“O desenvolvimento sustentável fragilizou a visão radical do ambientalismo”. Entrevista com Jorge Riechmann

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27 Julho 2023

O filósofo e ambientalista Jorge Riechmann garante que “quando há um horizonte de possível extinção humana, talvez seja o momento de os cientistas assumirem um papel social muito mais ativo”. Ele está suficientemente envolvido.

Em abril de 2022, ele participou de um protesto pacífico nas escadarias do Congresso dos Deputados, onde jogaram um líquido que simulava sangue. Era um dos 15 ativistas do coletivo Rebelião Científica que foram presos. Agora, como seus companheiros detidos, enfrenta possíveis penas de prisão.

Consciente da crítica situação climática, Riechmann considera que o avanço de paradigmas como o desenvolvimento sustentável, “uma forma de ‘capitalismo verde’ que não pode nos levar muito longe”, fragilizou as visões radicais do movimento ambientalista inicial. Por isso, considera que “fracassamos, embora isso não signifique que vamos desistir da luta”.

A entrevista é de Gorka Castillo, publicada por Naiz, 23-07-2023. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Do que você é acusado?

O Juiz de Instrução considera que há indícios de um crime por danos ao patrimônio histórico e estamos à espera da decisão da Promotoria. Será quando nós, os 15 membros do coletivo Rebelião Científica, saberemos se há uma acusação formal. O problema é que a resolução da Promotoria está demorando muito e isso sempre gera incerteza. Já vimos como a ultradireita judicial vai impondo uma corrente de fundo contra os protestos dos movimentos sociais.

Na Grã-Bretanha, dois ativistas climáticos foram condenados a 3 anos de prisão por uma ação não violenta. Na França, o governo Macron aprovou a dissolução da coalizão ambientalista “Les Soulèvements de la Terre”. Tornaram-se inimigos do Estado?

Em quase todo o mundo, estamos assistindo a um endurecimento da repressão e do controle. Não só em suas formas óbvias (Estados cada vez mais autoritários), mas também em um plano digital que é realmente preocupante. E ressalto o que tem de inquietante porque estamos normalizando um tipo de controle social, através da internet, que é incomparável com tudo o que existiu no passado e com o qual nenhum ditador jamais pôde sonhar. Testemunhamos uma crescente militarização, esse controle através da tela no mundo e reações cada vez mais repressivas, conforme vão se desenvolvendo novas formas de protesto, por exemplo, contra a mudança climática.

Parece que o ativismo social se tornou cada vez mais incômodo para as instituições do Estado. Qual é a sua opinião?

Essa inquietação é o resultado da existência de um certo déficit democrático. Quando as instituições têm a sensação de fragilidade, tendem a perceber qualquer tipo de contestação social como algo problemático. Se tivessem mais músculos democráticos, não teriam preocupação.

Há meio século, o movimento ambientalista propõe mudanças e denuncia violações ambientais que poucas vezes prosperaram. Considera que fracassou?

Penso que sim, mas com ponderações. Alguns dizem que analisado em uma perspectiva histórica, não é possível dizer que tenhamos fracassado, embora me pareça uma visão um tanto míope. A luta ambientalista dos anos 1970, por exemplo, combateu a poluição e não é possível dizer que tivemos êxito a esse respeito.

A verdade é que conseguimos vitórias importantes, como a contenção do programa nuclear, mas perdemos a guerra porque o sistema energético continua sendo completamente insustentável e seus efeitos pioraram (caos climático). E na questão da poluição, pode-se dizer o mesmo: a poluição continua, mas, hoje, nós a dissolvemos em espaços maiores.

Na Europa e nos Estados Unidos, quando vimos que era necessário mitigar as grandes emissões de enxofre produzidas pelas usinas termelétricas (que matavam as florestas pela chuva ácida), a primeira resposta foi levantar chaminés mais altas e introduzir dispositivos antipoluição sem mudar o essencial dos processos produtivos. Começamos com a Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, em 1962, e chegamos a outra primavera silenciosa com o uso de biocidas que está provocando a destruição das populações de aves e insetos em um nível chocante.

Por que alguns poderes políticos e econômicos menosprezam as contribuições do movimento ambientalista?

Porque quando o ambientalismo é consequente, questiona de forma radical o capitalismo. Nos anos 1970, isso era ainda mais claro. Os movimentos antinucleares, por exemplo, estabeleceram nitidamente o nexo entre o sistema e a matriz energética.

E não só isso. Também confrontaram suas bases normativas de forma mais profunda, como quando questionam o antropocentrismo. Contudo, nos anos 1980 e 1990, aquelas visões radicais começaram a perder peso com o avanço de paradigmas como o desenvolvimento sustentável, uma forma de 'capitalismo verde' que não pode nos levar muito longe.

Sente falta de um maior envolvimento da comunidade científica na luta contra a mudança climática?

Sem dúvida. Por um lado, porque estamos em um momento em que valores básicos da ciência, como a importância da verdade e o respeito à realidade, estão sendo questionados mais fortemente do que nunca. Isso deveria desafiar as e os cientistas. E, por outro lado, porque estamos em uma etapa histórica singular devido às ameaças que estamos enfrentando.

Quando há um horizonte de possível extinção humana, não no intervalo de milênios, mas de décadas, talvez seja o momento de os pesquisadores assumirem um papel social muito mais ativo. Tenho a sensação de que fomos perdendo essa gramática de protesto que uma sociedade viva incorpora.

Às vezes, fala-se de “ecofascismo” com pouca sutileza porque o termo parece uma contradição em si.

Sim, fala-se de ecofascismo quando se deveria falar de fascismo puro porque são reações autoritárias que ocorrem diante das crises encadeadas que estamos vivendo. E quando se tem consciência da sobrecarga do planeta, que fomos longe demais na exploração dos recursos e que não há mais o suficiente para todos, caso não ocorra uma mudança sistêmica, sua resposta é que há uma população sobrante e entram no campo das necropolíticas. Nos anos 1960 e 1970, na França, por exemplo, houve correntes minoritárias de extrema direita que assumiam que a crise ecológica era real, mas que deveria ser resolvida dessa forma.

Possui alguma esperança?

Cultivo o que chamo de esperança contrafática, pois a esperança é mais um fazer do que um ter ou um ser. Sem saber qual será o desfecho dessas lutas, não se deve parar de lutar. O que não sou é otimista, pois não tenho confiança de que, de repente, as coisas vão terminar bem. Portanto, cultivo uma esperança sem otimismo, para dizer como Terry Eagleton.

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