Uma análise mais aprofundada da encíclica de Leão XIV: o propósito do ensino social católico na era da IA. Artigo de Thomas Reese

Foto: Vatican Media

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24 Junho 2026

"O primeiro capítulo da encíclica é notável não apenas por recapitular a história do ensino social católico, mas também por situá-la no contexto do desenvolvimento da doutrina. O ensino social católico não é uma coleção de princípios eternos aplicáveis em todo contexto histórico. Ele evolui em diálogo com os tempos."

O artigo é do padre jesuíta Thomas Reese, ex-editor-chefe da revista America de 1998 a 2005 e autor de O Vaticano por dentro (Edusc, 1998), publicado por National Catholic Reporter, 23-06-2026.

Eis o artigo. 

Este é o primeiro de uma série de artigos do jesuíta padre Thomas Reese sobre a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas. Este texto se concentra na introdução e no Capítulo 1.

Em sua nova encíclica, Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), o Papa Leão XIV afirma que a humanidade está diante de uma escolha: irá "construir uma nova Torre de Babel" ou "edificar a cidade em que Deus e a humanidade habitam juntos"? Irá criar "um lugar onde a dignidade de toda pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade tornada possível", ou irá criar "um mundo desumano e mais injusto"?

Essa é uma escolha que cada geração enfrenta, mas é especialmente desafiadora hoje porque as novas tecnologias — como a digitalização, a inteligência artificial e a robótica — tornaram o impacto dessas escolhas ainda mais dramático.

"Ao longo dos séculos, o desenvolvimento tecnológico melhorou significativamente as condições de vida da humanidade", reconhece Leão na introdução da encíclica, lançada em 25 de maio. Mas a história "também revelou a ambiguidade de ferramentas que podem causar danos quando não orientadas para o bem".

"A tecnologia tem o poder de curar, conectar, educar e proteger nossa casa comum", explica Leão, "mas também pode dividir, excluir e gerar novas formas de injustiça".

"Na era da inteligência artificial", adverte Leão, "quando a dignidade humana é ameaçada por novas formas de desumanização, temos o urgente dever de permanecer profundamente humanos."

Devemos evitar a "síndrome de Babel", que Leão descreve como "a idolatria do lucro que sacrifica os fracos", promove "uma uniformidade que neutraliza as diferenças" e tenta "traduzir tudo, incluindo o mistério da pessoa, em dados e desempenho".

Por outro lado, construir a cidade fundada no bem comum significa reconhecer que o amor de Deus nos chama à vida "em toda a sua plenitude" (Jo 10,10) e à comunhão com Ele.

Os católicos devem "contribuir diligentemente para toda iniciativa que construa um mundo mais justo", diz Leão, em colaboração "com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com quem partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade". Por meio do diálogo, ele diz, "buscamos identificar novos caminhos para o bem comum e para a promoção de uma vida digna para todos".

"A Doutrina Social da Igreja", acredita Leão, "pode oferecer uma contribuição especial a esse diálogo porque é um legado de sabedoria, onde encontramos princípios para o pensamento, critérios para o discernimento e o julgamento, e orientações concretas para a ação".

Diante das tecnologias em desenvolvimento, o ensino social católico oferece "critérios de discernimento — a dignidade da pessoa humana, o destino universal dos bens, a opção preferencial pelos pobres, o cuidado com a nossa casa comum e a paz".

Ao concluir a introdução, Leão diz que precisamos agora "traduzir esses critérios em práticas como o planejamento responsável, a avaliação do impacto humano e social, a inclusão dos mais vulneráveis, a promoção da alfabetização digital e a orientação da pesquisa e da indústria em direção à justiça e à paz".

A Doutrina Social como processo vivo

No primeiro capítulo, Leão explica que o ensino social católico não é um "código de ética externo imposto de cima". Ele se desenvolve em resposta às situações históricas em que as pessoas vivem. As coisas novas (res novae), como a inteligência artificial, desafiam "as categorias da Doutrina Social de dentro, exigindo seu desenvolvimento ulterior em fidelidade ao Evangelho".

Ele também afirma que não é papel da Igreja substituir o Estado ou impor seus pontos de vista. "A Igreja assim se coloca ao lado do mundo sem dominá-lo", escreve ele. "Apoia com humilde firmeza as escolhas que promovem a dignidade de toda pessoa, a coesão das comunidades e o bem de todos."

A doutrina social católica não fornece "um repertório de soluções técnicas ou um modelo econômico ou político a ser contraposto a outros"; antes, "se oferece como fundamento para o discernimento coletivo, ajudando a reconhecer e promover tudo o que serve à dignidade das pessoas, à vitalidade das comunidades e ao bem comum".

No restante do Capítulo 1, Leão relata como o ensino social católico evoluiu ao longo do tempo por meio de diversos pontificados e do Concílio Vaticano II. Respondeu às grandes transformações sociais do século XIX até os dias atuais. Ele mostra que "dentro dessa tradição, o núcleo imutável das verdades reveladas sobre a pessoa humana e a sociedade se entrelaça constantemente com uma renovada capacidade de escutar as situações históricas e de responder às questões contemporâneas". Argumenta que sua nova encíclica se situa em continuidade com essa tradição.

O primeiro capítulo da encíclica é notável não apenas por recapitular a história do ensino social católico, mas também por situá-la no contexto do desenvolvimento da doutrina. O ensino social católico não é uma coleção de princípios eternos aplicáveis em todo contexto histórico. Ele evolui em diálogo com os tempos.

Em segundo lugar, o capítulo apresenta o ensino social da Igreja com humildade e firmeza. A Igreja não pode impor sua doutrina; precisa estar em diálogo com formuladores de políticas, cientistas e outros especialistas. Não apenas ensina. Também ouve e aprende.

A Igreja quer que todos participem dessa conversa sobre a direção da tecnologia digital e da IA. Sua esperança é que, por meio do diálogo e do discernimento coletivo, escolhamos construir uma cidade para o bem comum, em vez da Torre de Babel. No Capítulo 2, que Thomas Reese analisará em seu próximo artigo, Leão expõe os princípios do ensino social católico que podem orientar nosso discernimento da tecnologia digital e da IA.

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