Os esquecidos na pandemia

Fonte: Pixabay

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31 Março 2020

As crises funcionam para fazer avaliações e a pandemia de coronavírus nos reafirmou como o nosso mundo está ocidentalizado. É evidente: o cinema que vemos, as marcas que consumimos, o tipo de comida com o qual nos alimentamos, as línguas que usamos para nos comunicar, a filosofia que estudamos, mas hoje, diante da emergência, destacam-se aqueles que esquecemos, aqueles que “importam menos”.

A reportagem é de Miguel Alejandro Rivera, publicada por Rebelión, 30-03-2020. A tradução é do Cepat.

No início da propagação do vírus, um dos países mais afetados e que teve um crescimento exponencial no número de infecções foi o Irã, um país que hoje está na sexta posição mundial, com mais de 38.000 contágios, mas que ainda não está nos holofotes, nem na imprensa internacional de forma alarmante como tem estado a Itália, a Espanha, e claro, os Estados Unidos. As culturas diferentes, como a persa, nos importam menos, até para fazer o ranking de uma pandemia.

No início de março, o Irã estava em pé de igualdade com a Itália, e somente atrás da China, como um dos países com maiores tendências ao contágio da Covid-19, mas pouco se disse sobre medidas extremas, como a libertação temporária de mais de 54.000 prisioneiros, na tentativa de combater a propagação do vírus nas prisões do país, que sofrem com a superlotação.

O mesmo acontece com a África, que segundo dados coletados pela Universidade Johns Hopkins, obtidos de governos locais, hoje está perto de 4.500 infectados, em 47 países, e soma 137 mortes registradas por coronavírus. Por outro lado, a Organização Mundial da Saúde registra apenas 2.650 casos e 49 mortes, o que demonstra até a dificuldade de fazer uma estatística clara nesse continente.

A fundação internacional Mãos Unidas apresentou uma entrevista com Cristina Antolín, médica espanhola que trabalha há 15 anos na República Democrática do Congo e 17 em Camarões, apoiando missões de saúde, que ressalta que todos os anos os africanos, entre eles muitas crianças, morrem de doenças como malária, AIDS, tuberculose, hepatite e sarampo, entre outras, sem mencionar o ebola.

Essas doenças alcançam na África números bem acima da média mundial, porque, neste continente, segundo Antolín, existem poucos hospitais e centros de saúde. “Na maioria dos países africanos, existem menos de 2 médicos e menos de 10 enfermeiros para cada 10.000 habitantes, enquanto, por exemplo, na Espanha, apesar de ter havido uma diminuição nos últimos anos, temos uma média de cerca de 40 médicos e 50 enfermeiros para cada 10.000 habitantes”.

“Se o coronavírus entrasse no continente com toda a sua força, seria, sem dúvida, catastrófico”, afirma a missionária espanhola. “Os índices de doenças e mortalidade seriam altíssimos porque, dadas as condições do continente africano, todas as pessoas estariam em risco”, destacou Antolín, referindo-se à difícil situação em matéria de saúde.

Enquanto isso, a Comissão Econômica das Nações Unidas para África (CEPA) informou que, dentro das consequências financeiras do coronavírus, pode ocorrer a perda de metade do Produto Interno Bruto (PIB), algo que afetaria ainda mais o estagnado crescimento econômico da região, perdendo receitas de até 65 bilhões de dólares para os países exportadores de petróleo do continente, somado à recente queda nos preços do petróleo.

Segundo a secretária executiva da CEPA, Vera Songwe, o coronavírus afetará irremediavelmente o comércio da África. “Depois de ter golpeado com força o principal sócio comercial da África, que é a China, a Covid-19 terá inevitavelmente um impacto na atividade comercial africana”, declarou a economista camaronês, em meados de março, em entrevista coletiva na sede da CEPA, em Adis Abeba, Etiópia.

Em adesão, a Comissão adverte que os produtos farmacêuticos importados para a África, em sua maior parte da Europa, podem se encarecer e reduzir sua disponibilidade para os africanos.

“Posto que dois terços dos países africanos são importadores de alimentos básicos, tememos que a escassez tenha repercussões graves na disponibilidade de comida e segurança alimentar”, destaca a CEPA.

Mas, pelo que parece, para os grandes meios de comunicação, e até para nós, como indivíduos, pouco importam os problemas que não sejam da Europa, nem da América do Norte, como se a fome, o sofrimento e uma emergência de saúde determinassem quem deve ser o protagonista deste mundo em decadência. Ficamos surpresos que na Itália, Espanha, Estados Unidos e outras poderosas nações morrem milhares de pessoas devido a um vírus, mas esquecemos que, na África Subsaariana, toda a vida tem sido uma emergência, morte e pandemia.

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