Vozes de Emaús: Entre o altar e o túmulo: feminicídio no Brasil e a exclusão histórica das mulheres. Artigo de Frei Betto

Arte: Lauren Palma | IHU

25 Fevereiro 2026

"Entre o altar, que ainda exclui, e o túmulo, que se multiplica, está o desafio de romper estruturas que, direta ou indiretamente, continuam a dizer às mulheres qual é e qual não deve ser o lugar delas."

O artigo é de Frei Betto é escritor, autor do romance sobre a Amazônia “Tom Vermelho do Verde” (Rocco), entre outros títulos. Livraria virtual: freibetto.org

Frei Betto (Foto: MST)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo. 

O Brasil segue entre os países onde é registrado o maior número de assassinatos de mulheres no mundo. A cada dia, em média, quatro mulheres são mortas em razão do gênero, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O feminicídio — crime tipificado em 2015 — é o estágio final de um ciclo de violência sustentado por desigualdades históricas, culturais e simbólicas.

Embora as causas sejam múltiplas, especialistas afirmam que estruturas patriarcais profundamente enraizadas continuam a legitimar a subordinação feminina, tanto no espaço privado quanto no público. Nesse contexto, instituições sociais de grande influência, como a Igreja Católica, tornam-se parte fundamental do debate.

A Igreja Católica tem papel central na formação cultural do país desde o período colonial. Sua presença vai além da esfera religiosa, alcançando a educação, a política e a moral social. Ao mesmo tempo em que desenvolve ações relevantes de assistência social e defesa da vida, a instituição mantém uma posição rígida quanto ao papel das mulheres em sua hierarquia: elas são oficialmente impedidas de exercer o sacerdócio. A justificativa teológica se baseia na tradição e na interpretação de que Jesus teria escolhido apenas homens como apóstolos, argumento reiterado pelo Vaticano ao longo dos séculos.

Para os críticos, essa exclusão não é apenas simbólica. Ao impedir mulheres de ocupar posições de autoridade espiritual, a Igreja reforça uma lógica da hierarquia de gênero que ecoa para além dos muros do templo.

“Quando uma instituição que prega valores morais universais sustenta a ideia de que mulheres não podem liderar espiritualmente, contribui para a naturalização da desigualdade”, avalia a socióloga Maria Clara Azevedo, pesquisadora das questões de gênero Segundo ela, não se trata de responsabilizar diretamente a Igreja pelo feminicídio, mas de reconhecer como discursos e práticas institucionais moldam mentalidades.

O feminicídio, em grande parte dos casos, ocorre no ambiente doméstico e é cometido por parceiros ou ex-parceiros. Antes da morte, há quase sempre um histórico de violência psicológica, física ou simbólica. Nesse percurso, a ideia de posse sobre o corpo e a vida da mulher aparece como elemento recorrente. É justamente nesse ponto que a crítica feminista se conecta ao debate religioso: a persistência de narrativas que associam a mulher à obediência, ao sacrifício e ao silêncio pode dificultar a ruptura de relações abusivas.

A Igreja Católica vive hoje tensões internas sobre o papel feminino. Embora mulheres sejam maioria entre fiéis e responsáveis por grande parte do trabalho pastoral, continuam afastadas das decisões centrais. O papa Francisco deu sinais de abertura ao permitir maior participação feminina em cargos administrativos no Vaticano, mas manteve intacta a proibição da ordenação sacerdotal. Para teólogas feministas, trata-se de um limite estrutural. “Enquanto o poder sacramental for exclusivamente masculino, a igualdade será sempre parcial”, afirma a teóloga Ivone Gebara.

Representantes da Igreja argumentam, porém, que a doutrina não implica inferioridade. Em documentos oficiais, o Vaticano sustenta que homens e mulheres têm “dignidade igual, mas funções diferentes”. Essa distinção é questionada por setores da sociedade civil que veem nela uma forma sofisticada de segregação. Em um país onde mulheres ainda lutam por igualdade salarial, segurança e representação política, a manutenção de espaços exclusivamente masculinos em instituições de grande influência simbólica é questionável e reprovável.

O enfrentamento do feminicídio exige políticas públicas eficazes, educação em igualdade de gênero e transformação cultural profunda. Nesse processo, o diálogo com instituições religiosas é essencial. Reconhecer sua influência não significa negar sua importância social, mas convocá-las à reflexão crítica sobre seus limites. Em um Brasil marcado por cruzes nos altares e o número cada vez maior de mulheres nas estatísticas de mortes violentas, a pergunta que permanece é até que ponto tradições podem ser preservadas quando colidem com o direito fundamental à vida e à dignidade.

Entre o altar, que ainda exclui, e o túmulo, que se multiplica, está o desafio de romper estruturas que, direta ou indiretamente, continuam a dizer às mulheres qual é e qual não deve ser o lugar delas.

A escolha da bispa Sarah Mullally, de 63 anos, para chefiar a Igreja Anglicana no Reino Unido, em outubro de 2025, representa um dos momentos mais significativos da história recente do cristianismo ocidental. Mais do que uma decisão administrativa ou espiritual, esse gesto simboliza uma ruptura com séculos de tradição patriarcal que associaram liderança religiosa exclusivamente à figura masculina. A presença feminina no mais alto cargo da Igreja confronta não apenas estruturas internas, mas também valores culturais profundamente enraizados na sociedade britânica.

Desde a autorização para a ordenação de mulheres como sacerdotes e, posteriormente, como bispas, a Igreja Anglicana vive tensões constantes. Setores conservadores aceitaram essas mudanças de forma relutante, muitas vezes criando mecanismos paralelos para evitar a autoridade feminina. Agora a eleição de uma mulher como líder máxima, contudo, ultrapassou qualquer possibilidade de acomodação simbólica. Para grupos abertamente machistas, isso foi visto como uma “traição” à tradição, provocando reações intensas, que vão desde boicotes internos até ameaças de ruptura institucional.

Essas reações não se limitaram ao campo religioso. Parlamentares conservadores, comentaristas e formadores de opinião alinhados a visões patriarcais tendem a explorar o tema como sinal de decadência moral ou submissão da Igreja a pautas progressistas. Ao mesmo tempo, a eleição fortalece movimentos feministas e setores reformistas, que enxergam no gesto um avanço histórico na luta por igualdade de gênero.

A ruptura causada pelos machistas na Igreja Anglicana, embora barulhenta, também revela um paradoxo: ao resistirem à liderança feminina, esses grupos expõem a fragilidade de uma fé sustentada mais por hierarquias de poder do que por princípios espirituais. Assim, a eleição de uma mulher não apenas divide a Igreja Anglicana, mas obriga o Reino Unido a rever seu atual conservadorismo político.

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