18 Abril 2026
“Uma ilustração da lógica circular do colonialismo de povoamento sionista: os assentamentos são construídos para marcar e proteger a fronteira do Estado. Mas isso os torna vulneráveis a ataques, e, portanto, uma zona tampão é estabelecida para protegê-los. Posteriormente, essa zona tampão é colonizada para delimitar e proteger as fronteiras recém-expandidas, o que exige a criação de uma nova zona tampão. Dessa forma, a vulnerabilidade é criada e depois explorada em um ciclo de retroalimentação chamado de ‘segurança permanente’”. A reflexão é de Eyal Weizman, em artigo publicado por London Review of Books e reproduzido por A l‘Encontre, 15-04-2026. A tradução é do Cepat.
Eyal Weizman é arquiteto britânico-israelense e diretor do Centro de Pesquisa em Arquitetura do Goldsmiths College, da Universidade de Londres. Divide seu lugar de residência entre Tel Aviv e Londres.
Eis o artigo.
A Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio, de 1948, lista cinco atos que constituem genocídio quando cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo. Os dois primeiros atos dizem respeito ao assassinato em massa e a graves danos físicos ou mentais. O quarto e o quinto visam interromper a continuidade biológica de um grupo. A terceira proibição, estabelecida no Artigo II(c), proíbe “submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial”.
Isso se refere a formas indiretas de extermínio, aquelas que visam não os corpos humanos, mas o ambiente que os sustenta. “Condições de existência” suficientes requerem construções, hospitais, infraestrutura social, sistemas de saneamento e abastecimento de água, redes elétricas e agricultura. A destruição ou degradação deliberada dessas estruturas solapa a capacidade de sobrevivência de um povo, levando a uma forma de aniquilação mais lenta e insidiosa.
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A ideia de que o ambiente construído determina as condições de vida de um grupo remete à concepção modernista da arquitetura, dominante quando a palavra “genocídio” foi cunhada e definida pelo jurista judeu polonês Raphael Lemkin em sua obra de 1944, Axis Rule in Occupied Europe: Laws of Occupation, Analysis of Government, Proposals for Redress. A arquitetura moderna propunha calcular e melhorar as condições de vida. As cidades deveriam ser projetadas segundo princípios de saúde pública, e as moradias, de acordo com a famosa definição de Le Corbusier, deveriam ser “máquinas de morar”, calibradas para maximizar o fornecimento de necessidades biológicas – calor, higiene, circulação de ar, alimentos e até mesmo reprodução sexual.
O livro Architects’ Data (1936), do arquiteto modernista alemão Ernst Neufert, ainda hoje é utilizado por arquitetos que buscam as dimensões mais eficientes para cozinhas, quartos ou até mesmo bancos públicos. Na década de 1920, Neufert foi assistente de Walter Gropius, diretor da Bauhaus. Mais tarde, a mando do partido nazista, supervisionou a padronização da indústria da construção civil alemã, que dependia fortemente do trabalho forçado. Vários graduados da Bauhaus projetaram campos de concentração. A degradação deliberada das condições de vida inverteu a missão da arquitetura moderna, transformando-a de uma busca pela melhoria da vida em produção da morte.
Raphael Lemkin definiu o genocídio como aquele que visa “a destruição dos fundamentos essenciais da vida de grupos nacionais”. Ele pensava em como os nazistas viam os guetos judeus e os campos de trabalho forçado como meios de extermínio lento e indireto. Mas ele também estava ciente das origens coloniais desse modo de destruição. Embora massacres diretos ocorressem em todos os territórios colonizados, eram mais frequentemente os assassinatos lentos e indiretos que serviam para aniquilar os povos autóctones. Despojados de seus habitats ancestrais, separados da terra da qual dependiam para seu sustento e rituais, e forçados a viver em reservas, as populações autóctones foram dizimadas para liberar as melhores terras para a colonização europeia.
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Dois anos e meio depois do 7 de outubro de 2023, a maior parte da Faixa de Gaza – cidades, campos de refugiados, escolas, universidades, mesquitas, infraestruturas sanitárias, agricultura, poços e o próprio solo – foi destruída e contaminada por bombas, artilharia, projéteis de tanques e equipamentos de demolição. A destruição mais sistemática foi causada por tratores D9 fabricados pela empresa estadunidense Caterpillar. Essas gigantescas máquinas blindadas cravaram suas lâminas no solo, arando campos, derrubando pomares, demolindo casas, destruindo estradas e profanando cemitérios.
A onda de destruição se espalhou para dentro a partir das cercas periféricas de Gaza, empurrando os palestinos de volta para enclaves designados pelo exército israelense como “zonas de segurança” e “zonas humanitárias”, embora nunca tenham sido seguras ou humanas. Esses locais costeiros superlotados, como al-Mawasi, com suas dunas de areia áridas, careciam de moradias, instalações de saúde e outros serviços, e eram continuamente bombardeados por via aérea e atacados por terra. As escavadeiras transformaram as férteis terras agrícolas do leste de Gaza em um deserto monocromático de cimento cinza triturado misturado com o solo amarelado da região. Cidades inteiras como Rafah, assentamentos como Beit Hanoun e campos de refugiados como Jabalia foram apagados do mapa.
Quando os edifícios são bombardeados ou demolidos, seus escombros – plásticos, cabos, solventes, isolamento, amianto – liberam substâncias químicas tóxicas no solo. Algumas bombas penetram o solo antes de explodir e liberam, a grandes profundidades, metais pesados ou metaloides – como urânio, chumbo e arsênio. Muitas dessas substâncias se decompõem lentamente e afetarão a composição do solo por décadas. Uma paisagem habitada foi transformada no que um ex-general israelense, Giora Eiland, descreveu como um lugar “onde nenhum ser humano pode viver”.
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Raphael Lemkin considerava que as condições para a vida abrangiam não apenas a infraestrutura necessária para a existência biológica, mas também a continuidade social e cultural: edifícios religiosos, escolas, bibliotecas e lugares históricos. Em Gaza, a maioria desses elementos também foi sistematicamente demolida. A Convenção sobre o Genocídio, ratificada em 1948, não mencionou o “genocídio cultural” que Lemkin acreditava ser necessário incluir. Seções inteiras foram excluídas da convenção. Potências imperiais como a Grã-Bretanha, a França, a Bélgica e os Países Baixos, que na época tentavam suprimir levantes anticoloniais, queriam que o genocídio fosse definido de uma forma que não restringisse suas atividades. Os estados coloniais de povoamento – Austrália, Estados Unidos e Canadá – que haviam destruído o patrimônio material, a cultura e a língua dos povos indígenas também se opuseram à convenção.
Mas a vida cultural e a vida biológica não são domínios separados quando se trata de sobrevivência nacional. Em Gaza, a devastação sistemática do meio ambiente – campos, fontes de água e a indústria pesqueira – destruiu a capacidade da sociedade de se alimentar. Os ataques a escolas e mesquitas reduziram sua capacidade de organização e de prestar ajuda mútua para mitigar os piores efeitos da escassez, agravando assim a fome. A destruição simultânea de um setor amplifica os danos infligidos ao outro.
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No dia 13 de outubro de 2023, seis dias após o ataque do Hamas a assentamentos e bases israelenses ao redor de Gaza, Israel ordenou a evacuação da Cidade de Gaza, enviando os palestinos do norte de Gaza para a fronteira sul com o Egito. Um documento preparado pelo Ministério da Inteligência israelense e vazado pelo jornal on-line +972 explicava o motivo: recomendava a expulsão completa dos palestinos da Faixa de Gaza para o Sinai egípcio, argumentando que isso “produziria resultados estratégicos positivos a longo prazo para Israel”. A destruição das condições de vida visava acelerar a saída dos habitantes de Gaza. A maior campanha de bombardeio aéreo da história varreu a região como um tapete de fogo de norte a sul.
A expulsão em massa de palestinos de Gaza para o Egito tem sido um objetivo dos governos israelenses desde dezembro de 1948, quando o exército tentou, sem sucesso, expulsar esse último enclave remanescente ao longo da costa mediterrânea da Palestina. Tentou novamente na década de 1950 e intensificou seus esforços após a guerra de 1967, quando Israel ocupou tanto a Faixa de Gaza quanto o Deserto do Sinai. O ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 ofereceu a Israel uma nova oportunidade. Os planos para a expulsão têm sido amplamente divulgados por políticos e porta-vozes da mídia israelense. Benjamin Netanyahu confirmou que está buscando ativamente transferir palestinos para fora de Gaza. Autoridades israelenses e algumas autoridades estadunidenses começaram a pressionar o Egito para aceitar um grande número de refugiados. Durante oito meses, o exército israelense se absteve de ocupar a área fronteiriça perto de Rafah, deixando a saída para o Egito aberta.
Muitos palestinos, lembrando-se das consequências do deslocamento em massa de 1948, recusaram-se a abandonar suas casas. Permaneceram nas ruínas da Cidade de Gaza, apesar dos bombardeios e da recusa de ajuda. O Egito monitorava de perto a fronteira e impedia a entrada em massa de palestinos, permitindo a entrada apenas daqueles que pudessem pagar somas exorbitantes. Incapaz de atingir seu objetivo, Israel buscou concentrar os palestinos em uma área cada vez menor da Faixa de Gaza até que surgisse a próxima oportunidade de deslocamento. Fora dessas áreas, a destruição total visava impedir seu retorno às regiões de onde haviam sido expulsos.
A destruição foi mais completa perto das cercas de Gaza. O exército israelense chama a área da fronteira com Israel de “zona tampão”. É uma área proibida aos palestinos, uma shetah hashmada, que em hebraico significa “zona de aniquilação”: qualquer palestino que nela entrasse, ou às vezes até mesmo dela se aproximasse, era morto a tiros. Entre as vítimas estavam palestinos, incluindo muitas crianças, que queriam ver o que podiam salvar das ruínas de suas casas, recuperar alimentos lançados de paraquedas ou que simplesmente se perderam em uma paisagem desconhecida. A demolição de todas as estruturas na zona tampão tinha como objetivo, entre outras coisos, eliminar quaisquer esconderijos e expor os palestinos a atiradores de elite.
Antes de outubro, a zona tinha entre 300 e 500 metros de largura. Duas semanas após o início da guerra, expandiu-se para um quilômetro. Na primavera de 2025, tinha dois quilômetros de largura; pouco depois, atingiu três quilômetros, e tudo dentro dela foi sistematicamente arrasado por tratores. Com a zona tampão agora cobrindo uma área tão vasta, tornou-se impossível usar atiradores de elite em todos os lugares; palestinos, portanto, estavam sendo assassinados por drones quadricópteros equipados com lançadores de granadas. Durante o dia, as pessoas eram facilmente identificáveis contra o fundo monocromático; à noite, os sensores térmicos dos drones detectavam seu calor corporal.
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Ao longo da história militar, as zonas tampão – a Renânia após o Tratado de Versalhes de 1919, a faixa de terra entre o Kuwait e o Iraque após a Guerra do Golfo de 1991, a zona desmilitarizada entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, ou o território entre as partes turca e grega do Chipre – serviram como meios de manter tréguas, separando os exércitos. Nas oito décadas desde a criação de Israel, contudo, as zonas tampão têm sido usadas como instrumento de ocupação, deslocamento e aniquilamento. De acordo com os termos do armistício entre o Egito e Israel que pôs fim à guerra de 1948, as posições avançadas israelenses foram demarcadas a aproximadamente três quilômetros a leste da atual fronteira com Gaza, como demonstrado pelo historiador e cartógrafo palestino Salman Abu Sitta.
A linha atravessa al-Ma'in, a aldeia onde Salman nasceu e de onde ele e o resto de sua família foram expulsos em 14 de maio de 1948. Al-Ma'in e outras aldeias palestinas foram rapidamente esvaziadas de seus habitantes e substituídas por kibutzim agrícolas, que foram atacados em 7 de outubro de 2023. Os colonos expandiram o território israelense por meio do cultivo, obliterando os vestígios de casas, estradas e campos palestinos. Eles arrasaram os cemitérios, pois estes eram frequentemente locais para onde os palestinos retornavam. Os soldados e os colonos receberam ordens para atirar em qualquer pessoa, armada ou desarmada, que entrasse na área.
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Antes da guerra de 1967, o rei Hussein da Jordânia ofereceu-se secretamente para manter a Cisjordânia como zona tampão, caso Israel prometesse não a invadir. Mesmo assim, Israel ocupou o território. Após a guerra, um plano diretor de segurança elaborado pelo ex-comandante militar Yigal Allon [1918–1980, primeiro-ministro interino de fevereiro a março de 1969, vice-primeiro-ministro de julho de 1968 a junho de 1977] previa a anexação e o assentamento de uma faixa de 10 a 15 quilômetros de largura no Vale do Jordão (cobrindo aproximadamente um terço da Cisjordânia) para servir como zona tampão oriental de Israel.
A limpeza étnica das comunidades agrícolas palestinas na área começou logo em seguida e continua intermitentemente até hoje. As expulsões aceleraram drasticamente desde outubro de 2023 e intensificaram-se ainda mais desde o início do ataque dos EUA e de Israel ao Irã, com o exército israelense incentivando e participando de pogroms contra colonos em todas as comunidades palestinas remanescentes. Bezalel Smotrich, um colono da Cisjordânia e ministro das Finanças israelense, já havia prometido no início de 2025 que as aldeias e cidades palestinas na Cisjordânia acabariam por “se assemelhar a Rafah e Khan Younis. Elas também serão transformadas em ruínas inabitáveis, e seus habitantes serão forçados a migrar e buscar uma nova vida em outros países”.
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Um processo semelhante ocorreu no norte do país. Durante a guerra de 1967, Israel ocupou as Colinas de Golã com o objetivo explícito de criar uma zona tampão entre o exército sírio e os assentamentos agrícolas israelenses no alto Vale do Jordão. Mais assentamentos foram construídos em toda a área ocupada e, em 1981, Israel a anexou formalmente. Em dezembro de 2024, após a queda de Bashar al-Assad, as Forças de Defesa de Israel (IDF) estenderam uma “zona de defesa esterilizada” ainda mais para o território sírio, expulsando residentes sírios, destruindo edifícios militares e civis, incluindo o Hospital al-Golan e o cinema al-Andalus em Quneitra, e arrasando pomares, florestas e campos, empilhando terra para construir postos militares, trincheiras e aterros.
A mais recente invasão israelense do Líbano resultou na expulsão de 600 mil libaneses de uma zona tampão recém-criada. Israel bombardeou todas as pontes sobre o rio Litani, a 30 quilômetros da fronteira, para isolar a região do restante do Líbano, e começou a demolir sistematicamente as aldeias mais próximas da fronteira. O retorno dos moradores libaneses a essas aldeias será proibido, declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, “até que a segurança dos moradores do norte [de Israel] seja garantida” – uma exigência impossível de ser atendida. Uma organização israelense de colonos publicou planos para o “assentamento do sul do Líbano”, produzindo mapas que dão nomes hebraicos às aldeias libanesas e anunciando, de forma provocativa, lotes de terra à venda.
Isso ilustra a lógica circular do colonialismo de povoamento sionista: os assentamentos são construídos para marcar e proteger a fronteira do Estado. Mas isso os torna vulneráveis a ataques, e uma zona tampão é, portanto, estabelecida para protegê-los. Posteriormente, essa zona tampão é colonizada para delimitar e proteger as fronteiras recém-expandidas, o que exige a criação de uma nova zona tampão. Dessa forma, a vulnerabilidade é criada e depois explorada em um ciclo de retroalimentação que o estudioso do genocídio A. Dirk Moses chamou de “segurança permanente” [ver seu livro The Problems of Genocide: Permanent Security and the Language of Transgression, Cambridge University Press, 2021].
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Nos últimos dois anos e meio, Gaza não foi apenas uma zona de demolição, mas também um canteiro de obras, remodelada de acordo com o plano de Israel. Os escombros de edifícios arrasados foram empilhados, criando montes de terra que foram na sequência transformados em barreiras, centros de detenção e postos militares, de onde tanques e atiradores israelenses controlavam a área onde os sobreviventes estavam concentrados. A escala da movimentação de terra foi tamanha que as 200 escavadeiras de Israel estavam longe de ser suficientes – muitas haviam sido danificadas pela resistência palestina – e Israel precisava urgentemente de outras 200. No final de 2024, o governo Biden atrasou a exportação dessas máquinas, que só foram enviadas depois da posse de Trump. Enquanto isso, o exército israelense contratou operadores de escavadeiras particulares, muitos dos quais eram colonos da Cisjordânia.
Se os palestinos tentarem retornar às áreas demolidas, disse Abraham Zarbiv, um operador de escavadeira israelense, “eles voltarão para um lugar que não existe. Dezenas de milhares de famílias ficaram sem documentos, sem fotos da infância, sem carteiras de identidade; não têm nada. Se voltarem, não saberão onde estão suas casas. Tudo o que encontrarão será areia”. A destruição do ambiente construído foi acompanhada pela destruição de registros relacionados. Plantas municipais, mapas históricos e escrituras de propriedade foram destruídos quando Israel bombardeou o Arquivo Central da Cidade de Gaza em novembro de 2023.
O exército “alterou a topografia da Faixa de Gaza a ponto de torná-la irreconhecível”, escreveu o poeta palestino Omar Moussa naquele mês. “Se sobrevivermos a esta guerra”, citando um amigo, “onde nos encontraríamos?” Após a Primeira Guerra Mundial, os ferimentos faciais sem precedentes causados por projéteis de alto poder explosivo destruíram o senso de identidade dos soldados. O equivalente territorial disso é a desorientação que os palestinos sentem ao se depararem com lugares que antes eram seus lares. Uma nova forma de tortura psicológica surgiu. Prisioneiros palestinos com os olhos vendados foram levados de volta aos seus antigos bairros, agora reduzidos a um campo de ruínas. “Quando tiramos as vendas, relatou Zarbiv, eles estavam completamente desorientados; não entendiam onde estavam”. Zarbiv, que também é juiz no tribunal rabínico, foi escolhido para acender uma tocha durante as comemorações do Dia da Independência de Israel.
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Na noite de 23 de março de 2025, tropas israelenses assassinaram quinze socorristas e enterraram seus corpos em grandes aterros perto de Rafah. Asaad al-Nasasra, um socorrista do Crescente Vermelho Palestino e um dos dois sobreviventes do ataque, foi interrogado e torturado dentro de uma vala aberta por tratores nas proximidades. Ele descreveu seu sofrimento a pesquisadores da Forensic Architecture, que usaram suas descrições para tentar modelar as mudanças na paisagem. Quando a venda cor de cobre foi retirada de seus olhos, ele percebeu que “eles haviam transformado completamente o lugar. Quando vi o local, entrei em pânico. Não conseguia entender mais nada”.
Para reconstruir o incidente, os pesquisadores colaboraram com a Earshot, uma unidade de pesquisa de áudio de código aberto, que analisou o som de tiros gravado no telefone de um dos socorristas assassinados. Lawrence Abu Hamdan, fundador da Earshot, explicou-me que a demolição também transformou radicalmente a paisagem acústica. Geralmente, disse ele, as gravações de áudio de disparos em áreas urbanas revelam sons que ressoam de várias direções. Aqui, restaram apenas três paredes, que sobreviveram milagrosamente à demolição. Essa nova paisagem permitiu ecos nítidos, possibilitando a reconstrução dos incidentes a partir de suas assinaturas sonoras.
Nas semanas que se seguiram ao massacre, a terra e os escombros da área foram amontoados em uma série de estruturas próximas ao local. Essas estruturas cercaram um espaço aberto, que rapidamente se tornou um dos complexos administrados pela recém-formada Fundação Humanitária de Gaza (GHF), uma organização financiada por empreiteiras estadunidenses e israelenses que deveria administrar a distribuição de ajuda alimentar, ignorando a ONU. Seus centros de distribuição atraíram palestinos famintos para quatro locais específicos, todos próximos a instalações militares israelenses, três deles perto da fronteira com o Egito. Centenas deles foram massacrados por soldados israelenses e mercenários estadunidenses enquanto eram forçados a lutar por rações.
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O cessar-fogo atual entrou em vigor no dia 10 de outubro de 2025. Nos seus termos, Gaza foi dividida em duas zonas por uma linha amarela que seguia aproximadamente a borda da zona tampão, deixando o exército israelense controlando 54% de Gaza. Em dezembro, Israel moveu unilateralmente a linha para oeste, aumentando a área sob seu controle para 58%. Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior israelense, descreveu a Linha Amarela como a “nova fronteira” de Israel com Gaza.
A linha foi traçada ao longo de uma crista de arenito paralela à costa, a cerca de três quilômetros do litoral. Localizada a aproximadamente 70 metros acima do nível do mar, ela permite que as forças israelenses controlem os palestinos forçados a buscar refúgio na área próxima ao mar. Essa crista moldou a vida na região desde os tempos antigos. Todos os anos, milhões de metros cúbicos de granito do planalto etíope se erodem, transformando-se em areia, que é transportada pelo Nilo até o Mediterrâneo. As marés depositam grandes quantidades dessa areia ao longo da costa palestina. Milênios atrás, uma dessas antigas dunas se solidificou, formando a crista de arenito – uma barreira formidável que impede o avanço de outras dunas de areia ao longo da costa.
A oeste da crista, a área é predominantemente arenosa; a leste, o solo é fértil. Durante muitas gerações, a maior parte dos campos de trigo e cevada da Palestina foi cultivada por tribos beduínas nas férteis planícies da região de Beersheba. Esses agricultores estavam entre os 200 mil palestinos expulsos de suas terras e confinados a um enclave costeiro entre as cidades de Rafah e Gaza durante os últimos meses de 1948. Uma faixa desse território, com três a quatro quilômetros de largura, permaneceu dentro das fronteiras de Gaza. Durante décadas, essa terra fértil serviu como celeiro de Gaza. Hoje, ela se encontra inteiramente no lado israelense da Linha Amarela.
Na Forensic Architecture, identificamos uma nova barreira de terra construída ao longo de grande parte do trajeto da Linha Amarela, bem como sete novos postos militares. Um deles foi construído no local de um cemitério. No total, existem 48 postos avançados a leste da Linha Amarela. Zamir Eyal afirmou que essas são as bases a partir das quais novas incursões na área costeira seriam lançadas, se necessário. Inicialmente, os novos postos avançados eram apenas montes de terra e entulho, organizados em cercados de formatos variados.
Mas, nos últimos meses, as áreas cercadas e as estradas que levam a elas foram pavimentadas. Postes de energia foram erguidos e as estradas iluminadas. Edifícios pré-fabricados, compactados uns aos outros, foram construídos dentro das bases, e altas torres no perímetro abrigam equipamentos de comunicação e vigilância. As bases não parecem mais ser as instalações temporárias que o plano de cessar-fogo de Trump alega serem, mas instrumentos permanentes de ocupação. Estradas recém-pavimentadas conectam as bases a uma rede de controle ligada à infraestrutura rodoviária e de comunicações de Israel.
A oeste da Linha Amarela, o Hamas é a autoridade governante. Os sobreviventes vivem dentro e entre as ruínas ou em vastos acampamentos de tendas. Os invernos extremamente frios – as temperaturas podem cair para 5 °C – causaram mortes por hipotermia, principalmente entre os bebês. O verão, com temperaturas acima de 40 °C, está se aproximando rapidamente. Em verões anteriores, crianças sufocaram em abrigos feitos de lona plástica ou com telhados improvisados de zinco: estruturas permanentes são proibidas. Poças d'água são criadouros de mosquitos; o lixo se acumula; o esgoto corre livremente; e os roedores estão por toda parte. Israel proíbe a entrada em Gaza de produtos químicos e pesticidas que poderiam ajudar a resolver esses problemas.
Embora alguns serviços médicos tenham sido parcialmente restaurados graças aos esforços de médicos palestinos e ONGs internacionais, o sistema de saúde funciona a duras penas. A escassez de medicamentos e as condições precárias de higiene fazem com que até mesmo ferimentos leves levem a infecções. Mais de 40% dos pacientes de diálise em Gaza morreram por falta de tratamento. A população sobrevivente de Gaza foi reduzida a um estado de mera sobrevivência, sujeita à fome e sede implacáveis sob o zumbido constante de drones assassinos e aviões de combate.
Ao controlar a quantidade de ajuda que pode entrar – que foi temporariamente suspensa em março, após o início do ataque EUA-Israel ao Irã – Israel pode continuar a regular as condições de vida. O país quer que os palestinos saiam ou morram lentamente. No entanto, vídeos que mostram a vida em Gaza durante o genocídio revelam pessoas cozinhando em fogueiras comunitárias, administrando escolas ao ar livre e submetendo teses a universidades cujos prédios já não existem mais.
O movimento de colonos está pressionando o governo israelense a iniciar a construção de assentamentos dentro da zona tampão significativamente expandida. Em dezembro de 2025, Israel Katz declarou que Israel “nunca deixará Gaza” e transformará os postos militares em “postos avançados Nahal” [a organização Nahal, fundada por David Ben-Gurion, iniciou assentamentos militares e agrícolas em 1951], projetados para se tornarem assentamentos civis. Alguns dos assentamentos ao redor de Gaza tiveram origem como postos avançados Nahal no início da década de 1950, assim como muitos assentamentos na Cisjordânia.
Como até mesmo Donald Trump se opõe oficialmente à construção de assentamentos judaicos em Gaza, Netanyahu forçou Katz a recuar em sua declaração. O governo israelense decidiu adotar uma posição ambígua e ganhar tempo, atrasando a retirada do exército e reforçando suas posições e infraestrutura a leste da Linha Amarela. A conversão desses postos militares em assentamentos civis terá que esperar até que a atenção mundial se volte para outro assunto.
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Enquanto isso, planos de desenvolvimento fantasiosos estão sendo lançados para mascarar a realidade da destruição contínua da vida palestina em Gaza, que se tornou um campo de caça para especuladores imobiliários disfarçados de políticos. Em 4 de fevereiro de 2025, durante o cessar-fogo de dois meses que se seguiu à segunda posse de Trump, o presidente anunciou inesperadamente que os Estados Unidos “assumiriam o controle da Faixa de Gaza”. Gaza, declarou Trump, tinha “uma localização litorânea fenomenal e o melhor clima” e se tornaria a “Riviera do Oriente Médio”. Embora os Estados Unidos tivessem minimizado anteriormente a extensão da destruição, o governo Trump começou a dar grande importância ao assunto. Não se tratava de uma questão humanitária. Rotulando Gaza como uma “zona de destruição”, o governo declarou que o desenvolvimento exigiria uma evacuação total. Os palestinos na zona de concentração litorânea seriam incentivados a se mudar para um “lugar agradável” em outro lugar. O desenvolvimento levaria ao deslocamento populacional que o exército israelense não conseguiu realizar durante a guerra.
Para se antecipar ao projeto Riviera de Trump, Egito, Arábia Saudita, Jordânia e Emirados Árabes Unidos propuseram seu próprio plano diretor. Este plano também não foi motivado por preocupações humanitárias, mas concebido para garantir que os palestinos permanecessem na Faixa de Gaza em vez de serem expulsos para seus territórios. Uma “cidade verde e inteligente, alimentada por energia renovável” foi proposta. Claramente, o plano foi concebido para agradar aos israelenses. A zona de amortecimento foi incorporada ao plano, apresentada como um “espaço verde aberto” onde nenhuma estrutura deveria ser construída.
No verão de 2025, um grupo de empreendedores israelenses apresentou outra iniciativa, o Fundo de Reconstituição, Aceleração Econômica e Transformação de Gaza (GREAT). Os idealizadores desse projeto – o capitalista de risco Michael Eisenberg, o empreendedor de tecnologia Liran Tancman e outros – também propuseram e supervisionaram a Fundação Humanitária de Gaza, que estabeleceu centros de distribuição de alimentos militarizados no sul da Faixa de Gaza. O GREAT deu continuidade à visão “Riviera” de Trump. Previa uma cidade turística de “classe mundial”, com uma série de cidades “impulsionadas por inteligência artificial” mais para o interior. Uma “Rodovia Central MBZ”, em homenagem ao presidente dos Emirados Árabes Unidos, um “Contorno MBS”, em homenagem ao príncipe herdeiro saudita, e uma “Zona de Manufatura Inteligente Elon Musk” tinham como objetivo incentivar essas figuras a arcarem com parte dos custos. Alguns palestinos poderiam permanecer; outros receberiam uma modesta assistência financeira para se realocarem.
O cessar-fogo de outubro de 2025 permitiu uma atualização deste plano. O Conselho de Paz é um verdadeiro desfile de figuras importantes do autoritarismo populista: Trump, presidente vitalício, juntou-se a Benjamin Netanyahu, Javier Milei, da Argentina, Viktor Orbán, da Hungria, o rei Abdullah II da Jordânia e Recep Tayyip Erdoğan, da Turquia. Marco Rubio, Jared Kushner, Tony Blair e outros foram incumbidos de formar um comitê para supervisionar os tecnocratas palestinos que administrariam os assuntos cotidianos em Gaza. Um novo órgão militar, conhecido como Força Internacional de Estabilização (FIE), assumiria o controle da segurança. Como Shawan Jabarin, diretor da organização palestina de direitos humanos Al-Haq, me disse, a proposta envolvia apenas uma mudança semântica na lógica da ocupação: a FIE simplesmente substituiria o exército israelense (IDF) como potência ocupante.
Jared Kushner apresentou a visão arquitetônica do Conselho da Paz no Fórum Econômico Mundial em Davos. O projeto Sunrise adicionou detalhes a essa visão alucinante de uma Riviera, com representações de 180 arranha-céus de luxo, atrás dos quais sete conjuntos de empreendimentos urbanos e industriais seriam separados por amplas avenidas que seguiam o traçado das estradas militares construídas por Israel desde outubro de 2023 para dividir Gaza em seções controláveis.
A leste dessas áreas, ficava a zona tampão disfarçada de zona agrícola. A arquitetura de controle proposta se estendia ao ciberespaço. Liran Tancman, graduado da unidade de elite de inteligência cibernética israelense 8200, foi recrutado por Trump para elaborar um plano de reformulação digital. Isso incluía a declaração de que, até julho deste ano, o serviço gratuito de internet banda larga transferiria todas as interações sociais e transações financeiras para o ambiente on-line. O objetivo não era ajudar a economia palestina, mas submeter todas as transações financeiras e administrativas à supervisão israelense.
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Para o governo israelense, a reconstrução é uma alavanca. Projetos de desenvolvimento em larga escala levam anos para se concretizar. Através do controle total dos postos de controle e terminais, bem como de cada caminhão carregado de cimento e materiais de construção que entra em Gaza, Israel pode garantir que a reconstrução permaneça um “projeto” perpétuo. A imagem de torres de luxo construídas sobre valas comuns, com dezenas de milhares de pessoas presumivelmente enterradas sob as terraplenagens, personifica a lógica do genocídio do século XXI. O governo israelense agora espera, nas palavras do ex-ministro Ron Dermer [Ministro de Assuntos Estratégicos de 2022 a 2025], que o que “dois anos de guerra não conseguiram será alcançado pelas forças do mercado”. O apagamento da vida palestina em Gaza poderia, contra todas as expectativas, ser alcançado por meios arquitetônicos.
Em janeiro, pesquisadores da Forensic Architecture identificaram obras em andamento em uma área de um quilômetro quadrado, cercada por vários postos militares, no lado israelense da Linha Amarela, a leste das ruínas de Rafah. Um documento militar estadunidense vazado revelou que se tratava de um projeto piloto para um programa chamado “Alternative Safe Communities” (Comunidades Seguras Alternativas), que fornecerá moradia para dezenas de milhares de palestinos – selecionados por sua disposição em renunciar ao Hamas – em conjuntos habitacionais modulares equipados com água, saneamento e eletricidade. Mesquitas e escolas incentivarão a normalização das relações com Israel, seguindo o currículo utilizado pelos Emirados Árabes Unidos.
Uma representação ilustrativa do que está sendo chamado de “Emirati Compound” mostra o layout de um novo tipo de campo de refugiados. Nesse plano, unidades pré-fabricadas de dois andares – não altas o suficiente para “ameaçar” as forças israelenses – são dispostas ao longo de ruas largas, permitindo o patrulhamento por veículos blindados israelenses. No centro, há um grande parque que circunda uma mesquita. Isso, em vez de moradias de luxo e uma Riviera Francesa, é o máximo que os palestinos podem esperar dos planos de reconstrução. Os residentes entrariam e sairiam do acampamento cercado por meio de pontos de controle equipados com sensores biométricos. O plano também propõe assistência para “residentes que desejam viajar para o exterior”.
Todas essas iniciativas ignoraram os planejadores urbanos e arquitetos palestinos, embora vários planos de reconstrução palestinos tenham sido propostos. Um deles, a Iniciativa Phoenix Gaza, foi desenvolvido pela União dos Municípios da Faixa de Gaza, em colaboração com arquitetos palestinos da Palestina e da diáspora, e baseia-se nas “relações sociais e espaciais que persistem em Gaza”. Os bairros e campos de refugiados arrasados – alguns dos quais, como Rafah e Jabalia, são centros históricos da identidade nacional palestina – seriam reconstruídos, casa por casa, após a cuidadosa restituição da propriedade da terra nas áreas desocupadas. Durante o processo de reconstrução, cada família seria alojada perto do local de sua casa demolida, e as comunidades seriam envolvidas na reconstrução.
Os planos de reconstrução impostos aos palestinos com o objetivo implícito de destruir a vida palestina em Gaza demonstram por que Lemkin incluiu a arquitetura em sua concepção do crime de genocídio. Ele sabia que a maneira como um povo organiza seu espaço é uma manifestação de sua história e estrutura social. “O genocídio tem duas fases”, escreveu Lemkin em Axis Rule in Occupied Europe. A primeira envolve a “destruição do padrão nacional do grupo oprimido” – o que foi realizado em Gaza pelos bombardeios devastadores de Israel. A segunda envolve a imposição de um padrão pelo opressor, como exemplificado por esses planos de reconstrução para Gaza. “Essa imposição, por sua vez, escreveu, pode ser exercida sobre a população oprimida que permanece, ou apenas sobre o território, após a expulsão da população e a colonização da área pelos nacionais do opressor”.
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