Da Cruz da Ponte Milvia, à Cruz Missioneira. Artigo de Egydio Schwade

Ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo em São Miguel das Missões, Rio Grande do Sul. Imagem destaca a Cruz Missioneira. (Foto: Fernando Gomes/Wikimedia Commons)

04 Agosto 2026

"Bem diferente se contaria a história das Américas hoje, se este modelo Guarani-jesuítas não tivesse sido interrompido. Um modelo que defende os povos, garantindo-lhes terra e comida em abundância, progresso científico sob a égide de um paradigma construído ao longo de milênios por decisões coletivas em confronto com o sistema colonial, individualista, genocida e depredador da natureza e da cultura dos povos."

O artigo é de Egydio Schwade, filósofo, teólogo, indigenista e ativista social brasileiro, membro-fundador do Conselho Indigenista Missionário — Cimi

Eis o artigo.

Completei 91 anos. Durante meu curso de Filosofia na Unisinos, em São Leopoldo/RS, 1960-62, entrei em contato com as Reduções Jesuíticas: a República Comunista dos Guarani.

Nas horas vagas do curso de Filosofia, ajudei o historiador P. Arnaldo Bruxel, SJ, a organizar um grande acervo de documentos sobre os 30 povos Guarani que ele microfilmou nos arquivos de Buenos Aires, Évora e Ultramarino de Portugal e Monumenta Jesuítica de Roma. Acabara de voltar desse trabalho, quando foi diagnosticado com câncer. Vendo-o aflito, ante a possível perda do seu acervo, prontifiquei-me a ajudá-lo na organização da obra, enrolando e arquivando os microfilmes. Assim, conheci bastante a história da presença dos missionários jesuítas junto aos 30 povos Guarani.

Poucos dias antes de minha partida para a Amazônia mato-grossense, outro historiador, o P. Luiz Gonzaga Jaeger, SJ, me passou uma pasta com documentos inéditos dos aldeamentos da Amazônia do período em que os irmãos Pombal expulsaram os jesuítas da Amazônia, mesmo período do fim da República Comunista dos Guarani, ou seja, meados do século XVIII.

Considero o conhecimento da história dos povos originários deste período uma tarefa fundamental hoje. E não só do povo Guarani, mas de todos os povos indígenas remanescentes das Américas e do seu relacionamento com os não indígenas: aliados e inimigos. Trabalho que minha falecida esposa Doroti e eu objetivamos aqui, quando criamos a Casa da Cultura do Urubui (CACUI), rumo à história do povo Kiñá, conhecido como Waimiri-Atroari.

Ao longo dos meus estudos e vivências indigenistas, me veio a pergunta: Por que este ódio mortal se voltou apenas contra as Missões Jesuíticas e não contra as missões de outras ordens religiosas do século XVIII? Pois não foram extinguidas apenas as Reduções dos 30 Povos Guarani, mas todas as Missões Jesuíticas junto aos povos nativos naquele meado do século XVIII, mundo afora, até na Índia e na China.

Estudando a Cruz como símbolo em três momentos da história, se abre um caminho para entender o ódio do Estado contra o modelo da missão jesuítica:

1º: A cruz do calvário

Refere-se à cruz do homem de Nazaré: Jesus Cristo. Quando jovem, ele deixou a família e foi pregar a Boa Nova do Reino de Deus. Rompeu privilégios, status, ricos, dinheiro, poderosos e aprendia com os marginalizados, como fez ao defrontar-se com a humilde Cananéia. E, afinal, encenou o seu programa vestido de avental e, ajoelhado, lava os pés dos próximos. Esta atitude e solidariedade para com os humildes, incomodou a consciência dos poderosos do Estado e das instituições. Por isso, o pregaram na Cruz no Calvário.

Durante 300 anos, o povo com seus sábios orientadores, procurou seguir por este caminho “às apalpadelas”, como diz Paulo. Todos servindo os necessitados com os recursos oferecidos pela Mãe Terra. Eram todos ‘comunistas’, pois “dividiam os seus bens com alegria e entre eles não havia necessitados”. E eram ‘pagãos’, gente que vivia e sobrevivia da terra. E celebravam o Deus Escondido, nas casas de amigos/as ou fora da vista do Estado. No fundo da Mãe Terra, nas ‘catacumbas’. Visitei uma catacumba nas proximidades de Roma. Tinha 16 metros de profundidade.

2ª: A cruz da Ponte Milvia 

No ano de 312, o imperador romano Constantino Magno, vendo-se rodeado, sufocado e dependente dos cristãos, num momento decisivo de suas guerras, antes da Batalha da Ponte Milvia, no rio Tibre contra Maxêncio, então imperador de Roma, apelou: afirmou ter visto, antes da batalha, uma cruz com esta inscrição: “In hoc signo vinces! = Com este sinal vencerás!”

A chantagem se espalhou pelo Império e foi aproximando as lideranças cristãs do Poder, substituindo a cruz do Calvário pela cruz de guerra do imperador romano. E, como consequência, adotando os hábitos do Estado opressor. E isto foi ratificado durante o Concílio de Nicéia em 325, onde 320 bispos perfilaram no Palácio Real sob as continências das tropas do imperador, e sentaram-se na mesa à direita e à esquerda do imperador, servidos com cálices e patenas de ouro. E para acalmar as consciências frente ao Cristo do Calvário, sentaram Jesus no céu “à direita do Pai”.

No ano seguinte, o imperador, para festejar seus 20 anos de poder, ordenou a construção das primeiras três basílicas: São Pedro, Belém e Tréveris, substituindo o local das reuniões que se faziam nas catacumbas, nas casas de família e nos centros populares, por esta concorrência de monumentos rumo ao alto: São Pedro, Notre Dame, Aparecida, o Templo de Salomão/SP, homenagens para celebrar o poder da cristandade.

E foi assim que os líderes cristãos encalharam nas malhas do poder dos Estados, substituindo o avental pelo báculo, pela mitra-tiara, pelas vestes romanas e finalmente pelo brilho e concorrência de lindos templos, frequentes vezes, construídos por mãos de escravos.

E a cruz de guerra foi avançando e esmagando povos. Vieram as Cruzadas, glorificando as “proezas” do Imperador Barba-Roxa, aniquilando povos no Oriente Médio, inclusive o povo palestino do Jesus de Nazaré. Em seguida, vieram as Grandes Navegações, impondo a cruz da guerra, sobre os povos mundo afora, destruindo os seus valores culturais e aniquilando-os. Aqui nas Américas se confrontaram com povos que viviam em comunidade, como irmãos, “tendo tudo em comum e dividindo os seus bens com alegria”. Um modelo muito parecido daquele pregado por Jesus e vivido pelos primeiros cristãos. Mas impuseram a cruz da guerra, o modelo cruel do Estado Romano. E, abrindo a TV hoje, escutando os discursos Netanyahu-Trump, a semelhança de linguagem fica evidente entre o discurso e a prática dos chefes de Estado de ontem e de hoje, das Cruzadas da Idade Média ao genocídio do povo de Gaza e Líbano.

O primeiro ciclo jesuítico

Houve dois ciclos bem distintos nas Missões Jesuíticas:

O 1º, sob a égide da lei criada no Tratado de Tordesilhas em 7 de junho de 1494, que divide a América entre os europeus, sem considerar a existência dos povos originários. Lei aceita por todos os chegantes, inclusive pelos missionários Roque, Afonso, João, Anchieta... modelo praticado em todas as missões da época nas Américas. E, na maioria ainda ao tempo da expulsão dos jesuítas. Todas inseridas no modelo colonial, ocupadas em integrar os povos indígenas à cruz da cristandade como a concebiam os Estados cristãos invasores, ou seja, a “integração nacional”. E como os Estados o concebem até hoje. Neste modelo, o missionário e funcionário são servidores do Estado, buscando integrar os povos nativos e suas terras ao projeto colonizador. E esta integração passa pela desintegração do povo.

Os missionários, jesuítas ou não, deste período, pregavam a cruz da guerra, doutrinando os indígenas para apoiarem o projeto colonial, como fizeram por ocasião do massacre de Mem de Sá dos Tupininquim. Massacre tristemente homenageado pelo nome de uma capital de Estado brasileiro. E aqui no Amazonas não foi diferente. Assim, por exemplo, em 1657, os padres jesuítas Francisco Velloso e Manoel Pires estabeleceram “boas relações com os Tarumás”. Conseguiram “reuni-los em missão perto da boca do Rio Tarumá”, hoje Manaus. O sucesso dos missionários foi notícia em toda a colônia portuguesa porque “frutificando, rendeu seiscentos captivos e descidos”, os quais foram levados para o Pará e distribuídos aos colonos portugueses. (Neto, Carlos Moreira, “Informações sobre os Índios Waimiri/Atroari”. – 1975)

3ª: A cruz missioneira

Tudo indica que os jesuítas, no início do século XVIII, avaliaram a sua prática de séculos anteriores, inserida nas guerras dos Estados, sob a cruz de guerra, concluindo que a sua ação missionária contribuía para o extermínio dos povos. E silenciosamente iniciaram mudanças no seu método. E no caso Guarani, mudaram até o símbolo, colocando sobre a cruz do Calvário, mais uma cruz para representar o genocídio dos povos indígenas, evitando confundi-la com a equivocada cruz guerreira da Ponte Milvia. Criaram a Cruz Missionária.

Penso que Guaranis e jesuítas, olhando a realidade sob estas duas óticas, analisaram e qualificaram os acontecimentos e seus protagonistas indígenas e invasores segundo seus resultados. E a saída que encontraram foi criar este novo símbolo: a Cruz Missioneira. E estes jesuítas passaram a lutar ao lado do povo Guarani, rompendo com o modelo "integração-colonização". Juntaram-se na luta pela terra e pela autonomia do povo Guarani.

Analisando os documentos internos da época, respira-se uma sintonia entre ambos, avançando sob o protagonista Guarani. Lembro que, quando perguntei ao historiador Arnaldo Bruxel, SJ, sobre como conceituar o modelo das Reduções dos 30 povos Guarani, ele resumia numa só palavra: COMUNISTA.

O meu Trabalho de Conclusão do Curso (TCC) de Filosofia, junto com 3 colegas, versou sobre este tema: A PROPRIEDADE NOS 30 POVOS GUARANI. Ali destacamos este modelo Guarani e as discussões, que à época corriam mundo afora, em torno da questão do modelo da sociedade indígena. Como, por exemplo, a Utopia, obra do ministro inglês Thomaz Morus que defendia um paradigma de vida baseado na vida dos povos indígenas. Ministro que acabou na forca. Os jesuítas participavam dessas discussões e começaram a apoiar e se integrar à vivência diária dos povos nativos.

A discussão sobre novos modelos de organização da humanidade com certeza ocorria também nas universidades surgentes, onde os intelectuais jesuítas foram presença decisiva. E nas discussões no meio intelectual apareciam também, como hoje, os reacionários, os trumpistas-bolsonaristas que à época eram os maçons, com ampla presença e influência no poder dos Estados. E foi possivelmente para atender a esta ala do poder que o chefe do Estado do Vaticano extinguiu a Ordem Jesuítica.

Consta que, nos seus inícios, os jesuítas sugeriam aos Guarani a introdução do Apambaé, ou seja, a propriedade privada, mas este modelo capitalista não prosperou. Os Guarani mantiveram o Tupambaé, a propriedade comunitária ou de Deus, que acabou sendo apoiada pelos missionários. O território Guarani neste período jesuítico foi até ampliado com a retomada de terras já em mãos de europeus. Assim, p. ex., os Guarani reconquistaram com a pata do boi, no Rio Grande do Sul, os campos de São Francisco de Paula, onde instalaram uma fazenda de um milhão de cabeças de gado, em um só ano.

Na mudança de paradigma, os jesuítas procuraram se aproximar e encarnar na realidade desses povos e conhecer e vivenciar nas aldeias o sofrimento, os seus valores... Muito diferente das demais práticas missionárias nos Estados coloniais que doutrinavam nos internados, facilitando o saque, a exploração e a escravização dos povos nativos.

E iniciaram um novo modelo de missão. Não se limitaram à catequese, mas deram um novo rumo à Boa Nova: fortaleceram os seus valores, incentivaram o modelo comunitário indígena, entraram na luta pela garantia da terra e introduziram ciências e artes que fortaleceram o povo indígena frente aos invasores, o que não agradou a estes. Por isso foram odiados, sofrendo calúnias e finalmente a expulsão e extinção da Ordem.

O modelo introduzido trouxe um notável e inegável sucesso à vida desses povos, superando o nível de vida dos colonos das vilas e cidades coloniais da época. E, por respeitarem o seu modelo econômico da vida comunista, as melhorias que introduziram em termos de ciência e tecnologia desenvolveram rapidamente as comunidades.

As reduções alcançaram em seu conjunto um nível econômico e cultural alto, tornando-as autônomas com o evidente apoio e incentivo da Companhia de Jesus. Mas, no campo em que mais se evidenciaram e causaram inveja aos governos dos Estados coloniais, foi nas ciências. Nas Missões Jesuíticas, a alfabetização alcançou um grau superior aos centros coloniais da época: Buenos Aires, Rio de Janeiro e Salvador.

E, ao contrário dos governos e das demais missões da época, os missionários jesuítas incentivaram o cultivo das línguas nativas. Foram grandes linguistas. Foram os primeiros autores de gramáticas e dicionários em vernáculo e bilíngue e de produção de obras literárias. Em 1700, criaram a primeira gráfica da Argentina, na redução Guarani de Loreto. E o Guarani Juan Yapai, em 1705, imprimiu ali o primeiro livro daquele país e talvez da América.

Além desta, outras obras foram impressas, como calendários, tabelas de astronomia e partituras. Todas as reduções dos 30 povos também já possuíam a sua biblioteca. Assim, a redução de Loreto contava com mais de trezentos livros, a de Corpus Christi, em torno de quatrocentos e a de Candelária, sem dúvida, a maior biblioteca das Américas de então, com 4.724 volumes.

O povo Guarani já tinha um observatório de astronomia

O modelo pedagógico comunista Guarani-jesuítas dava atenção especial à educação das crianças, consideradas o bem maior da terra. Elas aprendiam com mais facilidade e podiam transmitir o conhecimento aos adultos e, mais tarde, ensinar as outras gerações. E nas escolas se dava especial atenção à promoção das capacidades e talentos individuais.

Vendo o mal que as bebidas alcoólicas, em especial, o rum traziam às comunidades, os jesuítas ajudaram a controlar a sua entrada nas Reduções e incentivaram o chimarrão, adotado até hoje, na maioria dos lares indígenas e não-indígenas da região e até fora da área missioneira.

Entre os benefícios trazidos do exterior podíamos relacionar muitas frutíferas e plantas medicinais. Algumas trazidas das missões de povos do Oriente, da Ásia, como a canela e o jambo vermelho, hoje comum em toda a Amazônia.

Poucos historiadores reconhecem este 2º momento ocorrido nas Missões Jesuíticas do século XVIII. É custoso localizar os documentos, que à época foram abafados. Por isso, a maioria prefere o mais fácil: ignorá-los e ater-se apenas aos documentos oficiais da época, mantendo oculto este 2º e importante ciclo para não ferir os Estados colonizadores da cristandade. A ação em favor dos povos originários põe em perigo o modelo dos Estados coloniais e foi esta a causa que motivou a extinção das Missões Jesuíticas e a extinção da Ordem pelo Vaticano.

Ao longo da história colonial, muitas pessoas denunciaram os crimes dos invasores, heróis como Bartolomeu de Las Casas, Antônio Vieira. Este chegou a declinar o verbo “rapio” na cara do Rei de Portugal para que o Rei tomasse providências contra a rapinagem portuguesa praticada contra os povos indígenas no Brasil. Mas estas ações individuais nada mudaram. Caíam no vazio, sendo absorvidas pelo tempo, ou glorificados como os tuxauas mortos.

Mas como o modelo indígena-jesuítico se ancorou nos modelos enraizados e vividos há milênios pelos povos neste chão, em paradigmas sociais sólidos, ameaçou o modelo mercantil invasor.

Há, com certeza, ressalvas a fazer quanto à pregação da doutrina cristã pelos missionários. Mas não podemos ignorar que neste tempo ainda não tivemos um Concílio Vaticano II. E questionar o Concílio de Nicéia não era fácil. Tiveram que introduzir as novidades transformadoras no silêncio, e, por vezes, na clandestinidade, incompreendidos até pelos próprios companheiros jesuítas que atuavam em internatos e colégios nos centros urbanos.

A construção dos grandes templos cristãos, para homenagear o ‘deus’ poder, seguia o modelo herdado do imperador romano Constantino Magno. Modelo que continua até hoje na cabeça de todo o poder estatal. Não só nos Estados cristãos e muçulmanos, mas também nos Estados que se autoafirmam laicos. É só contemplar a Esplanada dos Três Poderes. Alguma diferença com os monumentos e símbolos que endeusavam o poder de Roma?

Mas, no caso Guarani, não faltou a pregação da Boa Nova viva, no dia a dia. Dos missionários, lado a lado na luta pela garantia da terra, pela vida em abundância e pelo enriquecimento no saber. Mas particularmente pela corajosa atitude de defesa das comunidades frente às invasões dos colonos, em especial, dos bandeirantes. Foi uma novidade introduzida pelos jesuítas deste período, abrindo caminho com os povos originários para um modelo coletivo de organização da humanidade.

No início, quando as Reduções do Guaira, oeste do Paraná, foram atacadas pelos bandeirantes, os jesuítas se limitaram a ajudar os Guarani a se deslocarem com seus pertences móveis, pelo Rio Paraná para o Sul. Já num segundo ataque, já às Reduções do Tape, dos 7 povos no Rio Grande do Sul, o Provincial dos Jesuítas, P. Diego Alfaro morreu na batalha de Caaçapava-açu, ao lado dos Guarani, e três missionários seguiram no rastro dos prisioneiros até o Planalto de Itapetininga, para reclamarem junto a seus companheiros jesuítas de Itapetininga e Rio de Janeiro e das autoridades coloniais portuguesas providências contra os criminosos, cujos filhos estudavam em colégios da Companhia de Jesus.

Mas nem sequer foram acolhidos pelos irmãos de Ordem, temerosos por represálias. Talvez até nem somente por temor dos pais de seus alunos, mas até por este Ecce Homo, pela aparência de companheiros que andaram mais de um mês sem poder trocar de roupa. Imagino se o Ir. Vicente Cañas, com trajes de Enauenê Nawê, ou o Thomaz Lisboa, em trajes de Myky, aparecessem no Colégio São Luiz de São Paulo!!!

Embarcaram então para Roma, a fim de pedir socorro ao Papa. Este lhes concedeu uma bula condenando os criminosos. Mas, de volta mais uma vez, os seus irmãos de Ordem, do Rio e São Paulo, ao invés de apoiá-los, os reprimiram, mesmo com bula papal na mão.

Voltaram então às Reduções e ajudaram a reconstruí-las. Mas agora tomando providências mais enérgicas. Ajudaram os Guarani a se armarem melhor para enfrentarem os bandeirantes. Três irmãos jesuítas, João Cárdenas, Antonio Bernal e Domingos Torres, um deles ex-oficial do exército espanhol, os ensinaram e ajudaram a fabricar armas de longo alcance, como catapultas que arremessavam troncos em chamas e fabricaram canhões de bambu, recobertos com couro que aguentavam até 4 tiros. Armas que foram essenciais na vitória Guarani sobre os bandeirantes em Mbororé, batalha que durou 5 dias, a mais longa batalha naval das Américas. Com decisiva participação dos missionários jesuítas de todos os 30 povos.

A historiografia hegemônica ignora esses fatos. Os nomes dos missionários que lutaram ao lado dos indígenas, raramente são citados. Como os 3 destemidos Irmãos e até o nome do Provincial da Ordem, P. Diego Alfaro, morto lutando ao lado dos Guarani, na batalha de Caaçapava-açu contra os criminosos bandeirantes, é pouco lembrado. É preciso reconhecer: os povos indígenas tiveram e têm aliados não-indígenas.

E não foi apenas nas Reduções junto ao povo Guarani, que missionários jesuítas do século XVIII se envolveram na luta pela garantia dos direitos e bem-viver dos povos nativos. Também na Amazônia criaram a 1ª. Imprensa do Brasil. E foi no aldeamento de Ipameri, hoje Pombal, no rio Xingu. Foi ali, que funcionou a 1ª imprensa em solo brasileiro, muito antes que no Rio de Janeiro.

Nas demais Missões Jesuíticas do continente e mundo afora, tiveram experiências transformadoras semelhantes: assim em July, no Peru, na Califórnia e junto aos iroqueses nos Grandes Lagos. Até na Ásia, os jesuítas insistiam naquele período que a Igreja Católica respeitasse os ritos dos povos do Oriente. E nesta luta se tornaram notáveis os PP. Ricci na China e Di Nobili, na Índia. Houve até a época jesuíta menos pretencioso, como o austríaco P. Gruber, que passou grande parte de sua vida peregrinando entre os povos de sua terra natal, a Áustria, e a China para vivenciar os seus valores e costumes.

Do Sul ao Norte da América, onde quer que houvesse uma missão jesuítica, em meados do século XVIII, o povo indígena sentia o missionário como aliado na defesa da sua terra. Lenin cita a experiência dos jesuítas junto aos iroqueses como um bem sucedido exemplo comunista precursor? E neste período são raros os posicionamentos contrários aos seus missionários jesuítas. E santo também erra. Sob protestos dos indígenas da Califórnia, no dia 23 de setembro de 1915, o Papa Francisco canonizou o P. Junípero Serra, missionário franciscano que tomou conta da Missão dos Jesuítas, após a expulsão destes, junto aos povos da Califórnia. E, segundo consta o P. Junípero mudou o modelo jesuíta, sintonizando-o com o modelo dos Estados invasores, americano e mexicano, sendo por isso celebrado como herói tanto pelo Estado mexicano, como pelos Estados Unidos, onde tem até um memorial em Washington. Enquanto a história silencia o trabalho dos jesuítas junto aos indígenas da Califórnia e de seus protagonistas expulsos pelos Estados da cristandade.

A perseguição contra as missões dos jesuítas começou aqui na Amazônia contra os aldeamentos pelo Ministro de Portugal, o déspota Marquês de Pombal, que emitiu um diretório para ser observado nos aldeamentos indígenas do Pará e Maranhão e expulsou os jesuítas. Este fato ditatorial prejudicou os povos indígenas da Amazônia, que mais tarde reagiram apoiando firmemente a Guerra dos Cabanos. Como refere o indigenista e pesquisador Carlos Moreira Neto. Veja o que diz sobre os efeitos do Diretório Pombalino:

"Um claro instrumento de intervenção e submissão das comunidades indígenas aos interesses do sistema colonial. Nesse sentido, ampliava e completava a obra de desorganização da vida indígena tribal, inaugurada pelas missões. Ao estimular o aumento do número de colonos brancos e seu consequente domínio sobre os indígenas, assegurado pela manutenção e ampliação da distribuição compulsória da força de trabalho indígena entre os colonos, a prática pombalina teve um resultado mais negativo — para o futuro dos indígenas concretamente envolvidos no processo — do que a ação missioneira anterior, ainda que a política indigenista pombalina pretendesse aparecer como progressista e liberal".

A história necessita ser lida e estudada através dos seus protagonistas ocultos pela historiografia dos modelos dominantes. A verdadeira história acontece ali.

Retomando a cruz da Ponte Milvia

A Companhia de Jesus foi restaurada no dia 7 de agosto de 1814 pelo Papa Pio VII. E por volta de 1930 voltou a trabalhar com povos indígenas no Noroeste de Mato Grosso, onde criou a Missão Anchieta (MIA). Mas ao invés de se inspirar na sua Missão extinta em 1757, foi-se inspirar no sistema da Missão Salesiana junto aos Bororo e Xavante, voltando ao paradigma colonial-estatal, do 1º. Ciclo missionário, doutrinando rumo à integração nacional e da cristandade.

Quando decidi em 1962, dedicar a vida à causa indígena foi este o modelo de missão que vigorava. E me falavam a respeito de minha decisão: “um absurdo, uma “causa perdida”. De fato, uma pesquisa feita por Darcy Ribeiro à época, confirmava: restavam menos de 100 mil indígenas e em rápido declínio.

De 1963 a 1966 fiz a minha 1ª. experiência indigenista junto com colegas jesuítas, em dois internatos da Missão Anchieta de Mato Grosso. Uma situação de missão sintonizada com sistema colonial-estatal. Sem um contato com as aldeias para conhecer e ouvir os pais dos meninos do internato, agora sob minha guarda e orientação. Após sua alfabetização não retornavam às aldeias, mas viravam páreas da sociedade nacional, em alguma capital. Foi ali que senti a necessidade de abrir novos caminhos indigenistas.

Vi o problema dos limites geográficos impostos pelos Estados Português, Brasileiro e Vaticano sobre os territórios indígenas. Em outubro de 1963 aconteceu, próximo a nós, o Massacre do Paralelo 11, crime da Firma Arruda-Junqueira contra o povo Cinta Larga. O crime aconteceu próximo a nós, mas na diocese vizinha de Porto Velho, e por isso nossos dirigentes jesuítas não se sentiam motivados a intervir no caso. P. Adalberto Pereira, SJ, me dizia a propósito: “Maldito rio Juruena!” Dizia isto denunciando os limites que foram traçados pelos Estados Brasileiro e Vaticano sobre a terra dos povos, atrás dos seus interesses. Em outro momento, me alertava: “Egydio, a integração nacional do índio passa pela desintegração dos povos.” Duas questões que me puseram à convicção da necessidade de mudar os rumos do nosso trabalho.

Volta à cruz missioneira: mudança da política indigenista

Tive o privilégio de acompanhar desde o início e de perto, o milagre do engrandecimento dos povos indígenas remanescentes, Brasil e América Latina afora, após mais de 500 anos de uma política genocida e integracionista dos Estados: Vaticano, português e espanhol. E o que me deixa muito feliz é o fato de ter tido a oportunidade de participar intensamente deste retorno dos povos indígenas à vida sobre este território que lhes foi roubado no dia 7 de junho de 1494, pelo Tratado de Tordesilhas, antes mesmo que qualquer europeu tivesse pisado nesta terra que os invasores chamaram depois: Brasil.

Hoje, felizmente, estão de volta, retomando lentamente a orientação desta terra para a felicidade geral de todas as pessoas que hoje vivem sobre este chão.

Vi e ajudei a fazer surgi este movimento que devolve a esperança a vida.

Entre os anos de 1962 e 1965 se realizou o Concílio Vaticano II, onde líderes cristãos do mundo inteiro se reuniram no Vaticano. Avaliaram a realidade e a tragédia humana, um genocídio que envolveu governos cristãos, inclusive a Igreja. Constataram que a prática cristã não correspondia mais à proposta do Cristo. E apontaram saídas para retomar a mensagem da Boa Nova de Jesus de Nazaré. A sós na Missão, lia os documentos, na medida em que foram publicados, e buscava ver como pô-los em prática no chão missionário.

Ao voltar à UNISINOS em 1966, me reuni com os companheiros que haviam feito a mesma experiência em Mato Grosso e, já no dia 18 de março, dirigimos uma carta aos responsáveis da Missão Anchieta, propondo mudanças. Como não recebemos nenhuma resposta positiva, Thomaz Lisboa e eu decidimos continuar, mas com nova estratégia: apelando a jovens leigos/as.

Para iniciar a ampliação da visão sobre a questão indígena, em abril do ano seguinte, aproveitamos a Semana Santa para conhecer a situação dos indígenas Kaingang e Guarani nos toldos do Rio Grande do Sul. Chocados com a situação que vimos, elaboramos uma série de 9 artigos para o Correio do Povo, principal jornal do Rio Grande do Sul. A iniciativa provocou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Assembleia Legislativa do Estado, a qual provocou outra Nacional, no mês seguinte, levantando o descalabro da ação do SPI a nível nacional que resultou no Relatório Jader Figueiredo. Como resultado, o órgão foi extinto e, no mesmo ano, foi criada a FUNAI.

Foi o primeiro lance com sucesso que tivemos tratando a questão indígena supra limites, ou seja, fora dos limites políticos e eclesiásticos estabelecidos no Tratado de Tordesilhas em 1494, onde os Estados, incluindo o Vaticano, ignorando a existência de povos, impuseram limites sobre a América.

Em fevereiro de 1969, criei a Operação Amazônia Nativa (OPAN), com sede em Cuiabá, para superar o clericalismo que dominava a pastoral indigenista. E no mesmo ano, os PP. Thomaz Lisboa e Albano Ternus, acabaram com os internatos indígenas da Missão Anchieta (MIA), encerrando a doutrinação e passando os missionários a conviver nas aldeias. Anunciar a Boa Nova para os povos indígenas, daqui por diante, é encarnar-se na sua situação e juntar-se a sua luta pela vida.

E no Sul fui tomando contato com grupos de jovens das barrancas do rio Uruguai até a Ilha do Governador, suscitando vocações de voluntárias(os), dispostas(os) a se encarnarem na causa indígena e simultaneamente fui abrindo novos horizontes em longas viagens pelo país, localizando núcleos de povos sobreviventes esquecidos.

E, nestas longas viagens, constatei que a mensagem do Cristo de avental continuava viva por toda a parte na clandestinidade. Após Nicéia, ela continuou a sua trajetória por toda a parte. Viva nas comunidades nativas e fora delas. Prosseguia em silêncio, realizando vidas na solidariedade aos marginalizados: nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) em grupos jovens e, por vezes, até sob novas denominações. O Povo de Deus anda sem respeitar limites, encarnado nos necessitados. Com corações ardendo em solidariedade, realiza vidas dentro e fora dos limites estabelecidos pelos dirigentes dos Estados.

E o trabalho da OPAN, encarnado nas aldeias e nos corações indígenas, foi acordando o clero em todo o país. E, em 1972, foi criado o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), que contribuiu definitivamente na transformação da política indigenista brasileira.

Eleito secretário do CIMI, em 1973, organizei o programa do Secretariado com Thomaz Lisboa sob duas vertentes: Assembleias Indígenas, controladas por eles, e Encontros de Pastoral Indigenista, onde foram criados os Regionais do CIMI que passaram a cobrir o país, objetivando a garantia da terra e o bem-viver para todos os povos indígenas remanescentes.

E formou-se em seguida na sociedade civil um enorme mutirão de pessoas e entidades pró-índio de Norte a Sul do país que, em plena Ditadura Militar-Empresarial solidificou a causa indígena-indigenista.

A perseguição da Ditadura Empresarial-Militar não se fez esperar. Em julho de 1976, fui prestar apoio e solidariedade aos Bororo e Xavante e aos missionários salesianos de Meruri e São Marcos em Mato Grosso, cujas terras estavam sendo invadidas pelo agronegócio. Durante 3 dias, percorremos com o Pe. Rodolfo Lunkenbein a região, vendo de perto o crime não só de roubo de terras, mas também a depredação do agronegócio contra a natureza.

Despedimo-nos do Pe. Rodolfo às 7 horas do dia 15 de julho de 1976, na aldeia Bororo de Meruri, no local onde, 3 horas depois, o Bororo Simão e o Pe. Rodolfo caíram, mortos pelos invasores do agronegócio.

A campanha da mídia contra o CIMI: 1987

Em 1978, Doroti Alice e eu casamos com o propósito de nos dedicarmos com família ao povo indígena mais necessitado do país. E foi-nos sugerido pelo amigo, D. Tomás Balduino, o povo Waimiri-Atroari que foi o povo que mais sofreu na Ditadura e cujas aldeias e território continuavam ocupados por homens armados, dificultando qualquer acesso. E, estando eu proibido de acesso a todas as áreas indígenas do país, desde maio de 1975 pela Ditadura, a tarefa foi um grande desafio para nós, naquele momento.

Mas a aceitamos e viemos morar nesta BR-174, invasora das terras Waimiri-atroari, antes de adentrar nas aldeias.

Segundo duas fontes, Pe. Calleri em 1968 e FUNAI em 1972, o povo Waimiri-Atroari ainda possuía nestas datas em torno de 3.000 pessoas. Quando viemos para cá a BR-174 já fora inaugurada e restavam apenas 332 pessoas. E, para concluir o genocídio, o ditador João Figueiredo publicou um decreto que alterou o status da Reserva. De permanente passou a “Reserva Temporariamente interditada”, e 12 mineradoras já haviam loteado entre si o que restara da terra Waimiri-atroari e como ‘urubus famintos’ só aguardavam a morte dos 332 Kiña sobreviventes.

Para impedir o desfecho do crime, criamos em 1983 o Movimento de Apoio à Resistência Waimiri-Atroari (MAREWA), movimentando a sociedade nacional e internacional contra o crime prestes a ser concluído, voltando nossas baterias, particularmente contra as empresas Eletronorte e Paranapanema já instaladas em seu território.

Mediante esta ação do MAREWA e aliados de forma multinacional, se pressionou o Banco Mundial, financiador da UHBalbina, a interromper o curso dos interesses da Ditadura empresarial-militar e a fornecer um recurso substancial durante 25 anos para reparar os danos causados ao povo Kiña. Lamentavelmente, a FUNAI passou então toda a responsabilidade da Reserva à empresa Eletronorte, empresa interessada na ocultação dos crimes que cometeu contra este povo. Só na área do lago sumiram pelo menos 6 aldeias sem deixar rastro e pelo menos 163 cemitérios Kiña foram submersos.

A campanha do MAREWA e a alfabetização pelo método Paulo Freire que iniciamos com o povo Kiñá, com uma ampla movimentação, provocou a reparação e trouxe a esperança de vida aos Kiña, causando preocupação ao regime empresarial genocida do país.

Como consequência, em agosto de 1987, o jornal O Estado de São Paulo desencadeou uma campanha de calúnias contra nós e o CIMI, visando a sua extinção. A campanha foi financiada pela Mineração Taboca, que saqueia sem controle os minérios estratégicos, incluindo as terras raras, na reserva Waimiri-Atroari, como denunciei várias vezes. A campanha seguiu após a interrupção pela FUNAI do nosso programa de alfabetização do povo Waimiri-Atroari por pressão da mineradora e da Eletronorte. Três artigos da série do Estadão caluniaram o nosso trabalho de alfabetização. E até hoje este povo está impedido de manter contato conosco e vice-versa, obviamente para evitar o seu acesso ao conhecimento de sua história, ou seja, à Casa da Cultura do Urubui (CACUI), onde reunimos um acervo de documentos que revelam a falácia dos invasores, para se apossarem do território do povo Waimiri-Atroari.

Muita semelhança com o caso das missões jesuítas do século XVIII. Imaginem se a campanha do Estadão tivesse tido o sucesso desejado pela Ditadura do Empresariado! Como se contaria daqui a 100 anos a história do CIMI? Não usariam como fonte as calúnias propaladas pelo Estadão em 1987?

Mas não há necessidade de ir tão longe na história. Abram os noticiários dos jornais e informativos de hoje. Quais são as fontes das informações sobre a recente história do povo Kiña? Os funcionários do Programa Waimiri-Atroari (PWA) da empresa Eletrobras interessada na ocultação da verdade. E todo acesso às fontes originárias, os Kiña, passa pela autorização da empresa. E quando consultam os autores da alfabetização dos Kiña pelo método Paulo Freire, muitos evitam citar a fonte. Uma elegante maneira de enganar a História. Ao final o que prevalece é a história contada pelos empresários e pela Mídia, segundo o interesse de seus donos. Até a CNV se submeteu as exigências do empresariado, via PWA, para ter acesso aos Kiña.

Como ocorreu no século XVIII com as Missões Jesuíticas. E aqui as forças ocultas no Estado-empresários só não tiveram o mesmo sucesso radical de extinção do CIMI porque este não estava só, como os jesuítas lá. Houve a intervenção da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) e do Conselho Mundial das Igrejas (CMI), que deram ampla cobertura ao CIMI, impedindo a injustiça.

Observações finais

Os povos indígenas só ignoram a existência de fiéis aliados coletivos quando manipulados por seus inimigos, interessados na generalização dos crimes que foram cometidos ao longo de toda a história e para mantê-los subjugados a um modelo estatal humanamente fracassado.

É preciso aprender a ler a história a partir dos esconderijos dos pobres e humildes. Ali poderemos transitar por todo o planeta, sem exceção, e seremos acolhidos, por toda a parte, por uma economia invisível, garantida pela Mãe Terra. E voltaremos com saúde e cheios de informações certas.

No caso das Missões Jesuíticas, se conseguiu adentrar nesta aliança coletiva, vivenciada entre indígenas e missionários, e estamos diante da retomada de um cristianismo comunista que valorizou a economia invisível, ‘pagã’, isto é, baseada na generosa Mãe-terra.

Bem diferente se contaria a história das Américas hoje, se este modelo Guarani-jesuítas não tivesse sido interrompido. Um modelo que defende os povos, garantindo-lhes terra e comida em abundância, progresso científico sob a égide de um paradigma construído ao longo de milênios por decisões coletivas em confronto com o sistema colonial, individualista, genocida e depredador da natureza e da cultura dos povos,

Na discussão das esquerdas hoje, sinto presente uma divergência raiz.

De um lado, a posição popular enraizada nos povos que respeita suas diferenças culturais e se move nesta diversidade, unida, no modelo comunitário da aldeia. Luta pela preservação dos recursos naturais da Mãe Terra, reforçada dia a dia, por um crescente movimento de aliados.

E existe a outra esquerda que defende o modelo enraizado no Estado que impõe à Mãe Terra projetos devastadores como necessários e irreversíveis. Os impõe de forma unilateral sobre os povos, sobre as comunidades indígenas e não-indígenas e os força a arcarem com os prejuízos. Por exemplo, defendem a exploração mineral em terras indígenas, a exploração do petróleo na Foz do Amazonas, o potássio nas comunidades do povo Mura, o minério estratégico na terra do povo Waimiri-Atroari, fomentam o agronegócio... Enfim, impõe projetos que ameaçam o bem-viver futuro do povo.

Diante disso, levanto a necessidade de se colocar em discussão o direito das aldeias criarem uma Constituinte Popular Aldeã que discuta um modelo de vida que respeite esta vida das aldeias. Não imponha como absolutos o mercado, os custos da burocracia e os privilégios de donos de um poder fictício, criado à revelia dos povos, sobre leis cidadãs elaboradas sobre o improdutivo asfalto-cimento. Com equívocos variados e insanáveis.

Considero ainda que o MPF, para cumprir sua missão de verdade, contida no Art. 232 da Carta Magna, necessita conviver com os povos indígenas nas aldeias e os apoiar ali na elaboração da Carta Magna Aldeã.

De resto, preste-se atenção às tendências que movem o Estado mais poderoso do mundo hoje. Não são o medo, a agressividade e a burrice? Haitianos proibidos de entrar nos EUA, africanos desarmados revistados, esportistas iranianos proibidos de dormir em seu território... E é por aí que entende uma ‘confraternização dos povos’. Que futuro é este que está à nossa frente se o deixarmos em mãos dos poderes do Estado?

E finalmente voltemos aos símbolos: ao longo de minha vida, frequentemente, tenho ouvido e concordava que se deveria retirar a cruz dos Judiciários.

Hoje penso diferente. Posto ali é a cruz do poder, a cruz da Ponte Milvia, do guerreiro Constantino Magno. O lugar dela é ali mesmo, como também nas Basílicas, pois são símbolos do poder do Estado Romano, Estado-poder que se fundamento, no tamanho do território, dos prédios e do arsenal das armas mortíferas, no montão de dinheiro.

Nada a ver com a cruz do Calvário, com o lava-pés da Última Ceia. “Fazei isto em memória de mim!” A vida do homem do Calvário continua acontecendo nos povos esmagados e se celebra hoje de fato aqui nas Américas com a Cruz Missioneira. Ela simboliza o Homem Esquecido, Oculto que não se rende ao poder, não se deixa constranger diante do máximo, mas cabe no mínimo.

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