Aos mercadores da morte. Carta de Dom Mimmo Battaglia, cardeal arcebispo de Nápoles

Foto: Zeferli/Canva

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09 Março 2026

"E sei que alguns sorrirão, chamando tudo isso de ingenuidade. Mas a única verdadeira ingenuidade, hoje, é acreditar que a guerra possa salvar. A única verdadeira loucura é pensar que se possa continuar a incendiar o mundo sem se queimar com ele. O único realismo possível, agora, é a paz", escreve Dom Mimmo Battaglia, cardeal e Arcebispo Metropolitano de Nápoles, em carta publicada por Chiesa di Napoli, 08-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a carta.

Aos mercadores da morte, a vocês que fazem negócios com o sangue dos homens, a vocês que contam os lucros enquanto as mães contam os filhos, a vocês que chamam de "estratégia" o que o Evangelho chama de escândalo, dirijo palavras que não nascem da diplomacia, mas da ferida.

Escrevo a vocês desta terra que treme. Treme sob os passos dos pobres, sob o choro das crianças, sob o silêncio dos inocentes, sob o ruído feroz das armas que vocês construíram, venderam e abençoaram com seu cinismo.

Escrevo a vocês no momento em que o mundo parece ter reaprendido a linguagem de Caim. Aquela linguagem antiga e terrível que pergunta: "Sou eu o guardião do meu irmão?".

E, no entanto, sim, sou. Todos somos.

E vocês, mais do que os outros, porque escolheram não só desviar o olhar, mas também lucrar com as feridas do seu irmão.

Há noites, neste tempo, em que a humanidade parece perdida. Noites longas, em que o céu não oferece consolo e a terra só devolve escombros. Contudo, justamente ali, no coração da noite, o Evangelho persevera obstinadamente. Continua a dizer que nenhum homem nasce para ser alvo. Que nenhuma criança está destinada ao pó. Que nenhuma mãe tem de aprender a reconhecer o filho por um farrapo de tecido.

Que a paz não é uma fraqueza motivo de zombaria, mas a mais elevada forma de força. Vocês fazem o oposto do pão. O pão é partido para alimentar. As armas partem os corpos para matar de fome o futuro. O pão coloca os homens à mesa. As armas cavam fossas, esvaziam casas, estendem mesas sem comensais. O pão tem o aroma das mãos. As armas têm o cheiro frios dos balanços.

E me digam: como vocês conseguem?

Como conseguem dormir sabendo que por trás de cada contrato há carne exposta? Que por trás de cada assinatura há uma escola esvaziada, um hospital derrubado, um rosto apagado?

Como conseguem chamar de "mercado" aquilo que, diante de Deus, tem o nome mais simples e mais terrível: pecado?

Não falo a vocês como juiz. Não tenho tribunais para abrir. Falo a vocês como homem e como pastor. Como crente ferido pela ferocidade dos tempos. Como bispo que sente em suas entranhas o grito de Cristo ainda crucificado nos povos humilhados, nas cidades devastadas, nos corpos sem nome que o mar devolve e a guerra esconde. Porque o Crucifixo hoje tem as mãos dos civis soterrados sob as bombas. Tem os olhos vidrados de crianças que não conseguem dar nome ao horror. Tem os rostos das mulheres que apertam fotografias em vez de abraçar filhos. Tem a sede dos refugiados, o medo dos idosos, o tremor de quem não tem mais uma casa e nem mesmo uma língua para expressar sua dor.

E vocês, mercadores da morte, continuam a passar sob aquela cruz como os soldados outrora fizeram, dividindo as vestes do condenado. Só que hoje não sorteiam uma túnica: sorteiam povos inteiros. Apostam em fronteiras, em rancores, nas escaladas, nos equilíbrios armados. E enquanto isso, chamam o medo de paz, a dominação de ordem, a ameaça permanente de segurança.

Mas não há segurança onde se semeia a morte. Não há futuro onde os jovens são educados para a suspeita. Não há justiça se a riqueza de poucos se fundamenta no luto de muitos. E não haverá paz enquanto a guerra continuar sendo um investimento aceitável.

O Evangelho, ao contrário, não negocia. O Evangelho não abençoa as indústrias da destruição. O Evangelho não se acostuma com os mortos. O Evangelho não suporta que a dor se torne estatística e que os massacres sejam consumados dentro do comentário morno de um noticiário.

O Evangelho coloca a criança no centro. Sempre. E quando uma criança está no centro, todas as razões de vocês desmoronam. Desmoronam as doutrinas militares, as alianças oportunistas, as justificativas geopolíticas, as linguagens técnicas com que vocês escondem a vergonha. Porque diante de uma criança assassinada, não existe mais direita ou esquerda, oriente ou ocidente, amigo ou inimigo: existe apenas o abismo.

Peço a vocês, então, não apenas que parem. Peço a vocês que se convertam. Sim, convertam-se. Palavra antiga, palavra escandalosa, palavra necessária. Converter-se significa parar de pensar que tudo tem um preço. Significa reconhecer que a vida humana é sagrada, ou deixará de ser humana. Significa abandonar a lógica do lucro e abraçar aquela da proteção. Significa ter a coragem, enfim, de perder dinheiro para salvar homens.

Sacudam-se. Apenas uma vez, mas de verdade. Deixem que chegue até vocês o choro que mantiveram fora de seus aposentos. Deixem que os nomes dos mortos entrem em suas salas de reuniões. Deixem que uma mãe venha e perturbe suas contas. Deixem que o Evangelho arruíne sua tranquilidade. Porque não há paz sem o desarmamento do coração, e não há desarmamento do coração enquanto a mão permanecer agarrada ao lucro. A guerra não começa quando a primeira bomba cai. Começa muito antes: quando o irmão se torna um obstáculo, quando um pobre se torna irrelevante, quando a compaixão é considerada ingênua, quando a economia deixa de servir à vida e decide usá-la.

Contudo, não escrevo para abandoná-los ao desespero. Escrevo porque até para vocês existe um caminho. Deus não para de bater, nem mesmo às portas mais blindadas. Para vocês também existe uma possibilidade de redenção. Para vocês também existe uma Sexta-Feira Santa que pode abrir-se para a Páscoa.

Mas vocês precisam descer. Descer dos pedestais do poder, das linguagens que absolvem, das salas onde a morte é planejada sem cheiro e sem rosto. Vocês precisam se tornar humanos novamente. Antes que diretores, acionistas, estrategistas, intermediários: homens. Homens capazes de vergonha e, portanto, de verdade.

Sonho com o dia em que suas fábricas mudarão de vocação. Quando o ferro não se transformará em balas, mas em arados; quando a engenhosidade não servirá para aperfeiçoar a ofensa, mas para preservar a vida; quando os capitais serão gastos para curar, educar, reconstruir, acolher. Sonho com o dia em que a palavra "lucro" não rimará mais com "funeral".

E sei que alguns sorrirão, chamando tudo isso de ingenuidade. Mas a única verdadeira ingenuidade, hoje, é acreditar que a guerra possa salvar. A única verdadeira loucura é pensar que se possa continuar a incendiar o mundo sem se queimar com ele. O único realismo possível, agora, é a paz.

Por isso, faço uma pergunta que, espero, não os deixará em paz: quanto mais sangue é necessário para vocês? Quanta dor mais a história terá que suportar antes que vocês entendam que estão negociando não com mercadorias, mas com filhos, com mães, com rostos, com carne amada por Deus?

Parem. Antes que seja tarde demais para os povos. Antes que seja tarde demais para vocês. Parem e escutem o Evangelho da paz, que não grita, mas insiste; que não esmaga, mas converte; que não humilha, mas chama pelo nome. Escutem Cristo, desarmado e verdadeiro, que continua a dizer: "Bem-aventurados os pacificadores".

E nós, Igreja do Evangelho, não nos calaremos. Não por ideologia, mas por fidelidade. Não por ingenuidade, mas por obediência a Cristo. Não porque ignoramos a complexidade da história, mas porque conhecemos o valor infinito de cada vida.

A vocês, mercadores da morte, digo, portanto, a última palavra não como uma condenação, mas como uma súplica: devolvam o futuro. Devolvam o alívio. Devolvam os filhos às suas mães, os pais às suas casas, os sonhos à terra. Devolvam a vocês mesmos a sua humanidade. A paz os julgará. Mas, se quiserem, a paz ainda poderá salvá-los.

Com dor, com esperança, com o Evangelho entre as mãos.

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