Vozes de Emaús: Leonardo Fróes e as lições da Natureza. Artigo de Faustino Teixeira

Arte: Lauren Palma | IHU

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10 Janeiro 2026

"A presença de Fróes junto às plantas é revigorante. Em seu 'jardim' natural pôde redescobrir a alegria e o prazer de uma vida 'em baixa definição', destituída do ritmo apressado das cidades, voltada simplesmente pelo toque da contemplação gratuita. Lembra Fróes que essa imersão no 'vazio' da roça é uma aventura reservada aos fortes. Como ele assinala, o 'homem cerebral da eletrônica', enredado no enquadramentos das cidades, é alguém que carece de valores essenciais e não consegue alcançar o verdadeiro sentido da paz"

O artigo é de Faustino Teixeira, teólogo e colaborador do IHU e do Canal Paz e Bem.

Faustino Teixeira (Foto: Ricardo Assis/UFJF/divulgação)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo. 

“Mas também contém os galhos
que abraçam quem se desfia”
- Leonardo Fróes


Tinha escrito sobre Leonardo Fróes no IHU-Notícias, logo após a sua morte, ocorrida em 21 de novembro de 2025[1]. O tema de minha reflexão foi sobre a presença da Natureza em sua poesia. Volto a escrever sobre o poeta, depois de ler um precioso livro, publicado em 2021 – com reimpressão em 2025 – que recolhe os artigos publicados por Leonardo Fróes no Jornal do Brasil (JB) entre os anos de 1971 e 1983. O livro tem como título: Natureza, a arte de plantar (Editora Cepe). A obra foi organizada por Victor da Rosa, que é o autor do posfácio. Como mostrou Victor Rosa, esse livro de Fróes abre “a possibilidade de construir e espalhar pequenas selvas por aí, inventar novos mundos cidade afora...”[2].

A coluna de Fróes no JB trazia textos curtos produzidos pelo autor em torno às questões da Natureza. Para aquele tempo era algo novidadeiro, introduzindo aos leitores toda uma singular reflexão que favorecia um novo modo de relacionar com as “espécies companheiras”, seja do mundo vegetal ou animal. Leonardo Fróes atuava ali no JB e dividia o espaço nas páginas do Caderno B do JB com o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Em crônica de 1975, Drummond comenta o precioso trabalho exercido por Fróes no JB, trazendo à tona temas fundamentais ligados ao cuidado com a Natureza. O poeta itabirano se indagava sobre as razões do sucesso da coluna: “Deve ser porque a natureza está morrendo, e a gente acordou, não digo a tempo de salvá-la, mas pelo menos a tempo de recolher um souvenir do que foi o quadro da nossa vida”[3]. E Drummond relata o aprendizado favorecido pela coluna Natureza: “Aprendemos com ele o sono das plantas, a hora e a vez de florescerem, os mínimos cuidados que cada espécie requer para nos fazer companhia – a mais discreta, harmoniosa e gratificante das companhias”[4].

Foram variegados os temas publicados por Fróes em sua coluna semanal no JB, envolvendo cerca de 500 textos nos 12 anos de sua presença no jornal. O poeta inaugurou com o seu trabalho um singular “saber ecológico” no Brasil, proporcionando um olhar pioneiro para a ocasião, onde a Natureza passa a ser compreendida como um ser vivo e em movimento. Além de seus artigos semanais, o poeta também contribuiu com traduções importantes envolvendo o tema ecológico, como o livro A vida secreta das plantas (Peter Tompkins & Cristopher Bird), e Naturalista ( Edward Wilson).

As colunas de Fróes no JB trazem em linguagem simples mas precisa passos fundamentais do cuidado para com as plantas e os animais. O quadro é amplo, trazendo informações e dicas singulares para o trato das plantas dentro de casa e no jardim, bem como nos aquários. Fala da beleza das orquídeas e rosas, das plantas que crescem em busca de apoio, das flores perfumadas como os jasmins, das plantas medicinais, das plantas venenosas e alucinógenas, bem como dos mecanismos de defesa utilizados pelas plantas para a sua sobrevivência. São ricas igualmente suas considerações sobre o valor terapêutico dos eucaliptos-limão e da diversidade que envolve as embaúbas. Além das plantas, fala igualmente dos insetos e dos pássaros, como o sabiá, o sanhaço, o tico-tico, o bico-de-lacre e o pardal. É toda uma reflexão que nos ajuda a entender o mistério da Natureza e a consciência da inter-ligação que anima todas as espécies numa bonita dinâmica de cooperação.

Há um carinho especial do poeta pelos jardins, com um reconhecimento muito especial pelo trabalho pioneiro de Roberto Burle Marx, que abriu espaços fundamentais para uma concepção inventiva da jardinagem. A presença de Fróes junto às plantas é revigorante. Em seu “jardim” natural pôde redescobrir a alegria e o prazer de uma vida “em baixa definição”, destituída do ritmo apressado das cidades, voltada simplesmente pelo toque da contemplação gratuita. Lembra Fróes que essa imersão no “vazio” da roça é uma aventura reservada aos fortes. Como ele assinala, o “homem cerebral da eletrônica”, enredado no enquadramentos das cidades, é alguém que carece de valores essenciais e não consegue alcançar o verdadeiro sentido da paz[5]. Em sua roça, Fróes deixa-se levar por outro ritmo, que é o da gratuidade e delicadeza. Ele está simplesmente ali, e curte a sombra das árvores da região. Sente-se irmanado com as plantas, abraçado por elas. Relata que se livrou da pressa que marca a cidade, e se vê agora dedicado “ao tempo das pequenas folhas balsâmicas”[6]. Em meio às plantas vive sob a ação de uma “permuta de energias inqualificáveis e cegas”[7], que desvela uma personalidade distinta.

Em preciosa obra sobre o jardim, o filósofo coreano Byung-Chul Han louva esse trabalho com a terra, que favorece uma “meditação silenciosa, um demorar-se no silêncio”[8]. Trata-se de uma aventura única, que “torna possível uma experiência intensiva do tempo”[9]. Nessa atenção cuidadosa com a natureza, descobre-se o singular significado de veneração, que rompe com a dinâmica de exploração que caracteriza o nosso tempo. Na visão do filósofo coreano, o que se abre hoje para nós é possibilidade “de aprender novamente o espanto com a Terra, com a sua beleza e estranheza, com a sua unicidade (Einmaligkeit)”[10].

As inovadoras ideias ecológicas de Leonardo Fróes foram favorecidas por sua experiência no sítio rural que ele adquiriu no começo da década de 1970. Foi quando ele foi morar na roça, nas redondezas de Secretário, que é um dos distritos mais afastados de Petrópolis (RJ). Ele deixou a cidade grande e decidiu assumir uma vida nova no campo, em tempo integral. Foi uma mudança drástica mas positiva, como ele mesmo relatou: “Nosso sítio era um imenso pasto, degradado e árido, a maior parte um morro coberto só por capim”[11].

Em seu livro sobre a Natureza ele relata essa experiência inaugural: “Localizado numa zona rural ainda imune ao pior das predações turísticas, meu sítio era uma nesga largada entre um riacho lodoso e as sobras de uma antiga floresta na noruega de um morro”[12]. É sugestivo o título que ele dá ao texto que marca a mudança em sua vida: “Estado de Sítio”. Era uma propriedade ampla, com cerca de 50 mil metros quadrados. Com a ajuda da mulher, ele reformou a antiga casa de colono que estava em ruínas - , com seus parcos recursos, “quebrando a cara, com a ajuda dos amigos e uns moleques de perto”; uma reforma que esteve sempre em processo, numa “casa aberta e bamba onde goteja em tudo, onde há insetos e ninhos, aranhas lambendo as velhas telhas expostas” [13]. Nada foi planejado com exatidão, e a casa foi sendo firmada “seguindo uma atrofia de impulsos”[14].

Nos intervalos do árduo trabalho, o poeta realizava o que mais gostava de fazer, que era realizar caminhadas pelas matas da região. E ao largo da propriedade foi plantando árvores frutíferas. Tudo ganhou nova forma cinquenta anos depois, com a transformação do antigo pasto numa fazenda arborizada cercada por diversos tipos de bichos e vegetação. A mudança da cidade para a roça produziu transformações substantivas na visão do poeta. Nascia assim uma virada no jeito de ser e de escrever. O poeta firmou-se também como “um naturalista amador, observador e estudioso das plantas e dos bichos, além de montanhista”[15].

Sua poesia ganhou nova vida, como podemos observar no material produzido depois de sua mudança para a roça. Sua narrativa vibrou com uma terrenalidade peculiar, expressa em poemas como “Introdução à arte das montanhas”, “Urvento”, “Proximidade”, “O apanhador no campo” e “Terapia dos brotos”. Todas elas recolhidas no belo livro Trilha, publicado em 2015. Em trecho do último poema citado, ele sublinha:

“Nesse tempo de incertezas,
confiscos e estripulias
o chuchu já está brotando
em menos de cinco dias.
Também a mandioca brava,
A cana e a melancia
começam no mês de agosto
a enraizar com energia (...).
A vida é maior que a gente
e mais do que a gente espia,
pensando que ao ver de fora
a gente se torna um guia.
A vida contém esterco,
fungos de melancolia,
gestos doidos que florescem
entre amor e antipatia.
Mas também contém os galhos
que abraçam quem se desfia
procurando uma razão
de dar o que pretendia (...)”[16].

Em sua presença no campo, Leonardo Fróes pôde presenciar o processo de mudança na região que foi se dando a partir do final da década de 1970, com a entrada do asfalto e dos tratores. Num de seus textos publicados no JB, em outubro de 1979, ele relata: “Árvores monumentais abatidas para 'ampliar a vista'. Tratores urbanizando o mato, destruindo os caminhos tradicionais, de chão batido, para fazer misérias, reprimir um riacho, raspar e desalojar um morro, fazer platôs e represas – ornamentais”[17]. O poeta relata com tristeza essa entrada barulhenta do homem no campo, estragando o que ali estava e transformando o panorama tranquilo da roça. Os que estavam acostumados com o barro viram chegar o asfalto triunfante, com todas as suas mazelas: “Com seu inseparável companheiro, o vapor de mercúrio, o asfalto vai trazendo outros climas, outras descobertas, palavras complicadas ouvidas no balcão da venda entre uns barbudos de fora, novas propagandas de cigarro e bebida (...)”[18].

Como mostrou com razão Victor da Rosa, o nosso poeta da roça foi mesmo um grande desbravador, e não só das matas, mas também das inaugurais ideias ecológicas no Brasil. Ele lembra ainda ao final de sua reflexão no posfácio do livro, de uma conversa de Emanuele Coccia com Ailton Krenak, que retrata bem os efeitos da visão prenunciada por Leonardo Fróis em seus textos sobre a Natureza. O filósofo italiano dizia ao líder indígena brasileiro que “a Amazônia deveria estar dentro da nossa casa, ou mesmo dentro da gente”[19].

Notas

[1] Uma poesia de reverência à Natureza: Leonardo Fróes. Artigo de Faustino Teixeira.
[2] Victor de Rosa. Posfácio. In: FRÓES, Leonardo. Natureza, a arte de plantar. Recife: Cepe, 2025, p 247.
[3] Ibidem, p. 242.
[4] Ibidem, p. 242.
[5] FRÓES, Leonardo. Natureza, a arte de plantar, p. 220-223.
[6] Ibidem, p. 232.
[7] Ibidem, p. 233.
[8] HAN, Byung-Chul. Louvor à terra. Uma viagem ao jardim. Petrópolis: Vozes, 2021, p. 10.
[9] Ibidem, p. 26.
[10] Ibidem, p. 33.
[11] FRÓES, Leonardo. Poesia reunida (1968-2021). São Paulo: Editora 34, 2021, p. 9.
[12] FRÓES, Leonardo. Natureza, a arte de plantar, p.15.
[13] Ibidem, p. 187.
[14] Ibidem, p. 189.
[15] Ibidem, p. 240.
[16] FRÓES, Leonardo. Trilha. Poemas (1968-2015). Rio de Janeiro: Azougue, 2015, p. 109-111.
[17] FRÓES, Leonardo. Natureza, a arte de plantar, p.212.
[18] Ibidem, p. 215.
[19] Ibidem, p. 247.

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