Tecnologia, fé cristã e inteligência artificial: desafios éticos e pedagógicos para a formação humana. Artigo de Reginaldo Moreira Felipe

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25 Fevereiro 2026

"A educação da fé cristã não se limita à transmissão de informações religiosas, mas visa à formação integral do sujeito, envolvendo dimensões éticas, espirituais, comunitárias e críticas. Assim, a tecnologia deve ser integrada aos processos educativos como meio pedagógico, e não como fim em si mesma", escreve Reginaldo Moreira Felipe, aluno de Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em artigo enviada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

O acelerado desenvolvimento das tecnologias digitais, especialmente da inteligência artificial, tem provocado profundas transformações nos modos de aprender, ensinar e construir sentido sobre a realidade. No campo da educação teológica e do ensino religioso, tais mudanças suscitam novos desafios éticos, antropológicos e pedagógicos. Este artigo tem como objetivo refletir sobre a relação entre tecnologia, fé cristã e inteligência artificial, com ênfase na IA generativa (A inteligência artificial generativa é uma tecnologia capaz de produzir conteúdos inéditos a partir de padrões aprendidos em grandes volumes de dados, sem possuir consciência, intencionalidade moral ou compreensão espiritual), analisando suas implicações para a formação humana integral. Argumenta-se que a tecnologia, enquanto expressão da criatividade humana, pode contribuir para os processos educativos e formativos, desde que orientada por critérios éticos e teológicos que preservem a dignidade da pessoa, a dimensão relacional da fé e o compromisso com o bem comum.

1. Introdução

A presença da tecnologia na vida humana não constitui um fenômeno recente; contudo, sua intensidade e complexidade no contexto contemporâneo representam um marco histórico singular. A emergência da inteligência artificial, especialmente em sua forma generativa, capaz de produzir textos, imagens e conteúdos educacionais, tem impactado significativamente os processos de ensino e aprendizagem. Esse cenário interpela diretamente a educação teológica e o ensino religioso, que tradicionalmente se ocupam da formação ética, espiritual e crítica do ser humano.

Para a fé cristã, esse contexto levanta questões fundamentais: como compreender a criatividade das máquinas à luz da doutrina da criação? Quais são os limites éticos do uso da inteligência artificial? De que modo a Igreja pode contribuir para um discernimento responsável sobre essas tecnologias? Este artigo busca responder a essas perguntas a partir de uma perspectiva teológica dialogal, evitando uma solução automática para os problemas humanos e ignorando o contexto social.

Diante dessas transformações, a reflexão teológica é chamada a dialogar com a técnica, evitando tanto uma postura de rejeição quanto uma aceitação acrítica do processo tecnológico. A questão central não reside na tecnologia em si, mas nos critérios que orientam seu uso e nas concepções de ser humano que ela pressupõe e promove. Assim, este artigo propõe uma reflexão sobre tecnologia, fé e inteligência artificial, destacando desafios e possibilidades para a formação humana no contexto educativo.

A formação humana, à luz da teologia, não se reduz ao desenvolvimento de competências técnicas ou intelectuais, mas diz respeito à construção integral da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Formar o ser humano é educar sua liberdade, consciência, afetividade e responsabilidade, orientando-o para o bem, a verdade e a comunhão. A perspectiva cristã compreende a pessoa como ser relacional, chamado a viver em diálogo com Deus, com o próximo e com a criação. Assim, a formação humana torna-se um processo de humanização contínua, no qual a fé ilumina a ética, a espiritualidade sustenta a ação e o amor ao próximo se traduz em compromisso com a justiça, a dignidade e a promoção da vida.

2. Tecnologia e fé cristã: uma leitura teológica

À luz da tradição cristã, a tecnologia pode ser compreendida como expressão da criatividade humana, fundamentada na doutrina da imago Dei. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1-26-28), é chamado a transformar a realidade de modo responsável, colocando sua inteligência e criatividade a serviço da vida. Nesse sentido, a técnica não é intrinsecamente oposta à fé, mas pode ser entendida como participação na obra criadora de Deus.

Entretanto, a reflexão teológica também reconhece os riscos ilimitado da técnica, advertindo que, quando a tecnologia passa a impor sua própria lógica, o ser humano corre o risco de se tornar subordinado aos sistemas que criou. A fé cristã, ao contrário, insiste na primazia da pessoa sobre os meios técnicos, reafirmando que o progresso autêntico não pode ser reduzido à eficiência ou à produtividade.

O Concílio Vaticano II, especialmente na Gaudium et Spes, afirma que o progresso técnico é sinal da grandeza humana, mas adverte que ele precisa ser acompanhado de crescimento ético e espiritual. Assim, tecnologia e fé cristã não são realidades opostas, mas exigem integração responsável.

No campo educacional, essa reflexão é particularmente relevante. A educação da fé cristã não se limita à transmissão de informações religiosas, mas visa à formação integral do sujeito, envolvendo dimensões éticas, espirituais, comunitárias e críticas. Assim, a tecnologia deve ser integrada aos processos educativos como meio pedagógico, e não como fim em si mesma.

3. Inteligência artificial e antropologia teológica

A inteligência artificial suscita questões centrais para a antropologia teológica, especialmente no que diz respeito à compreensão da pessoa humana. Sistemas de IA operam a partir de algoritmos e grandes bases de dados, simulando processos cognitivos e comunicativos. Contudo, diferentemente do ser humano, a IA não possui consciência, liberdade moral, historicidade ou abertura à transcendência.

A teologia cristã afirma que a dignidade humana não se fundamenta na capacidade técnica ou no desempenho intelectual, mas na relação com Deus e com o outro (RAHNER, 2004). Reduzir o ser humano a um conjunto de funções cognitivas ou informacionais constitui uma forma de empobrecimento antropológico. Nesse sentido, a IA, ainda que sofisticada, não pode ser equiparada à pessoa humana nem assumir funções que impliquem responsabilidade moral ou discernimento ético.

Para a educação teológica e o ensino religioso, essa distinção é fundamental. O processo educativo não pode ser reduzido à mera entrega de conteúdos gerados por sistemas automatizados. Ensinar e aprender envolvem relação, diálogo, escuta e acompanhamento, elementos que não podem ser plenamente substituídos por tecnologias, por mais avançadas que sejam.

4. IA generativa e desafios ético-pedagógicos

A IA generativa introduz desafios específicos para o campo educacional. Ao produzir textos explicativos, resumos e materiais didáticos, esses sistemas podem facilitar o acesso à informação, mas também apresentam riscos, como a padronização do pensamento, a superficialidade da aprendizagem e a diluição da autoria intelectual.

Do ponto de vista ético, a responsabilidade pelo uso da IA não pode ser atribuída às máquinas, mas aos sujeitos e instituições que as desenvolvem e utilizam. A ética cristã enfatiza princípios como a dignidade da pessoa humana, a justiça social e o cuidado com os mais vulneráveis, que devem orientar o uso da tecnologia (FRANCISCO, 2015). No contexto educacional, isso implica questionar quem se beneficia da tecnologia, quem é excluído e quais valores estão sendo promovidos.

No ensino religioso, há ainda o risco da descontextualização do discurso religioso, quando conteúdos gerados por IA são utilizados sem mediação crítica. Torna-se, portanto, essencial desenvolver nos estudantes, competências interpretativas, capacidade de análise crítica e sensibilidade ética, de modo que a tecnologia seja utilizada como ferramenta de apoio e não como fonte normativa do saber religioso.

5. Possibilidades formativas para a educação teológica e o ensino religioso

Apesar dos desafios, a inteligência artificial pode oferecer contribuições relevantes quando integrada de forma crítica e responsável. No âmbito da educação teológica, a IA pode auxiliar na organização de bibliografias, no acesso a textos clássicos, na tradução de documentos e no apoio à pesquisa acadêmica. No ensino religioso escolar, pode favorecer metodologias mais interativas e inclusivas.

Contudo, a tradição cristã recorda que a formação da fé é essencialmente relacional e comunitária. Nenhuma tecnologia substitui a presença do educador, o diálogo em sala de aula e a experiência compartilhada de construção de sentido. A IA deve ser compreendida como recurso pedagógico complementar, subordinado a um projeto educativo comprometido com a formação integral do ser humano (PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA, 2020).

6. Considerações finais

A análise da relação entre tecnologia, fé cristã e inteligência artificial generativa evidencia que os desafios contemporâneos ultrapassam o campo técnico ou pedagógico, situando-se no âmbito da teologia moral e da antropologia teológica. A inteligência artificial, enquanto expressão da racionalidade humana aplicada à técnica, coloca em questão o próprio sentido da ação humana, da liberdade e da responsabilidade ética, exigindo um discernimento à luz da fé.

Do ponto de vista ético-teológico, a tradição cristã afirma que a técnica não possui autonomia moral em si mesma, sendo sempre dependente das intenções, valores e estruturas sociais que a orientam. Quando absolutizada, a tecnologia corre o risco de assumir contornos ideológicos, substituindo critérios éticos por lógicas de eficiência, controle e desempenho. A fé cristã, ao contrário, recorda que o ser humano não pode ser reduzido a dados, padrões ou algoritmos, pois sua dignidade funda-se na condição de criatura chamada à relação com Deus, com o próximo e com a criação.

A inteligência artificial generativa desafia, assim, a teologia a reafirmar uma antropologia relacional e integral. Embora capaz de simular processos cognitivos e criativos, a máquina não participa da dimensão ética, espiritual e vocacional que caracteriza a pessoa humana. Confundir inteligência artificial com inteligência humana implica o risco de obscurecer a singularidade da consciência moral, da liberdade e da abertura à transcendência, elementos centrais da visão cristã do ser humano.

No horizonte da formação humana, a ética cristã oferece critérios de discernimento que superam abordagens meramente normativas. Inspirada no Evangelho, ela propõe uma ética do cuidado, da responsabilidade e do bem comum, capaz de orientar o uso da inteligência artificial para fins verdadeiramente humanizadores. Tal perspectiva convoca educadores, líderes religiosos e instituições formativas a assumirem um papel profético, questionando estruturas tecnológicas que produzem exclusão, vigilância ou desumanização.

Conclui-se, portanto, que o diálogo entre fé cristã e inteligência artificial generativa não é opcional, mas constitutivo da missão teológica no contexto contemporâneo. Cabe à teologia contribuir para uma cultura tecnológica ética, na qual o progresso científico seja integrado a um projeto de humanidade inspirado na justiça, na solidariedade e na esperança cristã, reafirmando que a técnica deve permanecer a serviço da vida e jamais ocupar o lugar que pertence à dignidade da pessoa humana e ao mistério de Deus.

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Versão Almeida. Bíblia de Estudo, 2003.

FRANCISCO, Papa. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

FRANCISCO, Papa. Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2024: Inteligência artificial e paz. Vaticano, 2024.

PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA. Rome Call for AI Ethics. Vaticano, 2020.

RAHNER, Karl. Fundamentos da fé. São Paulo: Paulus, 2004.

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