Magnifica Humanitas: o que a primeira encíclica do Papa Leão XIV nos alerta sobre a IA. Artigo de Christian Stähler Padilha

Papa Leão XIV | Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • O que 'Magnifica Humanitas' não entendeu sobre a Torre de Babel, Neemias e IA. Artigo de Cathleen Chopra-McGowan

    LER MAIS
  • “A ciência é o presente do Brasil ao mundo”. Entrevista com o Peter J. Hotez

    LER MAIS
  • A derrota de Trump no Irã tem a mesma cara de Obama: para que serviu a guerra?

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

17 Junho 2026

"Para Leão XIV, construir essa civilização na era digital exige atitudes concretas. Entre elas, desarmar as palavras, resistindo à cultura do ódio frequentemente alimentada pelas plataformas digitais; assumir o olhar das vítimas, colocando no centro do debate tecnológico aqueles que mais sofrem os impactos dessas transformações; cultivar um realismo saudável, que não seja nem cínico nem ingênuo; e manter viva a esperança cristã", escreve Christian Stähler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e estagiário do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

No mês passado, em 25 de maio de 2026, o Papa Leão XIV lançou sua primeira encíclica como líder espiritual de mais de um bilhão de católicos ao redor do mundo. O documento recebeu o título de Magnifica Humanitas — que, em tradução livre do latim, significa "Magnífica Humanidade" — e trata de um dos grandes desafios do nosso tempo: como preservar a dignidade do ser humano diante do avanço da Inteligência Artificial (IA).

Embora tenha sido publicada naquele dia, a encíclica já havia sido propositalmente assinada dez dias antes, em 15 de maio — data historicamente associada ao lançamento da Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII. Considerada o marco inicial da Doutrina Social da Igreja (DSI), a encíclica do predecessor defendeu a dignidade humana e a justiça social diante dos abusos provocados pela Revolução Industrial. Nela há críticas ao trabalho infantil, à concentração de riqueza nas mãos de poucos, às jornadas exaustivas, bem como ao capitalismo selvagem e ao socialismo materialista. O documento representa a primeira grande sistematização moderna da Igreja sobre os graves problemas daquela época, especialmente no que diz respeito à exploração dos trabalhadores e ao abismo entre capital e trabalho.

Cento e trinta e cinco anos mais tarde, outro sucessor de São Pedro, movido pelos ensinamentos de Leão XIII — inspiração declarada para a escolha do título papal de Robert Francis Prevost, que buscou prestar tributo ao seu legado social —, volta a tratar da dignidade humana diante de um novo cenário que não afeta apenas o mercado de trabalho, mas diversos campos da vida social e até mesmo espiritual.

O presente texto tem como objetivo descrever as preocupações do Santo Padre a respeito dos impactos da inteligência artificial no que tange à dignidade da pessoa humana, ao meio ambiente e à economia digital.

O que é uma encíclica papal?

Antes de prosseguirmos ao conteúdo, é indispensável compreender o que é uma encíclica papal e qual é a sua finalidade. Trata-se de uma carta circular oficial do Papa, direcionada tanto aos bispos como aos fiéis. Seu principal objetivo é orientar a Igreja Católica como um todo em questões de fé, moral e doutrina social.

As temáticas variam bastante de pontificado para pontificado. No papado anterior, por exemplo, o Papa Francisco abordou questões ecológicas em sua encíclica Laudato Si' (2015) e o tema da fraternidade humana na Fratelli Tutti (2020). Curiosamente, não existe obrigatoriedade jurídica para a publicação de encíclicas. Ou seja, o Papa pode decidir quando e sobre o que escrever, guiando-se pelos desafios que enfrenta em sua gestão espiritual.

Estrutura do documento

Dividida em cinco capítulos e com mais de 245 parágrafos, a Carta Encíclica Magnifica Humanitas pode ser resumida da seguinte forma:

O Capítulo I faz um percurso histórico da Doutrina Social da Igreja, desde a Rerum Novarum até hoje, mostrando como ela é um pensamento vivo que se renova a cada época. O Capítulo II apresenta os fundamentos e princípios clássicos dessa doutrina — bem comum, solidariedade, subsidiariedade, destinação universal dos bens e justiça social. O Capítulo III enfrenta diretamente a questão técnica: o que é a IA, sua responsabilidade, transparência, gestão e o humanismo cristão.

O Capítulo IV, por sua vez, trata da verdade como bem comum, o trabalho e a liberdade, bem como a ecologia da comunicação. E o Capítulo V, o mais profético, convoca à construção de uma "civilização do amor" e denuncia a cultura do poder — incluindo o uso militar da inteligência artificial.

Torre de Babel ou cidade de Deus? Qual escolher?

Logo nos primeiros parágrafos, o primeiro papa agostiniano da história da Igreja apresenta um cenário que sintetiza toda a encíclica: seremos construtores de uma sociedade autossuficiente — como a Torre de Babel pretendia ser — e deixaremos de lado nossa humanidade? Ou ergueremos uma cidade onde Deus possa habitar conosco?

A imagem da Torre de Babel não é acidental. Na narrativa do Gênesis, ela representa o projeto humano de alcançar o absoluto por conta própria. Para Leão XIV, a inteligência artificial pode, dependendo de como for orientada, representar um novo momento dessa tentação: a de um mundo tecnicamente todo-poderoso, mas desumanizador. Prossegue, então, dizendo que, em vez da síndrome de Babel, devemos escolher o caminho de Neemias, figura bíblica conhecida por reconstruir os muros de Jerusalém e restaurar a esperança do povo. Assim, é possível, por meio da prática da sinodalidade, tornar a obra o lugar onde a humanidade reencontra os seus sólidos alicerces e o seu fim último.

É importante dizer, contudo, que o Papa é explícito em não rejeitar a tecnologia. Ele reconhece que a Igreja pode e deve contribuir para a construção de um mundo mais justo, promovendo o desenvolvimento integral do ser humano. O diálogo faz parte da vocação da Igreja — e o maior exemplo disso é exatamente a Rerum Novarum, que muito se diz que rompeu com a ideia de que a Igreja deveria ser neutra em assuntos sociais.

Leão XIV também retoma o chamado de seu predecessor à prudência diante do poder tecnológico. Citando o Papa Francisco, ele retoma uma ideia recorrente do jesuíta: nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma. O documento menciona diversas falas do primeiro papa latino-americano, que recorrentemente abordava questões como a energia nuclear, a biotecnologia e o mapeamento do DNA humano, que colocam nas mãos de poucos um domínio imenso sobre o conjunto do gênero humano.

Uma das diferenças históricas que a encíclica aponta é que, na era da Revolução Industrial, eram os Estados que orientavam e dirigiam a inovação. Hoje, os principais motores do desenvolvimento tecnológico são agentes privados, dotados de vastos recursos financeiros e grande capacidade de intervenção global. Embora o documento não cite nomes neste trecho, algumas análises associam essa crítica ao modelo das big techs e aos multimilionários dos nossos tempos.

Dignidade da pessoa humana, falsa neutralidade da IA e economia digital

Um dos principais pontos da encíclica é a afirmação de que a dignidade da pessoa humana não é negociável, mas encontra-se ameaçada por algumas das tendências do desenvolvimento atual da inteligência artificial. Nessa linha de raciocínio, o Papa Leão XIV ressalta que essa tecnologia não ama, não vive experiências, não sofre e não possui consciência moral.

Ao decorrer da encíclica, é dito que a IA não pode ser considerada moralmente neutra:

“Não podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, todo o artefato técnico traz consigo escolhas e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situações. Se um sistema for concebido ou utilizado de modo a tratar certas vidas como menos dignas, ou a excluí-las sem possibilidade de apelo, não se trata de um mero instrumento 'a ser bem utilizado': introduz já um critério que contradiz a dignidade inalienável da pessoa” (n. 104)

O Papa destaca que, no mundo da IA, nada é imaterial ou mágico. Embora cada resposta dada pelos algoritmos possa parecer a melhor possível, ela é resultado de uma longa cadeia de mediações, de uma rede alargada de recursos naturais, infraestrutura energética e, acima de tudo, de pessoas. Assim, uma grande parcela dos motores dessa economia digital são pessoas que se encontram em trabalho silencioso, empregadas em atividades pouco visíveis, mas fundamentais: etiquetagem de dados, moderação de conteúdos — o que, segundo o Santo Padre, muitas vezes é péssima — e treino de modelos.

Prossegue dizendo que, em muitos casos, são jovens, majoritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remuneração mínima. A este esforço invisível junta-se o ainda mais brutal da extração dos recursos necessários à produção dos dispositivos e dos microprocessadores que servem de suporte à IA. "Nalgumas regiões do mundo, adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais donde se extraem as terras raras. Corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo do cálculo não se interrompa." (n. 101).

Transparência da IA

Na visão do documento, quando os dados e os algoritmos da inteligência artificial passam a influenciar diretamente a vida das pessoas, torna-se necessário que as decisões tomadas por esses sistemas sejam compreensíveis e submetidas ao controle humano, para que o indivíduo, em sua plena dignidade, não seja reduzido a um mero perfil de consumo. Além disso, o Papa faz um apelo por medidas de equidade — como políticas fiscais, proteções sociais e políticas industriais — capazes de corrigir os desequilíbrios provocados pela concentração de riqueza e poder.

Da mesma forma, afirma que os benefícios da inovação devem ser acompanhados por investimentos em competências, infraestruturas e serviços essenciais, para que a tecnologia não aprofunde ainda mais o fosso entre aqueles que têm acesso a esses recursos e os que permanecem excluídos deles.

Desemprego e transição de carreira

Um dos grandes receios envolvendo o avanço da IA diz respeito ao desemprego — que João Paulo II já descrevia como um mal grave, capaz de se tornar uma verdadeira calamidade social. Agora, naquilo que o Papa chama de “quarta revolução industrial”, essa preocupação está ainda mais evidente, uma vez que a busca pela redução de custos e pelo aumento dos lucros pode resultar em demissões. Em vários setores, isto já está se traduzindo em novas formas de precariedade e desigualdade, com remunerações altíssimas para uma minoria altamente especializada e salários significativamente menores para uma grande parte da população ativa..

Assim, o Papa Leão XIV diz que há de se reconhecer que, ao mesmo tempo, qualquer transição efetiva ocorre de forma descontínua e desigual, fragmentada e, em muitos casos, também conflituosa.

Diz o Santo Padre:

“Não há um modelo único de mudança nem uma solução global: existem, sim, territórios e histórias que pedem respostas diversas. Dada a desigualdade que caracteriza o nosso mundo, os efeitos da difusão da IA e dos sistemas computacionais são diferentes em vários lugares. As sociedades ricas automatizam-se rapidamente e de forma caótica, reduzindo a necessidade de mão de obra, criando áreas de desemprego e atritos institucionais. Por outro lado, vastas regiões do mundo permanecem aprisionadas em economias híbridas, onde o trabalho humano mal remunerado e as tecnologias parciais coexistem sem nunca se transformarem verdadeiramente. Estes territórios tornam-se reservatórios de mão de obra precária, focos de instabilidade e de migrações forçadas. As soluções, portanto, devem ser encontradas a nível nacional e local, envolvendo as comunidades intermédias. São necessárias ferramentas capazes de se adaptar: modelos articulados, experimentações locais, redistribuições progressivas, novos direitos de acesso a bens essenciais. Evitando uma harmonia abstrata, trata-se de construir formas concretas de convivência humana na transformação” (n. 153).

Prossegue dizendo que o trabalho, além de um meio de subsistência, é também um lugar de expressão, de relações e de contribuição para a sociedade.

“Uma sociedade que só garantisse emprego a uma pequena parte da população exporia muitos a uma condição de inatividade forçada, de ausência de responsabilidades, de falta de compromissos e estímulos diários, com consequente empobrecimento humano e cultural, em contraste com o elevado nível de desenvolvimento técnico. Encontrar-nos-íamos perante um paradoxo de progresso material e retrocesso antropológico, em que desapareceriam as condições para uma paz social justa e estável. Por isso, a Doutrina social da Igreja insiste que o acesso de todos ao trabalho deve continuar a ser um objetivo prioritário das políticas públicas e dos processos econômicos, um critério para avaliar a qualidade humana de um modelo de desenvolvimento” (n. 154).

Educação na era digital e o papel da família

A encíclica dedica uma atenção especial ao campo da educação como instrumento privilegiado de discernimento na era digital. Leão XIV fala em uma “aliança educativa” — formada pela família, pela escola e pela Igreja — capaz de preparar pessoas que usem a tecnologia com liberdade e responsabilidade, e não que sejam usadas por ela. Sobre os efeitos dos meios de comunicação digitais, destaca a cultura do imediato e da hiperestimulação, que gera cansaço, tédio e fadiga.

O Papa é realista ao reconhecer que crianças e jovens crescem hoje em um ambiente profundamente moldado por algoritmos, plataformas digitais e redes sociais. Essas ferramentas foram desenvolvidas para capturar a atenção, provocar reações emocionais e gerar engajamento, muitas vezes à custa do pensamento crítico, da paciência e da profundidade das relações humanas.

A posse prematura de um aparelho celular, menciona ele, bem como sua utilização não supervisionada por adultos responsáveis, pode favorecer dependências nos adolescentes, além de expô-los a dinâmicas de isolamento, bullying e cyberbullying.

Dessa forma, educar para a era digital não significa apenas ensinar competências técnicas, mas também cultivar virtudes. Entre elas, destacam-se o discernimento, a atenção ao próximo e a busca pela verdade.

Nesse sentido, a encíclica valoriza o lar familiar como primeiro espaço de formação afetiva e moral, fazendo um apelo para que as famílias resgatem a qualidade da presença em um tempo no qual as telas frequentemente substituem os olhares, as conversas e os vínculos humanos. Já a escola é chamada a ser mais do que um centro de treinamento técnico: deve tornar-se um espaço de formação capaz de desenvolver o pensamento crítico e a abertura à transcendência.

Civilização do amor

O horizonte positivo da encíclica é a chamada civilização do amor. Mas do que se trata exatamente? A expressão foi cunhada por Paulo VI e posteriormente aprofundada por João Paulo II para descrever uma ordem social fundamentada não na lógica da competição e do poder, mas na fraternidade, na solidariedade e no cuidado mútuo.

Para Leão XIV, construir essa civilização na era digital exige atitudes concretas. Entre elas, desarmar as palavras, resistindo à cultura do ódio frequentemente alimentada pelas plataformas digitais; assumir o olhar das vítimas, colocando no centro do debate tecnológico aqueles que mais sofrem os impactos dessas transformações; cultivar um realismo saudável, que não seja nem cínico nem ingênuo; e manter viva a esperança cristã.

A encíclica termina evocando o Magnificat, o famoso cântico de Maria que exalta a grandeza de Deus e anuncia a queda dos poderosos de seus tronos. Não por acaso, o próprio título do documento ecoa essa referência: Magnifica Humanitas, a magnífica humanidade criada por Deus e assumida por Cristo. A esperança cristã, recorda o Papa, não rejeita a história, mas a transforma de dentro para fora.

Leia mais