Cardeal McElroy diz que entrada dos EUA na guerra com o Irã "não é moralmente legítima"

Robert McElroy | Foto: CNS/Paul Haring / National Catholic Reporter

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11 Março 2026

O cardeal-arcebispo Dom Robert W. McElroy , de Washington, respondeu, em uma entrevista por e-mail, a perguntas do jornal Catholic Standard, da Arquidiocese Católica Romana de Washington, sobre os ataques dos EUA ao Irã. Suas respostas foram publicadas no site do Catholic Standard em 9 de março e aparecerão na edição impressa de 12 de março.

A entrevista com Robert W. McElroy, é publicada por Catholic Standard, 09-03-2026. 

Eis a entrevista.

Cardeal McElroy, faz uma semana que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã, e Israel também atacou o Líbano. Esta semana, o senhor tem celebrado missas em paróquias por toda a Arquidiocese de Washington. Quando o senhor fala com os paroquianos, o que eles dizem sobre esta situação?

Tenho encontrado um nível muito significativo de ansiedade sobre a guerra no Irã, e muitos paroquianos falaram comigo sobre suas preocupações. Quase todos acreditam, com razão, que o regime de Khamenei tem sido, por décadas, um governo brutal e repressivo que espalhou o terrorismo pelo mundo e deve ser substituído. Mas há uma preocupação imensa de que esta guerra saia do controle e envolva os Estados Unidos em uma profundidade cada vez maior. Vários paroquianos mencionaram que têm filhos ou filhas nas forças armadas e temem que eles corram risco. Muitos falam das duas guerras anteriores no Iraque e da falta de paz ou unidade que produziram, apesar das grandes baixas americanas e dos custos imensos. Outros acreditam que, apesar dessas realidades, agora é o momento de os Estados Unidos acabarem com a teocracia no Irã e instalarem um governo mais amigável e pacífico.

Quais percepções a doutrina católica sobre a guerra oferece a respeito dos ataques ao Irã e dos contra-ataques do Irã em toda a região do Golfo?

A Igreja possui um ensinamento longo e substancial sobre as questões de guerra e paz. No centro desse ensinamento está uma resistência permanente à guerra. O Papa João Paulo II opôs-se vigorosamente à Guerra do Iraque em 2003 e afirmou categoricamente que a guerra 'é sempre uma derrota para a humanidade'. O Papa Francisco pediu a abolição total da guerra, afirmando que 'toda guerra deixa o mundo pior do que estava antes'. O Papa Leão observou com alarme que há um zelo furioso pela guerra entre as nações neste momento atual, o que é totalmente incompatível com a fé católica. No âmago, cada um desses ensinamentos papais testemunha o fato de que somos seguidores de Jesus Cristo, que colocou a pacificação no centro de seu chamado ao discipulado e à fidelidade. A não-violência deve ser a primeira postura dos católicos no mundo.

Ao mesmo tempo, em algumas situações de emergência, a Igreja historicamente permitiu o recurso à guerra se seis condições forem atendidas clara e simultaneamente:

  • Causa justa: a guerra deve ser empreendida em defesa contra um ataque grave e certo a uma nação, seus aliados ou uma comunidade humana indefesa.
  • Autoridade legítima: a autoridade legítima no país que contempla a guerra deve declará-la.
  • Intenção reta: o país vai à guerra com a intenção correta, ou seja, para reparar a causa justa específica e restaurar a paz.
  • Último recurso: a guerra é o último recurso para repelir a agressão.
  • Proporcionalidade: a destruição esperada da guerra não deve superar o bem esperado.
  • Esperança razoável de sucesso.

Neste momento, a decisão dos EUA de entrar em guerra contra o Irã falha em atingir o limiar da 'guerra justa' para uma guerra moralmente legítima em pelo menos três requisitos:

O critério de causa justa não é atendido porque nosso país não estava respondendo a um ataque existente ou iminente e objetivamente verificável do Irã. Como o Papa Bento declarou categoricamente, a doutrina católica não apoia a guerra preventiva, ou seja, uma guerra justificada por especulações sobre eventos no futuro. Se a guerra preventiva fosse aceita moralmente, todos os limites para a causa de ir à guerra estariam em extremo perigo.

O critério de intenção reta não é atendido na decisão do nosso país de atacar o Irã. Um dos elementos mais preocupantes destes primeiros dias de guerra no Irã é que nossos objetivos e intenções são absolutamente obscuros, variando desde a destruição do potencial de armas convencionais e nucleares do Irã até a derrubada de seu regime, a criação de um governo democrático ou a rendição incondicional. Não se pode satisfazer o critério de intenção reta da tradição da guerra justa se não houver uma intenção clara.

Finalmente, nosso esforço de guerra atual não atende à doutrina católica da guerra justa porque está longe de ser claro que os benefícios desta guerra superarão os danos que serão causados. O Oriente Médio é a região mais instável do mundo e a mais imprevisível. A guerra já teve consequências não intencionais. A decisão moralmente desprezível do Irã de alvejar seus vizinhos na região espalhou a destruição. O Líbano pode cair em uma guerra civil. O suprimento mundial de petróleo está sob grande pressão. A potencial desintegração do Irã poderia produzir realidades novas e perigosas. E a possibilidade de baixas imensas em todos os lados é enorme.

Por todas estas razões, a doutrina católica leva à conclusão de que nossa entrada nesta guerra não foi moralmente legítima.

Qual é o seu conselho para os católicos na Arquidiocese de Washington? Quais ações eles podem tomar em resposta ao que está acontecendo no Oriente Médio?

Acho essencial que os católicos em nossa Arquidiocese rezem pela paz e pelo fim imediato deste conflito. Devemos rezar pelos nossos homens e mulheres militares. Devemos rezar pelas comunidades cristãs no Oriente Médio que são os últimos redutos da fé católica lá, particularmente no Líbano, onde a grande e espiritualmente bela comunidade católica continua a testemunhar o cristianismo na região.

Como cidadãos e crentes, devemos informar nossos representantes políticos sobre nossas posições nesta guerra que se desenrola, dando nossa própria orientação a esta terra que amamos tão profundamente. Além disso, devemos confortar aqueles em nossas famílias, nossas paróquias e nossas comunidades que estão ansiosos, para que a consolação do Espírito Santo esteja com eles.

Finalmente, e mais importante, devemos garantir que esta guerra não se transforme em um conflito prolongado, oscilando de objetivo em objetivo e de estratégia em estratégia. Um dos ensinamentos católicos mais importantes sobre a guerra e a paz é que as nações têm a obrigação estrita de terminar uma guerra o mais rápido possível. Isso é particularmente verdadeiro quando a decisão de ir à guerra não foi moralmente legítima. Existe uma lógica de guerra que pressiona para frente, escalando em suas dimensões e cronograma. Nosso país foi vítima dessa lógica de guerra no passado recente, especialmente no Oriente Médio. Devemos todos trabalhar juntos para proibir que este expansionismo nos leve a um atoleiro contínuo no Irã.

Quais são as suas preocupações sobre o futuro do nosso país e do nosso mundo à medida que esta guerra continua?

Minhas preocupações mais profundas sobre essas questões residem na deterioração geral das normas morais em nosso próprio país e em todo o mundo. Pois as questões morais que nos confrontam hoje no Irã fazem parte de uma questão maior de renovação moral e diálogo que é profundamente necessária em nosso país, que reverenciamos tão profundamente. Os fundadores de nossa nação acreditavam que a América só teria sucesso se seu fundamento moral fosse sólido e forte. Podemos esquecer facilmente que, quando nossa nação começou como uma república democrática, não havia nenhuma nação existente que fosse uma democracia. Nem houve uma por mais de mil anos. O que eles fizeram foi verdadeiramente um experimento em democracia. Essa mesma necessidade de renovação moral que estava presente na nossa fundação existe de forma aguda neste momento. Rezo para que, em nosso 250º ano [de independência], possamos nos mover para enfrentar esse desafio com zelo, unidade e graça."

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