Lítio: a corrida pelo ouro branco da transição energética

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21 Julho 2023

O lítio, o metal com menor peso da tabela periódica, é o ouro branco da chamada transição verde. Possui a capacidade de conduzir calor e um alto potencial eletroquímico, condição necessária para o funcionamento das baterias elétricas. Tornou-se uma matéria-prima muito útil para produzir cátodos de baterias de veículos elétricos, para o armazenamento de energia renovável e para as baterias dos produtos eletrônicos de consumo, como telefones celulares e laptops.

A reportagem é de Elisenda Pallarés, publicada por La Marea-Climática, 20-07-2023. A tradução é do Cepat.

A descarbonização da economia, essencial para conter a crise climática, multiplica a demanda por minerais e terras raras estratégicos. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a demanda de lítio foi a que mais cresceu e que, em apenas duas décadas, irá se multiplicar por 42. A demanda de cobalto se multiplicará por 25, a de níquel por 19, a de manganês por 8 e a de terras raras por mais de 7.

O relatório La mina, la fábrica y la tienda, que acaba de ser publicado pelo Observatório da Dívida na Globalização (ODG) [com sede em Barcelona, Espanha], analisa as dinâmicas globais que garantem o aumento dessa mineração em diversos países do Sul Global, a fabricação de tecnologias para a transição energética e seu mercado para abastecer os países do Norte Global.

Atualmente, o Chile tem as maiores reservas reconhecidas de lítio e cobre, a China de terras raras e grafite, a República Democrática do Congo de cobalto e a Indonésia de níquel. A China tem uma posição dominante no mercado de tecnologias da transição energética e conseguiu mobilizar cerca de 80% do investimento mundial.

Países como a República Democrática do Congo, Moçambique, Peru, Gana e Indonésia se dedicam, maioritariamente, à extração de minerais e à sua comercialização com um refinamento/processamento básico. Outros países, como Chile, Bolívia, Argentina e Brasil extraem minérios e têm diferentes projetos para avançar na industrialização, mas esbarram em barreiras internas.

“Possuem um denominador comum: veem-se submetidos à dívida externa e a tratados de comércio e investimento que funcionam como instrumentos para reforçar sua subordinação”, aponta o ODG. Portanto, são empresas de outros países que atuam no território.

O ‘triângulo do lítio’

A região da tríplice fronteira entre Bolívia, Chile e Argentina possui salares e lagoas altoandinas que constituem importantes fontes minerais, principalmente de lítio, potássio e boro. Esta área é conhecida pelos investidores e financiadores de projetos extrativistas como o triângulo do lítio.

“Uma denominação colonial que exemplifica a desvalorização do território, a desnaturalização e a sua dessacralização, reduzindo tudo a um recurso de onde se obtêm receitas”, explica a publicação do ODG.

Durante trinta dias, a equipe do ODG visitou áreas de extração de lítio no Salar de Atacama, em Antofagasta (Chile), e de exploração para a mineração de lítio no Salar de Maricunga, na região de Atacama. Também visitou os novos projetos de hidrogênio verde, na costa da região de Antofagasta, a extração e processamento de cobre em Tierra Amarilla e Copiapó, localizados na região de Atacama, e a exploração e processamento de lítio na província de Catamarca (Argentina).

Lá, a equipe conheceu ativistas e defensores do meio ambiente que se organizam para enfrentar a ofensiva mineira e alertam sobre os perigos que ela pode representar para o meio ambiente e sua biodiversidade. “Esses salares são, sobretudo, ecossistemas únicos e ambientes naturais de grande complexidade e fragilidade, com uma alta presença de espécies endêmicas, que estão sendo afetadas pela extração de salmouras em que, depois, o lítio e outros elementos ficam concentrados”, destacam.

“Não é mineração de lítio, é mineração de água”

A extração de lítio de salmouras exige grandes quantidades de água em uma região que sofre um enorme estresse hídrico. Como acontece no Salar de Atacama, a região do planeta onde são registrados os mais baixos níveis de chuva, com médias que não ultrapassam 10 litros por metro quadrado ao ano. Apesar desta realidade, as empresas SQM e Albemarle produziram um total de 18.000 toneladas de metal de lítio no Salar de Atacama, com um consumo intensivo de água.

Segundo a Agência Internacional de Energia, calcula-se que, em média, sejam necessários 330.000 litros de água para produzir 1 tonelada de lítio a partir da salmoura. O processo é feito com o bombeamento da salmoura por meio de perfurações, sendo enviada para algumas piscinas de água doce, onde o líquido evapora e os sais ficam concentrados. Uma vez que a água evapora, o lítio se separa por precipitação de outros compostos como magnésio, cálcio, potássio e sódio.

Ativistas defensoras da água denunciam uma falta de transparência na gestão da água pelas empresas. A mineração monopoliza a água que a população precisa.

“Não é mineração de lítio, é mineração de água”, protesta Francisco Mondaca, da Associação Atacamenha de Irrigadores e Agricultores de Toconao e do Conselho dos Povos Atacamenhos.

Na comunidade localizada na parte sul do Salar de Atacama, seus agora 300 habitantes podem dispor de uma vazão de no máximo 4 litros por segundo, enquanto na frente deles estão extraindo mais de 2.000 litros de água por segundo para a extração de lítio.

O problema impacta a agricultura local. “Enquanto nas minas estão utilizando litros e mais litros de água por dia, eu tenho que esperar um mês para poder irrigar minha terra, por meio do sistema de irrigação que estipulamos, que é um dos únicos com a gestão comunitária”, denuncia Karen Luza, moradora de San Pedro de Atacama e ativista em defesa da água.

O relatório do ODG também aponta que a mineração representa uma ameaça para o emergente setor de turismo sustentável: “O projeto não tem uma longa trajetória, não há muitas pesquisas feitas sobre hidrologia, nem se sabe como vai se comportar ou como vai reagir. Não podem nos garantir que não causará danos às bacias hidrográficas, na fauna, especialmente nas chinchilas e vicunhas, e na paisagem”, manifesta Carlos Pizarro, ativista e guia turístico em Copiapó, Chile.

Definitivamente, os impactos ambientais e sociais da atividade extrativa de minerais são agravados pelo aumento da demanda que está sendo gerada pela transição verde. Isso afeta as “zonas de sacrifício”, como o deserto de Atacama, a região de Antofagasta e Catamarca, onde o neocolonialismo se impôs.

Regiões que a pesquisadora Maristella Svampa define como “territórios que vivem a radicalização de uma situação de injustiça ambiental, onde a produção do espaço e as lógicas de controle territorial dominante não contemplam a satisfação das necessidades sociais e econômicas da população e a sustentabilidade ambiental dos territórios”.

Alternativas: acelerar outras transições

A publicação do ODG também propõe medidas para reduzir o impacto ambiental e a falta de justiça social da transição energética. “Devemos questionar o sentido de urgência que faz com que as grandes corporações sejam as que melhor podem enfrentar tal desafio. Claro, há necessidade de aceleração, mas do nosso ponto de vista, de outros tipos de transições”, aponta.

O ODG considera que é necessário diminuir a demanda por tecnologias no norte global. Cita o relatório Meta de emissões zero com maior mobilidade e menor exploração mineira, do think tank Climate and Community Project, que propõe elaborar três políticas para conter a demanda de lítio, nos Estados Unidos, até 2050: diminuir a quantidade de veículos particulares, reduzir o tamanho das baterias dos veículos elétricos e aumentar a reciclagem. Esta análise conclui que os Estados Unidos podem alcançar um modelo de mobilidade de zero emissões e, ao mesmo tempo, limitar em mais de 85% a quantidade de lítio necessária proveniente da extração primária.

Outro elemento que visa reduzir a demanda por mineração primária é a mineração urbana ou secundária, ou seja, a reciclagem de materiais que já fazem parte das tecnologias que utilizamos e descartamos para a fabricação de novas tecnologias. Atualmente, a reciclagem de terras raras e de lítio é praticamente inexistente na União Europeia.

Para acelerar a redução da demanda, destaca-se que é necessário um “verdadeiro planejamento industrial público que vá além das políticas de estímulos financeiros e garantias para as grandes empresas, como os fundos NGEU, o Plano Industrial do Pacto Verde e o IRA”.

“O planejamento deve estar vinculado a orçamentos de carbono que sejam determinados levando em consideração a emergência climática, mas também a crise da biodiversidade e o esgotamento de recursos, quais setores industriais devem decrescer e ser redimensionados, e quais devem liderar a transição”.

No ODG, pedem a aceleração de uma transição mais justa em que os empregos que a transição energética gerar sejam distribuídos. Além disso, defendem que a dívida externa dos países empobrecidos deve ser cancelada “por ser ilegítima, insustentável e irrisória em comparação com a dívida ecológica”. Por fim, consideram que os tratados de comércio e investimento devem ser suspensos para favorecer “maior autonomia das soberanias nacionais e populares”.

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