Os lefebvrianos desafiam o Papa

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10 Fevereiro 2026

O dever, para os católicos, de reconhecer a autoridade do último Concílio serve de pano de fundo para o desafio que os “herdeiros” do bispo francês Marcel Lefebvre, excomungado no período de João Paulo II, acabaram de lançar a Leão XIV: a ordenação episcopal de seus sacerdotes, mesmo sem o consentimento papal.

A reportagem é de Luigi Sandri,  publicada por l’Adige, 09-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Já durante o Vaticano II (1962-65), mas especialmente depois, aquele prelado contestou as mudanças litúrgicas introduzidas por aquela Assembleia e, sobretudo, sua declaração “Dignitatis humanae”, que, contrariando o magistério anterior, afirmava o princípio da liberdade de consciência.

E, para manter viva a “Igreja de sempre”, que em sua visão havia sido profanada pelo Concílio, em 1970 Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) em Ecône, no cantão de Valais. Paulo VI o proibiu de ordenar padres; ele desobedeceu e, por isso, em 1976, foi suspenso a divinis.

Mas o prelado, para assegurar uma sucessão após sua morte (ocorrida em março de 1991), em 30 de junho de 1988, desafiando a Cúria Romana, consagrou quatro bispos; por essa razão, foi excomungado. Bento XVI removeu aquela pena canônica, mas não conseguiu chegar a um acordo final com a Fraternidade.

Francisco também fez atos de benevolência para com ela, mas não sanou a divergência. No início de fevereiro, o padre Davide Pagliarani, superior geral da Comunidade de Ecône, disse ter escrito a Leão para pedir uma audiência, mas não obteve resposta. E anunciou: em 1º de julho, a FSSPX organizará a consagração de mais dois bispos. Uma rebelião que o Direito Canônico pune com excomunhão para os bispos consagrantes e consagrados.

Os lefebvrianos e o Concílio Vaticano II estão profundamente divididos sobre o conceito de Tradição. Para os primeiros, por exemplo, a condenação absoluta da liberdade religiosa, definida no século XIX como "loucura" por Gregório XVI e Pio IX, é válida para sempre; o Concílio, porém, abandonando o passado, proclamou aquele princípio por estar ligado ao respeito à "dignidade humana". Portanto, em 1965, admitiu efetivamente que aqueles papas estavam em erro. Uma blasfêmia para os lefebvrianos. Assim, para garantir a continuidade da doutrina da Igreja do passado (aquela que durante séculos permitiu queimar na fogueira "hereges" e "bruxas"!), eles ordenarão bispos mesmo sem o "sim" de Leão.

Se o projeto de Pagliarani for bem-sucedido, Prevost se verá diante de um dilema crucial: reiterar a excomunhão com a qual Lefebvre foi punido pelo Papa Wojtyla, ou imitar o Papa Ratzinger, que anulou aquela punição? Nesse caso, surgiria uma pergunta: mas é católico quem rejeita um ensinamento capital do Vaticano II? É difícil imaginar um "compromisso" que salve tanto a FSSPX quanto Leão, embora – pode-se presumir – uma série de teólogos tentará encontrar uma fórmula aceitável para ambas as partes. Além disso, a Cúria Romana não poderá ignorar que – como especifica a Comunidade de Ecône – a ela aderem seiscentos padres, duzentos seminaristas e milhares de fiéis. O pontífice avaliará tudo e, dentro de cinco meses, sua árdua sentença será conhecida.