A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do Domingo de Pentecostes, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de João 20,19-23.
“Veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam” (At 2,2).
A festa de Pentecostes está situada no contexto da Páscoa; mais ainda, é a culminação de todo o tempo pascal. A primitiva comunidade cristã sentiu que tudo o que estava acontecendo com ela era obra do Espírito. Tudo o que o Espírito tinha realizado em Jesus, estava agora realizando na comunidade e em cada um dos seus seguidores.
Assim nos recorda o evangelho deste dia: a comunidade dos discípulos se encontrava desconcertada, temerosa e insegura, depois da morte de Jesus: numa casa com as portas fechadas. É nesse ambiente pesado que o Ressuscitado se faz presente, “sopra” o dom do seu Espírito. Trata-se do Paráclito, prometido por Jesus, que se revela como “Restaurador de sonhos”, “gerador de resistências”, “mobilizador de vidas” ...
Provavelmente, também nós hoje podemos experimentar algo similar. A impotência, o medo, o desconcerto e a incerteza nos atravessam, tanto no nível pessoal como comunitário, situados no contexto global de um mundo violento, em guerra contra a vida. São outras tantas feridas abertas, presentes em nosso contexto, que é preciso deixar o Espírito Sanador transitar por elas, pacificando-as, curando-as... Ele se manifesta como a pequena brasa que se oculta no rescaldo da destruição. A chuva apaga a chama, o vento dissipa a fumaça, mas debaixo de tudo continua presente uma brasa acesa, inextinguível. O Espírito é Aquele que sustenta o frágil alento de vida no império da morte.
Também para cada um de nós, celebrar Pentecostes significa descobrir a presença do Deus-Espírito em nosso interior e deixá-lo reacender a chama escondida nos escombros das feridas, dos fracassos, das dores... Pentecostes permanente significa abrir nossa casa interior e deixar que o Espírito circule livremente, despertando o melhor em cada um de nós.
Inicialmente, para o povo judeu, Pentecostes era uma festa para dar graças a Deus pela colheita, ou seja, pela Vida. Podemos dar graças pelo Espírito que nos habita sempre, tomar consciência de sua presença e de sua ação contínua em nossas vidas. O Espírito animou e orientou sempre a vida de Jesus de Nazaré: sua entrega aos outros, seu anúncio de uma sociedade diferente e fraterna, seus chamados ao amor...
Quando Jesus sentiu que a hora de sua morte se aproximava, convidou seus amigos e amigas a receberem o Espírito que Ele lhes enviava com uma nova força. Esse Espírito que já os habitava, devia fazer-se forte neles e orientar-lhes a vida em ausência física de seu Mestre e suas palavras.
Os discípulos, angustiados pela dor, sentiram, alguns dias depois em meio ao luto, que essa presença de Luz, de Calor e de Vida lhes fazia arder seus corações e os chamava a uma nova missão: levar a mensagem evangélica a todos os rincões da terra.
A celebração de Pentecostes não pode se reduzir a um simples ritual, uma noite de tochas, velas, cantos. Este ritual só adquire todo seu sentido na medida em que ilumina nossa vida diária, nossas relações, projetos e decisões. Por isso, o tempo de Pentecostes é um convite a abrir espaço em nossas vivências e atitudes à Energia divina: o Espírito que nos chama à unidade, que nos convida ao amor, que nos motiva à entrega. É necessário deixar Pentecostes acontecer todos os dias, em cada momento, diante de cada decisão.
Esse Espírito se revela como Sabedoria que deve sempre acompanhar nossas pequenas ou grandes opções de vida, tornando-as mais oblativas, descentradas e comprometidas com a transformação da realidade. Mas, a sabedoria só pode chegar aos corações que albergam a humildade, a busca, o desejo permanente de alcançar novas metas e buscar novas sendas. O Espírito não deixa ouvir sua voz em meio ao consumismo, aos ruídos, às buscas de satisfações periféricas... A Sabedoria de Deus, sua Energia e Vento, nos fala no silêncio, na pergunta que cada situação nos faz, em meio à compaixão e às entranhas de misericórdia.
Dar graças ao Espírito por sua presença inspiradora e provocativa em nós, é assumir a vida a partir de seus critérios: buscar a profundidade de nós mesmos, trabalhar em prol da unidade essencial que torna mais humanos, construir projetos de irmandade universal, de acolhida e encontro, fazer do ágape nosso horizonte último... Pentecostes só pode ser uma festa na Assembleia cristã se essa mesma assembleia busca atualizar em suas rotas as palavras e os atos do Mestre Jesus da Galileia. E isto em meio a um mundo que destrói a Casa Comum, que explora os mais pobres, que alimenta guerras que destroem massivamente, um mundo que se move por entre as violências, ódios, mentiras, intolerâncias...
A assembleia cristã só pode celebrar Pentecostes quando a Vida de todo ser sobre a terra passa a ser o centro de suas preocupações e práticas diárias.
Sem o Espírito de Jesus, a Igreja é barro sem vida: uma comunidade incapaz de introduzir esperança, consolo e vida no mundo. Ela pode pronunciar palavras sublimas sem comunicar o alento de Deus aos corações; pode falar com segurança e firmeza sem alimentar a fé das pessoas. De onde vai tirar esperança se não é do alento de Jesus? Como vai defender-se da morte sem o Espírito do Ressuscitado?
Sem o Espírito criador de Jesus podemos acabar vivendo em uma Igreja que se fecha a toda renovação, não consegue sonhar grandes causas, atrofia-se numa liturgia estéril e repetitiva; sem o Espírito, o mais seguro é viver uma religião estática e controlada, que mude o menos possível; o que é recebido de outros tempos, petrifica-se e adquire valor perene; as novas gerações acabam celebrando sua fé vacilante com a linguagem e os ritos de outrora; os caminhos já estão demarcados antecipadamente e mata-se a possibilidade do novo.
No final de seu evangelho, João descreve uma cena inspiradora, no momento do encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado. Segundo seu relato, o nascimento da Igreja é uma “nova criação”. Ao enviar seus discípulos, Jesus “sopra seu alento sobre eles e lhes diz: recebei o Espírito Santo”.
E esse Espírito “soprado” pelo Ressuscitado atua em nós e através de nós. Somos chamados a viver em contínuo Pentecostes. Alguns sinais de sua presença insinuante e inspiradora: quando alguém cai e é capaz de levantar-se; quando os excluídos sentem o renascer da esperança; quando o perdão tem a última palavra; quando o solitário encontra alguém que o escute; Ele se visibiliza no amor oblativo que não exige nada em troca; revela-se presente em meio à amizade, a alegria e o prazer de estar com os outros; deixa-se “ver” quando calam as palavras e falam os abraços; sorri quando deixamos ir embora o rancor e as velhas feridas; é mestre que nos ensina a acolher-nos como frágeis e limitados; é nosso apoio em meio ao medo e ao conflito; é fortaleza quando nos levantamos contra a injustiça...
O Espírito do Ressuscitado não é patrimônio de nenhuma religião; Ele está para além de toda religião, e continuará soprando, animando a vida o infundindo espiritualidade mesmo depois que todas as religiões, com suas crenças e doutrinas, ritos e normas, hierarquias e instituições, desaparecerem.
O Espírito não é confessional, não está ligado a nenhuma instituição religiosa, e menos ainda a nenhum privilégio de algum grupo religioso. O Espírito exige que as religiões abandonem suas pretensões de verdade, de poder e de domínio. Não há mais verdade nem mais bondade dentro que fora das religiões; não há mais bem-aventuranças de Jesus dentro que fora das igrejas cristãs.
Torrentes de novos carismas emergem por todos os poros da humanidade; é o mesmo Espírito que os desperta, que está por detrás de cada um deles, fazendo com que não sejam abortados, mas que sejam cuidados, alimentados, até florescer totalmente.
O Espírito é o mesmo em tudo e em todos, e nos impulsiona para a mesma meta. Uma maior humanização será a manifestação de sua presença; o maior compromisso com os demais é a melhor prova de que alguém está se deixando conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus.
- Viva a energia divina de Pentecostes ao longo deste ano; não apague a brasa interior com complexos, medos, resistências, petrificações, sentimentos doentios...
- Abra portas e janelas de seu interior, para que a “Ruah” de Deus circule livremente, trazendo um novo alento, despertando nova criatividade, rompendo com o rotineiro, ampliando mente e coração...