Lejeune Mirhan – 25 de novembro de 1979. Garoava forte sobre o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde centenas de pessoas esperavam o desembarque de João Amazonas, que voltava do exílio depois da anistia.
À frente da comissão de recepção estava Diógenes Arruda Câmara, um dos dirigentes que haviam reorganizado o Partido Comunista do Brasil em 1962, preso e torturado em 1968, exilado em 1972, de volta ao país havia poucas semanas.
Um estudante de vinte e dois anos aproximou-se do carro onde Arruda já estava sentado, no banco da frente, com Amazonas atrás. O vidro desceu por causa da chuva. Arruda o chamou pelo nome de guerra e apontou um companheiro na multidão: “Camarada Mato Grosso, aquele é o camarada José Novaes”. Mandou que o levasse em segurança até o Sindicato dos Metalúrgicos.
Foi a última ordem que Diógenes Arruda deu a alguém. No trajeto entre o aeroporto e o sindicato, o coração dele parou. O registro do CPDOC é seco: parada cardíaca, São Paulo, 25 de novembro de 1979, quando recebia João Amazonas em Congonhas.
O rapaz cumpriu a ordem, chegou ao sindicato e encontrou a notícia. Falou aos companheiros naquela noite. A caravana de Campinas voltou para casa; ele ficou. Levou o caixão no ombro até a beira da cova e ali permaneceu.
Na clandestinidade partidária, esse estudante assinava Diógenes. Havia escolhido o codinome por admiração, antes mesmo de conhecer pessoalmente o homem cujo caixão viria a carregar.
Mato Grosso era o outro nome, o que os companheiros usavam e o que Arruda usou. Vinha de Corumbá, que ainda pertencia ao Estado de Mato Grosso quando ele nasceu, em 1956. O estado do Sul só existiria no fim da década seguinte.
Dois anos e meio antes daquela garoa, em 5 de maio de 1977, quinze mil estudantes atravessavam o Viaduto do Chá gritando por liberdades democráticas quando a Polícia Militar lançou bombas de gás lacrimogêneo sobre as primeiras fileiras.
Quem conta é o jornalista Igor Fuser. Quase todos recuaram. Um estudante corpulento, de barba e óculos, “se adiantou, sozinho, e chutou uma das bombas de volta em direção aos policiais”. A cena saiu em vários jornais.
Era ele. Tinha vinte anos.
Quase cinquenta anos depois, o gesto continua sendo a definição mais econômica do que fez da vida: devolver o que era atirado.
O nome francês foi escolha da mãe, Georgeta Mirhan. Le jeune, o jovem. A linhagem materna vinha de sírios e armênios chegados ao Pantanal a partir de 1913.
O avô Ibrahim desembarcou do vapor Ladário aos dezessete anos e ali montou comércio e família. A avó Aznif nasceu em Alepo, escapou das perseguições do início do século e casou-se em Corumbá em 1924.
Foi esse avô que o criou até os doze anos, numa casa onde se falava árabe e onde a avó contava as Mil e uma noites. Décadas depois, ele diria que a causa palestina havia começado ali, muito antes de virar posição política. Só nos anos 2000 retomaria o sobrenome da mãe.
Filiou-se ao Partido Comunista do Brasil em 1975, estudante de Engenharia na FEI.
Convém medir o que isso significava naquele ano exato.
Sete meses depois de entrar, ajudava a organizar o culto ecumênico em memória de Vladimir Herzog, morto sob tortura no DOI-CODI em 25 de outubro daquele ano.
Foi em 31 de outubro de 1975, na Catedral da Sé, com oito mil pessoas. Celebraram juntos o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel, que se recusara a enterrar Herzog na ala dos suicidas do cemitério israelita, e o reverendo Jaime Wright.
Um ano depois, em 16 de dezembro de 1976, agentes do DOI-Codi e do Dops cercaram uma casa no bairro da Lapa onde se reunia a direção nacional do seu partido e mataram a tiros Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. João Batista Franco Drummond, preso horas antes, foi torturado e morto na sede do DOI-Codi. A reunião fora convocada para avaliar a derrota da guerrilha do Araguaia.
Antes deles já haviam tombado sob tortura Carlos Danielli, Lincoln Oest, Luiz Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque.
Escolher aquele partido em 1975 não era escolher uma dissidência. Era escolher o partido que estava sendo fisicamente exterminado.
E não era uma dissidência. Em 11 de agosto de 1961, a direção então majoritária publicou novo programa e estatuto para registro no Tribunal Superior Eleitoral, com mudança do nome para Partido Comunista Brasileiro e supressão das referências ao internacionalismo proletário e ao marxismo-leninismo. Os signatários da Carta dos Cem foram expulsos. Em 18 de fevereiro de 1962, reunidos numa conferência extraordinária no Ipiranga, mantiveram o nome de 1922.
A disputa nunca foi sobre um fato. Foi sobre um verbo. Quem reorganiza é herdeiro; quem funda é cismático. Lejeune entrou pelo lado que se considerava continuidade, e que por isso mesmo estava sendo caçado.
Deslocado pelo Partido para Campinas, trocou a Engenharia pelas Ciências Sociais, entrou na PUC-Campinas em 1978 e no ano seguinte elegeu-se presidente do DCE, cargo que sua chapa manteria por cinco anos seguidos. Foi detido algumas vezes.
Em 1980, a direção estudantil que ele encabeçava denunciou um escândalo acadêmico na universidade e levou o caso à Cúria Metropolitana. Um ônibus de estudantes foi até Itaici falar com o então secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
O secretário-geral era Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, jesuíta, bispo auxiliar de São Paulo ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns. Ocupou o cargo na CNBB de 1979 a 1987 e presidiu a entidade entre 1988 e 1995. Seu processo de beatificação foi aberto em 2014.
Segundo o próprio relato de Lejeune, os estudantes pediram intervenção a Roma, obtiveram um reitor pró-tempore e firmaram com o novo arcebispo de Campinas, Dom Gilberto Pereira Lopes, uma aliança entre os comunistas e a Igreja. Ele contava isso com evidente orgulho.
O registro documental é mais prosaico e nem por isso menos interessante. Dom Gilberto era arcebispo coadjutor desde 1976 e, com a renúncia de Dom Antônio Maria Alves de Siqueira em janeiro de 1980, tornou-se administrador apostólico, com posse canônica em março daquele ano. A sucessão já corria. A campanha estudantil coincidiu com ela e talvez a tenha apressado.
Dois anos antes, em abril de 1978, Dom Gilberto, Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Luciano haviam sido eleitos juntos delegados do Brasil à Conferência de Puebla.
Um militante comunista de vinte e três anos convencido de que havia movido a Cúria Romana. É uma imagem que vale por um capítulo de história política brasileira.
Setembro de 1982 fixou o resto. O massacre de Sabra e Chatila o alcançou enquanto fazia mestrado e disputava uma vaga de vereador em Campinas. A partir dali não houve ano em que não escrevesse sobre a Palestina.
Foram quarenta e quatro. Missões humanitárias na Palestina, na Síria e no Líbano, mais de vinte livros, centenas de artigos, delegações de solidariedade. Em 2015 fundou a Apparte, editora criada para dar conta de publicar a própria obra.

Lejeune Mirhan (Foto: Arquivo Pessoal)
Quando a notícia da morte correu, na tarde de 6 de agosto, as manifestações vieram em cascata e por camadas.
A Comissão Executiva Nacional do Partido Comunista do Brasil registrou que o partido “inclina suas bandeiras” em memória do camarada. Nádia Campeão, presidenta em exercício, o definiu como “um comunista guerreiro, verdadeiramente internacionalista, corajoso e muito inteligente”.
José Reinaldo Carvalho, com quem dividia mais de quarenta anos de militância, dois livros assinados juntos e um programa semanal de televisão, falou em vazio irreparável.
O Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, que ele ajudou a fundar e presidiu por duas gestões, lembrou a luta pela criação de um conselho federal da profissão. A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, que ele ajudou a fundar em 2007, lembrou o formador de quadros.
De fora do campo partidário, a jurista Carol Proner escreveu que a notícia “provoca desamparo e sentimento de desorientação” em quem acompanhava diariamente as análises dele sobre os rumos do mundo.
E veio a Federação Árabe Palestina do Brasil.
A FEPAL registrou em nota que ele participou de inúmeras atividades da entidade e da Confederação Palestina Latino-Americana e do Caribe, e que sua participação foi de tal ordem que recebeu um codinome.
A comunidade palestina no Brasil não comparou Lejeune a Abu Jihad. Ela o nomeou Abu Jihad. É um ato de nomeação, não de retórica. Um brasileiro de Corumbá, neto de sírio e de armênia, recebeu de um povo o nome do seu segundo maior comandante morto.
Abu Jihad era Khalil Ibrahim al-Wazir, nascido em Ramla em 1935, cofundador do Fatah. Número dois da Organização para a Libertação da Palestina, atrás apenas de Yasser Arafat. Morto em Túnis em 16 de abril de 1988 por um comando israelense, autoria que Israel só admitiu oficialmente em novembro de 2012. Ualid Rabah, presidente da FEPAL, observou que poucos intelectuais não palestinos, no Brasil ou fora dele, tiveram compromisso tão longo com aquela causa.
Há um outro Lejeune, menos lembrado, e talvez o de efeito mais duradouro sobre a vida brasileira comum.
Foi ele quem esteve à frente da mobilização nacional que tornou obrigatórias a Sociologia e a Filosofia no ensino médio. Todo estudante que teve uma aula de Sociologia na escola pública deve alguma coisa a esse homem, e quase nenhum sabe o nome dele.
Professor na Universidade Metodista de Piracicaba entre 1986 e 2006, dedicou a última década a uma coleção didática pela sua própria editora. Marx em 2020. Lênin em 2021. Engels no volume seguinte. Traduziu a tradição revolucionária para quem nunca teve professor.
Trabalhava numa obra maior quando adoeceu. Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL de São Paulo, foi quem tornou pública a perda: a morte interrompeu também “uma enciclopédia dedicada aos autores marxistas”.
Não foi a primeira obra que ficou pelo caminho. Desde 1993 mantinha um projeto de doutorado sobre Ibn Khaldun, o historiador tunisiano do século 14 que fundou aquilo que só quinhentos anos depois se chamaria sociologia. Trinta e três anos de pesquisa. Nenhuma tese defendida.
Escolheu o mundo em vez do título. É a frase mais exata que se pode dizer sobre ele, e ela não é elogiosa nem crítica. É apenas o que aconteceu.
Os últimos meses estão documentados quase dia a dia.
Em 22 de junho, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitiu licença suspendendo até 21 de agosto as sanções sobre o petróleo iraniano. Lejeune comentou a decisão na TVT, onde era analista internacional desde 2019. Foi a sua última participação na emissora.
Em 25 de junho publicou um ensaio sobre o memorando dos catorze pontos. Foi o último texto que assinou.
Em 2 de julho concedeu esta entrevista, por videoconferência. Falou do Irã, de onde voltara em novembro na companhia de outros trinta brasileiros, da cesta de moedas com que os BRICS ensaiam escapar do dólar, do trem-bala que esperava ver sair do papel em Campinas, cidade onde viveu a maior parte da vida.
Contou também, sem que ninguém perguntasse, que perdera “amizades de 50 anos” por não recuar de uma posição sobre a Rússia. Não pediu para cortar a frase.
É o mesmo homem do Viaduto do Chá, quarenta e nove anos depois, fazendo exatamente a mesma coisa. Avançar quando a fila recua custa caro nos dois casos. Ele pagou nos dois.
Ainda em julho deu entrada num hospital em Campinas para uma cirurgia. Houve complicações. Passou semanas na unidade de terapia intensiva, com sinais de melhora, até a parada cardiorrespiratória da tarde de 6 de agosto de 2026. Foi sepultado no dia seguinte, no Cemitério da Saudade.
Deixa Rosangela Falzoni, com quem era casado desde 2011, e a filha, Alice.
No fim desta conversa ele saiu da geopolítica. Disse que era astrônomo amador e que nunca aceitara a divisão entre as ciências exatas e as humanas. Lembrou o paradoxo de Fermi e a hipótese do Grande Filtro, segundo a qual as civilizações avançam até um funil tecnológico e ali se destroem, de modo que o universo talvez seja um cemitério de civilizações que não passaram no teste.
Disse-se preparado para uma terceira guerra convencional. Não para uma nuclear.
“Eu não quero que a humanidade acabe.”
A entrevista foi conduzida por teleconferência, pelo mestre e doutorando em história comparada do Programa de Pós-Graduação (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Gama.
O senhor cunhou a leitura de que a economia da resistência transformou as sanções em um catalisador da autossuficiência científico-industrial iraniana. Como sustentar essa tese diante do quadro aberto pela guerra de fevereiro deste ano: o assassinato de Khamenei, o fechamento conturbado do Estreito de Ormuz, a inflação de quase 90% ao ano e a operação que os Estados Unidos deflagraram, a Economic Fury, pelo Tesouro americano? Gostaria que o senhor comentasse isso em termos gerais, para situar os nossos leitores.
Lejeune Mirhan — De um modo geral, nós vivemos em um mundo pós-1991, que foi unipolar e viveu uma transição. Hoje, ele não é mais, pois já saímos dessa transição. Eu estou entre os autores que defendem que o mundo já é multipolar.
As sanções não surtiram o efeito desejado. O objetivo das sanções dos Estados Unidos, a maior potência econômica, política, diplomática e militar do mundo, ao impô-las a um país menor e economicamente mais vulnerável, é a aposta de que esse país se estrangularia e viveria imensas dificuldades. Esperavam que o povo se rebelasse contra o seu governo, houvesse uma mudança de regime, um regime change, trocasse de governo e colocasse um governo amigo do imperialismo, o qual aliviaria as sanções. Isso não funcionou.
Vejamos o caso de Cuba: vive sob sanções e sob um embargo desde 1960. São 66 anos de embargo que não funcionaram, pois o povo continuou no caminho socialista lá. No caso do Irã, em particular, depois da Rússia a partir de 2022 (que é hoje o país mais sancionado), o Irã é a nação mais punida pelas sanções. Também não funcionou. Sancionaram o petróleo iraniano e, mesmo assim, eles conseguiam vender o seu produto com um certo deságio no mercado internacional: quando estava a 70 dólares, eles vendiam a 55. O petróleo é uma riqueza. Vendido por 40 ou por 50 [dólares], qualquer valor é significativo, porque é um recurso abundante no Irã. Então, o Irã não perdeu.
Eles não conseguiram sufocar o Irã economicamente. Não só não conseguiram, como o Irã, mesmo sob todas essas sanções, conseguiu desenvolver uma indústria nacional. Eu estive no Irã há pouco tempo, acompanhado de mais 30 brasileiros.
Há quanto tempo ocorreu essa viagem?
Lejeune Mirhan — Foi em novembro do ano passado.
O Irã é um país maravilhoso, é impressionante. Na verdade, não é apenas um país: o Irã é uma civilização. Eles desenvolveram uma indústria tecnológica, metalúrgica e de base, apesar de todas as sanções. Por exemplo, o Brasil não tem nenhuma indústria automobilística genuinamente nacional, sendo um país de 210 milhões de habitantes; eles, com 90 milhões, têm duas indústrias nacionais de carros. Hoje, um automóvel completo iraniano, com todos os equipamentos, vidros elétricos, computador de bordo e direção elétrica, custa em torno de 40 a 50 mil reais, já feita a conversão do dólar para o real. Eu andei nesses carros.
A tecnologia que mais surpreendeu o mundo no Irã foi a de mísseis. Naquele acordo dos 14 pontos, que representou uma vitória iraniana, não entrou o desejo dos Estados Unidos de discutir o programa de mísseis do Irã. Esse assunto não entrou na pauta, pois diz respeito exclusivamente ao povo iraniano; apenas a questão nuclear foi abordada. Mesmo com todo o bloqueio, eles desenvolveram uma tecnologia de mísseis teleguiados e inteligentes com velocidade de Mach 10. Para se ter uma ideia do que isso significa, são 19 mil quilômetros por hora. Um artefato desses chega a Londres em quatro minutos e vinte segundos. Como disseram alguns analistas, não adianta construir casamatas, pois não haverá tempo de correr para elas. São 19 mil quilômetros por hora, bastando quatro minutos e vinte segundos para atingir as grandes capitais. Evidentemente, ele não tem essa autonomia global: a limitação de alcance é de cinco a, no máximo, sete mil quilômetros.
Então, com todo o cerco das sanções, não conseguiram dobrar a República Islâmica do Irã. Mas a grande boa notícia é este acordo de 14 pontos. Eu acabei de produzir um ensaio com muitas notas de referência analisando esses 14 pontos, que representaram uma grande vitória do Irã. Um dos poucos pontos que já está em vigor, visto que há muitas questões polêmicas gerando confusão na aplicação, é que os Estados Unidos, há mais de dez dias, suspenderam todas as sanções contra o petróleo iraniano. Não suspenderam as sanções totais contra o país, mas contra o petróleo, sim. Portanto, há cerca de dez dias, o Irã passou a vender o seu petróleo ao preço internacional da OPEP e das bolsas de Londres e do Texas, e não há uma tabela oficial para isso. Isso vai gerar um ingresso impressionante de recursos.
Aproveito que o senhor já abordou o acordo do petróleo iraniano, gostaria que comentasse sobre o acordo articulado pelo segundo governo Lula, com o então ministro da Relações Exteriores Celso Amorim, a respeito de o Irã poder enriquecer urânio. Qual é a sua avaliação sobre esse acordo? Foi positivo ou negativo? Os Estados Unidos o aceitaram ou não, e quais foram os desdobramentos? O que o Brasil propôs era bom?
Lejeune Mirhan — Aceitaram e foi uma derrota para os Estados Unidos. Vale lembrar que o acordo de 2015, frequentemente chamado de acordo do Obama, não é apenas dele. É um acordo dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha, o P5+1. Portanto, é um acordo da era Obama que Donald Trump repudiou ao tomar posse em 2017. Você sabe qual era o índice de enriquecimento permitido naquele acordo?
Não.
Lejeune Mirhan — Era de apenas 3,67%. Hoje, em um novo acordo que será assinado em breve, apesar dos problemas, o Irã poderá enriquecer urânio a 20%. Ou seja, Trump repudiou um acordo que era ruim para eles e limitava o índice a 3,67%, e agora os Estados Unidos assinarão um que é muito pior do ponto de vista de seus interesses. Eles tiveram que aceitar um acordo que ainda está muito longe da bomba, evidentemente.
Há também 400 quilos de urânio enriquecido a 60% que não entraram nos 14 pontos. Os Estados Unidos queriam retirar esses 400 quilos do Irã e deixá-los em algum país, provavelmente o Paquistão ou a própria Rússia. Contudo, isso não foi discutido; o Irã proclamou que esse tema não estava em debate.
Por que o medo dos Estados Unidos? Para chegar a 60% de enriquecimento, é preciso muita centrífuga e demora um certo tempo. No entanto, de 60% para 90% é um passo muito rápido, e aí se obtém a bomba.
Muitos autores, como Scott Ritter, Douglas Macgregor e o próprio Pepe Escobar, afirmam que o Irã já tem a bomba. Eu não acredito nisso. Acredito mais na fidelidade a um decreto islâmico chamado fatwa, emitido em 2003 por Ali Khamenei, cujas cerimônias fúnebres foram iniciadas agora e reunirão 20 milhões de pessoas no Irã. Esse decreto proíbe qualquer pesquisa e desenvolvimento da bomba atômica. É uma determinação que não foi revogada pelo filho dele, o novo líder espiritual. Portanto, considero que o Irã não tem a arma nuclear. Ele pode fabricá-la rapidamente? Acredito que sim. Tem tecnologia para fazer, mas não quer. Apesar disso, há autores que afirmam que o país já a possui.
Mas, independentemente disso, a grande verdade é que o Irã é o grande vitorioso. O país hoje é soberano para manter o seu programa nuclear focado na geração livre de energia. Sabemos que a partir de 3,6% já se gera energia. Gerando a 20%, a capacidade é muito mais forte e o rendimento é significativamente maior. Então, o Irã venceu. O país enriquecerá o seu urânio e é dono da sua soberania nuclear e energética. Eu gostaria que o Brasil um dia tivesse essa mesma soberania.
O senhor tem descrito o Irã como um laboratório para as estratégias de sobrevivência financeira e de desdolarização dos BRICS. Diante da desvalorização do rial, a moeda do Irã, e da inflação recente, o que exatamente pensa sobre esse laboratório? Poderia dissertar sobre esse cenário?
Lejeune Mirhan — Tenho muita coisa a dizer. A desdolarização do mundo é um caminho inevitável. No entanto, não será um processo rápido nem fácil para a economia mundial, que é inteiramente indexada ao dólar. Não é simples sair do dólar.
O bloco dos BRICS é hoje o maior grupo de contestação à hegemonia geopolítica do G7, que já não concentra mais tanta riqueza: os BRICS já detêm uma fatia do PIB global superior à deles. Os BRICS não pretendem criar uma moeda alternativa de papel, como se chegou a dizer. Alguns autores defenderam essa proposta, e há quem até hoje ache que deva existir uma moeda física alternativa ao dólar. Mas não é isso; os BRICS não caminham nessa linha. Eles caminham na direção de desdolarizar, mas não por meio da criação de uma moeda alternativa.
Então, como se desdolariza sem criar uma alternativa? Desdolariza-se criando a possibilidade de mercados bilaterais usando a moeda de cada um dos países membros, ou seja, uma cesta de moedas reconhecidas internacionalmente.
Eu vou explicar. Fui a muitos congressos científicos e políticos em vários dos 30 países que já visitei. Uma vez fui ao Canadá naquela época em que o real do Brasil estava na paridade de um para um com o dólar. Senti-me um homem rico. Só que eu saí com reais do Brasil, e eles não valiam absolutamente nada no Canadá: tive que fazer o câmbio. Mesmo com o câmbio mantendo a proporção, senti-me rico e comprei muita coisa. Mas a minha moeda, por si só, não valia nada lá.
O que os BRICS querem hoje? Querem que eu possa chegar ao Canadá e ter a minha moeda conversível ali, sem passar pelo dólar. Que eu chegue com 100 reais e compre 100 dólares canadenses diretamente. A minha moeda passaria a ser conversível. Claro que o Canadá não é membro dos BRICS, então não é o melhor exemplo.
Mas isso já está funcionando perfeitamente entre a Rússia e a China. Veja como era antes: um comerciante russo, para vender para a China (com quem divide milhares de quilômetros de fronteira), precisava pegar sua mercadoria precificada em rublos e convertê-la em dólares para exportar. Lá, o comerciante chinês comprava em dólares e convertia o valor para o yuan, o renminbi. É tudo com a letra erre: rublo, real, renminbi. Era um absurdo para países vizinhos.
Por que a China não aceitava o rublo e a Rússia não aceitava o renminbi? Agora eles estão aceitando. Mas aí surge a seguinte questão: a Rússia recebe o yuan, e ele só tem valor na China. Isso muda se houver um pacto com todos os países dos BRICS. Nesse cenário, o yuan serve no Brasil, serve na Arábia Saudita para comprar petróleo: pois já estão aceitando, e serve na África do Sul. Dessa forma, a moeda que a Rússia recebe da China passa a ter conversibilidade internacional, pulando o dólar. Essa é a estratégia que os BRICS estão adotando: o comércio entre os seus membros utilizando as suas próprias moedas.
Isso, no entanto, gera alguns problemas. Vou dar o exemplo mais negativo que temos, o da Argentina, que é o melhor caso para ilustrar, agravado pelo fato de ter um governo fascista. A nossa moeda é mais forte que a deles. Se quisermos estabelecer um comércio bilateral direto usando nossas moedas, esbarramos em um obstáculo. O Brasil é superavitário em relação à Argentina. Se deixarmos de usar o dólar e usarmos apenas reais e pesos, eles receberão os nossos reais, que são aceitos no Chile, no Uruguai, entre outros lugares. Nós, por outro lado, receberemos uma pilha de pesos argentinos. O que faremos com eles? Só poderemos gastá-los na Argentina. Como já comprei tudo o que preciso de lá e sou superavitário, vendendo mais do que comprando, o que farei com a pilha de pesos que sobrará? Absolutamente nada.
Portanto, não é uma fórmula mágica. Existem distorções que precisam ser corrigidas bilateralmente, como no nosso caso com a Argentina, em que vendemos mais do que compramos e lidamos com uma moeda instável. O acúmulo de uma moeda que só pode ser gasta no país de origem não dará certo se não houver demanda de compra proporcional.
A regra geral é esta: comercializar na mesma moeda. Por isso a importância da cesta de moedas. É claro que o peso argentino não entrará nessa cesta de moedas conversíveis por ser inexpressivo. Tudo indica que os componentes serão o rand da África do Sul, o renminbi da China, o rublo da Rússia, o real do Brasil e a rúpia da Índia. Essa cesta ainda está em discussão e demandará tempo, mas todos os passos apontam para a substituição do dólar nas trocas do bloco.
Ninguém é contra o dólar. Os Estados Unidos têm o direito de ter a sua moeda. O que não se sustenta mais é que essa seja a única moeda do comércio internacional, um modelo fixado em 1944 e que já dura 82 anos. É imperativo desdolarizar e romper com a ditadura do dólar. O pior não é eles terem a sua moeda, mas sim utilizarem o dólar como arma de guerra, bloqueando reservas soberanas, como fizeram com a Venezuela e com a Rússia. Isso coloca em xeque todo o modelo de estabilidade financeira e econômica internacional.
Essa cesta de moedas precisaria de algum lastro?
Lejeune Mirhan — Não precisa.
Por que não precisaria? O senhor poderia esclarecer esse ponto?
Lejeune Mirhan — O lastro é dado pelas commodities, pelas mercadorias que são compradas e vendidas. O único país que se preocupa com lastro neste momento é a China, que está lançando o yuan digital e recorrendo à equivalência em ouro. Mas considero que essa é uma preocupação oriunda de Bretton Woods, em 1944. Acredito que isso não voltará a ocorrer. As moedas vão se sustentar como números em um sistema de computação. Sonhar com lastro em ouro é coisa do passado.
Qual foi o real papel da China no Irã? O senhor corrobora a tese de que ela é a grande arquiteta por trás daquele país, fornecendo o suporte para que o Estado resistisse à guerra contra os Estados Unidos, ou considera isso uma falácia? Adicionalmente, qual é a sua análise sobre a resistência da Rússia em relação à Ucrânia?
Lejeune Mirhan — Eu não tenho dúvida, corroboro 100%. A vitória do Irã tem o dedo direto da China. O Irã está localizado no centro das Rotas da Seda. O Irã e o Paquistão são dois países que não podem cair na geopolítica chinesa. Em 2021, a China firmou um acordo de investimento de 25 anos com o Irã, totalizando meio trilhão de dólares, ou seja, 500 bilhões de dólares. Se não temos noção do que significa o volume de um bilhão, imagine o de 500 bilhões investidos no Irã. A China está por trás de tudo isso.
A China foi a grande vencedora da guerra, que durou intensamente apenas 36 dias, embora tenha se estendido por mais de cem dias porque eles mantiveram o conflito até a assinatura do memorando. E, mesmo assim, a assinatura do memorando é apenas um roteiro, não o acordo final. Algumas medidas já estão vigendo, enquanto outras ainda estão por vir.
A China é a grande vitoriosa porque mantinha negócios vantajosos: comprava o barril de petróleo iraniano a 55 dólares quando o preço de mercado era 70, valendo-se do deságio. Agora, ela está pagando o valor de mercado, de 55 a 70 dólares.
A China possui um gargalo energético severo. O país consome 14 milhões de barris diários e produz apenas quatro. Naquele vasto território, ainda não descobriram reservas suficientes de petróleo. Estão desenvolvendo uma série de alternativas energéticas, como a eólica e a solar, mas nada substituirá o petróleo nos próximos cinquenta anos. Os ecologistas podem fazer o que quiserem, mas é o petróleo que roda 90% do transporte mundial. Infelizmente, a China importa todos os dias cinco superpetroleiros de dois milhões de barris, venha de onde vier. Se o Irã não vende, ela compra da Arábia Saudita, que já está aceitando pagamentos em yuan — uma grande novidade que impulsiona a desdolarização.
A China é a grande vitoriosa desse processo, pois protegeu o Irã. Ela entrou na guerra? Não entra em guerra militarmente, mas forneceu sistemas logísticos e o sistema BeiDou, o GPS chinês. Com isso, ajudou a inteligência iraniana a vencer o conflito.
A Rússia ajudou muito com conselheiros militares e armamentos. O Irã, contudo, não precisou de muitos equipamentos externos, pois é autossuficiente em mísseis. Os analistas apontam que eles estão mais fortes agora do que no início do conflito. Vou explicar o porquê. Eles possuíam um parque de mísseis estimado por mim em cinco mil unidades, embora analistas falem em até 50 mil. Durante a guerra de 36 dias, eles usaram mísseis com tecnologia mais antiga para atacar as seis bases americanas permanentes e as seis provisórias nos países do Golfo, além de alvos em Israel. Os mísseis mais modernos não foram gastos. Portanto, sob a ótica de um analista militar, o Irã está mais forte, pois seu sistema atual de mísseis intactos é extremamente avançado. O Fattah-2, por exemplo, desvia das defesas antiaéreas e, ao se aproximar do alvo, a ogiva se abre e libera dez fragmentos em um sistema de bomba cluster. Dessa forma, o Irã está muito fortalecido.
Consequentemente, a China se fortalece quando o seu aliado se fortalece e, assim, preservou seu investimento de meio trilhão de dólares. Veja que, no início, os Estados Unidos entraram nessa guerra sem um objetivo claro até assumirem que queriam uma mudança de regime. Perderam a guerra porque não conseguiram mudar o regime; pelo contrário, uniram ainda mais o povo e o governo iraniano. Eu estive lá e presenciei essa unidade política inquebrantável. O funeral de Ali Khamenei, que deve estar começando, mobilizará 20 milhões de pessoas em uma população de 80 milhões, ou seja, um quarto dos iranianos. Seria como se o Brasil colocasse 50 milhões de pessoas nas ruas, algo que nunca vivemos, já que na época das Diretas mobilizamos no máximo três milhões. É impressionante a capacidade de mobilização daquele povo. Eu testemunhei um grau de politização notável conversando diretamente com as pessoas nas ruas. Em suma, o Irã, a China e a Rússia saem mais fortes desse processo.
Você pediu também uma comparação com a guerra na Ucrânia. O patrocinador do conflito ucraniano no primeiro momento foram os Estados Unidos, especificamente o governo Biden. Donald Trump se elegeu afirmando que pararia aquela guerra no primeiro dia de mandato. Tomou posse e não a parou. Pediu 10 dias e não parou; pediu 100 dias e não a encerrou, até desistir, pois sabe que aquela guerra não é simples de ser interrompida. Há interesses muito maiores em jogo, como o complexo militar-industrial norte-americano e o desejo da Europa de manter o conflito para desgastar a Rússia. Eles planejam uma grande guerra, que pode ser a Terceira Guerra Mundial, até 2030, contra a Federação Russa.
A Ucrânia, liderada por um presidente subserviente, era um país desenvolvido que abrigava a fábrica do maior avião do mundo, o Antonov, e possuía os maiores campos de produção de grãos. Tinha 20 milhões de habitantes; hoje, possui 10 milhões de refugiados espalhados pelo mundo e perdeu cerca de 1,5 milhão de soldados no conflito. É um Estado anômalo e totalmente disfuncional que depende de bilhões de euros anuais da União Europeia para custear o mínimo, desde a compra de clipes até papel e lápis. Para sustentar a guerra, vídeos mostram cidadãos sendo pegos à força nas ruas, bares e boates para serem enviados à linha de frente.
O mandato de Volodymyr Zelensky venceu em 10 de maio de 2023. Ele está com o mandato expirado há mais de três anos e governando como um testa de ferro. Recentemente, no G7, sentou-se à mesa com as grandes potências; é o queridinho da mídia e chamado de presidente, mas não tem nenhuma legitimidade legal. Dispôs-se a destruir o seu próprio país, a perder metade de sua população — que vive hoje de forma nômade pela Europa — e a sacrificar seu exército, que já foi reconstituído três vezes.
Com tudo isso, por que a Rússia ainda não liquidou a fatura? Porque ela não quer destruir a Ucrânia e sequer precisa usar armas nucleares para isso. A Rússia possui o Oreshnik, a bomba não nuclear mais poderosa que existe, e a usou apenas uma vez para demonstrar sua capacidade. Ninguém mais a tem: nem os Estados Unidos, nem a China. Ela atinge dez vezes a velocidade do som, assim como o míssil iraniano. Os russos nunca quiseram aniquilar o país vizinho porque são da mesma etnia, são primos, são eslavos. A Rússia surgiu na Ucrânia; o sistema dos czares, que completou 300 anos, originou-se lá. Em 1670, surgiu a Rus de Kiev; a Rússia nasceu lá. Portanto, eles não querem acabar com a Ucrânia, que, em sua concepção moderna, é uma invenção de Lênin validada após Stalin. Toda aquela região era a Rússia. A Crimeia segue a mesma lógica. Destruir a Ucrânia nunca foi o objetivo.
Observe as últimas ações militares da Ucrânia. Como o país sabe que não consegue vencer na linha de frente por atrito, está jogando enxames de drones com alcance de 25 a 200 quilômetros sobre as trincheiras. Esses ataques atingem a Rússia profunda, bombardeando refinarias, postos de gasolina e escolas. Estão matando civis russos que não têm relação com o combate na linha de frente. As convenções internacionais possuem normas para a guerra, e atacar uma escola com drones é uma violação clara. Como não consegue avançar, a Ucrânia perdeu todos os territórios na região chamada Novorossiya.
Novorossiya é uma área em formato de meia-lua cujo nome já indica: ali moram russos, embora esteja na Ucrânia. É a região do Donbass, que abrange quatro províncias. Lugansk e Donetsk já estão 100% controladas pela Rússia, enquanto Kherson e Zaporíjia ainda não estão totalmente dominadas.
Por que a Rússia não quer o cessar-fogo? Justamente porque ainda não detém 100% de Zaporíjia e Kherson. Parar a guerra agora seria desvantajoso. A Rússia já anexou os quatro territórios e alterou o seu mapa oficial, mas ainda há soldados ucranianos em partes de Kherson e Zaporíjia por onde o rolo compressor russo não passou. Por isso, Moscou exige um acordo geral, sintetizado em dez pontos. O ponto número um é o reconhecimento da soberania russa sobre as quatro províncias. Se a Ucrânia concordasse, a guerra pararia na hora. Bastaria retirar as tropas desses últimos municípios e entregá-los à soberania russa, sem a necessidade de batalhas militares. Mas a Ucrânia se recusa a fazer isso.
Para finalizar: por que a guerra não para? Porque a União Europeia não quer. Trump lavou as mãos e não interrompeu o envio de armas, pois não controla o complexo industrial-militar. E não pense que os Estados Unidos enviam armamento de graça; a União Europeia paga a conta indiretamente. Assim, mesmo sendo a Ucrânia um Estado disfuncional e sem recursos, a União Europeia banca a guerra e o governo de Zelensky.
Muitas pessoas dizem, e eu gostaria que o senhor desconstruísse essa fala em termos racionais, dada a sua formação como cientista político e sociólogo: afirma-se que Trump está com sérios problemas de ordem cognitiva, e cercou-se de uma gangue. Isso é um lugar-comum na imprensa brasileira. Outros apontam que ele aplica a “teoria do louco” de Nixon, arriscando ao máximo para forçar o recuo dos adversários e obter vantagens. Até que ponto as atitudes desse chefe de um Estado poderoso fazem sentido político? Ou, para o senhor, como analista, é indiferente se ele age de forma irracional ou se está cercado por uma equipe instável e sem conhecimento do mundo? Gostaria que o senhor comentasse isso.
Lejeune Mirhan — Nós usamos o termo “louco”, mas é força de expressão. Ele não tem nada de louco. Ganhou dois bilhões de dólares com bitcoins que ele mesmo criou. Não é louco nem maluco.
Quero destacar que ele montou uma equipe ministerial composta por JD Vance, o vice-presidente; Pete Hegseth, nomeado Secretário de Defesa; e Marco Rubio, o Secretário de Estado. Marco Rubio é o mais ferrenho de todos os anticomunistas que servem na Casa Branca. Não há um único membro ali que não seja anticomunista, mas há gradações entre eles.
O JD Vance, por ser candidato natural à presidência em 2028 e o aparente ungido por Trump (que não poderá se reeleger), tenta demonstrar certa moderação. No entanto, Rubio também sonha com a presidência, e eles disputam espaço internamente.
Todos eles são sionistas. Preciso ressaltar que os Estados Unidos são o país mais sionista do mundo hoje, posto que já pertenceu à Inglaterra no início do século XX. O movimento evangélico neopentecostal americano é profundamente sionista. Trata-se de um cristianismo sionista fortíssimo. Trump é um sionista cristão, assim como todos os que o cercam, incluindo Vance, Rubio e Hegseth.
Ali eles disputam influência. É nesse cenário que entra o papel de Israel. Na política do “America Great Again”, os Estados Unidos não são a prioridade absoluta; Israel também o é. Rubio talvez seja ainda mais pró-Israel do que Vance, que tenta adotar uma postura um pouco mais moderada. Às vezes, quando vemos uma briga política, torcemos por um dos lados, mas, nesse caso, não há como torcer por nenhum. Não torço por Vance, embora sua história de vida seja complexa: sua mãe era dependente química, e ele vem do Cinturão da Ferrugem, uma região marcada pelo desemprego após a fuga das indústrias. Não sou psicólogo, mas analiso essas inconstâncias e trajetórias que explicam as diferenças de postura no governo.
O Marco Rubio tem outra trajetória. Seus pais saíram de Cuba antes da revolução, tendo divergências com a ditadura de Fulgencio Batista. Ainda assim, ele é profundamente anticastrista e anticomunista, articulando-se com a comunidade de refugiados cubanos em Miami. Essa é a disputa que ocorre no entorno de Trump e, por isso, não devemos torcer por essa briga.
Quando foi lançada, em dezembro de 2025, a nova política de segurança dos Estados Unidos, eles chegaram à conclusão de que não conseguem mais ser a potência hegemônica mundial. Não dão conta de controlar o mundo, mesmo possuindo 836 bases militares em 109 países — um número que nunca é exato.
Diante dessa nova doutrina de segurança da era Trump, que substituiu a do governo Biden, estabeleceu-se o retorno ao foco hemisférico. Trata-se da reedição da Doutrina Monroe. Embora alguns autores apontem muitas diferenças em relação à doutrina original, não teremos tempo de detalhá-las. Na prática, a mensagem é: somos os donos do hemisfério ocidental, abrangendo Canadá, Estados Unidos, México e toda a América do Sul e Central.
Nesse contexto, eles passam a ter rivais, e o maior deles é a China. Dos 34 países latino-americanos, a China já firmou acordos de cooperação das Rotas da Seda em 22 deles. O Brasil não assinou formalmente as Rotas da Seda, mas atua como se tivesse; dado o volume de projetos chineses no país. A nova ponte na Bahia, ligando Salvador a Itaparica, será a maior ponte sobre o mar: a ponte Rio-Niterói talvez seja mais extensa, mas possui um longo trecho sobre terra. A obra será conduzida pela China. Muitos criticam a presença chinesa, mas os empregados e os engenheiros são brasileiros. É uma empresa chinesa contratando mão de obra nacional e transferindo tecnologia; não vejo problema nisso.
A grande inimiga dos Estados Unidos na região passou a ser a China. A Rússia, por sua vez, mantinha a Venezuela como sua principal base de apoio. Diferentemente de Pequim, que possui a Iniciativa Cinturão e Rota, a Rússia concentrou seus efetivos na Venezuela e sofreu um revés com o sequestro de Nicolás Maduro. Embora a revolução não tenha retrocedido e Delcy Rodríguez permaneça no poder mantendo o apoio político interno, quem controla hoje a Venezuela, sejamos francos, são os Estados Unidos, que inclusive estão vendendo o petróleo venezuelano. Não é possível afirmar que a Venezuela seja hoje um país plenamente soberano, apesar de o governo bolivariano não ter sido destituído. María Corina Machado tenta ganhar protagonismo, mas Trump não apostou nela, preferindo lidar com Delcy Rodríguez. É uma situação muito complexa que exigiria uma longa análise, mas, no fim das contas, a Rússia saiu enfraquecida por apostar todas as fichas no governo de Maduro, que acabou sob tutela do império.
A grande questão hoje para os americanos é atacar a China onde for possível, mas isso não surtirá efeito. Como combater a presença chinesa sem usar meios militares, já que não é possível expulsar a China à bala dos países da região? Os Estados Unidos precisam competir comercialmente, o método mais antigo da humanidade. Nesse campo, não há como vencer a China, dada a qualidade de seus produtos, seus preços competitivos e as condições de financiamento com juros baixíssimos atrelados às obras que o país oferece.
Que fique bem entendido: as obras das Rotas da Seda são projetos de infraestrutura viária desenhados para que os produtos chineses cheguem rapidamente e em boas condições a todos os lugares, já que a China é a maior exportadora global. O megaporto construído no Peru com investimento chinês é o maior do mundo. Eles gastam dinheiro, mas não a fundo perdido: constroem infraestrutura para exportar da China para o Peru e do Peru para a China, fazendo do país andino uma porta de entrada para toda a América Latina. Eles constroem aeroportos e ferrovias de grande velocidade, atingindo entre 150 e 200 km/h.
Eu gostaria muito que a China fizesse grandes obras no Brasil. Eles estão executando a ferrovia transoceânica, que sairá do porto de Santos até a costa do Peru, facilitando nossas exportações para o Oceano Pacífico. Quero que a China construa o primeiro trem-bala brasileiro. Moro em Campinas desde 1968; fala-se nesse projeto desde então, mas nunca saiu do papel. Acredito que agora sairá. Fiz um programa no meu canal sobre os trens-bala na China, que já possuem 50 mil quilômetros de malha. Nós temos zero. Nos Estados Unidos, a Amtrak atinge no máximo 180 km/h, o que nem é considerado trem-bala. Para nós, seria fantástico ter trens de passageiros circulando a essa velocidade. Fotografei os trens na China atingindo 350 km/h; o painel do vagão anunciava a velocidade. Eles já fazem testes com trens que alcançam mil quilômetros por hora. Como competir com isso?
Essa é a capacidade da China. Os Estados Unidos não conseguirão expulsá-la das Américas.
Quão longe estamos de uma Terceira Guerra Mundial? E qual seria o estopim que poderia incendiar essa situação de vez?
Lejeune Mirhan — Veja. Dei aula durante 25 anos na universidade e estou aposentado há dez. Os alunos sempre me faziam essa pergunta em momentos de tensão internacional. Eu respondia categoricamente que não haveria uma Terceira Guerra Mundial. Hoje, eu já não daria essa mesma resposta. Contudo, também não diria que ela é iminente.
Há um projeto claro da União Europeia de preparação para uma terceira guerra, com data marcada para 2030. Eles querem enfrentar e, se possível, destruir a Rússia. Não teremos tempo de explicar as raízes históricas desse ódio à Rússia, pois perderíamos o foco da entrevista. Mas a União Europeia planeja uma grande guerra, e o conflito na Ucrânia é o ensaio geral.
Portanto, existe, sim, a possibilidade de uma grande guerra. As duas primeiras guerras mundiais ocorreram prioritariamente em território europeu. Livros de história chineses referem-se à Primeira Guerra Mundial como uma guerra civil europeia, na qual os Estados Unidos, sob o governo de [Woodrow] Wilson, entraram muito tardiamente. A Segunda Guerra, sim, foi propriamente mundial, englobando o teatro de operações no Pacífico com o Japão, a entrada da União Soviética, entre outros atores.
Respondendo de forma objetiva sobre uma terceira guerra: quando a bomba atômica foi criada, os físicos da Universidade de Chicago idealizaram o Relógio do Juízo Final, que hoje é público e marca quão próximos estamos da destruição total do planeta. Atualmente, o relógio está a poucos segundos da meia-noite.
Eu até suportaria uma guerra mundial convencional, mas ela jamais poderia ser nuclear. Gosto muito de ciência de modo geral; sou astrônomo amador. Embora seja da área de humanas, sempre questionei na universidade a divisão rigorosa entre ciências exatas e humanas. Considero-me um cientista, ponto. Questionavam o fato de eu ter cursado ciências sociais, mas isso não me impede de gostar de física, química e biologia. E eu gosto.
Estamos vivendo essa situação geopolítica complexa, e uma guerra está em franca preparação. O fundamental é que ela não assuma caráter nuclear. Cito a astronomia e a física para lembrar o Paradoxo de Fermi. [Enrico] Fermi foi um grande cientista que participou do Projeto Manhattan, responsável por criar a bomba atômica. Cerca de cinco anos depois, no refeitório de Los Alamos, ele refletiu sobre as trilhões de estrelas e planetas no universo e perguntou: “Onde está todo mundo?”. Esse questionamento entrou para a história como o Paradoxo de Fermi.
Há muitas hipóteses para explicar isso, e abordarei apenas uma: a teoria do Grande Filtro. Segundo ela, as civilizações se desenvolvem até certo ponto e entram em um “funil” tecnológico, acabando por se autodestruir. Sendo assim, o universo pode ser um grande cemitério de civilizações que prosperaram até encontrarem esse filtro destrutivo.
Eu estou intelectualmente preparado para uma terceira guerra, que pode vir a acontecer, e a Europa está se preparando para ela. Mas rogo para que não seja nuclear. Se for, entraremos nesse funil e a humanidade acabará. Eu não quero que a humanidade acabe. Questiono-me se há alguma civilização no universo que tenha conseguido superar o Grande Filtro, ou seja, que tenha se desenvolvido sem se autodestruir; civilizações que até façam guerra, mas sem recorrer a armas nucleares.
Em resumo, há um preparo claro para a terceira guerra, cujo estopim pode ser o menor incidente possível. Na Europa, seria um ataque direto da OTAN à Rússia, algo que ainda não ocorreu. A Ucrânia ataca o território russo utilizando mísseis e drones fabricados pela União Europeia, mas a Rússia tem sido tolerante. Moscou sabe que os artefatos são europeus, mas restringe sua retaliação ao território ucraniano, pois entende que um ataque direto a Londres ou a Paris daria início à terceira guerra mundial. Sem dúvida, o planejamento europeu visa a esse conflito direto para 2030.
A não ser — e eu espero por isso — que os eleitores europeus recuperem a lucidez e removam do poder essa atual liderança. Setores do feminismo costumam vibrar com a eleição de qualquer mulher independentemente de sua ideologia, algo que não compreendo bem. Refiro-me não só a Kaja Kallas, mas também a Ursula von der Leyen, frequentemente rotulada de centro, mas que, na realidade, possui inclinações de extrema direita. Se essas lideranças forem substituídas por perfis mais arejados e progressistas, o cenário pode mudar. É preciso suspender as sanções contra a Rússia, reintegrar o país ao convívio da União Europeia e apostar no diálogo.
A Rússia é um país maravilhoso e riquíssimo culturalmente. Não é uma nação milenar, tem cerca de 700 anos, mas a sua história é fascinante. A monarquia russa sempre disputou ostentação, nobreza e elegância com as monarquias dos Habsburgo e da Inglaterra. Visitei os palácios russos; a imperatriz Catarina possuía palácios imensos, e um de seus favoritos contava com 50 quartos. As estruturas estão perfeitamente preservadas. Para demonstrar riqueza e sofisticação, os russos contratavam pintores europeus famosos. Em vez de trazer quadros do Louvre, mandavam pintar afrescos diretamente nas paredes dos palácios. É deslumbrante.
Uma renovação política nos quadros da União Europeia seria a única saída diplomática. Contudo, as lideranças atuais preferem fustigar a Rússia, impondo-lhe 19 rodadas de sanções sob a justificativa de que Moscou atacou a Ucrânia. A Rússia não atacou a Ucrânia de forma gratuita; ela reagiu ao que o governo ucraniano fez durante oito anos no Donbass. Vladimir Putin, inclusive, foi duramente criticado internamente por ter esperado tanto tempo. Entre 10 e 20 mil russófonos foram mortos pelo governo ucraniano, cidadãos que, mesmo nascidos na Ucrânia, eram filhos de russos e falavam apenas a língua russa. O governo de Zelensky e seus antecessores bombardearam sistematicamente a região do Donbass, resultando nesse massacre.
O artigo 50 da Carta das Nações Unidas prevê que povos e países terão o direito de defender os seus nacionais, inclusive pelas armas. Quando a Rússia invoca o artigo 50 do direito internacional, ela não invade a Ucrânia: ela sai em defesa dos seus nacionais que moram no país vizinho. Isto não é caracterizado pelo direito internacional como invasão. A mídia e os seus analistas de plantão caracterizaram o ato como invasão, mas ele tem amparo no direito internacional: se você mata os meus nacionais, eu cruzo a fronteira para defendê-los. Isso está na Carta da ONU.
É incrível como as agências internacionais criam essas narrativas, e colocam a Rússia como a grande inimiga da humanidade.
Lejeune Mirhan — Concordo. O mais impressionante é que essa narrativa convence até mesmo uma parte dos nossos. Parcelas da esquerda atacaram a Rússia quando ela defendeu o seu povo. Fiquei impressionado e acabei perdendo amizades de 50 anos porque essas pessoas passaram a atacar a Rússia, chamando-a de imperialista. Cheguei a perguntar: qual manual vocês leram que caracteriza a Rússia como imperialista por sair em defesa dos seus nacionais? Imperialismo é a prática dos Estados Unidos. A Rússia está travando uma guerra contra a OTAN. Aquela é uma guerra da OTAN contra a Federação Russa; a Ucrânia é apenas um mero pretexto, uma procuração, uma guerra por proxy.
O artigo da Carta das Nações Unidas que trata da legítima defesa é o 51, aplicável no caso de ocorrer ataque armado contra um Estado membro. O artigo 50 versa sobre matéria diversa: o direito de um Estado terceiro, afetado economicamente por medidas coercitivas decididas pelo Conselho de Segurança, consultar o Conselho a respeito.
Ele criou a própria editora, a Apparte, para publicar o que as grandes casas não publicariam.
A coleção que escreveu para quem estava começando:
Cinco volumes, didáticos, fartamente ilustrados, pensados para quem nunca teve professor de marxismo. Foi o trabalho da última década de sua vida.
Marx para principiantes. Apparte, 2020. 288 páginas, mais de cem ilustrações legendadas. Inclui uma seleção de textos de Lênin sobre Marx e Engels. clique aqui
Engels para principiantes. Apparte, 2022. 384 páginas. Traz uma síntese dos sete principais livros de Engels. Prefácio de Olival Freire, da Universidade Federal da Bahia. clique aqui
Stálin para principiantes. Apparte, 2023. 544 páginas e mais de uma centena de fotos legendadas. Prefácio de Renato Rabelo. clique aqui
Mao Zedong para principiantes. Apparte, 2024. clique aqui
A Palestina, o mundo árabe e a geopolítica:
E se Gaza cair.... Anita Garibaldi, 2012. Organizador. Reúne 47 artigos de 36 autores judeus, árabes, europeus e latino-americanos, entre eles Uri Avnery, Ilan Pappé, Gideon Levy, Noam Chomsky, Robert Fisk, Tariq Ali, Eduardo Galeano e Domenico Losurdo. 280 páginas. Prefácio de Paulo Daniel Farah, da USP. Lançado em Porto Alegre no Fórum Social Mundial Palestina Livre. clique aqui
Luta Imperialista e a Hegemonia Americana. Alfa Ômega, 2004, com José Reinaldo de Carvalho. 266 páginas, duas edições, cinco mil exemplares.
O trabalho que fez sem que quase ninguém soubesse, e que chegou a todas as escolas públicas do país.
Sociologia e Ensino em Debate. Editora Unijuí, 2004. Organizador, com outros sete autores. 392 páginas. Adotado pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC, que comprou trinta mil exemplares e os enviou a todas as trinta mil escolas de ensino médio do Brasil.
Sociólogos & Sociologia: História das Entidades no Brasil e no Mundo. Anita Garibaldi, 2005, com Sérgio Sanandaj Mattos. 216 páginas. Prefácio de Francisco de Oliveira, da USP.
Três obras interrompidas, todas anunciadas por ele.
Um estudo sobre a concepção marxista de proletariado, pesquisado durante dez anos e criticando o uso corrente da expressão classe trabalhadora.
O livro sobre Ibn Khaldun, que ele descrevia como a conclusão das pesquisas e da tese de doutorado, em sua maior parte já escrita, comparando o historiador tunisiano do século 14 ao pensamento marxista quinhentos anos antes de Marx. Estudava o autor desde 1993.
E uma enciclopédia dedicada aos autores marxistas, cuja interrupção foi tornada pública pelo deputado Ivan Valente.
Levantamento a partir das fontes públicas disponíveis. Os livros da Apparte estão na loja da editora, que ele fundou para publicar a própria obra e a de escritores sem espaço nas grandes casas: clique aqui. Os títulos da Anita Garibaldi estão na livraria homônima: clique aqui.
A cena que abre este texto, a garoa em Congonhas, a última ordem de Diógenes Arruda e o caixão carregado até a cova, vem de uma entrevista longa que o próprio Lejeune concedeu a Augusto Buonicore em 2011 e que praticamente ninguém releu desde então. Dela saem também o codinome que ele usava na clandestinidade, a missa de sétimo dia de Vladimir Herzog e o episódio da PUC-Campinas: clique aqui.
Como o relato é memória oral, e memória oral pede confirmação de fora, a data e a causa da morte de Arruda foram verificadas no verbete do CPDOC da Fundação Getulio Vargas: clique aqui.
O perfil biográfico mais completo publicado depois da morte é o de André Cintra. É de lá que vêm o relato de Igor Fuser sobre o Viaduto do Chá, a genealogia sírio-armênia de Corumbá, os anos de formação, o projeto de doutorado sobre Ibn Khaldun e a nota do Sindicato dos Sociólogos: clique aqui.
Sobre a Chacina da Lapa, que se lê aqui como contexto do ano em que ele se filiou, foram consultadas três fontes de naturezas distintas, para que o episódio não dependesse de uma versão só. O registro do Memorial da Democracia: clique aqui.
O verbete de Pedro Pomar na Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo: clique aqui. E a reconstituição do Portal Vermelho sobre os três dirigentes assassinados: clique aqui.
A passagem sobre 1962 foi montada de propósito com as duas leituras em conflito, porque é o conflito que interessa. A versão do próprio partido, que fala em reorganização: clique aqui. E a do Atlas Histórico do Brasil, da FGV, que descreve o mesmo ato como fundação de uma nova organização: clique aqui.
Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida era jesuíta e ocupava a secretaria-geral da CNBB exatamente no período em que os estudantes de Campinas o procuraram, o que fecha a cronologia do episódio. A biografia divulgada pela CNBB: clique aqui. O registro do projeto de memória da Arquidiocese de Mariana, com sua trajetória dentro da Companhia de Jesus e a abertura do processo de beatificação: clique aqui.
A cronologia da sucessão arquiepiscopal de Campinas, que corrige em parte a lembrança de Lejeune, e o registro da delegação brasileira a Puebla em 1978, estão na página da própria Arquidiocese: clique aqui.
O batismo é o documento central desta homenagem, e ele não é interpretação de ninguém. Está escrito na nota oficial da Federação Árabe Palestina do Brasil: clique aqui. As palavras de Ualid Rabah, presidente da entidade: clique aqui.
Quem era Khalil al-Wazir foi verificado fora do campo em disputa. Sua posição na hierarquia da OLP, na Al Majalla: clique aqui. O reconhecimento oficial israelense da autoria do assassinato, vinte e quatro anos depois, na France 24: clique aqui.
Das dezenas de manifestações públicas registradas nas horas seguintes à morte, cinco entraram neste texto. A nota da Comissão Executiva Nacional do PCdoB: clique aqui. As palavras de Nádia Campeão, no obituário do Portal Vermelho: clique aqui. O texto de Carol Proner: clique aqui. A homenagem do deputado Ivan Valente, que foi quem tornou pública a enciclopédia interrompida: clique aqui. E a nota da CTB, central que ele ajudou a fundar: clique aqui.
A cronologia dos últimos meses foi reconstruída a partir de três documentos datados, e é por isso que ela pode ser afirmada com precisão. O obituário da TVT, que informa qual foi a última participação dele na emissora e a data do sepultamento: clique aqui. A licença emitida pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos em 22 de junho de 2026, tema daquela última participação: clique aqui. E o ensaio de 25 de junho, o último texto que ele assinou: clique aqui.
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