Trump ataca novamente o Papa Leão XIV antes da visita de Marco Rubio ao Vaticano

Foto: Daniel Torok/The White House

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06 Mai 2026

Na véspera da visita do secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao Vaticano em 7 de maio — uma visita amplamente vista em Roma como uma tentativa de restaurar relações mais tranquilas com a Casa Branca — o presidente Donald J. Trump atacou publicamente o Papa Leão XIV, alegando que "ele está colocando em risco muitos católicos e muitas pessoas" e afirmando falsamente, mais uma vez, que para o pontífice, "não há problema em o Irã ter uma arma nuclear".

A informação é de Gerard O'Connell, publicado por America, 05-05-2026. 

Seu ataque mais recente ocorreu no programa “The Hugh Hewitt Show”, quando o apresentador disse ao presidente, que viajará à China nos dias 14 e 15 de maio, que gostaria que o papa falasse sobre Jimmy Lai, o empresário católico e ativista pró-democracia de Hong Kong que está preso, e que Trump o “trazesse para casa”. Trump respondeu: “O papa prefere falar sobre o fato de que não há problema em o Irã ter uma arma nuclear. Não acho isso muito bom. Acho que ele está colocando muitos católicos e muitas pessoas em perigo, mas suponho que, se depender do papa, ele acha perfeitamente normal o Irã ter uma arma nuclear”. Hewitt comentou: “Ele é de Chicago; precisa aprender algumas coisas”.

Antes de retornar a Roma vindo de Castel Gandolfo na terça-feira, o Papa Leão XIV respondeu a jornalistas sobre o ataque do presidente Trump, mas sem mencionar seu nome.

“A missão da Igreja é pregar o Evangelho e a paz. Se alguém quiser me criticar por proclamar o Evangelho, que o faça”, disse o Papa.

“Tenho falado sobre isso desde o momento em que fui eleito, e agora estamos nos aproximando do aniversário. Eu disse [na época]: 'A paz esteja convosco'.”

“A missão da igreja é pregar o Evangelho, pregar a paz”, repetiu ele.

“Se alguém quiser me criticar por proclamar o Evangelho, que o faça com a verdade”, disse ele. Em seguida, aludindo ao fato de Trump tê-lo acusado de ser a favor de o Irã possuir armas nucleares — uma acusação falsa —, o Papa Leão XIV disse: “Há anos, a Igreja se manifesta contra todas as armas nucleares, portanto não há dúvidas quanto a isso. E eu simplesmente espero ser ouvido em nome do valor da palavra de Deus”.

Por sua vez,  Rubio minimizou o desentendimento entre o Presidente Trump e o Papa Leão XIV sobre o Irã, afirmando que as críticas recentes de Trump estavam enraizadas em sua oposição à possibilidade de o Irã obter uma arma nuclear, que, segundo ele, poderia ser usada contra milhões de católicos e outros cristãos. Rubio disse que o mundo inteiro deveria se opor a isso.

Trump “não entende por que alguém — deixando de lado o papa, o presidente e eu, aliás — acho que a maioria das pessoas não consegue entender por que alguém pensaria que é uma boa ideia o Irã ter uma arma nuclear”, disse Rubio a repórteres na Casa Branca.

Logo após a exibição de um segmento do programa "60 Minutes" da CBS na noite de 12 de abril, o presidente Trump ofendeu abertamente o Papa Leão XIV pela primeira vez no Truth Social. O segmento contou com a participação de três cardeais americanos — Blase Cupich, Robert McElroy e Joseph Tobin — que se manifestaram veementemente contra a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, classificando-a como "injusta".

Trump não atacou os cardeais diretamente; em vez disso, depreciou publicamente Leão XIV, acusando o papa de ser "fraco no combate ao crime" e "péssimo em política externa". Seu ataque ocorreu horas antes de Leão XIV partir para uma visita a quatro países africanos na manhã de 13 de abril.

No avião a caminho da Argélia, em resposta às perguntas dos jornalistas, o Papa Leão XIV disse: "Não tenho medo nem da administração Trump nem de falar em voz alta a mensagem do Evangelho, que é o que acredito ser minha missão, o que a Igreja veio fazer."

Em outra ocasião, Trump acusou falsamente Leão de ser a favor de um Irã com armas nucleares, ignorando o fato de que o papa, nascido nos Estados Unidos, assim como seus antecessores, é a favor da abolição total das armas nucleares. O Papa Francisco declarou que não apenas o uso de armas nucleares é imoral, mas também a posse dessas armas. Hoje, nove países possuem armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel.

Quando o presidente Trump ameaçou exterminar “toda a civilização” do Irã, o Papa Leão XIV, em 7 de abril, denunciou essa ameaça contra o povo iraniano como “verdadeiramente inaceitável” e conclamou os cidadãos dos países envolvidos na guerra no Irã a “contatarem as autoridades, os líderes políticos, os congressistas — a pedirem a eles, a dizerem a eles, a trabalharem pela paz e a rejeitarem a guerra sempre”. Além disso, durante sua visita à África, ele afirmou que “não pode ser a favor da guerra” e disse não ter interesse em debater com Trump.

Rubio, católico de ascendência cubana, será recebido pelo Papa Leão XIV em audiência privada no dia 7 de maio. O Vaticano confirmou a informação no dia 4 de maio, acrescentando que o encontro terá início às 11h30 e término ao meio-dia. Rubio e o vice-presidente J.D. Vance se encontraram com Leão XIV pela primeira vez no dia 19 de maio, um dia após a posse oficial do ministério petrino do primeiro papa americano. Naquela ocasião, Vance entregou ao papa uma carta do presidente Trump convidando-o a visitar os Estados Unidos.

Rubio é o primeiro alto funcionário do governo Trump a se encontrar com o Papa desde aquele encontro de 19 de maio, e houve grandes divergências entre a Santa Sé e o governo dos EUA em questões de política interna e externa desde então, muitas das quais o Papa mencionou em seu discurso de 9 de janeiro ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé.

Essas tensões são abrangentes e vão desde grandes divergências sobre a marginalização do multilateralismo pela administração Trump, suas violações do direito internacional, a deportação em massa de migrantes, o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), as guerras no Oriente Médio, a crise entre a administração Trump e a União Europeia sobre a Ucrânia e o Irã, e muito mais.

Além disso, há o fato bastante extraordinário de que o presidente Trump não conversou por telefone com o Papa Leão XIV desde a eleição de Leão XIV em 8 de maio de 2025, quase exatamente um ano atrás. Mas ele convidou o irmão do Papa, Luís, a quem o presidente descreveu como "um verdadeiro apoiador do MAGA", para a Casa Branca. Ademais, ele chegou a afirmar que o então Cardeal Robert Prevost só foi eleito Papa porque Donald J. Trump era presidente.

Este e muitos outros assuntos constituem o contexto das importantes conversas de Rubio com o Papa Leão XIV e seus principais assessores durante sua visita ao Vaticano na manhã de quinta-feira.

Rubio, que parece ter sido favorável à guerra contra o Irã e à mudança de regime em Cuba, também deverá conversar com o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado, e com o Arcebispo Paul Gallagher, Secretário para as Relações com os Estados e Organizações Internacionais, comumente conhecido como Ministro das Relações Exteriores do Vaticano.

Anteriormente, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que “o Secretário Rubio se reunirá com a liderança da Santa Sé para discutir a situação no Oriente Médio e os interesses mútuos no Hemisfério Ocidental”. Sua visita também visa “promover o fortalecimento das relações bilaterais com o Vaticano e a Itália”. O Departamento de Estado também anunciou que Rubio terá “reuniões com seus homólogos italianos” que “serão focadas em interesses de segurança compartilhados e alinhamento estratégico”.

A agência de notícias italiana ANSA informou que, ao ser questionado hoje por jornalistas sobre o mais recente ataque de Trump ao Papa, o Cardeal Parolin disse: “O Papa já respondeu; não tenho nada a acrescentar. Ele deu uma resposta muito, muito cristã, dizendo que está fazendo o que seu papel exige, que é pregar a paz. Se isso agrada ou não, é outra questão.” Ele acrescentou: “Entendemos que nem todos concordam; mas digamos que esta é a resposta do Papa.”

“Mesmo diante desses novos ataques, não sei se o papa responderá”, disse o cardeal, mas “a posição permanece a mesma” que Leão XIV declarou à imprensa em 13 de abril.

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