Trump quer replicar o modelo venezuelano no Irã e não descarta enviar tropas

Foto: Wikimedia Commons | The White House

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03 Março 2026

Donald Trump não para de cruzar linhas vermelhas. As da história recente dos EUA e as que ele mesmo foi traçando ao longo de sua carreira política. Disse que não queria mais guerras, e já bombardeou sete países desde seu retorno à Casa Branca. Anunciou que não queria operações militares que implicassem mudanças de Governo, e sequestrou Nicolás Maduro e agora sonha em replicar esse modelo no Irã – mas também em Cuba –. Prometeu que os EUA seriam o primeiro – America First –, mas está dedicando mais horas e recursos a reorganizar o mundo do que a melhorar a vida dos estadunidenses. E, com o Irã, a Administração Trump não deixa de encadear contradições quanto a prazos – primeiro falou-se de uns dias e agora de quatro ou cinco semanas –, propósitos – enunciou-se tanto a mudança de regime quanto a supressão de capacidades militares –, objetivos – primeiro convocou-se as revoltas e depois o colaboracionismo dos novos governantes – e até o uso de tropas em solo iraniano – primeiro descartadas para depois nem tanto, com o adendo “mas não parece necessário” –.

A informação é de Andrés Gil, publicada por El Diario, 03-03-2026. 

Apenas um em cada quatro estadunidenses aprova os ataques contra o Irã, enquanto aproximadamente a metade, incluindo um em cada quatro republicanos, acredita que Donald Trump está demasiado disposto a utilizar a força militar, segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos. E apenas 27% dos pesquisados dizem aprovar os ataques, enquanto 43% os desaprovavam e 29% não estavam seguros.

Os bombardeios ao Irã pelas mãos de Israel que começaram na madrugada de sábado, mataram a cúpula governante iraniana, assassinaram quase 200 escolares e custaram a vida de quatro soldados estadunidenses são apenas um aperitivo, segundo afirmou o presidente dos EUA nesta segunda-feira na CNN. “Temos o melhor exército do mundo e o estamos utilizando. Nem sequer começamos a golpeá-los com força. A grande onda nem sequer ocorreu. A grande chegará em breve”, ameaçou Trump.

E em uma conversa com a Fox, falou em replicar o modelo venezuelano de um Governo local assimilado a Washington: “Disse que há um plano. Aponta a Venezuela como modelo, o que significa que, ao entrar, tinha certa ideia do que se aproximava”. Ou seja, Trump considera equivalente um país três vezes maior, a milhares de quilômetros, com 7 horas de diferença, com um regime islâmico há 47 anos a um país sem quase nenhuma capacidade de se defender, no mesmo continente e com anos de sanções e embargos econômicos diretos.

Além disso, os líderes iranianos estiveram se preparando não apenas para mobilizações militares, mas também para sua própria sobrevivência política. Segundo informou o The New York Times, abordaram uma série de questões, entre elas quem dirigiría o país se o aiatolá Khamenei e os altos funcionários fossem assassinados, como acabou ocorrendo no último sábado.

Os líderes iranianos, segundo o NYT, estiveram analisando quem poderia ser “a Delcy do Irã”, em referência a Delcy Rodríguez, a vice-presidente venezuelana que chegou a um acordo com a Administração Trump para governar a Venezuela após o sequestro de Maduro. E o diário nova-iorquino apontava Ali Larijani, chefe da Segurança no Irã, como possibilidade.

Enquanto isso, o aiatolá Alireza Arafi, de 66 anos, foi nomeado neste domingo como o terceiro membro do conselho interino que liderará o país após o assassinato de Ali Khamenei, nos ataques de EUA e Israel. Arafi, um jurista do Conselho dos Guardiões, assume junto ao presidente do Irã, Masud Pezeshkian, e ao chefe do Poder Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni-Ejei.

À pergunta sobre se havia alguém no país disposto a se levantar, o presidente dos EUA respondeu na Fox: “Foram eliminados 49 líderes. Pensávamos que nos levaria quatro semanas para nos livrarmos dos líderes iranianos. Ficamos impactados quando soubemos o que estava acontecendo. Sabíamos exatamente o que estava acontecendo... Agora estão falando de utilizar pessoas de quem ninguém ouviu falar, nem mesmo eles. Quando se reuniram, fizeram-no para o café da manhã. Pensaram que era bom por muitas razões. Em primeiro lugar, não acreditavam que soubéssemos. Nunca se ataca pela manhã, pelo vento, pelo sol e muitas outras coisas. Foi incrível que soubéssemos tudo o que sabíamos”.

Ao mesmo tempo, em declarações ao The New York Post, Trump não descartou mobilizar tropas no Irã “se for necessário”.

“Não tenho nenhum problema com o envio de tropas terrestres. Todos os presidentes dizem: 'Não haverá tropas terrestres'. Eu não digo isso”, disse Trump: “Eu digo 'provavelmente não precisaremos delas' ou 'se forem necessárias'”.

E quanto vão durar os ataques? Trump não tem certeza. “Tínhamos previsto entre quatro e cinco semanas”, disse o presidente dos EUA nesta segunda-feira na Casa Branca, “mas temos capacidade para ir muito além. Faremos isso. Seja o que for que alguém tenha dito hoje sobre 'o presidente querer fazer muito rápido e depois se entediar'. Eu não me entedio. Não há nada de entediante nisso. Alguém dos meios de comunicação disse que me entediaria depois de uma semana ou duas. Não, não nos entediamos. Eu nunca me entedio. Se me entediasse, não estaria aqui agora mesmo. Garanto a vocês que calculamos quatro semanas para acabar com a cúpula e isso foi feito em aproximadamente uma hora. Portanto, estamos muito adiantados em relação ao cronograma”.

John Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, aprofundou em uma entrevista com o secretário de Guerra, Pete Hegseth: “Não se trata de uma operação que possa ser realizada da noite para o dia. Os objetivos militares que foram fixados levarão tempo para serem alcançados e, em alguns casos, serão difíceis e exigentes. Esperamos sofrer mais baixas e, como sempre, trabalharemos para minimizá-las. Mas, como disse o secretário, trata-se de operações de combate importantes”.

Os aviões dos EUA abandonam as bases na Espanha após o 'não' do Governo para que as usem para atacar o Irã

No momento, já existem seis soldados estadunidenses mortos, que poderiam ser muitos mais se ao final forem mobilizadas tropas em solo iraniano. Centenas de iranianos, entre eles quase 200 meninas de uma escola. E Donald Trump está esperando que o colapso do regime iraniano pelas bombas dê luz a um Governo amigo de Washington e Israel à maneira da Venezuela.

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