopias. E muitas vezes manipulação e distopias. Uma linguagem dialógica deve incluir novas atitudes diante da vida e do jeito de ser dos outros crentes e dos não crentes. Precisamos aprender a respeitar os que pensam e agem diferente. Esta foi uma bela lição que o Santo papa João XXIII nos ensinou de forma ativa e alegre: “Em qualquer parte onde os autênticos valores da arte e do pensamento são suscetíveis de enriquecer a família humana, a Igreja está pronta a favorecer este trabalho da inteligência (Discurso aos participantes do 2º Congresso Mundial de Escritores e Artistas Negros, in “L'Osservatore Romano”, três abril 1959, pág. 1)”.
Somente venceremos a intolerância pelo respeito mútuo. Para chegar a esta reverência aos outros será preciso defender a liberdade de consciência, e por consequência a abertura à verdade dos outros. Respeitar não significa submissão ou silêncio, mas escuta e diálogo. Quem respeita, ouve! E ouve a todos sem distinção, nem preconceitos. O papa Paulo VI fala de existência de círculos concêntricos: primeiro, o diálogo deve ser com todos os seres humanos, inclusive ateus; segundo, dialogar com os crentes em Deus; terceiro, com os irmãos do mundo cristão, e enfim, o quarto círculo será o do diálogo interno em nossa própria casa, que é a Igreja Católica de confissão romana. Do universal ao doméstico. Ninguém é estranho ao coração materno dos cristãos. Ninguém é seu inimigo e mesmo a Igreja do silêncio, falará por seu sofrimento (ES n. 53 a 68).
Precisamos quotidianamente assumir em nossas congregações ou comunidades religiosas o exercício da escuta e do respeito. A surdez em que nos metemos pode transformar se em fundamentalismo e ideologia. É óbvio que O diálogo pressupõe a superação dos solilóquios e da descoberta do outro. E superação de tantas mentiras fantasiadas de verdade. Como dizia o Sutra Saddharma Smirti: “Mentir é como cortar a própria língua com um machado. As mentiras são o arauto do mal e acorrentam-nos a lugares nefastos (Hsing Yün. Cultivando o bem, São Paulo: Cultura Editores Associados, 2001, p. 110)”. Novas sínteses são necessárias na abertura de posições pessoais sempre focadas na verdade: “Uma correta apreciação de outras tradições religiosas pressupõe normalmente um contato estreito com estas. Isto implica, ao lado de conhecimentos teóricos, uma experiência real do diálogo interreligioso com os adeptos destas mesmas tradições.
Entretanto, é também verdadeiro que uma avaliação teológica correta das tradições, ainda que em termos gerais, permaneça um pressuposto necessário para o diálogo inter- religioso. Estas tradições devem ser abordadas com grande respeito, em função dos valores espirituais e humanos que elas contêm. Elas requerem nossa consideração pois, através dos séculos, foram testemunhas dos esforços envidados para encontrar as respostas ‘aos enigmas escondidos da condição humana’ (Nostra Aetate, 1) e elas foram lugar de expressão da experiência religiosa e das mais profundas aspirações de milhões de seus membros: e, elas, ainda hoje, continuam a fazê lo e a ser (Pontifício Conselho Pró-Diálogo Inter Religioso, “Documento: Diálogo e Anúncio: Dois Aspectos da Missão Evangelizadora da Igreja” parágrafo n° 14, in Bulletin, (78)1991 XXVI/3, Vaticano, 1991, pág. 266)”.
Precisamos recordar estes pensadores cristãos que alimentam sonhos em cada uma de nossas confissões em meio às tribulações e perseguições dos sistemas de morte e perseguição. São luzes proféticas como a vida e a obra de Karl Barth, Joachim Jeremias, Rudolf Bultman, Richard Shaull, Rosa Marga Rothe, Dietrich Bonhoeffer, Paulo Stuart Wright, missionário metodista americano Fred Morris, leiga metodista Heleny Guariba, frei Bartolomeu de las Casas, dom Oscar Arnulfo Romero, frei Tito de Alencar Lima, e o alimento da poética de Rubem Alves.
Assim disse Paul Ricoeur: “Em primeiro lugar, devemos renunciar a uma relação possessiva da verdade; não devemos dizer: eu tenho a verdade, mas sim, eu espero estar na verdade. A pior maneira de encontrar o outro é de anular sua intenção de verdade, tanto quanto a minha. Todo diálogo desaparece quando não há confrontação, onde não existe mais convicção (RICOEUR, Paul, “De l'Esprit”, in Fête Patronale du 2 février 1994, Bulletin Louvain, mars 94/46, Louvain la Neuve, 1994, pág. 29)”.
O verdadeiro diálogo não se camufla na areia movediça da neutralidade. O diálogo é argumento e honestidade sincera de parceiros diferentes. Não é fotocópia nem troca de gentilezas entre elites religiosas. O diálogo da fé é um diálogo DINÂMICO do coração alegre. Sempre há novas clarezas por vir. Sempre mais a unir e a buscar em Deus. Diálogo é um novo jeito e um estilo para falar de Deus: “O diálogo é antes de tudo um estilo de ação, uma atitude e um espírito que inspira o comportamento”. Uma missão que não fosse impregnada do espírito do diálogo seria contrária às exigências da natureza humana e aos ensinamentos do Evangelho (Pontifício Conselho Pró Diálogo Inter Religioso, “Atitude da Igreja Católica Diante dos Crentes de Outras Religiões in: Bulletin, 56 (1984) XIX/2, Vaticano, 1984, pág. 156 157)”.
Urge um diálogo de igrejas que anunciem e vivam a participação de todos na vida pública em regime pluralista, a partir dos pobres e caminhando com eles, numa vida frugal e franciscana, se faz sinal do caráter transcendente do humano. Atuantes no mundo ainda que seus valores sejam os de Deus e da eternidade. Estamos convocados para viver NESSE NOSSO tempo degustando a eternidade. Afinal, como diz o apóstolo João: Deus ama tanto o mundo que envia seu Filho para salvar o mundo. Esta Igreja defende o direito internacional contrário ao conflito armado entre as nações quer ser profetisa de paz e justiça social. Igrejas que vivam a dimensão ecumênica de forma convicta na cooperação internacional entre as igrejas irmãs e aos crentes em outros credos por meio do diálogo inter-religioso. Igrejas que encontrem a força desta tarefa enraizada na verdade e na paz ofertadas pelo Divino Espírito Santo de Deus. Tudo é graça divina, muito mais que trabalho humano. É Deus quem nos une e nos fortalece. Basta de “cristãos moles”, como nos dizia Santo Antônio de Pádua, no sermão do sétimo domingo depois de Pentecostes. Precisamos de pessoas virtuosas a quem o Senhor Jesus confie comunidades vivas para ser sinal do amor de Deus pela humanidade.
Uma história zen budista pode ilustrar tudo o que dissemos antes. Conta a Abadessa Rôshi em seu livro: “Uma senhora, que vinha com frequência e grande alegria praticar os hinos budistas em nosso templo, um dia faltou. Na reunião seguinte perguntei pela causa de sua ausência e ela respondeu: Ah! Sensei, estava toda feliz para sair quando chegou uma visita e me perguntou: Está de saída? Se eu dissesse que sim, ela iria embora, não iria? Teve todo o trabalho de vir, seria pena que voltasse. Então eu lhe disse: Acabei de chegar. Você veio no momento certo. Entre, por favor, fique à vontade. E por isso não pude vir ao templo. Fiquei comovida, diz a mestra, e abaixei a cabeça reverencialmente. A consideração daquela senhora pelos outros me serviu de alerta e me fez abaixar respeitosamente a cabeça (Sundo Aoyama Rôshi, Para uma pessoa bonita – contos de uma mestra Zen, São Paulo: Palas Athena, 2002, p. 26)”.
Diálogo é isso: colocar-se no lugar do outro, sair do centro, acolher, respeitar, valorizar, considerar e servir. Diálogo é amar com coragem e esforço. É um jeito de ser Igreja renovada e reformada criando laços perenes e plenos de amor verdadeiro. Este é o desafio dos obreiros aqui na terra ao buscar as graças infinitas do Deus Pai de Jesus, o Santo de Deus. Rezando sempre, pois como orientava João Calvino, é preciso orar “para que nosso coração esteja sempre inflamado com o desejo de buscar a Deus, amá-lo, servi-lo, recorrendo a Deus como uma âncora sagrada, em cada necessidade”. Assim o caminho VIVO E ALEGRE do diálogo é o Evangelho.