A fé que se faz compromisso. Comentário de Ana Casarotti

Foto: canva

30 Abril 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Jo 14,1-12 que corresponde ao 5° Domingo de Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. E para onde eu vou, vós conheceis o caminho". Tomé disse a Jesus: "Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" Jesus respondeu: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes". Disse Felipe: "Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!" Jesus respondeu: "Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: 'Mostra-nos o Pai'? Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai".

Neste domingo, a liturgia nos convida a aprofundar o conhecimento de Jesus e a meditar em suas palavras através do Evangelho de João. Ele permanece junto de seus discípulos e discípulas, preparando-os para o mistério de sua partida. No fim do capítulo 13, fala-lhes do amor fraterno: amar-se uns aos outros como Ele os amou. Diante disso, Pedro pergunta: “Para onde vais?” E, com ardor e convicção, declara que daria a vida por Ele. Mas Jesus, com ternura e verdade, responde, revelando que ainda há um caminho de amadurecimento e fidelidade a ser percorrido: "Você daria a vida por mim? Eu lhe garanto: antes que o galo cante, você me negará três vezes".

Dessa forma, compreendemos que a comunidade se encontra confusa, talvez inquieta por não captar plenamente as palavras de Jesus. Ele fala de partida e de retorno, de não se preocupar, de preparar um lugar… tudo isso soa enigmático. O ambiente é carregado: os judeus já haviam decidido matá-lo e buscavam ocasião para fazê-lo. Essa tensão atravessa o grupo, e como em qualquer comunidade humana, convivem confiança e desconfiança, esperança e medo.

"Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas.

Como não se perturbar, se Jesus lhes anuncia sua partida e fala de preparar um lugar? A fé em Deus e a fé Nele se tornam o chamado central: confiar novamente, não deixar que o desânimo, a tristeza ou as fragilidades dominem. A pequena comunidade é convidada a enfrentar o vazio da ausência, a sensação de ficar sem Jesus, sustentada apenas pela promessa de sua presença futura.

Tomé disse a Jesus: "Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?"

A pergunta de Tomás nasce também em nosso coração quando alguém próximo parte e sentimos sua ausência: onde está agora? Muitas vezes, em meio a uma fé vacilante, ouvimos dizer: “Está com Deus”. Mas como manter vivo o vínculo com essa pessoa querida? Como impedir que ela desapareça dentro de nós? O desafio é descobrir de que modo seguir o caminho que sua partida nos abre, transformando a dor em memória e esperança.

Jesus respondeu: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai.

A resposta de Jesus é direta: Ele mesmo é o caminho que conduz ao Pai, que dá vida e que nos chama a segui-Lo. Não se trata de cumprir normas ou de copiar gestos, mas de trilhar o percurso que Ele inaugurou com sua própria existência. É uma proposta de movimento, de busca, de caminhada, onde cada pessoa descobre sua originalidade e novidade ao seguir os passos de Jesus.

Recordamos o Papa Francisco, que constantemente convidava a viver uma vida em movimento: “A alegria do Evangelho, quando o acolhemos verdadeiramente, desencadeia em nós o movimento de seguimento, provocando um verdadeiro êxodo de nós mesmos e colocando-nos no caminho do encontro com o Senhor e da plenitude da vida. O êxodo de nós mesmos: uma atitude da nossa vida espiritual que devemos sempre examinar. A fé cristã – recordemo-lo – não quer confirmar as nossas certezas, não nos fazer acomodar em certezas religiosas fáceis, nem nos dar respostas rápidas aos problemas complexos da vida.” "Só quem ama pode caminhar". Discurso do Papa Francisco na Cúria Romana por ocasião do Natal”

Jesus nos propõe uma vida em movimento, sustentada apenas pela certeza de segui-Lo. Por isso, somos chamados a percorrer o caminho de sua vida, acolhendo suas palavras e permitindo que elas penetrem profundamente em nosso íntimo e em nossas comunidades. Ele não oferece uma fórmula pronta para tranquilizar, como pediu Filipe: “Mostra-nos o Pai, e isso nos basta!”, mas nos convida a confiar e a caminhar.

Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai".

Acreditar em Jesus é viver n’Ele e com Ele, permitindo que sua presença nos transforme. Somos chamados a não nos fechar diante da novidade constante do movimento do seu Espírito em nós. Ele nos conduz ao Pai que nos ama profundamente, introduzindo-nos em sua relação de intimidade e amor. Fazer as mesmas obras que Ele — ou ainda maiores — é promessa confiada à vida de cada cristão, pois o Espírito Santo ocupa lugar privilegiado: é Ele quem nos chama, nos impulsiona e nos conduz ao novo.

“Fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai"

Em um mundo marcado pela busca de poder e domínio das grandes potências, onde os pobres e marginalizados são os mais atingidos, Jesus nos recorda que a verdadeira força está na fé que gera obras de vida. Ele, que é o caminho, a verdade e a vida, nos chama a segui-Lo, para que, em meio às contradições da história, sejamos testemunhas de esperança e realizadores de grandes obras no amor. Recebemos as palavras proféticas do Papa Leão que, elogiando o trabalho realizado no Lar das Irmãzinhas dos Pobres para Idosos em Annaba, na Argélia, dizia. "Mas o coração de nosso Pai não está com os ímpios, os arrogantes ou os orgulhosos: o coração de Deus está com os humildes e os simples, e com eles Ele avança, dia após dia, o Seu Reino de amor e paz". Leão XIV: "Deus, dilacerado pela guerra, não se alia a tiranos. Sem moralidade, a democracia se torna tirania." Novo ataque dos EUA: Vance também ataca Leão

Neste domingo, o Evangelho nos apresenta uma comunidade em tensão, confusa diante das palavras de Jesus sobre sua partida e sobre o amor fraterno. Pedro, Tomás e Filipe levantam perguntas que também brotam do nosso coração: para onde Ele vai? Como viver sem sua presença? Como ver o Pai? Jesus responde com clareza: Ele é o caminho, a verdade e a vida. Segui-Lo não é cumprir normas ou imitar gestos, mas trilhar o percurso que Ele inaugurou, acolhendo suas palavras e deixando que elas transformem nosso íntimo e nossas comunidades.

A fé em Jesus é viver n’Ele e com Ele, permitindo que o Espírito Santo nos conduza sempre ao novo. Mesmo diante da ausência, da fragilidade e da dor, somos chamados a confiar, a não nos deixar vencer pelo desânimo, mas a descobrir que sua partida abre um caminho de esperança. Ele nos introduz no coração do Pai, onde pulsa o amor e a intimidade. E nos faz a promessa: aqueles que acreditam n’Ele realizarão as mesmas obras — ou ainda maiores — porque o Espírito os impulsiona.

Em um mundo onde as grandes potências econômicas buscam o controle e o domínio, e onde os mais pobres e marginalizados são os que mais sofrem, Jesus nos recorda que a verdadeira força está na fé que gera obras de vida. Mais uma vez, somos chamados a nos colocar ao lado dos desprotegidos, dos fracos e vulneráveis, sem garantias nem privilégios, mas guiados por Ele, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

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