28 Abril 2026
Horas depois de o Departamento de Justiça ter autorizado execuções por fuzilamento pela primeira vez desde o século XIX, Leão XIV saudou o décimo quinto aniversário da abolição da pena de morte em Illinois.
A reportagem é de Christopher Hale, publicado por Letters from Leo, 24-04-2026.
O Departamento de Justiça anunciou na sexta-feira que as execuções federais podem voltar a ser realizadas por fuzilamento, um método que o governo dos Estados Unidos não autorizava desde o século XIX.
Horas depois, o Papa Leão XIV divulgou uma mensagem em vídeo para ativistas reunidos na Universidade DePaul, em sua cidade natal, Chicago. A ocasião marcava o décimo quinto aniversário da abolição da pena de morte em Illinois. “A Igreja afirma que a dignidade da pessoa não se perde mesmo depois de crimes muito graves terem sido cometidos”, disse o Papa à plateia.
No breve vídeo, Leão ofereceu o que o Vaticano descreveu como seu “apoio àqueles que defendem a abolição da pena de morte nos Estados Unidos da América e em todo o mundo”.
Pope Leo XIV’s video message was to a group celebrating the fifteenth anniversary of Illinois overturning the death penalty.
— Christopher Hale (@ChristopherHale) April 24, 2026
After then Governor Pat Quinn said the bill into law, the future pope wrote an all caps message of gratitude. pic.twitter.com/cViPtnfiIQ
Ele celebrou a decisão do governador Pat Quinn, em 2011, de sancionar a revogação, citou o ensinamento do Catecismo de que a pena capital é “inadmissível porque é um ataque à inviolabilidade e à dignidade da pessoa” e pediu que a testemunha de Illinois inspirasse outros a abraçarem “a mesma causa justa”.
Essa foi a declaração pública.
A carta privada, da qual os católicos americanos só tomaram conhecimento no verão passado após um pedido de acesso a informações públicas feito pela WBEZ Chicago e pelo Chicago Sun-Times, foi enviada há quinze anos. Em 9 de março de 2011 — o dia em que o governador Quinn sancionou a lei que a abolia — um padre agostiniano nascido em Chicago digitou uma breve mensagem em um formulário no site do governador.
“Prezado Governador Quinn, MUITO OBRIGADO por sua corajosa decisão de sancionar a lei que elimina a pena de morte. Sei que foi uma decisão difícil, mas aplaudo sua visão e sua compreensão dessa questão tão complexa. Tem meu total apoio!”
A assinatura na parte inferior dizia “Robert F. Prevost”. Quatorze anos depois, ele seria eleito o primeiro papa americano.
Escrevi sobre essa carta em agosto passado, quando os arquivos a trouxeram à tona pela primeira vez, por causa do que ela revelava sobre o futuro Papa Leão XIV: anos antes de ser eleito para o papado, ele já se posicionava publicamente contra a pena de morte. A mensagem para Quinn não passava de um agradecimento particular digitado em um formulário online — um padre de Chicago aplaudindo discretamente um governador cuja coragem ele admirava.
O discurso de sexta-feira na DePaul reflete essa mesma convicção, agora amadurecida e transmitida para o mundo todo.
O momento foi auspicioso. Um dia antes, falando com repórteres no avião papal, ao retornar de sua visita apostólica à África, o papa foi questionado sobre o recente aumento de execuções no Irã. Ele respondeu: “Condeno o ato de tirar a vida das pessoas. Condeno a pena capital.”
Em setembro passado, Leão explicou ao país exatamente o que essa convicção significa para o movimento pró-vida americano. "Alguém que diz: 'Sou contra o aborto', mas diz: 'Sou a favor da pena de morte', não é realmente pró-vida", disse ele em Castel Gandolfo, acrescentando um ponto com o qual muitos bispos americanos ainda estão debatendo: aqueles que condenam o aborto enquanto apoiam "o tratamento desumano de imigrantes nos Estados Unidos" também não são, na opinião do papa, pró-vida.
Citando Francisco nominalmente na DePaul, Leão lembrou aos católicos americanos que o ensinamento não é invenção sua. "É por isso que o Papa Francisco e meus antecessores recentes insistiram repetidamente que o bem comum pode ser salvaguardado e as exigências da justiça podem ser atendidas sem recorrer à pena capital", disse ele.
A frase pode ser interpretada como um lembrete aos católicos atraídos pelo novo regime de execuções de Washington: eles se colocaram em desacordo com todo o magistério católico, incluindo Francisco.
Na sexta-feira, o governo federal aprofundou ainda mais essa ruptura.
A ordem do Departamento de Justiça amplia os métodos de execução disponíveis para incluir pelotões de fuzilamento, asfixia por gás e eletrocução, além do protocolo já existente de injeção letal. Washington pretende acelerar a máquina de assassinatos sancionados pelo Estado, mesmo enquanto o papa, nascido nos Estados Unidos, orienta seu país a seguir um caminho diferente.
A justaposição é importante por outro motivo.
Quase um ano após o início de seu papado, Leão XIV não demonstrou nenhum interesse em se afastar da discussão política americana.
Ele denunciou as batidas do ICE em sua cidade natal, Chicago, apoiou o Cardeal Blase Cupich em questões de imigração e instou os bispos americanos a se manifestarem com mais veemência quando Washington se mostra cruel. A mensagem de Illinois na sexta-feira segue esse padrão; não se trata de uma mudança.
O que levanta uma questão que os católicos americanos vêm debatendo há meses.
Quando o governo federal dos Estados Unidos ressuscita o pelotão de fuzilamento — e o homem de batina branca, um padre natural de Chicago, declara novamente que a dignidade humana sobrevive até mesmo aos nossos piores crimes — é justo perguntar quem está de fato liderando o mundo livre nas questões morais que ainda importam.
A resposta, por enquanto, é o Papa Leão XIV.
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