A Inteligência Artificial é um produto humano. Na religião, faz sentido promover a liberdade. Artigo de Vito Mancuso

Foto: Growtika/Unplash

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11 Outubro 2025

"A verdadeira questão, portanto, é o design (humano) do algoritmo que governa o aplicativo. Uma coisa é se ele visa promover a liberdade e a genuína busca espiritual, outra é se incentiva um sistemático proselitismo; uma coisa é se promove o diálogo inter-religioso baseado no respeito pelas outras religiões, outra é se fomenta a hostilidade em relação a religiões diferentes da sua".

O artigo é de Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele, de Milão, e da Universidade de Pádua, publicado por La Stampa, 06-10-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Convidado a comentar sobre as diversas aplicações da inteligência artificial na esfera religiosa, minha reação imediata foi instintivamente negativa. Mas como é possível? – eu pensava - mesmo aqui, onde o Espírito deveria inspirar soberanamente, sem qualquer mediação, acaba se sobrepondo a artificialidade da mediação, não mais humana, mas friamente tecnológica e mecânica? Mas, depois, comecei a refletir com mais calma e até vislumbrei algumas possibilidades positivas, de forma que, no final, à pergunta sobre como julgar o uso da inteligência artificial na prática religiosa, minha resposta é um lacônico "depende".

Inicialmente, reagi negativamente porque estou e continuo convencido de que o propósito da experiência religiosa consiste no despertar e no cultivo da dimensão espiritual, entendendo por "espiritualidade" o nascimento e a gestão da liberdade, que deixa de agir de forma arbitrariamente individualista e passa a agir reportando-se a um sentido mais justo e mais verdadeiro, tradicionalmente chamado de Deus, mas que também pode ser chamado de Logos, Dharma, Tao e muitos outros nomes.

Sem liberdade pessoal (entendida como conscientização, criatividade e responsabilidade), não pode haver verdadeira experiência espiritual: isso já é indicado pelo termo "espírito", que originalmente significa "vento", o elemento natural mais livre e imprevisível que existe (como aparece no latim "spiritus", no grego "pneuma", no hebraico "ruah", no sânscrito "atman"), marcando precisamente a íntima conexão entre espiritualidade e liberdade. Sem liberdade, não existe espiritualidade. No máximo, vai haver apenas religião, mais precisamente, uma religião vivenciada como enquadramento da mente dentro de uma série de doutrinas e como disciplina do corpo de acordo com uma série de preceitos, ou seja, algo muito empobrecedor do ponto de vista do florescimento da humanidade.

A questão, portanto, é compreender se a inteligência artificial favorece a liberdade pessoal ou não, e instintivamente estou inclinado a responder que não, porque a liberdade nasce apenas a partir do trabalho realizado pessoalmente. Ao contrário, se é outro que trabalha por nós, fornecendo-nos respostas prontas e nos guiando para onde quer, a liberdade diminui e, por fim, até desaparece (lembremo-nos da dialética senhor-escravo ilustrada por Hegel em "Fenomenologia do Espírito").

Mas então me perguntei: essa mediação pesada da inteligência artificial não é análoga à mediação igualmente pesada da Igreja e de outras instituições religiosas? E, ainda mais radicalmente, não é análoga às mediações ainda mais pesadas dos livros sagrados, como a Bíblia hebraica e o Talmude, o Novo Testamento, o Alcorão, os Vedas e outros ainda? E por que a inteligência artificial, em si mesma, deveria ser mais restritiva para a liberdade da pessoa do que as palavras de um líder religioso durante o sermão do domingo, do sábado ou da sexta-feira? Aliás, talvez a inteligência artificial (se os aplicativos que a utilizam configurarem adequadamente o algoritmo que a governa) poderia até mesmo reduzir as manipulações "humanas demasiado humanas" que frequentemente abundam na pregação religiosa normal.

Tomemos o tema, bastante atual, da violência de viés religioso. Não há dúvida de que nos livros sagrados, especialmente aqueles das religiões monoteístas, há uma série de textos que contêm uma forte dose de violência e ódio. Então, como a inteligência artificial lida com esses textos? Ela os apresenta como todos os outros, sem nenhum comentário específico, visto que eles também são objeto da revelação divina? Ou os exalta para combater, ainda hoje, os inimigos da verdadeira religião? Ou os omite? Ou os assinala como venenosas contaminações humanas das quais se deve tomar distância? Se a inteligência artificial seguisse esse último caminho, poderia se transformar numa valiosa ferramenta para promover a paz mundial. O mesmo vale para os outros tópicos, como o julgamento sobre as outras religiões, o papel da mulher, a instituição do casamento, a homossexualidade e a criação dos filhos.

A verdadeira questão, portanto, é o design (humano) do algoritmo que governa o aplicativo. Uma coisa é se ele visa promover a liberdade e a genuína busca espiritual, outra é se incentiva um sistemático proselitismo; uma coisa é se promove o diálogo inter-religioso baseado no respeito pelas outras religiões, outra é se fomenta a hostilidade em relação a religiões diferentes da sua. E assim por diante para todas as outras temáticas. Por mais "artificial" que seja, portanto, a inteligência transferida para a esfera religiosa continua sendo uma produção humana e, por essa razão, cada aplicativo individual deve ser analisado e verificar como efetivamente funciona e o que efetivamente produz nos usuários. Em outras palavras, é simplesmente uma questão de aplicar o antigo ensinamento de Jesus: "Pelos seus frutos os conhecereis".

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