Destruir uma civilização: um crime de guerra. Editorial da revista America

Foto: Wikimedia Commons

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08 Abril 2026

"Por mais que o regime iraniano mereça cair, por mais que a economia mundial seja perturbada por suas ameaças à navegação, por mais que o presidente possa ganhar poder de negociação com essas ameaças, tais fins não podem justificar esses meios profundamente imorais. Tratar toda a infraestrutura de um país como alvo militar contraria todas as convenções internacionais sobre conduta em tempo de guerra", afirma o editorial da revista America, 07-04-2026.

Segundo o editorial, "os recursos da tradição da guerra justa — e de suas contrapartes seculares que partilham da mesma origem, como as Convenções de Genebra — oferecem ao mundo instrumentos testados pelo tempo para recompor o que foi quebrado. O que será necessário para convencer nossos líderes a recorrer a elas em busca de orientação?"

Eis o artigo.

No momento em que este artigo foi escrito, o presidente Donald Trump ameaçou que, se o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz até a noite de 7 de abril, ordenaria o bombardeio de todas as usinas elétricas e de todas as pontes do país.

Nas últimas duas semanas, ele repetiu essa ameaça sob diversas formas, alterando frequentemente o prazo. Sua última escalada ocorreu justamente esta manhã com uma declaração chocante: "Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais voltar." Em poucas horas, o presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos respondeu que uma ameaça dessa natureza "não pode ser moralmente justificada". Se Trump levasse adiante a destruição indiscriminada das infraestruturas civis, teria inequivocamente cometido um crime de guerra.

Enquanto a ameaça de Trump permanecia em suspenso, Israel lançou um aviso aos iranianos para que evitassem as ferrovias em todo o país, que começou a bombardear naquele mesmo dia. O governo iraniano convidou os civis a formarem correntes humanas ao redor das usinas elétricas, colocando sua própria população em perigo ainda mais direto.

A tradição católica da guerra justa recusa incondicionalmente atacar civis em tempo de guerra. Não apenas os não combatentes jamais podem ser um alvo militar legítimo, como o secular ensinamento da Igreja insiste: é preciso distinguir entre as infraestruturas civis que sustentam vidas inocentes e os alvos militares legítimos. Do mesmo modo, as Convenções de Genebra — das quais os Estados Unidos são signatários desde o início — consideram os ataques a infraestruturas "indispensáveis à sobrevivência da população civil", incluindo as usinas de dessalinização que Trump ocasionalmente incluiu em suas ameaças, como um crime de guerra.

Vale a pena reafirmá-lo: por mais que o regime iraniano mereça cair, por mais que a economia mundial seja perturbada por suas ameaças à navegação, por mais que o presidente possa ganhar poder de negociação com essas ameaças, tais fins não podem justificar esses meios profundamente imorais. Tratar toda a infraestrutura de um país como alvo militar contraria todas as convenções internacionais sobre conduta em tempo de guerra.

A guerra injusta e injustificada dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ainda não vislumbra um desfecho reconhecível capaz de realizar qualquer um dos vários objetivos que a administração Trump apresentou como justificativa — entre eles, conter as ambições nucleares do Irã, eliminar sua capacidade bélica, proteger seus cidadãos da opressão ou promover qualquer mudança substancial de regime.

No passado, líderes políticos americanos reconheceram a necessidade de uma justificação moral antes de empreender ações militares no Oriente Médio e buscaram apelar a pensadores e doutrinas cristãs, incluindo a tradição da guerra justa, mesmo que a Igreja continuasse a invocar a paz. Em 2002, por exemplo, Michael Novak foi ao Vaticano defender a posição da administração Bush sobre a moralidade de uma segunda invasão do Iraque; pouco depois, George Weigel também defendeu publicamente a guerra como justa — inclusive nas páginas da America; outros, como Drew Christiansen, se opuseram.

Não é assim desta vez. Enquanto o Vaticano foi resoluto em sua oposição a esta guerra, qualquer consideração prévia relativa ao jus ad bellum foi em grande parte ignorada pelos Estados Unidos.

Embora a ausência de qualquer tentativa de justificar a guerra antecipadamente já seja grave por si mesma, emergiu agora um espectro ainda mais alarmante: o abandono por parte dos EUA do jus in bello, ou seja, as considerações relativas à conduta dos combatentes dentro da própria guerra.

O direito internacional e a tradição da guerra justa reconhecem que um ataque limitado às infraestruturas civis pode às vezes ser justificado para impedir seu possível uso por um inimigo com vistas a obter vantagem militar — mas Trump não se preocupou em fazer essa distinção. Ao contrário, afirmou que esses ataques seriam realizados como "represália" pelas mortes de nossos numerosos soldados e de outros que o Irã teria massacrado ao longo dos 47 anos de história do regime.

— Jonathan Chait, The Atlantic

Em termos práticos, a expansão da guerra para incluir alvos civis poderia também provocar uma catástrofe humanitária para os restantes aliados da América. Enquanto o Irã obtém menos de 3% de sua água doce de usinas de dessalinização, países vizinhos como Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos dependem quase inteiramente desses sistemas para sobreviver no árido deserto da península arábica. Um confronto militar de retaliação que destruísse tais infraestruturas colocaria imediatamente em perigo a vida de outros milhões de pessoas.

Em outro nível ético, uma consideração de jus ad bellum que permanece operativa no contexto do jus in bello é também aquela que deveria orientar as ações militares dos Estados Unidos no futuro: a proporcionalidade. Esse princípio afirma que a destruição e o sofrimento produzidos por qualquer estratégia militar não devem superar os benefícios previstos da vitória ou a melhora do dano moral enfrentado pelo conflito.

Destruir a rede elétrica do Irã, derrubar suas pontes ou devastar seus campos petrolíferos — com a consequente perda de vidas de não militares — com o objetivo de uma mudança de regime não é uma resposta proporcional; tampouco tais ações são proporcionais ao objetivo de restabelecer os fluxos de petróleo globais.

Infelizmente para todos os envolvidos nesta guerra em curso, uma correta consideração da proporcionalidade implica necessariamente saber qual é o objetivo final. Não há indícios de que a administração Trump ou os altos comandos militares americanos tivessem em mente um objetivo final realizável em março, e as contradições e os arroubos diários de Trump nas redes sociais e alhures desde então não oferecem nenhuma garantia nesse sentido. Ao contrário, vimos a perspectiva de abandonar a proporcionalidade — sob a forma de guerra sem restrições — ser utilizada como tática de negociação.

A história recente — incluindo a guerra do Vietnã e ambas as guerras do Golfo — demonstrou que qualquer plano americano de intervenção no exterior desprovido de um objetivo claro e de princípios éticos de referência acaba se tornando uma "guerra sem fim", na qual tanto os soldados quanto os inocentes do mundo veem suas vidas destruídas por uma causa indefinida ou mal compreendida.

Esta guerra em curso está também danificando de modo significativo qualquer credibilidade moral que os Estados Unidos possam ter quanto à sua conduta em tempo de guerra. Embora seja verdade que o regime iraniano tenha, por sua vez, repetidamente violado as normas contemporâneas de guerra — incluindo o uso de milícias proxy para atingir populações civis —, os EUA devem a si mesmos e a seus soldados um padrão moral muito mais elevado do que simplesmente "não ser tão ruins quanto o Irã".

As ameaças da administração traem a honra e a integridade de suas forças armadas e correm o risco de infligir um verdadeiro dano moral às próprias tropas, ao ordenar-lhes que cometam atos imorais e ilegais como parte de seu serviço à nação.

Os recursos da tradição da guerra justa — e de suas contrapartes seculares que partilham da mesma origem, como as Convenções de Genebra — oferecem ao mundo instrumentos testados pelo tempo para recompor o que foi quebrado. O que será necessário para convencer nossos líderes a recorrer a elas em busca de orientação?

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