01 Mai 2025
"João Paulo I só teve o tempo de um sorriso luminoso e recordar a ternura maternal de Deus, enquanto o longo pontificado de João Paulo II desenha uma parábola que é, no total, de preservação e, às vezes, de restauração. Na verdade, em seu papado não faltaram gestos inovadores e proféticos, perfeitamente alinhados com o Concílio, como o pedido de perdão pelas culpas históricas da Igreja (começando com a abjuração infligida a Galileu em 1633) e como a belíssima oração comum com os representantes das outras religiões, repetida duas vezes em Assis, em 1986 e 2002, e a visita à sinagoga em Roma, em 1986. Mas, no geral, seu papado foi de viés conservador em termos da condução geral da Igreja em nível de nomeações eclesiásticas, moral sexual, bioética e, em geral, das questões doutrinárias mais importantes, principalmente o papel da mulher", escreve Vito Mancuso, teólogo italiano, em artigo publicado por La Stampa, 28-04-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A história do Igreja na segunda metade do século XX e nestas duas décadas do novo século pode ser descrita esquematicamente por meio do terceiro princípio da dinâmica de Newton: “Para toda ação corresponde uma reação igual e oposta”. A ação que colocou em movimento a dinâmica da Igreja contemporânea foi a do Papa João XXIII que, em nome de uma estratégia geral que ele chamou de “atualização” (“um termo extremamente debatado”, como o qualificou o grande historiador da Igreja Hubert Jedin), convocou o Concílio Ecumênico Vaticano II, celebrado entre 1962 e 1965. O objetivo do Papa João XXIII era explícito: que a doutrina “fosse aprofundada e apresentada de forma a responder às exigências de nosso tempo” (do discurso de abertura do Concílio, 11-10-1962).
A atualização desejada pelo papa efetivamente ocorreu. Os judeus passaram de “judeus pérfidos” a “irmãos mais velhos”, os ortodoxos e protestantes de “hereges e cismáticos” a “irmãos separados”, as outras religiões de um grupo de “infiéis” a um “raio daquela Verdade que ilumina todos os homens”. A liberdade de consciência em questões religiosas, antes rotulada como “sentença absurda e errônea, melhor dito, um delírio” (Gregório XVI Mirari vos, 1832), tornou-se objeto da Declaração sobre Liberdade Religiosa Dignitatis humanae, de 07-12-1965, o documento mais sofrido dos trabalhos conciliares. Outras viradas significativas diziam respeito à Bíblia, à liturgia e, em geral, ao relacionamento com o mundo, que passou da condenação de tudo o que de novo ele produz para uma atitude de atenção e benevolência.
Pio IX descrevia o processo histórico como “tramas perversas dos ímpios, que, como as ondas de um mar tempestuoso, espumam suas próprias torpezas”, o Vaticano II ensinou a “examinar os sinais dos tempos para conhecer e compreender o mundo em que vivemos”, porque “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” são as mesmas dos discípulos de Cristo e “não há nada genuinamente humano que não encontre eco em seu coração”. Mas essa ação poderosa não poderia deixar de ser seguida, como ensina a dinâmica de Newton, por uma reação igualmente poderosa.
O Vaticano II não pôde ser concluído por João XXIII, que morreu bem no meio dos trabalhos conciliares; foi terminado por Paulo VI, o papa que começou a despotencializar sua carga inovadora. O lugar onde essa despotenciação aparece mais claramente é na moral sexual.
O Martini, em seus Diálogos noturnos em Jerusalém, referindo-se a Paulo VI: “Ele conscientemente removeu o assunto dos debates dos padres conciliares; nessa questão, ele quis assumir uma responsabilidade altamente pessoal”. Paulo VI tomou para si a questão sexual, impedindo que o Concílio se expressasse sobre o assunto por medo de uma ruptura muito grande com o passado. Em sua opinião, a Igreja poderia suportar a renovação na relação com as outras religiões, na liturgia, na liberdade religiosa, mas não em questões sexuais, onde a inovação em relação à Casti connubii de Pio XI, que havia condenado todos os tipos de contracepção, teria causado uma ruptura tão grande que prefiguraria um cisma. Assim, temendo a divisão, Paulo VI impediu que o concílio se expressasse sobre a moralidade sexual, diminuindo seu impulso renovador, e publicou sua encíclica em 1968, cujo resultado Martini descreveu da seguinte forma: “A encíclica Humanae vitae infelizmente produziu também um efeito negativo. Muitas pessoas se distanciaram da Igreja e a Igreja das pessoas. O resultado foi um grave dano”.
João Paulo I só teve o tempo de um sorriso luminoso e recordar a ternura maternal de Deus, enquanto o longo pontificado de João Paulo II desenha uma parábola que é, no total, de preservação e, às vezes, de restauração. Na verdade, em seu papado não faltaram gestos inovadores e proféticos, perfeitamente alinhados com o Concílio, como o pedido de perdão pelas culpas históricas da Igreja (começando com a abjuração infligida a Galileu em 1633) e como a belíssima oração comum com os representantes das outras religiões, repetida duas vezes em Assis, em 1986 e 2002, e a visita à sinagoga em Roma, em 1986. Mas, no geral, seu papado foi de viés conservador em termos da condução geral da Igreja em nível de nomeações eclesiásticas, moral sexual, bioética e, em geral, das questões doutrinárias mais importantes, principalmente o papel da mulher. Essa abordagem doutrinária teve no Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação da Fé, seu principal intérprete, e a transição de João Paulo II para Bento XVI foi, portanto, totalmente natural. O papa alemão continuou a operação de marcha a ré, chegando ao ponto de favorecer a missa em latim e reabilitar os lefebvrianos, os verdadeiros oponentes estruturais da dinâmica conciliar. O verdadeiro gesto inovador de Bento XVI foi sua renúncia, causada pela percepção de que ele não era capaz de cumprir o papel de pontífice, embora ele não tenha deixado nem a veste branca nem Roma, como deveria ter feito, em minha opinião.
Em vista de sua renúncia, ele havia preparado seu candidato para a sucessão, mas os cardeais no conclave preferiram Jorge Mario Bergoglio, que, ao escolher se chamar Francisco e se apresentar como bispo de Roma, imediatamente deixou claro seu desejo de retomar o impulso inovador do Vaticano II. Emblemática a esse respeito é a importância que a teologia da libertação assumiu em seu pontificado: aqueles teólogos e homens de igreja que haviam sido marginalizados e, às vezes, condenados durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI foram amplamente reabilitados, como Leonardo Boff, que foi um dos principais autores da encíclica Laudato si' de 2015 sobre ecologia. Ainda mais emblemático é o caso de Oscar Romero, o bispo mártir de San Salvador assassinado em 1980 por esquadrões da morte pagos por multinacionais e pela junta militar, que não foi beatificado por João Paulo II (que, no entanto, chegou a um número maior de beatificações do que todos os outros papas juntos, mas que reservou a Romero um tratamento gélido durante sua visita a Roma) nem por Bento XVI e que, em vez disso, foi imediatamente beatificado (2015) e canonizado (2108) pelo Papa Francisco.
No entanto, é preciso enfatizar que, infelizmente, o impulso inovador do Papa Francisco não teve a força doutrinária necessária e a ainda mais necessária habilidade diplomática que haviam caracterizado a atualização introduzida pelo Papa João, dotado de uma consciência histórica e de uma capacidade de governo muito diferentes daquelas do papa argentino. O Papa Francisco de fato quis dar continuidade à renovação, mas, por vários motivos (incluindo certos traços de caráter), ele se mostrou incapaz de criar a harmonia necessária para que a renovação realmente pudesse prosseguir. Sem levar em conta certas ambiguidades evidentes, como a rotulação de “sicários” reservado aos médicos que praticam o aborto e depois a visita a Emma Bonino, ou com relação à homossexualidade o “quem sou eu para julgar?” e depois o uso do termo “viadagem”. Assim, seu pontificado não conseguiu traduzir o desejo e, às vezes, o ímpeto de renovação em nenhum ato concreto em nível legislativo.
O resultado está diante de nossos olhos: uma Igreja Católica dividida, “se desmanchando”, como a descreve o Cardeal Ravasi (Corriere della Sera de 23 de abril), na qual os progressistas estão insatisfeitos porque as reformas não chegaram e os conservadores estão insatisfeitos porque se está falando sobre essas reformas.
Lembro-me da famosa passagem de Os Noivos, em que o Grão-Chanceler espanhol, às voltas contra a multidão enfurecida, dirige-se ao cocheiro: “Adelante, Pedro, con juicio”. Acho que a Igreja precisa de um Papa que a conduza “adelante” e não para trás, mas que o faça com mais “juicio” do que o Papa Francisco: menos protagonismo e mais colegialidade, menos reclamações contra a cúria e mais encorajamento, menos proclamações e mais nomeações ponderadas, menos desejo de surpreender e mais respeito pela tradição (é inadmissível, por exemplo, que dioceses como Paris, Berlim, Viena, Bruxelas, Lisboa e, entre as italianas, Milão e Veneza, não estejam representadas no conclave porque Francisco não nomeou seus respectivos arcebispos como cardeais). Em suma, porém, essas são questões secundárias. A verdadeira questão é a direção geral, se “adelante” ou para trás.
Voltando a Newton, ele explicava: “Se alguém empurra uma pedra com o dedo, o dedo também é empurrado pela pedra”. Em breve veremos qual empurrão vencerá o conclave: se a ação do dedo ou a reação da pedra.
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