"Nesse cenário, a aposta de Leão XIV não se orienta por compromissos táticos, mas por um princípio teológico mais profundo, como podemos ver em seu lema: 'nele, somos um'. É a partir desse fundamento cristológico e eclesiológico de matriz agostiniana que se delineia sua proposta de recomposição da unidade (e não uniformidade) eclesial. É esse fundamento que nos ajudará a entender o perfil e o futuro de um pontificado que, à despeito de ainda estar em construção, já começa a ficar cada vez mais claro".
O artigo é de Carlos Eduardo Sell, doutor em Sociologia Política, professor da UFSC e autor do livro “Para onde vai a Igreja Católica?”
O debate sobre o perfil do pontificado de Leão XIV, que agora completa um ano (ele foi eleito em 08 de maio de 2025), continua a se organizar em torno de uma questão que considero, pelo menos quando considerada de forma isolada, equivocada, a saber: ele representa uma “continuidade” ou uma “descontinuidade” em relação ao pontificado do Papa Francisco?
O problema é que essa chave interpretativa ignora o ponto central: o critério para compreender o atual Papa não deve ser o pontificado anterior, que, para alguns, foi elevado à condição de ideal inegociável a ser retomado, enquanto, para outros, é visto como um desvio nefasto a ser superado. Para ultrapassar essa dicotomia empobrecedora, é necessário captar com maior precisão aquilo que constitui a “especificidade” de seu pontificado, isto é, o que representa sua marca própria, aquilo que o torna verdadeiramente original.
Essa marca específica encontra-se no pensamento de Santo Agostinho. É esse horizonte que permite compreender em que medida o Papa Leão XIV preserva e retoma opções de pontífices anteriores (não apenas de Francisco) ao, mesmo tempo que redireciona e reinterpreta esse legado e, sobretudo, estabelece paulatinamente uma nova linguagem e uma nova agenda de governança eclesial.
Por um lado, Leão XIV retomou um estilo mais tradicional de exercício do papado e se afastou de alguns gestos simbólicos marcantes de Francisco, como apresentar-se de Mozeta no dia de sua eleição, retornar ao Palácio Apostólico (em vez de residir na Casa Santa Marta), voltar a descansar em Castel Gandolfo (que havia sido deixado de lado) ou celebrar o lava pés da quinta-feira santa em Latrão (ao invés de realizá-la em presídios). Nada disso é pouco. Mais do que opções estéticas superficiais ou um aceno estratégico a tendências conservadoras, essa ênfase na “forma” sinaliza um papado orientado para a recomposição institucional da Igreja. A mensagem, nesse sentido, é clara: prioriza-se a estabilidade em relação à mudança.
Por outro lado, isso não significa, de modo algum, o arquivamento do pontificado anterior, especialmente no que diz respeito a duas de suas opções centrais: a sinodalidade e o primado da evangelização (missão), conforme expresso na Evangelii Gaudium. Seguindo essas diretrizes, Leão XIV já realizou um consistório em janeiro e convocou outros dois encontros para este ano, um em julho, com os cardeais, e outro em outubro, com os presidentes das conferências episcopais, para discutir Amoris Laetitia. Também aqui a mensagem é evidente: elementos centrais do pontificado de Francisco continuam a balizar a vida da Igreja.
Um indicativo importante de como Leão XIV pretende realizar essa síntese entre continuidade e reorientação (“construir pontes”) pode ser observado em sua primeira viagem internacional, realizada ao continente africano, em abril desse ano. Nas entrevistas concedidas a bordo do avião, ao responder a Donald Trump, o Papa deixou claro que manterá a linha crítico-profética de Francisco, em consonância com a doutrina social da Igreja, especialmente na defesa da paz “desarmada e desarmante” [2]. Ao mesmo tempo, sinalizou que não pretende endossar uma agenda de reformas morais de caráter liberalizante, incluindo a bênção de casais do mesmo sexo (entre outras medidas), como defendem a maioria dos bispos alemães [3].
Essa última posição, que contrasta com a conhecida declaração de Francisco em 2013 (“quem sou eu para julgar?”), somada à sua postura crítica firme e forte em relação a Trump, já indica o perfil da síntese que parece orientar o pontificado de Leão XIV: uma combinação de forte sensibilidade progressista no campo político-social, mas com uma orientação mais conservadora no âmbito moral.
No entanto, essa síntese não torna plenamente inteligível sem a consideração do horizonte agostiniano que fundamenta o pontificado de Leão XIV. Com efeito, a articulação entre conservação e mudança não pode ser entendida como mera justaposição desses dois elementos; ela só se torna possível na medida em que se apoia em um fundamento mais profundo, que os integra e lhes confere sentido. Esse fundamento agostiniano do papa Leão XIV, conforme seus pronunciamentos, pode ser desdobrado em quatro aspectos:
a) Cristocentrismo: em continuidade com a teologia de Santo Agostinho, Leão XIV parte de Cristo como centro de toda a vida da Igreja. Por isso, critica não apenas o ateísmo declarado, mas também formas mais sutis de esvaziar o mistério de Cristo, reduzindo-o a um simples líder carismático ou a um super homem. Como resposta a esse empobrecimento, propõe uma evangelização fundada no encontro pessoal com o Senhor. Somente uma Igreja que vive dessa experiência e anuncia Cristo de modo autêntico pode sustentar a unidade, seja no interior da própria Igreja, seja no diálogo ecumênico e na vida social [4].
b) Eclesiologia: as imagens clássicas, como a cidade sobre o monte, a arca que atravessa a história ou o farol na noite, ajudam a expressar essa ideia [5]: a Igreja, como a luz do Sol que se reflete na Lua (Lux Lunae), existe para refletir Cristo e conduzir a ele, sendo inteiramente dependente dessa referência fundamental.
c) no campo moral, a família, fundada na união entre homem e mulher, é apresentada como o primeiro espaço de transmissão da fé e formação da pessoa. É nela que se aprendem as bases da convivência justa e do amor ordenado. Ao mesmo tempo, o direito natural é entendido como um critério objetivo que orienta a vida social e política, oferecendo fundamentos racionais para a defesa da vida, do matrimônio e do bem comum. Esses dois elementos se complementam e estruturam o magistério moral do atual papa [6].
d) Ordem e paz: a distinção entre a Cidade de Deus e Cidade dos homens, herdada de Santo Agostinho, ocupa lugar central na reflexão político-social de Leão XIV. A paz é entendida como ordem, isto é, como a organização justa da vida segundo seu verdadeiro fim. Ela abrange todas as dimensões da existência, pessoal, familiar e social, e só se realiza plenamente quando está orientada para o transcendente. Assim, a paz não é apenas ausência de conflitos, mas a expressão de uma ordem mais profunda, fundada em um princípio último [7].
À luz desses quatro eixos, percebe-se que o papa estabelece uma dupla referência normativa: por um lado, Cristo como princípio unificador que orienta a unidade e a missão da Igreja; por outro, a família e o direito natural como estruturas objetivas que sustentam a paz na ordem sociopolítica. Longe de implicar fechamento, essa ancoragem em fundamentos estáveis é precisamente o que torna possível uma igreja em diálogo (crítico e cooperativo) com o mundo contemporâneo: ela autoriza e orienta processos como a sinodalidade eclesial, o diálogo ecumênico, a defesa dos marginalizados e a busca da paz.
Frente as atuais divisões eclesiais, Leão XIV, em sua missa inaugural, propôs a construção de “uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado” [8].
Esse programa, contudo, se vê confrontado por polarizações acentuadas. De um lado, pela radicalização de uma lógica tradicionalista, como a representada pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que pretende realizar ordenações episcopais sem mandato pontifício. De outro, pela radicalização de uma compreensão democratizante da sinodalidade, entendida como combinação de um governo colegiado de leigos e bispos (em minoria) e como instrumento de implementação de uma agenda moral de caráter ultraliberal, como exemplificado no caso do Caminho Sinodal Alemão.
Nesse cenário, a aposta de Leão XIV não se orienta por compromissos táticos, mas por um princípio teológico mais profundo, como podemos ver em seu lema: “nele, somos um”. É a partir desse fundamento cristológico e eclesiológico de matriz agostiniana que se delineia sua proposta de recomposição da unidade (e não uniformidade) eclesial. É esse fundamento que nos ajudará a entender o perfil e o futuro de um pontificado que, à despeito de ainda estar em construção, já começa a ficar cada vez mais claro.
[1] Título: “Meu pai espiritual, Santo Agostinho" - Palavras do papa em seu discurso em Argel (13-04-2026).
[2] Aqui.
[3] Aqui.
[4] LEÃO XIV. Discurso no Simpósio sobre Niceia. 7 de junho de 2025. Disponível aqui.
[5] LEÃO XIV. Homilia na Missa com os Cardeais. 9 de maio de 2025. Disponível aqui.
[6] LEÃO XIV. Discurso ao Corpo Diplomático. 16 de maio de 2025. Disponível aqui.
[7] LEÃO XIV. Discurso ao Corpo Diplomático. 9 de janeiro de 2026. Disponível aqui.
[8] LEÃO XIV. Homilia no Início do Pontificado. 18 de maio de 2025. Disponível aqui.