08 Mai 2026
“O Espírito que o Pai enviará é o Espírito que habitou Jesus e orientou toda a sua vida, que revelará a verdade que é Jesus e esclarecerá sua missão, dando sentido a todas as coisas. A promessa é que esse mesmo Espírito habitará os corações dos discípulos e discípulas. Habitados pelo Espírito, resta-nos uma escolha: deixar-nos guiar por Ele ou não. Aceitar sua orientação significa levar uma vida como a de Jesus.
“A fé cristã não deve ser usada para demonstrar uma suposta superioridade, nem nos protege dos momentos difíceis, mas nos ensina a vivê-los. E o modo de atravessar as dificuldades da vida também converte e evangeliza, primeiro a nós mesmos e também aos outros”.
A reflexão é de Carolina Mureb Santos, da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Ela é doutoranda em Teologia Moral pela PUC-SP, graduada em Teologia e Pedagogia, também pela PUC-SP e especialista em Ensino Religioso Escolar, pelo Centro Universitário Salesiano. Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM) e do Grupo de Pesquisa PHAES (Pessoa Humana, Antropologia, Ética e Sexualidade) da PUC-SP. Integra a diretoria nacional da Associação de Educação Católica (ANEC), sendo a diretora do setor de Pastoral. Atua na formação de leigos/as e consagrados/as e na orientação espiritual. Sua pesquisa se concentra em temáticas da Moral Fundamental e da Educação Católica.
Leituras do dia
Primeira leitura: At 8,5-8.14-17
Salmo responsorial: Sl 65(66),1-3a.4-5.6-7a.16.20 (R. 1-2a)
Leitura: 1Pd 3,15-18
Evangelho: Jo 14,15-21
Eis a reflexão
Na medida que se aproxima a grande festa de Pentecostes, a liturgia da palavra fala mais sobre o Espírito Santo e sua missão junto aos discípulos e discípulas de Jesus. Em nossa época, em que a experiência da presença do Espírito é reduzida a emoções, euforia, a uma experiência epidérmica, sentida na pele, mas que não ganha profundidade convertendo o coração, reorientando a conduta e suscitando o mesmo sentimento de Cristo Jesus (Fil 2, 5), Jesus afirma no evangelho de hoje que Ele é o Espírito da verdade. Podemos lembrar, na mesma hora, da pergunta de Pilatos a Jesus: “O que é a verdade?” (Jo 18, 38). Jesus silenciou, mas já havia dito antes: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). A verdade é uma pessoa que encontramos e com quem nos relacionamos e, como bem disse o papa Bento XVI, encontro “com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus caritas est, 1).
O Espírito que o Pai enviará é o Espírito que habitou Jesus e orientou toda a sua vida, que revelará a verdade que é Jesus e esclarecerá sua missão, dando sentido a todas as coisas. A promessa é que esse mesmo Espírito habitará os corações dos discípulos e discípulas. Habitados pelo Espírito, resta-nos uma escolha: deixar-nos guiar por Ele ou não. Aceitar sua orientação significa levar uma vida como a de Jesus. E Jesus afirma que guardar seus mandamentos, ou, viver seus ensinamentos é sinal de amor por Ele. A prova de que amamos Jesus é viver o que Ele ensinou, tornar o Evangelho vivo na nossa vida. A partir da nossa decisão e da nossa colaboração, o Espírito atua em nós para que sigamos o caminho de Jesus. Deste modo, a experiência com o Espírito não é uma abstração, um “espiritualismo”, uma emoção que dá e passa, mas provoca uma reorientação do sentido da vida e mudança no jeito de pensar, decidir, se relacionar, enfim, de viver. Trata-se de toda a vida renovada pelo Espírito e não de um momento dela, de um aspecto dela.
Assim, como Jesus mesmo alertou que não basta repetir “Senhor, Senhor” e não fazer o que Ele diz, não é suficiente dizer amá-Lo e não se empenhar em ter uma vida coerente com seus ensinamentos. Seguir Jesus é exigente porque requer reordenar prioridades e mudar convicções. Isso impacta o estilo de vida, as relações e posicionamentos em qualquer lugar na família, na igreja, no trabalho, na sociedade, etc.
Essa vida orientada pelo Espírito de Jesus também inclui sofrimentos, incompreensões e críticas. O autor da 1ª carta de Pedro escreve aos cristãos, em grande parte convertidos do judaísmo, que são considerados cidadãos de segunda categoria porque são estrangeiros, trabalhadores e, em geral, pobres, além de serem humilhados por causa de um estilo de vida próprio que deriva do seguimento de Jesus. Neste contexto, a carta apoia e orienta a dar a razão de sua esperança sempre que forem questionados e que isso deve ser feito com mansidão, respeito e boa consciência, portanto, nada de arrogância, de ironia, de preconceito. A fé cristã não deve ser usada para demonstrar uma suposta superioridade, nem nos protege dos momentos difíceis, mas nos ensina a vivê-los. E o modo de atravessar as dificuldades da vida também converte e evangeliza, primeiro a nós mesmos e também aos outros. A carta afirma que, já que o sofrimento está presente em nossas vidas, é melhor sofrer por ter escolhido fazer o bem do que o mal. Sofrimento é sempre doloroso, mas quando é consequência da escolha pela prática do bem, ele é fecundado pela paz e a esperança que só Jesus pode nos dar.
O Espírito alarga nossas mentes e nossos corações para superarmos preconceitos e sermos testemunhas do Evangelho em qualquer lugar – Carolina Mureb, fc
O Espírito da verdade que o Pai enviará permanecerá conosco e atualizará a presença de Jesus em nossas vidas. Escutá-lo é deixar conduzir para lugares e situações inesperados, como aconteceu com Filipe que se dirigiu a Samaria, de acordo com a primeira leitura. O Espírito alarga nossas mentes e nossos corações para superarmos preconceitos e sermos testemunhas do Evangelho em qualquer lugar. Como Filipe, somos chamados a gerar vida nova para todas as pessoas e não só para aquelas que estão em territórios cômodos e conhecidos. Como dizia o Papa Francisco, é preciso ser “evangelizadores com Espírito quer dizer evangelizadores que se abrem sem medo à ação do Espírito Santo” (EG, 259). Esses evangelizadores com espírito rezam e trabalham e “do ponto de vista da evangelização não servem as propostas místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem dos discursos e ações sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração” (EG, 262). Amar Jesus requer viver seus mandamentos, portanto, ser um evangelizador com Espírito.
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