18 Abril 2026
"O Papa, portanto, tem se manifestado claramente ao longo do ano inteiro, mas o ataque de Trump constitui o gatilho que dispara a atenção global e possibilita decifrar melhor seu radicalismo cristão, aquela ideia de 'desaparecer para que Cristo permaneça' que ele expressou nos primeiros dias de seu pontificado."
O artigo é de Stefano Cannavò, publicado por Il Fatto Quotidiano, 16-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Stefano Cannavò é jornalista e ex-editor adjunto do Il Fatto Quotidiano , nasceu em 23 de agosto de 1964. Trabalhou durante treze anos no jornal Liberazione , onde foi editor adjunto de Sandro Curzi. De 2006 a 2008, foi membro do parlamento. É diretor da editora Edizioni Alegre. É autor de diversos livros: Porto Alegre, Capital dos Movimentos (manifestolibri, 2002), A Refundação Fracassada (Edizioni Alegre, 2009), Outras Sanguessugas (Aliberti, 2011), Era uma vez Fiat (Aliberti, 2012) e Mutualismo, Retorno ao Futuro para a Esquerda (Alegre, 2018).
Eis o artigo.
No momento de sua eleição, após o fúlgido papado de Francisco, nutravam-se dúvidas sobre a consistência do pontificado de Leão XIV. Um papa de mediação entre as várias almas da Igreja e, sobretudo, dedicado a moderar os excessos de Bergoglio. Tudo verdade. Mas o embate com Donald Trump confere a Prevost uma aura e uma envergadura mundiais que talvez ele próprio não imaginava.
Como se o novo papado tivesse realmente começado na manhã de 13 de abril. Não quando as agências de notícias relatavam os insultos e a infeliz operação de Trump, mas quando as televisões ofereciam a voz calma, esperta e reconfortante de um papa capaz de reagir de frente aos ataques e de mudar o campo de jogo da política para a visão ideal e espiritualidade, para o cerne da mensagem evangélica que alimenta seu mandato.
Sejamos claros: defender a paz entre os homens (e as mulheres) no planeta é uma prática recorrente para os pontífices. Andrea Tornielli apresentou ontem uma análise desse tema no L'Osservatore Romano, relembrando as declarações feitas ao longo do último século. Elas variam "da carta de Bento XV aos beligerantes, de 1917, que define a Primeira Guerra Mundial de 'massacre inútil', até as tentativas de Pio XII de evitar o início da Segunda Guerra Mundial; das palavras de João XXIII na encíclica Pacem in Terris (...) ao grito de Paulo VI na ONU: 'nunca mais a guerra'". E há também a pressão esporádica de João Paulo II à guerra de George W. Bush contra o Iraque e, obviamente, o Papa Francisco com sua encíclica Fratelli Tutti, e talvez ainda mais com suas palavras cheias de imagens como "a terceira guerra mundial em pedaços".
Leão XIV dedicou sua ascensão ao trono ao tema da paz "desarmada e desarmante", já presente em suas primeiras exortações públicas e, em seguida, com posições cada vez mais claras, culminando com o grito de "inaceitável" lançado contra Trump, quando o presidente estadunidense sugeriu "destruir a civilização iraniana". E também com as palavras proferidas em 11 de abril: "Quem reza tem consciência de seus próprios limites; não mata e não ameaça com a morte. Em vez disso, quem virou as costas ao Deus vivo está a serviço da morte, para fazer de si mesmo e de seu poder um ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e pretende que o mundo inteiro se ajoelhe". "Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a exibição da força! Basta com a guerra! A verdadeira força se manifesta em servir à vida." É difícil não perceber um ataque à maneira como o presidente estadunidense pretende gerenciar a "pacificação" do mundo.
O Papa, portanto, tem se manifestado claramente ao longo do ano inteiro, mas o ataque de Trump constitui o gatilho que dispara a atenção global e possibilita decifrar melhor seu radicalismo cristão, aquela ideia de "desaparecer para que Cristo permaneça" que ele expressou nos primeiros dias de seu pontificado. Mas, ao mesmo tempo, a dialética com o presidente estadunidense contribui para consolidá-lo como uma autoridade moral universal decisiva, que é precisamente o papel de um pontífice. Como quando, referindo-se à sua visita à Mesquita de Argel, especificou que "embora tenhamos crenças diferentes, maneiras diferentes de rezar e maneiras diferentes de viver, podemos conviver em paz (...) promover esse tipo de visão é algo de que o mundo precisa hoje".
E, acima de tudo, com a aversão ao conceito de guerra justa, invocado por figuras como Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA, e efetivamente endossado também pelo Vice-Presidente J.D. Vance. Essa clareza provocou o contragolpe, não apenas de Trump. Basta pensar na declaração de Vance de que Leão deve "ter cuidado ao falar de teologia". É como dizer a Michelangelo para ter cuidado ao falar de pintura. Se isso é o novo que avança no mundo MAGA, talvez seja melhor aos estadunidenses continuarem com Trump.
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