O que o futuro nos guarda? Artigo de Jerome Roos

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25 Abril 2023

“As soluções que buscamos hoje – sobre a paz mundial, a transição para energias limpas e a regulamentação da inteligência artificial – chegarão algum dia a constituir a base de uma nova ordem mundial. É impossível prever para onde esses acontecimentos nos levarão, é claro. A única coisa que sabemos é que nosso rito de passagem civilizacional nos abre uma porta para o futuro. Depende de nós cruzá-la”, escreve Jerome Ross, economista político, sociólogo e historiador da London School of Economics, em artigo publicado por The New York Times, 21-04-2023. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

“Há épocas tranquilas, que parecem conter o que durará para sempre. E há épocas de mudança, em que ocorrem convulsões que, em casos extremos, parecem alcançar as raízes da própria humanidade”, escreveu o filósofo Karl Jaspers.

A nossa é claramente uma época de convulsões. Enquanto a guerra causa estragos na Europa e o mundo calcula o custo da pandemia mais mortífera da memória recente, no planeta reina um funesto estado de ânimo. Após vários anos de agitação econômica, mal-estar social e instabilidade política, tem-se a sensação geral de que o mundo ficou à deriva, como um navio sem leme, em meio a uma terrível tormenta.

E com razão. A humanidade agora enfrenta uma confluência de desafios sem paralelos em sua história. A mudança climática está alterando rapidamente as condições de vida em nosso planeta. As tensões em torno da Ucrânia e de Taiwan reavivam o fantasma de um conflito entre superpotências nucleares. E o vertiginoso ritmo dos avanços na inteligência artificial está suscitando sérias preocupações sobre os riscos de uma calamidade mundial induzida por ela.

Essa situação inquietante exige novas perspectivas para dar sentido a um mundo que muda com rapidez e averiguar para onde podemos estar nos dirigindo. Em vez disso, apresentam-se a nós duas versões já conhecidas, mas muito diferentes, do futuro: uma narrativa catastrofista, que vê o apocalipse em todos os lugares, e uma narrativa sobre o progresso, que sustenta que este é o melhor dos mundos possíveis. Os dois pontos de vista são igualmente incisivos em suas afirmações e enganosos em suas análises. O certo é que nenhum de nós pode realmente saber para onde as coisas estão indo. A crise de nosso tempo deixou o futuro aberto.

Os catastrofistas, provavelmente, discordariam. Em seu ponto de vista, hoje, a humanidade se encontra nas vésperas de mudanças cataclísmicas que inevitavelmente culminarão no colapso da civilização moderna e no fim do mundo como o conhecemos. É uma opinião refletida no crescente número de preparacionistas, bunkers multimilionários e séries de televisão pós-apocalípticas. Embora possa ser tentador descartar esses fenômenos culturais como fundamentalmente indignos de serem levados a sério, refletem um aspecto importante do espírito da época, e revelam preocupações muitos enraizadas sobre a fragilidade da ordem existente.

Hoje, esses temores não podem mais ser circunscritos a um setor marginal de fanáticos armados e sobrevivencialistas. A incessante avalanche de crises sísmicas, tendo como pano de fundo inundações repentinas e incêndios florestais, tem empurrado o sentimento apocalíptico para o fluxo geral. Quando até mesmo o secretário-geral da Organização das Nações Unidas alerta que o aumento do nível do mar pode desencadear “um êxodo de proporções bíblicas”, é difícil se manter otimista sobre o estado do mundo. Uma pesquisa revelou que mais da metade dos adultos jovens acredita, hoje, que “a humanidade está condenada” e que “o futuro é aterrorizante”.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos, também ressurgiu um tipo de narrativa muito diferente. Exemplificada por uma série de livros best-sellers e palestras TED virais, esse ponto de vista tende a diminuir a importância dos desafios que temos diante de nós e, em seu lugar, insiste na inevitável marcha do progresso humano. Se os catastrofistas estão constantemente preocupados de que as coisas estão a ponto de piorar, os profetas do progresso sustentam que as coisas só melhoram, e que é provável que assim continue no futuro.

O cenário panglossiano que esses novos otimistas pintam, naturalmente, atrai os defensores do status quo. Se as coisas realmente caminham para o melhor, é óbvio que não é necessária uma mudança transformadora para enfrentar os problemas mais prementes de nosso tempo. Enquanto seguirmos o roteiro e mantivermos a fé nas qualidades redentoras do engenho humano e a inovação tecnológica, todos os nossos problemas acabarão se resolvendo sozinhos.

Essas duas posições parecem, à primeira vista, diametralmente opostas, mas, na realidade, são duas faces da mesma moeda. Em ambas se destaca um conjunto de tendências sobre outro. Os otimistas, por exemplo, costumam destacar estatísticas enganosas sobre a redução da pobreza como prova de que o mundo está se tornando um lugar melhor. Os pessimistas, ao contrário, tendem a ficar com as piores hipóteses sobre um colapso climático ou financeiro e apresentam essas possibilidades reais como fatos inevitáveis.

É fácil compreender a atração dessas narrativas enviesadas. Como seres humanos, preferimos impor uma narrativa clara e linear a uma realidade caótica e imprevisível. A ambiguidade e a contradição são muito mais difíceis de suportar. No entanto, essa ênfase seletiva dá lugar a explicações do mundo fundamentalmente viciadas. Para compreender de verdade a complexa natureza de nossa época atual, em primeiro lugar, precisamos aceitar seu aspecto atemorizante: seu caráter fundamentalmente indeterminado. É esta incerteza radical – não saber onde estamos, nem o que nos espera – que dá lugar a essa ansiedade existencial.

Os antropólogos têm uma palavra para esse tipo de experiência perturbadora: liminaridade. Parece muito técnico, mas capta um aspecto essencial da condição humana. Liminaridade - termo derivado de umbral em latim –, em sua origem, significava a desorientação que se sente durante um rito de passagem. Em um ritual tradicional em razão de se alcançar a maioridade, por exemplo, destaca-se o momento em que o adolescente não é mais considerado uma criança, mas também não é reconhecido como adulto: está no meio do caminho, nem aqui e nem lá. Pergunte a qualquer adolescente: viver nesse estado de suspensão pode ser muito desconcertante.

Estamos em meio a uma dolorosa transição, em uma espécie de interregno, como o chamou o teórico político italiano Antonio Gramsci: entre um velho mundo que agoniza e um novo que luta para nascer. Essas mudanças de era estão inevitavelmente repletas de perigos. No entanto, apesar de todo o seu potencial destrutivo, também estão cheios de possibilidades. Como observou certa vez Jacob Burckhardt, o historiador do século XIX, as grandes turbulências da história mundial podem ser vistas do mesmo modo “como autênticos sintomas de vitalidade” que “limpam a terra” de ideias desacreditadas e instituições decadentes. “A crise deve ser considerada um novo eixo de crescimento”, escreveu.

Uma vez que aceitamos esta natureza bifronte de nossa época, ao mesmo tempo aterrorizante e generativa, surge uma visão muito diferente do futuro. Não concebemos mais a história como uma linha reta que tende ou bem para cima, em direção a uma melhora gradual, ou bem para baixo, em direção a um inevitável colapso. Em vez disso, vemos fases de relativa calma salpicadas de vez em quando por períodos de grande agitação. Essas crises podem ser devastadoras, mas também são os motores da história. O progresso e a catástrofe, esses opostos binários, na realidade, estão unidos pela base. Juntos, participam de uma interminável dança de destruição criativa, sempre abrindo novos caminhos e entrando em espirais rumo ao desconhecido.

Nossa época de turbulências pode dar lugar a alguma catástrofe global, ou mesmo ao colapso da civilização moderna, mas também oferecer possibilidades para a mudança transformadora. Já podemos ver essas dinâmicas contraditórias ao nosso redor. Uma pandemia que matou milhares de pessoas e esteve a ponto de causar o colapso econômico também empoderou os trabalhadores e disparou o gasto público no desenvolvimento de vacinas, que em breve poderão nos oferecer uma cura para o câncer. Da mesma forma, uma grande guerra territorial europeia que arrancou milhares de pessoas de suas casas e desencadeou uma crise energética mundial está acelerando, inadvertidamente, a mudança para as energias renováveis, o que nos ajuda a combater a mudança climática.

As soluções que buscamos hoje – sobre a paz mundial, a transição para energias limpas e a regulamentação da inteligência artificial – chegarão algum dia a constituir a base de uma nova ordem mundial. É impossível prever para onde esses acontecimentos nos levarão, é claro. A única coisa que sabemos é que nosso rito de passagem civilizacional nos abre uma porta para o futuro. Depende de nós cruzá-la.

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