O que Romano Guardini nos ensina sobre a tecnologia

Romano Guardini. (Foto: Domínio público/Wikimedia Commons)

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02 Julho 2026

Cem anos depois, as reflexões teológicas do padre Romano Guardini em suas Cartas do Lago de Como (Editora Carpintaria, 2025) provam ser surpreendentemente relevantes. O Papa Leão XIV chegou a mencioná-las na sua Encíclica Magnifica Humanitas, sobre os desafios que a humanidade enfrenta diante da inteligência artificial.

A reportagem é de Alexia Vidot, publicada por La Vie, 01-07-2026. A tradução é do Cepat.

Na década de 1920, o padre, teólogo e filósofo Romano Guardini (1885-1968) deixou a Alemanha, onde já era uma figura influente, para retornar à Itália, sua terra natal. Viajando pelos vales da Brianza, ele se comoveu com as “harmoniosas harmonias” de toda a “natureza, trabalhada e moldada pela humanidade”.

Esse equilíbrio relacional foi subitamente quebrado com a chegada de uma fábrica. E essa “intrusão” da tecnologia entristeceu profundamente Guardini. “Vi a máquina invadir um país que até então possuía cultura. (...) Lá no Norte, estamos acostumados. Mas aqui, é outra coisa!”, escreveu ele em 1926, em Cartas do Lago de Como.

Um poder incontrolável

Escritas exatamente há um século, estas cartas não são os devaneios de um viajante nostálgico de um passado fantasioso que ele restauraria rejeitando a modernidade. Longe de condenar a tecnologia de forma categórica, Guardini busca, ao contrário, compreendê-la como filósofo e teólogo, a fim de “captar” sua essência profunda.

Ele observa, em primeiro lugar, que a projeção tecnológica sempre existiu, que é a nossa maneira de estar no mundo. Reconhece nela, e somente nela, a capacidade de transformar o caos da natureza em um universo habitável. Mas, assim que perde o contato com a natureza e rompe com sua estrutura, adquire um poder incontrolável e perigoso. “Aqui estamos nós novamente, ameaçados por todos os lados, mas desta vez, por um caos que nós mesmos criamos”, observa ele, com lucidez.

Amar o mundo como ele é

Ao longo de oito longas cartas, ele descreve a devastação em curso e pergunta: em “um sistema de máquinas”, “a vida pode continuar existindo?”. Em sua nona e última carta, no entanto, ele encoraja seus leitores a “dizerem sim ao que está acontecendo conosco”, a acolherem o mundo como ele se apresenta, mesmo “desumanizado”. Pois é neste mundo, e em nenhum outro, que Deus nos colocou. E é responsabilidade de todos agir para dominar a tecnologia e colocá-la novamente a serviço de um “mundo real”.

A humanidade enfrenta uma escolha civilizacional: ou permitir que o poder tecnológico se torne autônomo, ou “trazer à luz uma nova camada profunda dentro da humanidade”, capacitando-a a discernir e ordenar esse poder. O teólogo espera e insiste: “Um novo tipo de ser humano deve nascer, dotado de uma espiritualidade mais profunda, uma nova liberdade e interioridade, uma nova capacidade de autodesenvolvimento e de ensinar”.

Um pioneiro

Com suas Cartas do Lago de Como, Romano Guardini se estabeleceu como um dos primeiros grandes pensadores sobre a tecnologia, senão o primeiro, precedendo Martin Heidegger e Jacques Ellul. Um pioneiro, mentor de toda uma geração (de Urs von Balthasar a Jorge Bergoglio, incluindo Joseph Ratzinger), ele o foi de fato, e não apenas na renovação litúrgica da Igreja Católica.

Prova disso, se é que alguma era necessária, é que o Papa Leão XIV o cita em sua encíclica Magnifica Humanitas sobre os desafios que a humanidade enfrenta diante da IA.

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