28 Março 2025
O colonialismo do século XXI, explica Josefa Sánchez Contreras, ensaísta, pesquisadora e ativista socioambiental mexicana, decorre da necessidade de mudar o modelo energético para mitigar a crise climática. Mas, com um paradoxo oculto: a implantação de megaprojetos de energias renováveis depende profundamente de combustíveis fósseis e da extração de minerais. “Ou seja, possui uma grande dependência do mesmo regime que nos levou à catástrofe climática e energética”, denuncia em seu livro recente: Despojos racistas: Hacia un ecologismo anticolonial (Anagrama).
A entrevista é de Andrés Actis, publicada por La Marea-Climática, 24-03-2025. A tradução é do Cepat.
O que esse colonialismo energético não oculta é o imperativo que justifica a sujeição de territórios, um dedo que, além de subjugar, acusa e equipara a resistência ao negacionismo. “É uma narrativa muito difícil de desmantelar. Porque se uma comunidade se opõe, é acusada de estar se opondo a mitigar a emergência climática, a superar a crise energética, a transitar de fontes fósseis a fontes renováveis. Isto me parece um risco enorme e uma dificuldade para visibilizar este colonialismo energético”, alerta Sánchez, contratada temporariamente como pesquisadora no Departamento de Sociologia da Universidade de Granada.
Licenciada em Sociologia pela Universidade Autônoma Metropolitana (UAM) e mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), a autora dá continuidade ao seu primeiro ensaio, Colonialismo energético: territorios de sacrificio para la transición energética en España, México, Noruega y el Sahara Occidental (Icaria, 2023), com uma publicação que revela que “nenhuma paisagem, nenhum território, nenhum povo estará a salvo da demanda insaciável de crescimento capitalista”.
Um exemplo é a Espanha, que em séculos passados desempenhou o papel de colonizadora, mas que hoje, devido à sua riqueza energética e mineral e a necessidade de abastecer o norte da Europa, está sofrendo essas lógicas coloniais.
Neste mês, retomou-se o caso do agricultor peruano que levou uma empresa de energia alemã ao tribunal por causa do derretimento das geleiras. O caso tem muito de Davi versus Golias. No entanto, esconde um pano de fundo sistêmico. O que este julgamento nos diz?
A notícia esconde que estamos diante de uma nova onda de espoliações dos territórios, especialmente de povos indígenas na América Latina. E por que eu digo uma nova onda? Porque neste momento, diferente do colonialismo do século XX, as espoliações se justificam com o imperativo de mitigar a emergência climática e superar a crise energética. Ou seja, megaprojetos eólicos e fotovoltaicos são vendidos como a superação da crise dos combustíveis fósseis.
Esse argumento é sumamente complicado para as comunidades que estão defendendo o seu território. Aparece como mais avassalador e mais difícil de desmantelar. Porque se uma comunidade se opõe, é acusada de estar se opondo a mitigar a emergência climática, a superar a crise energética, a transitar de fontes fósseis para fontes renováveis. Isto me parece um risco enorme e uma dificuldade para visibilizar este colonialismo energético.
Esse imperativo é tão novo quanto perverso. O colonialismo responsável pela crise climática culpa as comunidades do Sul Global, que pouco contribuíram para essa emergência, de atrasar e se opor à transição energética, de não aceitar esta nova sujeição.
Sim, definitivamente. Nos séculos passados, o colonialismo também realizava essas espoliações. No meu livro, destaco que as espoliações realizadas pelo colonialismo nos séculos XVI, XVII e XVIII foram justificadas por um racismo. O racismo teve essa função de escravizar, de ocupar as terras.
Nas sociedades pós-coloniais, essas espoliações continuam sendo reproduzidas, mas desta vez com o argumento de mitigar a emergência climática. Há um racismo reconfigurado. Não há um racismo aberto, o racismo biologicista do século XIX. Há, sim, um racismo no sentido de que os programas para mitigar a emergência climática são destinados a privilegiar, a sustentar o privilégio de um modo de vida imperial, de um modo de vida restrito a um setor da humanidade.
Por que isto é racismo? Porque, mais uma vez, edifica-se sobre essa hierarquia racializada. Aqueles que são tipificados neste estrato mais alto da hierarquia racial são, justamente, a branquitude. Os outros setores ficam fora dos benefícios dos programas encaminhados a superar esta crise. Então, mais uma vez, os povos indígenas, os povos da África, voltam a ser despojados de sua humanidade. Corpos descartáveis que, em muitos casos, migram para se tornar mão de obra nos Estados Unidos e na Europa. Um racismo reciclado.
Existe, então, uma imbricação muito estreita entre racismo, espoliações e emergência climática. Outra tese fundamental do livro é que, conforme a crise climática for se acentuando, as relações coloniais também aumentarão. Nesse cenário, os discursos racistas voltarão à cena com muito mais força.
Como sair dessa espiral? Existe alguma esperança?
O último capítulo do livro se chama “Rumo a um ecologismo anticolonial e antirracista”. É uma espécie de compromisso de construir pontes entre as defesas dos territórios, realizadas por muitos povos indígenas no Sul Global, com os ecologismos do Norte Global. Para isso, necessitamos que esses ecologismos assumam posições abertamente anticoloniais e antirracistas, que entendam que a crise climática não será resolvida, caso não impugnem esses colonialismos que deram origem, justamente, à catástrofe ambiental que estamos vivendo. Não solucionaremos a crise climática com as mesmas lógicas que a geraram. É como cair no mesmo paradoxo. A proposta é romper esse paradoxo. Não é fácil.
Entendo que essa impugnação exige colocar em crise o modelo de produção e consumo que temos aqui na Europa, um questionamento que ainda parece distante.
É muito complicado questionar o próprio modo de vida. O primeiro passo é entender que o planeta é finito. Que nada mais é do que extirpar a subjetividade do colono que pensa poder dominar tudo, inclusive, a terra, que até pode transformar radicalmente a noção de natureza. Nesse sentido, é importante entender que tampouco todas as sociedades do Norte Global têm acesso a esses recursos extraídos de outras sociedades.
Há muitas desigualdades dentro das regiões mais ricas. Precisamos falar de redistribuição de energia, de acesso à energia, inclusive dentro no Norte Global. Isto passa, em parte, por identificar e questionar os setores que mais consomem. Quando analisamos os números, descobrimos que é o 1% mais rico da população mundial. As pessoas afetadas são em maior número do que os privilegiados por essas espoliações.
No nível político, há uma direita e uma ultradireita que negam a crise climática. E há uma social-democracia, uma esquerda institucional, que está totalmente presa ao capitalismo verde para superar uma emergência que, sim, reconhece. Há uma omissão generalizada acerca dessas espoliações?
Estamos navegando entre posições negacionistas e tecno-otimistas. Está claro que não concordamos em nada com o negacionismo. Contudo, também não endossamos a ideia de que o capitalismo verde nos permitirá superar essas crises. Pode parecer um pouco injusto, mas as duas posições seguem reproduzindo os racismos e propondo mais espoliações. São duas narrativas que, ao final, nos levam às mesmas dinâmicas de espoliações.
As posições negacionistas são abertamente racistas, xenófobas, que apostam em continuar fechando as fronteiras. Isso está muito claro. Agora, as posições ancoradas na transição energética devem colocar em crise a ideia de que a solução é técnica, que o crescimento econômico pode ser verde e viável ao lado da existência da vida neste planeta. Penso que as duas posições devem ser questionadas. É necessário gerar uma terceira narrativa. E aqui voltamos à proposta de gerar pontes entre os ecologismos, os defensores dos territórios, os movimentos antirracistas, os migrantes.
Existem colonialismos internos dentro do norte global? Fala-se muito de que a Espanha, devido à sua riqueza em energia verde e minerais, é a terra de sacrifício do norte da Europa.
Concordo que há territórios de sacrifícios no interior da Espanha. É alarmante o que está acontecendo com a tentativa de reabrir minas, o que nos mostra por sua vez a escassez de materiais que enfrentamos e a demanda exponencial por minerais que esse modelo de descarbonização está exigindo. Contudo, em termos conceituais, pensar o colonialismo interno dentro da Espanha ou dentro da Europa me parece problemático.
Estamos em um debate se podemos falar de colonialismo interno ou não, pois é como ignorar o colonialismo pelo qual a Espanha permanece sendo responsável em Ceuta e Melilla e no Saara Ocidental. Muitos outros colonialismos seguem vivos. O que nos indica encontrar lógicas coloniais nos megaprojetos de energia e mineração no interior da Europa? Que, ao final de tudo, nenhuma paisagem, nenhum território, nenhum povo estará a salvo diante desta demanda por crescimento capitalista. Será necessário colonizar todo o planeta. Existem hierarquias raciais, claro. Primeiro, começa-se com os povos indígenas, os povos afros e as periferias europeias. E, então, veremos o que resta.
A resistência social de moradores de países desenvolvidos é um obstáculo para um capitalismo acostumado a sujeitar comunidades historicamente subjugadas?
Celebro o surgimento na Espanha de plataformas e de moradores associados para defender o seu território com articulações que vão além das comarcas afetadas. É muito interessante o que está acontecendo. E considero que também é uma grande oportunidade para repensar os territórios historicamente sacrificados. Porque as energias renováveis vão se erguendo sobre outras lógicas de desmantelar os territórios, de esvaziá-los. Por isso, a proposta do livro é buscar articular todos esses processos, de visibilizar como as infraestruturas verdes estão despertando novos conflitos socioterritoriais.
É possível pensar em uma Espanha culpada pelo colonialismo de séculos anteriores, mas também vítima do atual colonialismo energético?
Isto é muito trabalhado pelo meu colega Javier García Fernández, um historiador andaluz. A Espanha é colonizadora e é colonizada. Teve o papel de colonizadora, mas agora está sofrendo com essas lógicas coloniais. Por isso, em meu livro, insisto muito em entender que a crise climática está muito vinculada ao colonialismo histórico. Se os países do norte não se livrarem desses colonialismos, não impugnarem e romperem com essas lógicas, continuarão replicando práticas que, em muitos casos, sofrerão na própria carne. A Espanha é hoje território sacrificável para a Europa.