Nos passos do Padre Dall’Oglio

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15 Setembro 2026

Sobre a mesa de Hind Kabawat, advogada, professora e ativista, além de ser a única mulher e a única ministra cristã no governo de transição da Síria, não há fotografias de figuras políticas ou de familiares. Em vez disso, há uma foto do Padre Paolo Dall’Oglio, um padre jesuíta italiano que dedicou sua vida a construir relações inter-religiosas na Síria. “Ele foi meu mentor”, afirma Kabawat em entrevista aos veículos de comunicação do Vaticano, à margem de uma conferência inter-religiosa em Roma. “Foi ele quem me ensinou sobre o diálogo.”

A reportagem é de Joseph Tulloch, publicada por L'Osservatore Romano, 11-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

O diálogo é um conceito central para Kabawat; antes de ser nomeada Ministra do Trabalho e Assuntos Sociais em 2025, após a queda do regime de Assad, ela havia dedicado grande parte de sua carreira a iniciativas inter-religiosas e de construção da paz. O diálogo, além disso, é uma prioridade fundamental para o governo do qual ela agora faz parte, que assumiu o poder após uma campanha militar relâmpago no final de 2024. Composto em grande parte por ex-rebeldes islamistas, o governo precisa traçar um caminho para um país dividido entre tendências islamistas e laicas e fragmentado em numerosos grupos étnicos e religiosos: sunitas, curdos, drusos, ismaelitas, yazidis, alauítas, cristãos, entre outros. Nesse sentido, Kabawat faz questão de destacar o anúncio feito no final de agosto de que foi concluído o processo de integração das instituições civis e militares curdas, anteriormente autônomas, ao Estado sírio. “Agora estamos na mesma sintonia”, afirma Kabawat, descrevendo a integração como “um dos maiores resultados” do governo de transição até o momento.

No entanto, as relações entre grupos étnicos e religiosos na Síria pós-Assad nem sempre foram fáceis. Até março de 2025, os massacres contra a minoria alauíta da Síria resultaram em aproximadamente 1.500 mortes, enquanto uma investigação da Reuters revelou o envolvimento nas mortes de forças alinhadas ao governo. No sul do país, a população drusa entrou em confronto com tribos beduínas, enquanto o Estado Islâmico (EI) permanece uma ameaça constante no leste, lançando ataques contra as forças governamentais e curdas. "Existem tensões", admite Kabawat, "e ocorreram violações dos direitos humanos. Anos de guerra, pobreza e opressão levaram algumas pessoas a adotar posturas muito sectárias." A Síria é um país marcado por "grande sofrimento e feridas profundas", acrescenta a ministra. No entanto, ela mantém a esperança de que o diálogo possa prevalecer: "A situação está melhorando graças ao nosso diálogo nacional e às iniciativas da sociedade civil." Reconstruir a nação após mais de uma década de guerra civil é uma tarefa difícil. Além das diferenças sociais e das preocupações com a segurança, o governo de transição precisa encontrar uma maneira de enfrentar a grave crise econômica da Síria e criar instituições eficientes.

Paolo Dall'Oglio (Foto: Zrosen | Wikimedia Commons)

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Em termos práticos, sugere Kabawat, o diálogo significa que todo sírio deve estar aberto a certo grau de concessão. "Se as pessoas são muito radicais, precisam entender que não podem tornar toda a Síria radical", explica ela. "Se são muito laicas, devem saber que não podem tornar o país inteiro laico. Podemos encontrar pontos em comum: precisamos de uma boa constituição, de um Estado de Direito e de igualdade para todos." Segundo Kabawat, as vozes das mulheres são uma parte essencial desse processo. Ela destaca o papel essencial que as mulheres desempenharam na preservação do tecido social da Síria durante a guerra civil e lamenta que elas não estejam mais fortemente representadas no novo governo de transição. "Logo no primeiro dia, perguntei: 'Por que não há mais mulheres?'", disse ela à BBC no início deste ano, acrescentando que o presidente Al-Sharaa lhe garantiu que mais mulheres seriam nomeadas para cargos de liderança no futuro. Agora, embora continuem fortemente sub-representadas - Kabawat continua sendo a única ministra mulher do governo, e as mulheres constituem apenas uma pequena porcentagem da recém-criada Assembleia popular - destaca os progressos em seu ministério, onde, segundo declara, metade dos quatorze diretores regionais, em breve, serão mulheres.

A diversidade religiosa é outra questão fundamental para a ministra, que acredita que deve ser mantida no centro do debate sobre o futuro da nação. Ela fala da Síria, um país de maioria muçulmana sunita e consistentes minorias, como um "mosaico" de diferentes denominações religiosas e descreve a mentalidade "não sectária" da população síria. Em sua própria família, "alguns são ortodoxos, outros católicos e outros protestantes", afirma ela. "Sempre que vejo uma igreja, entro e faço uma oração." Essa mesma abertura à diversidade religiosa existe em nível nacional, afirma ela: "Na vida de todo muçulmano, há um médico, um professor ou um amigo cristão, e vice-versa”.

Nesse contexto, afirma Kabawat, a Santa Sé tem um papel a desempenhar na reconstrução do país. Poucos dias antes de sua visita a Roma, o novo Núncio Apostólico na Síria, Arcebispo Luigi Roberto Cona, apresentou suas credenciais ao presidente sírio e reuniu-se com Kabawat. “Ele é muito ativo, muito enérgico”, declara Kabawat. “Estamos planejando realizar um grande trabalho juntos.” As organizações católicas, acrescenta ela, “trabalham com as pessoas vulneráveis, com os pobres, com os refugiados... Quando a Síria precisou delas, estiveram ao nosso lado”. E, quanto à perspectiva de uma futura visita papal à Síria, Kabawat diz simplesmente: “Eu teria um ataque cardíaco de pura alegria”.

O que transparece nesta entrevista é o quanto Kabawat deve a Paolo Dall’Oglio, o sacerdote italiano cuja fotografia está sobre sua mesa. Assim como ela, Dall’Oglio era um defensor sincero do diálogo inter-religioso e, também como ela, um crítico declarado do regime de Assad. Após ser expulso da Síria nos primeiros anos da revolução síria, Dall’Oglio retornou à cidade de Raqqa, na época sob controle rebelde, de onde desapareceu sem deixar vestígios. Kabawat fala com emoção sobre seu último encontro com ele e explica que, ao visitar Raqqa anos mais tarde, foi ao café onde Dall’Oglio havia sido visto pela última vez para fazer uma oração.

Os desafios - econômicos, institucionais e sociais - que o novo governo sírio deve enfrentar são enormes. No entanto, assim como seu mentor jesuíta, Kabawat acredita no poder do diálogo e da colaboração para enfrentar até mesmo as questões mais espinhosas. “Se trabalharmos juntos, podemos alcançar grandes feitos”, afirma Kabawat. “Se não o fizermos, não chegaremos a lugar algum.”

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