"Nossa preocupação principal é o oferecimento desse belíssimo legado às novas gerações, incluindo perspectivas críticas que possam realçar os elementos fundantes dessa perspectiva teológica, especialmente o amor que Deus preferencialmente destina e revela às pessoas pobres".
Claudio de Oliveira Ribeiro (Foto: Reprodução | Instagram)
Cláudio de Oliveira Ribeiro, pastor metodista e professor.
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que começa a ser publicada hoje e que contará com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade nos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
(“Coração civil”, de Milton Nascimento)
O reino dos céus é semelhante ao fermento
que uma mulher toma e introduz
em três medidas de farinha,
até que tudo esteja levedado.
(Evangelho de Mateus 13,33)
Nos últimos anos, temos procurado reunir reflexões que busquem responder, ainda que modesta e parcialmente, às demandas de revisão, recriação e aprofundamento da Teologia Latino-Americana da Libertação. Nossa preocupação principal é o oferecimento desse belíssimo legado às novas gerações, incluindo perspectivas críticas que possam realçar os elementos fundantes dessa perspectiva teológica, especialmente o amor que Deus preferencialmente destina e revela às pessoas pobres.
Um dos espaços privilegiados que possuo nessa jornada de avaliações e análises é o grupo Emaús, que reúne estudiosos e estudiosas da religião em torno de temas da pastoral popular católica e ecumênica, do qual faço parte por 30 anos, desde o meu tempo de jovem. Com a intenção de darmos mais alguns passos como grupo que se coloca a serviço da caminhada dos movimentos sociais, assim como das pastorais populares, eu me integro nesse caminho de reflexão e de ação, ao procurar vivenciar a mística ativa e revolucionária e a militância pela vida em todas as suas dimensões. A minha/nossa intenção é contribuir com pessoas e grupos nos seus estudos, análises, avaliações, planejamentos e estratégias para variados contextos presentes no Brasil. Espero que as palavras a seguir, ainda que limitadas, sejam de alguma forma úteis para quem desejar pensar a fé articulada com a concretude da vida.
Como pressuposto para a reflexão que ora compartilho, há dimensões significativas e cruciais, não somente para mim, mas para todo o grupo ao qual me referi. Entre tais bases, não podemos nos esquecer do cuidado e da atenção especial para com as pessoas empobrecidas, que vivem em situações precárias e de vulnerabilidade, grupos sofridos em geral pelas mais diversas formas opressoras de dominação, especialmente as que se abatem sobre mulheres, pessoas negras, juventudes periféricas, grupos LGBTQIA+, idosos e pessoas com deficiências físicas e emocionais. Vários outros fatores se somam a esse ponto fundamental e básico de nossa fé que nos interpela, não somente racional e intelectualmente, mas sobretudo de forma existencial, e que vai ao âmago de nossa espiritualidade e do sentido de nossa vida. Entre eles, podemos lembrar:
O fato é que são muitos os desafios que se colocam para a reflexão teológica hoje e para as interpelações práticas decorrentes dessas análises. Temos um complexo e instigante caminho pela frente...
Já há algum tempo eu cultivava a vontade de escrever uma síntese/balanço da Teologia Latino-Americana, tendo em vista os principais desafios que, a meu ver, o tempo presente nos mostra. Tinha realizado essa tarefa (modestamente, é claro!) em livros e palestras. Porém, recentemente, com o apoio do IHU, elaborei um texto que tem tido certa circulação e aceitação. Trata-se de “Teologia e lógicas plurais: desafios e perspectivas para o pensamento teológico latino-americano na atualidade vistos a partir do princípio pluralista” (Cadernos de Teologia Pública, v. 22, n. 178, março de 2025). Nele, eu apresento uma análise dos desafios e perspectivas da Teologia Latino-Americana a partir de três eixos de avaliação, vistos a partir do princípio pluralista e conectados com os compromissos de decolonialidade do poder, do saber e do ser.
Minha intenção neste momento é apenas indicar os principais pontos presentes no referido texto e, com isso, motivar a leitura dele na íntegra. Ou seja, como na linguagem popular, deixar todo mundo com um pouco de água na boca. Os desafios que proponho foram identificados na companhia física e “presencial” ou pelos escritos de muita gente que anda por esses caminhos e tem dado excelentes contribuições para o aprofundamento da Teologia Latino-Americana. Também procuro estar atento a uma variedade de vivências cotidianas de pessoas pobres, sofridas e batalhadoras com quem convivo.
O primeiro desafio enfatiza a necessidade de alargamento metodológico para uma compreensão mais apurada da complexidade social que fuja das explicações e formulações dicotômicas e bipolares, simplificadoras e redutoras da realidade e que vise a integrar perspectivas mais amplas e plurais de análise. É fato que vivemos em um mundo de “dominadores e dominados”, e o sofrimento das pessoas nos mostra isso. Porém, a realidade concreta da vida, especialmente nas tramas e dramas do cotidiano, nos revela que ela é bem mais complexa do que imaginamos.
O segundo desafio reside em uma articulação mais adequada entre a racionalidade que marca fortemente a reflexão teológica latino-americana, sobretudo o conhecido “ver-julgar-e-agir”, com as dimensões da subjetividade humana que emergem fortemente na atualidade. Isso se destaca especialmente em função de certo esgarçamento da primeira, ou seja, a racionalidade técnica e política, concomitantemente a uma explosão da segunda, a subjetividade, em formas variadas inéditas nas primeiras décadas deste século. Esse esforço requer a descoberta de formas novas, gratuitas e mais autênticas de espiritualidade.
O terceiro desafio está em torno de um aprofundamento das questões que emergem da valorização do pluralismo, sobretudo o religioso, mas também o metodológico e o antropológico, e como tal positivação incide no fortalecimento da democracia, das práticas ecumênicas e de cunho libertador e da defesa dos direitos humanos e da terra. Não é fácil tarefa, em qualquer campo de ação, levar em conta “pra valer” a diversidade e a variedade de pontos de vistas e posicionamentos.
Trata-se, portanto, de um longo e permanente caminho (= método!). Ele, em diálogo com as reflexões de pessoas de certo renome no cenário teológico nacional e internacional e também das diferentes áreas do conhecimento, precisa destacar a importância de se realçarem vários aspectos e proposições. Por exemplo, não podemos nos esquecer da dimensão comunitária da fé (e da vida como um todo) e seus desdobramentos sociais e políticos no mundo, do compromisso com a defesa e a sustentabilidade da vida, com a solidariedade humana, com o exercício dos direitos humanos, com a integridade da criação, como já referido. Destacam-se também o aprendizado em ver as formas de inclusão e afirmação social, o empoderamento de grupos subalternos, a cidadania e o respeito à pluralidade e a valorização dos saberes de povos ancestrais e vivências cotidianas do povo. Trata-se de uma profunda e desafiadora aventura espiritual marcada pela alteridade.
Todos esses aspectos revelam visões teológicas que estão firmadas na visão de uma espiritualidade, imprescindível ao futuro da humanidade, que seja valorizadora da vida, sensível ao cuidado com a natureza e com os pobres, que diga respeito ao todo, aberta aos mistérios do universo e compromissada com desafios sociais e políticos que reforcem o empoderamento dos grupos subalternos tendo em vista a paz com justiça.