Jesus Ressuscitado, o Caminho que nos conduz à Verdade e à Vida. Comentário de Adroaldo Palaoro

Foto: canva

30 Abril 2026

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 4o Domingo do Tempo de Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de João 14,1-12.

Eis o texto.

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14,6)

No tempo pascal, os primeiros três domingos nos situam diante do Ressuscitado para “saborear” a Vida nova que Ele nos traz; o quarto domingo é dedicado ao tema do Bom Pastor; temos agora dois outros domingos, centrados no “discurso de despedida” (ou “testamento espiritual”) de Jesus, que abarca os capítulos 13 ao 17 de S. João; nele, o autor do quarto evangelho insiste em temas que são particularmente reveladores; neste domingo, o tema destacado refere-se à profunda unidade entre Jesus e o Pai.

Em João 10,30 encontramos esta expressão: “O Pai e eu somos um”; agora Jesus volta sobre isso, afirmando que “quem me vê, vê o Pai”.

No quarto evangelho, Jesus vive na consciência clara de ser “uno” com o Pai; e essa é a fonte de seu amor, sua confiança, sua paz e sua alegria. É o que todos nós também já somos, em nossa essência, mas, com frequência, ignoramos essa realidade. Ser “um com o Pai”, não é uma crença, nem é fruto da vontade; não é algo que poderíamos alcançar depois de ter cumprido determinados requisitos.

“Quem me vê, vê o Pai” é válido para todos nós. Se soubermos olhar, poderemos ver o Pai em todos os seres, em todas as pessoas, e O sentiremos também em nós mesmos. O termo “Pai”, na boca de Jesus, refere-se à Presença providente, o Fundamento que tudo sustenta, a Graça que tudo envolve...

A experiência e a palavra de Jesus constituem, portanto, um apelo para que saibamos descobrir o Pai em tudo e, para além das inércias que nos fazem viver na superfície de nós mesmos, nos reencontremos com a verdade mais profunda que nos habita. Só ali é possível experimentar a plenitude.

É neste contexto que podemos compreender a afirmação lapidar de Jesus: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Este é o ponto de partida da vivência cristã. “Cristão(ã)” é um homem ou uma mulher que em Jesus vai descobrindo o caminho mais acertado para viver, a verdade mais segura para orientar-se, o segredo mais claro para a plenitude e sentido da vida.

Caminho-verdade-vida expressam as nossas grandes carências existências; mas, ao mesmo tempo, elas apontam para o sentido da existência; deixam transparecer as três grandes buscas do ser humano, ou três dimensões que nos humanizam. Não são necessidades periféricas, passageiras, ligadas ao imediato..., mas existenciais, mobilizadoras e que revelam nossa verdadeira identidade.

Jesus se apresenta como resposta a estas buscas; Ele se faz presente no meio dessas carências da humanidade e se apresenta como o Caminho, a Verdade e a Vida. Quem o segue, faz caminho com Ele, abre-se à verdade e entra no fluxo da Ressurreição, ou vida plena.

A aliança destas três expressões – caminho-verdade-vida – nos revela que a essência do Evangelho não é uma doutrina que nos fecha, nem um dogma a defender; ele é muito mais um percurso vital, uma passagem aberta na vida, na qual o Cristo nos encontra para nos transmitir sua vida de Ressuscitado.

Em primeiro lugar, o Evangelho é um constante apelo a caminhar, e Jesus é o Caminho. Mas um caminho não é para ser conhecido, e sim para ser percorrido. É certo que podemos decidir não caminhar, optar por instalar-nos neste mundo e esquecer nosso destino; mas é evidente que a longo prazo esta atitude vai gerar vazio e angústia, porque “não podemos ignorar o eterno que há em nós” (Kierkegaard).

Nessa linha devemos acrescentar que Jesus fez o caminho para que nós pudéssemos percorrê-lo com Ele, chegando inclusive mais longe, descobrindo verdades e realizando atividades que Ele não pode realizar em seu tempo. Jesus não fez caminho para deixar-nos atrás (sempre atrás), mas para lançar-nos a novas metas, abrindo nossos olhos e nosso coração para as “moradas” novas de amor, porque Deus é sempre maior.

No Evangelho de São João, o Caminho não é uma doutrina; é uma Pessoa, é o próprio Jesus. Nós, seus discípulos, somos sua imagem, aqueles que garantem sua presença hoje. Jesus não diz: “sou o templo”; diz: sou o Caminho”. Caminho sempre aberto, mobilizador de nossos recursos internos e que nos faz sair de nós mesmos, de nossas seguranças e crenças e nos desloca para as “periferias existenciais”.

É por isso que a Igreja deve sempre propor esse Caminho de Liberdade no qual se encontra uma multidão de mulheres e homens, com sua história e realidade. Não cabe, pois, à Igreja levantar muros doutrinários, ritualistas e legalistas, que travam a vida das pessoas e as impedem de caminhar; cabe a ela, no entanto, construir pontes para facilitar o acesso à estrada e para atravessar as torrentes da vida. A Igreja não é dona da estrada; ela deve ajudar as pessoas a caminhar e avançar.

Em segundo lugar, o autor do quarto evangelho põe na boca de Jesus a promessa do Espírito, a quem define como “Espírito da Verdade”, que haverá de conduzir os discípulos até a “verdade plena”.

Na história da humanidade e das religiões tem sido recorrente o afã de levar aos outros a própria “verdade”, na convicção de que se trata da verdade absoluta. A partir da crença de estar em posse da verdade, inclusive de serem depositárias da verdade divina ou revelada pelo mesmo Deus, as religiões se envolveram na tarefa de estendê-la por todo o mundo, acreditando fazer o melhor serviço à humanidade.

Essa crença, que identifica o grupo com a verdade absoluta, se encontra na origem do proselitismo e fanatismo em qualquer de suas formas. Ao longo da história, a atitude proselitista se apresenta desde uma certa tolerância até a condenação e a perseguição daqueles que, resistindo-se a adotar a crença “oficial”, são tachados de “hereges” ou “blasfemos”.

Habitualmente confundimos a verdade com as crenças, dogmas, doutrinas, sejam elas quais forem. E, em nossa ignorância, não é raro que nos surpreendamos dizendo: “Esta é a verdade” ou “eu tenho a verdade”. Esquecemos que a verdade não pode ser agarrada pela mente, não pode ser pensada nem pode ser pronunciada. Tudo o que é pensado e falado são só construções mentais.

Na realidade, a verdade nunca pode ser um conceito, uma crença, um dogma ou uma doutrina; ela não cabe na nossa mente e nem pode ser “possuída” por ninguém. A verdade é o que é; a verdade é o que somos.

Não se trata, portanto, de transmitir “crenças”, mas de oferecer possibilidade para que cada pessoa descubra a verdade que é. Somos verdade, ou melhor, a verdade nos sustenta e nos constitui; ela é nossa essência. Mesmo velada e inclusive obscurecida por múltiplos fatores, continua presente em toda sua luminosidade. Só precisamos desejá-la apaixonadamente e assumir uma atitude de deixá-la transparecer em nossa vida.

As crenças buscam impor-se; a verdade se mostra; as crenças separam, a verdade une; as crenças dividem as pessoas entre “crentes” e “não-crentes”; a verdade faz com que nos encontremos mais além das ideias, mais além do ego, mais além da religião. Na busca da verdade cessa o proselitismo e cada um vive como “parteira” que, através das perguntas, ajuda a “dar à luz” à verdade que já está presente no seu interior.

Das afirmações que Jesus fez, talvez a mais luminosa seja esta: “Eu sou a Vida”. É uma expressão plena de sabedoria, que nos convida a sair de nossa ignorância básica e a deixar-nos impactar pela sua verdade profunda, aplicada a todos nós. Na essência, todos somos Vida, e nunca poderemos deixar de ser.

Nossa ignorância radical está no fato de reduzir nossa identidade a um “eu periférico”, fazendo-nos crer que somos um “eu particular”, separado dos outros e desconectado da Vida. Esta crença errônea é a fonte de todo sofrimento, para nós e para os demais.

A sabedoria consiste em reconhecer que não existe nada separado de nada; tudo está interligado, há uma interdependência e que não há nada que não seja manifestação e expressão da única Vida. Tudo é Vida, que se expande em infinitas formas: o nascer e o morrer, a saúde e a enfermidade, o êxito e o fracasso, o “bem” e o “mal” ... Nós mesmos somos a Vida que se manifesta de uma forma particular, na personalidade concreta que temos, com os dons que possuímos, na missão que realizamos.

Jesus é Vida: frente às forças de morte que causam terror, Jesus dá sentido à vida, se revela como Senhor da vida e vencedor da morte. E n’Ele estão todos os que apostam em favor de um projeto de vida, de verdade e amor como horizonte que pode salvar a humanidade do caos, da injustiça, da exclusão e da maldade.

Para meditar na oração: 

Somos chamados a ser um caminho alternativo, junto com outros caminhos alternativos, representados por outras pessoas e comunidades inspiradas por outras religiões, em meio a um mundo desorientado que, com frequência, não encontra o sentido da existência.

- Somos testemunhas da verdade, presente em nosso interior e no mais profundo de cada pessoa, frente a uma cultura da pós-verdade, povoada de tantas mentiras e fake news que só alimentam conflitos e divisões.

- Somos servidores da Vida, mesmo em meio à morte que o egoísmo humano semeia, quando não entra em sintonia com a sabedoria da vida plena que procede do coração d’Aquele que é Fonte vital.

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