O regime de Daniel Ortega dissolve a ordem jesuíta na Nicarágua e confisca todos os seus bens

Foto: Reprodução | UCA

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24 Agosto 2023

O Ministério do Interior cancela o estatuto jurídico da Companhia de Jesus da Nicarágua após confiscar a Universidade Centro-Americana (UCA).

A reportagem é de Wilfredo Miranda, publicada por El País, 23-08-2023.

O Ministério do Interior de Daniel Ortega e Rosario Murillo decapitou nesta quarta-feira, 23 de agosto, o estatuto jurídico da Associação da Companhia de Jesus da Nicarágua. O regime alega que os jesuítas “não reportaram as suas demonstrações financeiras relativas aos anos de 2020, 2021 e 2022”, no que é um golpe final apenas uma semana após o confisco de fato da Universidade Centro-Americana (UCA), administrada pela ordem religiosa há mais de 60 anos na Nicarágua. “Eles estavam com o conselho de administração expirado desde 27 de março de 2020”, diz o decreto publicado no jornal oficial La Gaceta. Os argumentos são idênticos aos utilizados pelo regime contra as mais de 3.000 associações desde 2018.

Os bens da Companhia de Jesus na Nicarágua também foram confiscados. “No que diz respeito à destinação de bens móveis e imóveis de acordo com o disposto no artigo 47, parágrafo 2º do Regulamento da Lei 1.115, caberá à Procuradoria-Geral da República efetuar a transferência destes para o nome de o Estado da Nicarágua", mandato do Governatorato. Esta disposição implica o confisco dos colégios Loyola e Centroamérica, que estão sob a administração dos jesuítas da Companhia de Jesus e também dos colégios Fé e Alegria. Fontes próximas do Governo garantiram ao EL PAÍS que a tomada das escolas é iminente, uma vez que estes centros também já estavam a ser assediados administrativamente pelo regime.

“As ditaduras odeiam sempre que a inteligência crítica, racional e humanista é realizada a partir do pensamento cristão ou do pensamento secular. O impacto é sem dúvida uma forte deterioração e empobrecimento cultural”, afirmou o padre jesuíta José María Tojeira ao tomar conhecimento do confisco da universidade privada. “O melhor arquivo histórico da Nicarágua está na UCA. Se o roubo das propriedades da UCA fosse consumado, esses ignorantes do governo entrariam no processo como tacuazín (gambá) em um galinheiro.”

Eles tomam conta da casa dos jesuítas

No dia 19 de agosto, a polícia apreendeu a residência dos jesuítas em Manágua. Ali viviam três sacerdotes e outros três religiosos em formação, incluindo o reitor da universidade confiscada, padre Rolando Alvarado. A desapropriação do imóvel ocorreu quando eles voltavam do almoço.

“Cinco jesuítas chegaram à residência de Villa El Carmen, tentaram entrar por um acesso de uma das ruas do Reparto San Juan quando viram que havia mais de 20 policiais do regime nos portões”, disse uma fonte ligada à polícia. disse ao EL PAÍS a empresa Jesus. Quando os padres entraram na residência, mais de 20 policiais bem armados entraram na propriedade. Sem agredi-los, um comissário disse-lhes para irem para os seus quartos para que pudessem retirar apenas os seus pertences pessoais, pois não podiam permanecer na casa da UCA. “A casa é propriedade do Estado da Nicarágua”, disse a polícia. Cada padre foi com dois oficiais para seus quartos, pegou o que pôde e saiu da residência. Infelizmente, eles estavam em um veículo pequeno, o único que puderam levar.” Tudo o que havia na residência, inclusive outros veículos, foi confiscado pela polícia do regime de Ortega-Murillo.

Inauguração de uma universidade estadual

O Conselho Nacional de Universidades (CNU), entidade totalmente subordinada aos Ortega-Murillos, criou na quinta-feira, 17 de agosto, um novo centro de ensino superior na Nicarágua: a Universidade Nacional Casimiro Sotelo Montenegro nas instalações da UCA.

O argumento do regime para assumir o controle da UCA é que "foram cometidas actividades criminosas [a partir de 2018] com armas de fogo, munições letais, morteiros, cocktails molotov e objectos contundentes, causando perdas económicas substanciais ao país e traindo a confiança do povo nicaraguense que acolheu-os no nosso país para que pudessem funcionar como instituição de ensino superior”, indica o documento legal cujas declarações a UCA, bem como a Província Centro-Americana da Companhia de Jesus, rejeitaram de imediato.

O confisco da UCA causou uma debandada de estudantes. Centenas optaram por se matricular na La Universidad Americana (UAM), de propriedade do Exército da Nicarágua. No entanto, a UAM suspendeu a matrícula de centenas de estudantes do centro confiscado, argumentando que os universitários se matricularam sem apresentar o histórico escolar oficial. Alguns estudantes consultados explicaram, em vez disso, que a instituição de ensino aceitou a sua admissão com a condição de assinarem uma carta de compromisso na qual concordavam em entregar as suas notas oficiais em seis meses.

Há cinco dias, trabalhadores da extinta UCA denunciaram também que membros de sindicatos sandinistas lhes informaram que só terão 100 colaboradores para trabalhar na Universidade Casimiro Sotelo. A comunidade educativa da UCA contava com mais de 5.000 alunos e 500 professores, sem incluir o pessoal administrativo e de serviço.

“A Província Centro-Americana da Companhia de Jesus sustenta que o confisco de facto dos bens da UCA é uma represália pelo trabalho que esta instituição tem realizado na busca de uma sociedade mais justa, bem como pelo seu compromisso de proteger vida., a verdade e a liberdade do povo nicaraguense, em linha com o seu lema: 'A verdade vos libertará' (João 8, 32)”, afirma um comunicado emitido pela Associação de Universidades Confiadas à Companhia de Jesus na América Latina.

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