30 Mai 2026
"Certamente não é um documento moderado ou, pior, centrista. Requer pensamento radical, um compromisso exigente de todos, não apenas dos fiéis", escreve Marco Damilano, jornalista, em artigo publicado por Domani, 28-05-2026.
Eis o artigo.
A imagem da cidade reaparece diversas vezes na carta encíclica Magnifica Humanitas. A cidade de Babel, "sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e, em vez da comunhão, escolhe a homologação", escreve Leão XIV. "Quando a cidade é construída sobre o orgulho e a pretensão de autossuficiência, a comunicação se rompe, as línguas se confundem e os seres humanos deixam de se entender. O resultado não é a unidade, mas a dispersão."
E a cidade de Jerusalém, que, quando chega o profeta Neemias, "ainda está em ruínas, os muros desmoronaram e os portões foram queimados." Neste contexto desanimador, Neemias, enfatiza o Papa, "não impõe soluções de cima para baixo. Ele convoca famílias, confia a cada uma um trecho da muralha para reconstruir, ouve seus medos, coordena esforços, enfrenta oposição... a cidade renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas pela responsabilidade compartilhada de todo o povo.
Babel e Jerusalém são os dois ícones que formam o pano de fundo de toda a encíclica: universais, eternos, atuais. Uma é uma imagem de divisão, a outra de unidade e construção. Duas imagens políticas, portanto. Duas cidades.
"Deus vive nas cidades"
"Deus vive na cidade", lemos no documento final da Conferência das Igrejas Latino-Americanas em Aparecida (2007), presidida pelo Cardeal Jorge Mario Bergoglio. "É interessante que a revelação nos diga que a plenitude da humanidade e da história se realiza em uma cidade", escreveu o Papa Francisco mais tarde na Evangelii Gaudium: "A nova Jerusalém, a Cidade Santa, é o objetivo para o qual "Toda a humanidade está em jornada."
O Papa Prevost está em profunda continuidade com esta inspiração agostiniana e conciliar: a salvação reside nas cidades, na história concreta dos homens e das mulheres. O resultado de sua construção é aberto.
Elas podem se tornar Babel e Jerusalém, podem ser marcadas pelo bem comum ou pela "cultura do poder" que, como lemos na Magnifica Humanitas, "penetra a sociedade, modifica as relações e os comportamentos, expande-se normalizando a guerra, buscando um poder militar cada vez maior, aproveitando-se da crise do multilateralismo e alimentando um falso realismo que repete que não há alternativas." Um retrato de nossos tempos.
Desafio Antropológico
O desafio é global, não mais atrelado a estados individuais; é antropológico, envolvendo a própria natureza do homem.
Todos os princípios tradicionais da doutrina social da Igreja — subsidiariedade, solidariedade, justiça social — devem ser reinterpretados à luz de um mundo transformado.
Hoje, escreve o Papa Prevost, "o desenvolvimento humano integral é o horizonte dentro do qual..." interpretar as transformações do nosso tempo, incluindo as da revolução digital." O Papa apela ao desarmamento da IA, governando-a com as ferramentas da política. Ele ataca o "desinteresse pela verdade que leva ao totalitarismo", citando Hannah Arendt, o "falso pragmatismo que nos convida a cortar as raízes da memória, como se pudéssemos inaugurar uma espécie de 'nova criação' desvinculada do passado." A casa comum, o bem comum, é o espaço para a ação.
Nenhum líder político do nosso tempo é capaz de oferecer ao debate político e civil um reflexo desta profundidade. E a encíclica merece um debate mais profundo e menos sufocante do que aquele oferecido pelos comentadores mais fundamentalistas, aqueles que amam a Deus e odeiam os homens e mulheres que habitam a história. Os muitos católicos que reivindicam este rótulo para formar um pequeno grupo ou facção, para obter interesses particulares, deveriam meditar sobre este documento, que corre o risco de ser abafado pelo ruído do nada, uma das características que reconhecem Babel. Certamente não é um documento moderado ou, pior, centrista. Requer pensamento radical, um compromisso exigente de todos, não apenas dos fiéis.
Jerusalém vs. Babel
"Ó grande cidade, cidade poderosa, vestida de linho fino, púrpura e escarlate, adornada com ouro, pedras preciosas e pérolas! Em uma hora chegou o teu julgamento, em uma hora se perdeu a tua grande riqueza."
Esta é a imagem da Babilônia no capítulo 17 do livro do Apocalipse. O Apocalipse é um livro muito apreciado por Peter Thiel; parece ser o fundamento do seu pensamento: a tecnologia, o poder destrutivo do passado, fundando a nova humanidade. O Apocalipse retorna várias vezes na extraordinária encíclica de Leão XIV, no sentido oposto. "No Apocalipse", escreve o Papa, "a nova Jerusalém desce em nossa direção como um presente para todo o povo de Deus, 'preparada como uma noiva adornada para o seu esposo'." Os muros de Jerusalém não são mais fortificações defensivas. Seus portões, que Neemias guardava com tanto cuidado, permanecem permanentemente abertos a todas as nações. A presença de Deus oferece luz e vida a todos... Enquanto aguardamos sua concretização, esta visão se apresenta como uma exortação, um chamado para superarmos nossas divisões e trabalharmos juntos: este é o caminho de Jesus Cristo, ontem, hoje e para sempre."
Um chamado religioso, mas também um convite para trabalharmos pela cidade de Jerusalém, que na história não é dada de uma vez por todas, mas deve ser continuamente construída, junto com todas as mulheres e homens de boa vontade, rejeitando a tentação de Babel, o pensamento único, a cidade que se julgava poderosa com seus líderes onipotentes e que, em vez disso, gerou divisão, desordem, confusão, guerra. Antes que se transforme em pó.
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