28 Novembro 2025
"Após a queda de Bashar al-Assad, todo o povo tinha esperança de liberdade. Após os primeiros atos de violência, não se quis ceder à desilusão: não era fácil acreditar que o regime havia caído; um sonho impossível tornara-se realidade. Mas com o massacre dos alauítas em março, percebemos que estávamos enganados, e começou esse novo caminho de sofrimento: a cada dia o medo e a falta de confiança aumentam." O padre Jacques Murad fala calmamente em seu italiano um tanto hesitante, com forte sotaque francês, enquanto, em meio ao vai e vem de padres e colaboradores em seu escritório, sua análise sobre a "nova Síria" torna-se cada vez mais aguda.
Há dois anos e meio, Jacques Murad é o arcebispo católico siríaco da cidade de Homs, o berço histórico da oposição a Assad: em 2012, durante a guerra civil, os bombardeios totais do exército esmagaram a revolta da Irmandade Muçulmana sunita. Um passado violento que ressurge mesmo agora que o "antigo regime" caiu.
A entrevista é de Luca Geronico , publicada por Avvenire, 27-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Após 8 de dezembro, os primeiros atos de violência foram contra os alauítas, mas os cristãos — estimados em 80.000 em uma região de 4 milhões de sunitas e uma pequena comunidade alauíta — não foram poupados. Os "guerrilheiros" de Idlib primeiro confiscaram todas as armas das aldeias cristãs, mesmo as legalmente registradas. Em seguida, começou a extorsão de dinheiro em uma escala muito maior do que antes: alguns cristãos foram mortos, e há roubos e ameaças todos os dias. E alguns relatam prisões sem julgamento ou acusações claras. E no último domingo, as tribos beduínas entraram na cidade, devastando os bairros alauítas para vingar o assassinato de um de seus líderes e sua esposa. Segundo o governo, três pessoas foram mortas e um toque de recolher de 24 horas foi imposto em toda a cidade. Ontem, manifestações e protestos se multiplicaram em locais predominantemente alauítas.
Eis a entrevista.
Padre Jacques Murad, na semana passada na província de Idlib, foram devolvidas as terras e casas das aldeias cristãs. Um sinal de boa vontade?
Há alguns episódios positivos, mas a questão é se o novo governo quer reconhecer os cristãos: a restituição de terras, casas e escolas é importante, mas se restitui aquilo que já pertencia à Igreja. Mas se depois não é concedida liberdade para todas as ações sociais da Igreja, como de resto de todas as outras estruturas laicas e muçulmanas, é um sinal de falta de efetiva liberdade religiosa. Há muitas questões legais, como heranças e casamentos, e todos os dias constatamos que os direitos humanos não são respeitados.
Não há nenhum cristão no novo parlamento. Vocês, bispos sírios, conseguem dialogar com o governo?
Claro, mas eles não estão dispostos a ouvir ninguém: existe uma distância entre o governo e o povo, que, como declarou o Ministro das Relações Exteriores, Asaad al-Shaibani, é considerado um aliado de Assad. Mas muitos de nós, ao longo de todos esses anos, se confrontaram com Assad; carregamos um fardo enorme sobre os ombros. Para nossa surpresa, aqueles que vieram de Idlib consideram nós, que oferecemos uma resistência moral a Assad, como aliados do antigo regime. Sofremos tanto quanto aqueles forçados a viver em campos de refugiados: morremos sob bombas ou por torturas nas prisões, fomos vítimas da corrupção e roubados pelo regime de Assad. Há também aqueles que morreram lutando pelo regime, mas porque foram obrigados a obedecer a Assad. E há aqueles que foram mortos ou torturados de diversas maneiras pelo antigo regime, a começar pelos que desapareceram na prisão de Sednaya. Todos eles agora são considerados mortos sem valor. Esse novo governo, que nos foi imposto, tem uma postura de violência e de não aceitação do povo: nos sentimos, mais uma vez, escravos de quem está no poder.
Se a questão da segurança está na boca de todos na Síria, a crise econômica ainda leva muitos cristãos a emigrar?
Certamente, e até mais do que antes. Esperávamos o levantamento das sanções e o início de projetos internacionais para termos alguma esperança no futuro. Mas hoje, a maior parte da população está desempregada porque, três semanas após assumir o poder, o governo demitiu a maioria dos funcionários públicos. Muitas famílias hoje não têm renda: todos os dias, estou falando da minha igreja, alguém vem pedir ajuda porque não tem o que comer. Se empresas estrangeiras chegarem, se a reconstrução começar, será um grande alívio, especialmente para os jovens. Enquanto isso, há descontentamento com o governo, que favorece os interesses da Turquia, dos Estados Unidos e de Israel, mas não de seu povo.
Há muitos anos, com o Padre Dall'Oglio, o senhor fundou o mosteiro de Mar Musa. O sonho do Padre Dall'Oglio era uma Síria unida e federal. O senhor ainda compartilha esse objetivo?
Não consigo imaginar a Síria dividida; não consigo imaginar ter que pedir permissão para ir a Latakia ou, como já está acontecendo, a Hasakah. Os maiores recursos minerais estão no nordeste, então, em um país dividido, como os outros vão viver? Se construirmos muros, novas fronteiras, estaremos apenas servindo a interesses pessoais, e essa divisão geográfica e histórica permite um aumento da violência entre as comunidades, que não pode ser facilmente contida. A questão, então, é se é verdade que alguns países querem a partição da Síria. Israel certamente tem interesse nisso, pois não deseja um país forte, livre e democrático por perto. Os curdos querem criar sua própria pátria, algo que nunca tiveram, e assim servem aos interesses de Israel. A paz, por outro lado, exige um Oriente Médio unido, com liberdade religiosa e respeito pelos direitos de todos. Nessa situação, alguns temem a islamização forçada e a imposição das leis islâmicas, a "sharia".
Existe esse risco?
Não é um risco; é a realidade. A Síria hoje é um país islâmico por excelência, parece o Afeganistão. A presença de grupos armados de outros países demonstra isso. Mas a mentalidade com que todas as estruturas do país são administradas também demonstra essa realidade: a "sharia" é a base de todas as decisões. No entanto, quero distinguir entre a "sharia" e o fanatismo: o Islã em si não se apresenta como aquele dos grupos fanáticos. Há um problema interno no Islã, relacionado à forma como os muçulmanos entendem a sua religião. Durante meu período de prisão (sob o Estado Islâmico), um mestre iraquiano de “sharia” me disse que, para eles, todos os cristãos são blasfemos, mas também os muçulmanos sírios. Surpreso, perguntei-lhe porquê: os sírios, respondeu ele, recusaram-se a seguir a lei do Califado. Isso demonstra que os muçulmanos sírios são, por natureza, diferentes dos fanáticos encontrados na Chechênia, no Uzbequistão ou no Afeganistão: não existe essa natureza violenta. Uma atitude que permitiu aos sírios abraçar o Islã em seus aspectos positivos, não o fechamento na “sharia” e na “sunnah” (o exemplo do Profeta Maomé, ndr). Aqueles que tomaram o poder hoje, ao contrário, seguem o fanatismo que não permite aos cristãos se sentirem parte do país, considerando-nos "dhimmi", submissos. Isso nos impede de tomar a iniciativa para o diálogo. Precisamos de uma mudança por parte dos muftis, dos imãs para poder construir essa ponte e vivermos juntos como antes.
Em conclusão, Monsenhor Jacques Murad, qual seria o seu apelo se pudesse encontrar-se com o Presidente al-Shaara?
A única coisa que eu lhe pediria é que restabelecesse o Ministério da Justiça, que restaurasse a legalidade, porque se isso for possível, a maioria dos problemas sociais e políticos será resolvida. Diante do medo, a única salvação é a justiça. Se alcançarmos esse objetivo, poderemos imaginar a construção de uma nova Síria democrática; caso contrário, permaneceremos no desespero.
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