06 Junho 2026
"A América que se torna Estados Unidos é um projeto político-religioso e um ato de fé política e religiosa. É uma fé que muda porque os Estados Unidos do século XXI são compostos por um tecido religioso, social e cultural que, em nível nacional, está cada vez menos centrado no cristianismo e mais multirreligioso. Mas também é um país muito mais ateu, distante da fé nos EUA, uma fé da qual os EUA sempre precisaram", escreve Massimo Faggioli, em artigo publicado por La Stampa, 29-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
No domingo, às 18h30, no Teatro Comunale Verdi, em Gorizia, será realizado um encontro intitulado "Religião e Política na Era Trump", com o historiador da religião Massimo Faggioli, o colega Roberto Rusconi e o jornalista Federico Rampini. O evento faz parte da 22ª edição do festival èStoria, dedicado ao tema da religião. Outros convidados confirmados são Alessandro Barbero, Andrea Riccardi, Cecilia Sala, Franco Cardini, Piero Stefani, Toby Wilkinson e Steve Tibble.
Eis o artigo.
A relação tensa, do início ao fim de seu pontificado, entre o Papa Francisco e a direita política e religiosa nos Estados Unidos não foi apenas uma questão de afinidade, mas um sintoma de uma mudança cultural tanto entre as elites católicas estadunidenses quanto no âmbito popular. Essa crise está longe de terminar, mesmo após a eleição de Leão XIV, o primeiro papa oriundo dos Estados Unidos: é um sintoma do eclipse do ultramontanismo novecentista — aquele profundo senso de lealdade ao papa em Roma, típico de um catolicismo "romanizado" como o catolicismo estadunidense — em uma igreja global cada vez mais composta por "crentes sem fronteiras".
O catolicismo estadunidense mostra sinais de uma nova fase de nacionalização, em uma relação dialética e polêmica com Roma que era impensável nos pontificados anteriores a Francisco. O problema assume uma forma mais complexa com a eleição de Leão XIV e um dualismo cada vez mais acentuado, não apenas com a presidência de Trump, mas também com importantes círculos da direita "cristianista" nos EUA (como visto em meados de março com a operação que levou as "lições do anticristo" de Peter Thiel a Roma). O que aconteceu no catolicismo estadunidense politicamente militante no início do século XXI representa um desvio ou uma inversão da rota das trajetórias das reformas teológicas iniciadas pela Igreja Católica após o Concílio Vaticano II (1962-1965).
Um estudo sociológico da Universidade Católica da América, publicado em novembro de 2023, e outro subsequente, em outubro de 2025, confirmaram a orientação tradicionalista e conservadora do jovem clero católico estadunidense. O clero progressista, de cultura liberal-progressista, influenciado pela recepção do Concílio Vaticano II, está agora desaparecendo e sendo substituído por algo diferente, numa posição polêmica e dialética, senão subversiva, em relação ao modus vivendi que o catolicismo e a ordem liberal haviam encontrado na ordem nacional e internacional após 1945.
Existem diferentes versões dessa atitude, especialmente no mundo anglo-saxão: teologias políticas pós-liberais, antiliberais, iliberais, neotradicionalistas e neointegralistas, num cenário ideológico e político em constante evolução. Esse declínio do predomínio do que poderia ser chamado de "catolicismo liberal-constitucional" estadunidense (que contribuiu decisivamente para a doutrina da liberdade religiosa do magistério católico no Concílio) é um cenário que não será substancialmente modificado — aliás, poderá ser fortalecido — pela chegada de jovens sacerdotes e religiosos da África, Ásia e América Latina, que vão aos Estados Unidos para estudar ou para exercer um ministério pastoral de longo prazo e que não possuem a mesma liberdade que tinham os padres estadunidenses pós-conciliares nascidos nos EUA de se posicionarem sobre as grandes questões da relação entre política e religião, entre Igreja e Estado.
A crise do pensamento político liberal e democrático no catolicismo estadunidense contemporâneo está intrinsecamente ligada a uma profunda crise religiosa e teológica. Os Estados Unidos nasceram no início do século XVII como um projeto político-religioso que, posteriormente, com a Revolução, que celebra seu 250º aniversário este ano, se estabeleceu como um sistema único no qual a liberdade religiosa era um elemento central e no qual o extremismo religioso (incluindo as vozes fundamentalistas e integralistas católicas) era mantido sob controle por um ideal de uma nova nação, seletivamente inclusiva, mas ainda assim inclusiva. Os Estados Unidos ainda hoje continuam sendo um caldeirão de visões apocalípticas e necessidades religiosas, no qual a violência (física ou retórica) desempenha um papel central.
Comparados ao período entre os séculos XVII e XX, os Estados Unidos de hoje não são mais uma província da Europa, nem mesmo para o catolicismo. Isso também fica evidente nas respostas violentas das elites católicas de direita à secularização e ao secularismo nos Estados Unidos: respostas que se diferenciam do secularismo pós-cristão mais moderado que o establishment político e religioso católico do velho continente conseguiu atenuar ao longo de um período mais extenso, a fim de lidar com a modernidade política de forma adaptativa, após ter aprendido a lição do autoritarismo, do nacionalismo e das duas guerras mundiais que caracterizaram a primeira metade do século XX – lição que o catolicismo nos EUA não tiveram que aprender da mesma maneira.
A América que se torna Estados Unidos é um projeto político-religioso e um ato de fé política e religiosa. É uma fé que muda porque os Estados Unidos do século XXI são compostos por um tecido religioso, social e cultural que, em nível nacional, está cada vez menos centrado no cristianismo e mais multirreligioso. Mas também é um país muito mais ateu, distante da fé nos EUA, uma fé da qual os EUA sempre precisaram. O trumpismo compreendeu a necessidade de interromper e reprimir essas mudanças na autoconsciência e na autonarrativa, que levaram ao abandono da ideia dos EUA como o país mais cristão do mundo, do "povo escolhido" com uma missão político-religiosa divina. A religião militante de direita hoje expressa um sentimento de ressentimento e uma narrativa política de vitimismo, segundo a qual o cristianismo nos Estados Unidos se tornará, ou já se tornou, uma minoria a ser defendida de inimigos tanto externos quanto internos.
Especialmente a partir dos protestos contra a polícia que começaram em 2013, a ascensão do movimento antirracista (particularmente o movimento Black Lives Matter) contra as formas tradicionais, socialmente respeitáveis e o cristianismo “middle class” aumentou a ansiedade entre os cristãos brancos estadunidenses, especialmente os conservadores evangélicos brancos (muito diferentes do protestantismo tradicional das denominações com uma história mais longa e consolidada, como luteranos e episcopais/anglicanos).
Mas também os católicos brancos (não latinos e não afro-americanos) se tornaram parte de uma nova narrativa nacionalista "cristianista" que visa manter uma ordem social e religiosa, sem dispensar apelos etnocêntricos a "terra e sangue" e uma ideologia de supremacia racial. Por outro lado, na esquerda radical emergiram movimentos antirracistas mais radicais do Partido Democrata, influenciando com sucesso a liderança do partido a adotar posições "woke" em questões como família, aborto, gênero/transgênero e identidade sexual.
O trumpismo também é uma reação a isso, um déjà vu que lembra a eleição de Richard Nixon no fim da turbulenta década de 1960.
Desde o início da presidência de Obama, e particularmente durante seu segundo mandato, houve uma radicalização da esquerda antirracista, que assumiu um papel central na mídia nacional e precisa lidar com o peso de outras identidades étnicas e religiosas que se mostraram passíveis de convencimento nas urnas pela narrativa trumpista. Dentro de um catolicismo estadunidense muito mais multicultural, latino-americanos, hispânicos e asiáticos também representam um componente crescente que não se alinha facilmente com a plataforma cada vez mais secular e pós-religiosa da liderança do Partido Democrata.
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