A testosterona em tempos de machismo tóxico. Artigo de André Islabão

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20 Mai 2026

Talvez a mudança não tenha ocorrido no organismo humano, mas sim no ambiente em que vivemos. Vivemos em uma época em que o chamado “machismo tóxico” está presente por todos os lados.

O artigo é de André Islabãomédico e integrante do movimento Slow Medicine Brasil, publicado por ExtraClasse, 19-05-2026.

Eis o artigo.

A testosterona está em alta, embora muita gente insista em dizer que ela está baixa e faça de tudo para usar o hormônio em doses brutais. O fato é que o “hormônio masculino” está em todos os noticiários e muita gente corre atrás dele.

Em geral, são pessoas absolutamente normais e cada vez mais numerosas que já não se satisfazem em apresentar dosagens do hormônio dentro da faixa normal. A onda agora é manter níveis suprafisiológicos capazes de deformar os corpos, inflamar as mentes e colocar nas alturas o risco de diversas doenças.

Em décadas passadas, o uso da testosterona era bastante restrito, ficando limitado àqueles atletas que competiam em esportes que exigiam muita força física e faziam uso sub-reptício de hormônios anabolizantes. Isso porque o uso terapêutico da testosterona em homens com deficiência hormonal verdadeira causada por alguma doença endocrinológica sempre foi bastante incomum.

Foto: "Pela Metade" (Half Man), série HBO MAX/Divulgação

Tradicionalmente, os casos desse chamado hipogonadismo masculino (deficiência patológica de testosterona) sempre foram raros. E, como o ser humano é hoje biologicamente semelhante àquele homem que existia há algumas décadas – ou mesmo há milhares de anos –, algo deve ter mudado para que vejamos tanta gente usando e desejando a famigerada testosterona. É que talvez a mudança não tenha ocorrido no organismo humano, mas sim no ambiente em que vivemos.

Vivemos em uma época em que o chamado “machismo tóxico” está presente por todos os lados. Ele se manifesta na truculência verbal e política de diversos líderes autoritários e protofascistas que acabam contaminando cada nicho da sociedade e criando movimentos sociais odiosos, como o atual “red pill” e sua luta horrenda contra as mulheres. Junte-se a isso o fato de estarmos batendo todos os recordes de casos de violência contra mulheres e feminicídios e o que temos é uma sociedade toxicamente “masculinizada”.

É verdade que a medicina atual, com sua tendência mercantilista, contribui para o uso indiscriminado de testosterona. Há charlatães de todo tipo nas redes sociais criando doenças inexistentes para vender a solução na forma de doses cavalares de hormônios.

Até mesmo profissionais mais comedidos já começam a acreditar em uma epidemia de hipogonadismo e arriscam transformar uma improvável deficiência de testosterona na nova “menopausa masculina”, com direito a uma terapia de reposição hormonal em versão “macho alfa”.

E nem mesmo as mulheres ficam de fora desse mercado hormonal, não sendo exagero dizer que elas nunca usaram tanta testosterona como hoje, o que é uma coisa absolutamente bizarra.

Sob o ponto de vista científico, está claro que a testosterona em doses suprafisiológicas representa inúmeros riscos à saúde, o que inclui maior risco de doenças cardiovasculares como hipertensão, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e embolia pulmonar. Além disso, pessoas turbinadas por doses enormes de testosterona têm mais problemas mentais e uma tendência irrefreável a um comportamento agressivo e violento. É exatamente nesse ponto que as coisas começam a se encaixar.

O ambiente cultural e político atual é um fator importante nessa busca por maiores níveis circulantes de testosterona. No fundo, a busca por maiores níveis de testosterona talvez seja uma maneira que algumas pessoas encontraram para tentar se adaptar a um ambiente que é cada vez mais misógino, agressivo e truculento.

O problema é que ambas as coisas se retroalimentam positivamente: pessoas que usam testosterona para se adaptarem ao meio ficam mais agressivas, o que, por sua vez, aumenta o nível de masculinidade tóxica na sociedade, levando mais gente a apelar para os hormônios a fim de se adaptarem a um novo “normal” que é, claramente, um completo absurdo.

O que podemos fazer? Em primeiro lugar, ao observar os charlatães promovendo o uso indiscriminado de testosterona e outros hormônios nas redes sociais, denuncie o abuso e jamais caia nessa conversa. Procure sempre os conselhos de um médico de carne e osso que seja de sua confiança. Além disso, lembre sempre que a deficiência verdadeira de testosterona é uma ocorrência rara na medicina e, quando relacionada ao envelhecimento, trata-se de algo absolutamente normal.

Em segundo lugar, não aceite narrativas machistas que tentam colocar as mulheres em segundo plano na sociedade. Grande parte de nossos problemas atuais talvez se deva exatamente ao fato de que a representatividade das mulheres na sociedade e, em especial, nos cargos mais importantes, ainda é vergonhosamente baixa. É fácil supor que as coisas poderiam estar melhores se elas tivessem uma representação mais justa e equilibrada.

Vale lembrar que esta não é a primeira vez na história em que passamos por um período de machismo tóxico e opressão feminina. O início do século XX foi culturalmente marcado pelo movimento futurista, o qual pregava a supremacia masculina, o culto à força e à agressividade, além do desprezo absoluto pelas mulheres. As ideias do movimento foram adotadas por governantes e intelectuais da época, principalmente na Europa, e o que se viu depois disso foi uma sucessão de guerras desastrosas para a humanidade.

Por outro lado, os mestres taoístas, muito mais sábios que nós, já reconheciam há muito tempo a necessidade de equilíbrio no mundo. Ao criarem a filosofia do yin (o aspecto feminino, mais calmo e pacífico da natureza) e do yang (seu aspecto masculino, mais ativo e violento), o que pregavam era a necessidade de equilíbrio e o caráter de complementaridade entre essas forças diversas. Na sociedade moderna, as coisas não são muito diferentes, e um desequilíbrio significativo nessas forças só pode levar a consequências desastrosas. A essa altura, já deve estar evidente para o leitor que nossa vida em sociedade melhoraria muito se trocássemos toda essa testosterona por algumas doses homeopáticas do Tao-Te Ching ou de qualquer outra doutrina que seja mais inteligente que este “nazimachismo” atual. 

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