Morreu aos 98 anos Edith Eger, ‘a bailarina de Auschwitz’, que sobreviveu ao Holocausto

Edith Eger (Fonte: Reprodução | Youtube)

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30 Abril 2026

Edith Eger, psicóloga, sobrevivente do Holocausto e autora de uma das memórias mais influentes das últimas décadas, A bailarina de Auschwitz, morreu nesta segunda-feira (27/04), aos 98 anos, segundo comunicado divulgado pela editora Planeta. Com sua morte, perde-se uma das vozes mais lúcidas e humanistas do século XX, capaz de transformar o testemunho do horror em uma pedagogia da esperança que impactou leitores do mundo todo.

A reportagem é de F. D. Quijano, publicada por El Cultural, 28-04-2026. A tradução é do Cepat.

Nascida em 1927, na Hungria, em uma família judia, Edith Eva Eger tinha apenas 16 anos quando foi deportada para Auschwitz, em 1944, juntamente com seus pais e sua irmã. Ao chegar ao campo de extermínio, seus pais foram assassinados nas câmaras de gás.

Ela sobreviveu, entre outras razões, graças a um episódio que marcaria sua vida: forçada a dançar para o doutor Josef Mengele, encontrou nesse gesto uma forma íntima de resistência, uma afirmação de sua dignidade em meio à desumanização absoluta. Aquele instante, que dá título à sua obra mais conhecida, se tornaria décadas depois um símbolo de seu pensamento: mesmo nas condições mais extremas, o ser humano conserva um reduto de liberdade interior.

Após a libertação, Eger emigrou primeiro para a Tchecoslováquia e depois para os Estados Unidos, onde reconstruiu sua vida. Durante anos, manteve silêncio sobre sua experiência, um silêncio comum entre os sobreviventes, mas também um peso que a levaria, eventualmente, à psicologia. Obteve um doutorado nessa disciplina e desenvolveu uma carreira clínica focada no tratamento do trauma, da depressão e do estresse pós-traumático.

Nesse caminho, foi decisivo seu encontro com Viktor Frankl, também sobrevivente dos campos de concentração e autor de Em busca de sentido, que a encorajou a confrontar seu passado, não como vítima, mas como sobrevivente capaz de escolher sua atitude diante do sofrimento.

Professora da Universidade da Califórnia e fundadora de uma clínica em La Jolla, Eger tornou-se uma referência internacional em terapia psicológica. Seu enfoque, profundamente humanista, insistia na responsabilidade individual e na possibilidade de cura, sem negar a dor. Não se tratava de esquecer, repetia, mas de deixar de ser prisioneiros do passado.

Essa filosofia alcançou um público enorme com a publicação de A bailarina de Auschwitz, em 2017. O livro, uma mistura de memórias e ensaio terapêutico, consolidou-se como um fenômeno editorial, com mais de um milhão de leitores em todo o mundo e mais de 500.000 exemplares vendidos em espanhol. Seu sucesso não se deve apenas ao poder do testemunho, mas também à sua capacidade de dialogar com o presente. Eger não escrevia apenas sobre o Holocausto, mas também sobre as formas contemporâneas do sofrimento e da resiliência.

Personalidades como Oprah Winfrey, Desmond Tutu e Bill Gates destacaram o impacto transformador de sua obra, ressaltando sua capacidade de oferecer consolo sem cair no sentimentalismo. Em 2025, a publicação de uma adaptação young adult ampliou ainda mais seu alcance, aproximando sua mensagem a novas gerações. Nela, Eger se dirigia diretamente aos jovens com uma mistura de lucidez e ternura, reconhecendo os desafios do mundo atual - da ansiedade e violência à crise climática - e incentivando-os a construir uma vida a partir da autenticidade e a liberdade.

Seu segundo livro, En Auschwitz no había prozac, aprofundou essas ideias a partir de uma perspectiva mais clínica, consolidando sua posição como uma das mais influentes divulgadoras no campo da psicologia do trauma. Mas, além de sua obra escrita, seu legado reside em uma atitude vital que desafiava tanto o cinismo quanto a desesperança: a convicção de que o sofrimento não tem a palavra final.

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