Ativista relata missão da flotilha de apoio à ilha, detenção no Panamá e alerta para escalada de conflitos globais.
Cuba atravessa um dos períodos mais críticos das últimas décadas, marcado pelo endurecimento do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos, que já dura mais de 60 anos. De acordo com relatório apresentado pelo governo cubano, apenas entre 2024 e 2025 os prejuízos provocados pelas sanções ultrapassaram US$ 7,5 bilhões, em um cenário de crescente restrição ao comércio internacional e de dificuldades no acesso a combustíveis, medicamentos e insumos básicos.
Na vida cotidiana, os efeitos dessa política se traduzem em apagões prolongados, escassez de alimentos e dificuldades no sistema de saúde. Situações em que famílias enfrentam longos períodos sem eletricidade e hospitais lidam com a falta de insumos essenciais, evidenciando o impacto direto das sanções sobre a população. O bloqueio, apontado por autoridades cubanas como uma política deliberada de “asfixia econômica”, tem sido intensificado nos últimos anos, ampliando o isolamento da ilha em um contexto internacional cada vez mais tensionado.
É nesse cenário que iniciativas de solidariedade internacional voltam a ganhar força. A recente missão da chamada Flotilha “Nuestra América” a Cuba, que reuniu ativistas de diversos países para levar doações à ilha, ocorre em meio ao agravamento das condições internas e ao reposicionamento geopolítico global. Um dos participantes da ação foi o ativista brasileiro Thiago Ávila, que acabou detido no Panamá durante o trajeto.
Em Porto Alegre, para participar da 1ª Conferência Internacional Antifascista, o ativista concedeu uma entrevista ao Brasil de Fato RS, na qual analisa o contexto da missão, o papel de Cuba no cenário internacional, a disputa entre potências, a situação na América Latina e os desdobramentos de conflitos como o da Palestina.
A entrevista é de Katia Marko, publicada por Brasil de Fato, 30-03-2026.
Thiago, eu queria começar pela missão da flotilha a Cuba e pela tua detenção no Panamá. O que aconteceu e qual o contexto dessa iniciativa?
A missão surge da necessidade concreta que Cuba enfrenta hoje. Desde a revolução em 1959, Cuba vive ataques sucessivos, como a invasão da Baía dos Porcos, tentativas de bloqueio e de assassinato das suas lideranças – tentaram assassinar Fidel mais de 600 vezes ao longo desses anos de revolução. Nunca conseguiram, mas o bloqueio causou muito dano.
Quando era o governo de Lyndon Johnson, foi desclassificado um documento que mostrava que a intenção deles com o bloqueio era deteriorar o apoio popular à Revolução Cubana e causar processos de dissidência interna para desestabilizar o país, que tentou e ainda tenta ser um exemplo de soberania, autodeterminação e dignidade a 90 milhas da mais perigosa força imperial e militar da história.
A partir da crise dos mísseis, houve um acordo entre EUA e União Soviética de que os Estados Unidos nunca invadiriam Cuba, mas mantiveram os instrumentos do bloqueio. Quando a União Soviética caiu, esse processo se desestabilizou e os efeitos aumentaram, levando Cuba ao “Período Especial”.
Depois disso, o que protegeu Cuba foi a integração da onda progressista na América Latina, através da Articulação Continental de Movimentos Sociais e Populares (Alba Movimentos), com Venezuela, Bolívia e Equador, além de processos como a Unasul e a Celac.
Esse processo protegeu Cuba por mais de uma década, minimizando os efeitos do bloqueio com o apoio, sobretudo, da Venezuela. Contudo, essa onda se desfez por caminhos diferentes: derrotas eleitorais na Argentina, traições no Equador com Lenin Moreno, golpes diretos como na Bolívia em 2019, ou golpes institucionais e de lawfare no Brasil em 2016, Honduras e Paraguai. Isso deixou Cuba numa situação extremamente frágil.
Atualmente, vivemos uma crise imperialista onde a hegemonia unipolar dos EUA está em xeque, perdendo espaço para a expansão chinesa e vendo sua potência militar contestada pela Rússia na Ucrânia. Entendendo que sua hegemonia está em risco, a classe dirigente dos EUA utiliza sua vantagem militar e a disposição de ignorar o direito internacional para atacar a soberania de outros países. Desde o mandato de Trump, foram impostas mais de 400 novas medidas restritivas e Cuba foi colocada na lista de países que apoiam o terrorismo. Recentemente, uma ordem executiva proibiu e taxou a exportação de petróleo para Cuba, interceptando navios e tentando destruir a revolução cubana como uma política de Estado prioritária.
A Flotilha “Nuestra América” nasceu como um chamado à solidariedade internacional para retribuir a Cuba tudo o que ela ofereceu ao mundo. Cuba é o país mais solidário do mundo: enviou brigadas médicas para todos os cantos, ajudou no Haiti, Chile, combateu o Ebola na África e a covid-19 na Itália. Apoiou as lutas de libertação em Angola e Namíbia, ajudando a derrotar o apartheid.
Flotilha “Nuestra América" navega rumo a Cuba. (Foto: Gladys Serrano/El País)
Nossa missão teve três raios de ação: barcos, aviões de carga dos EUA e pessoas levando medicamentos e alimentos em suas malas. Conseguimos levar mais de 50 toneladas de suprimentos. No barco “Granma 2”, levamos 14 toneladas de alimentos, medicamentos, 73 painéis solares e bicicletas. Embora seja uma gota no oceano, é um recado de que a solidariedade não se bloqueia e que não aceitamos um sistema governado por bilionários e criminosos de guerra.
E como tu avalia esse momento da revolução cubana?
Cuba vive hoje uma etapa dramática, em alguns aspectos pior que o Período Especial, pois carece da presença viva de Fidel para mobilizar as pessoas em condições adversas. O país enfrenta apagões generalizados, falta de medicamentos e dificuldades extremas, como na pandemia, quando os EUA impediram o acesso a seringas.
É um momento decisivo. A história das revoluções mostra que, em contextos adversos, às vezes é preciso recuar taticamente para preservar o essencial: o poder político e o horizonte estratégico.
O povo cubano tem um nível de consciência muito alto. Pode estar frustrado com as dificuldades, mas sabe o que está em jogo. A alternativa não é simples – não é voltar a ser uma colônia.
Como está a juventude cubana diante da influência cultural e da guerra de informação?
Esse é um desafio global que conta com a despolitização. O consenso neoliberal desde o fim da década de 1980 prega que a organização política não leva a nada e que o sucesso é competir para adquirir bens materiais, ignorando as estruturas de classe. As pessoas às vezes acreditam que podem abrir mão de saúde gratuita por um determinado tênis ou aparelho eletrônico. Isso é fruto da despolitização. O horizonte ecossocialista não abre mão da ciência ou da melhoria de vida, mas contesta a lógica de consumo capitalista que nega direitos básicos.
Em Cuba, muitos assistem às novelas da Globo e acham que todo mundo no Brasil vive como no Leblon. Quando falamos da realidade da fome e da falta de atendimento médico no Brasil, pensam que estamos exagerando para valorizar a revolução deles. Vimos cubanos que venderam tudo para vir ao Brasil e acabaram em situação de rua porque acreditaram na ideologia da indústria cultural.
A juventude cubana trata as conquistas históricas da revolução como algo dado, sem imaginar como é viver sem elas, o que é um paradigma difícil de solucionar.
Como tu enxerga o papel da América Latina nesse cenário internacional?
A manutenção da hegemonia dos EUA hoje pauta-se em três políticas: a contenção da China (incluindo Brics e a Rota da Seda); o controle da energia (petróleo e terras raras), onde o Estado de Israel atua como um enclave estratégico; e o controle do seu “espaço vital”, que é a América Latina, sob a lógica da Doutrina Monroe.
A América Latina é um alvo prioritário porque expandiu relações com a China e possui as maiores reservas de petróleo (Venezuela), biodiversidade e água potável (Brasil/Amazônia). Infelizmente, não devemos esperar tempos de paz.
O continente, que viveu uma “paz colonizada” por muito tempo, tende a se tornar um lugar de grandes confrontações se não aceitarmos a submissão total. Precisamos lutar contra o imperialismo em todas as frentes, inclusive na “batalha das ideias” ou batalha cognitiva. Não somos o quintal deles; somos vizinhos com dignidade e soberania.
E essa guerra comunicacional deve impactar processos eleitorais, como no Brasil?
Sem dúvida. A imposição imperialista se dá por invasões abertas, como o ataque na Venezuela, ou por intervenções em eleições. Eles participaram ativamente em Honduras e no Chile, e está evidente que intervirão no Brasil e na Colômbia este ano.
O Estado brasileiro precisa aumentar sua proteção contra a ingerência estrangeira e lidar com uma burguesia interna entreguista que pede a invasão dos EUA, como a família Bolsonaro fez. Precisamos de controle sobre as big techs e sobre o sistema eleitoral, que é suscetível a fake news e big data. Pior do que sofrer ataques de um vizinho violento é submeter toda a vida a ele sob o medo da agressão.
Falando de conflitos internacionais, qual tua análise sobre a Palestina hoje?
Palestina é aquele caso de uma situação no espaço/tempo ali na disputa política dessa crise imperialista que foge da maioria das regras e do que se vê como habitual. A gente vê um processo de genocídio, limpeza étnica de oito décadas, promovido não por uma religião, mas por uma ideologia racista e colonial, chamada sionismo, e que estruturou naquela região o estado colonial de apartheid, que em vários aspectos se parece, mas segundo o próprio Nelson Mandela, era e hoje ainda mais é muito pior do que o próprio apartheid que aconteceu na África do Sul.
Essas oito décadas de genocídio, de limpeza étnica, de supremacismo do sionismo, chegaram numa etapa agora de uma escalada chocou o mundo, que durante 2 anos e meio levou a uma taxa de morte de crianças superior à que a Alemanha nazista matou no período da Segunda Guerra, em proporção à duração do período e a população envolvida.
Por outro lado, também teve uma resposta popular sem precedentes. A gente viu grandes levantes na luta contra a guerra do Vietnã. A gente viu grandes levantes na luta contra a invasão do Iraque, do Afeganistão no início desse milênio, desse século. Mas esse levante palestino, ele de fato foi sem precedentes, no sentido de mobilizar tanta gente por tanto tempo numa pauta tão radicalizada, anti-imperialista, anticolonial e antissionista, que levou até uma greve geral na Itália, que mobilizou 4 milhões de pessoas e parou países.
Eu acompanho a história das revoluções, tem pelo menos 21 anos que eu tento entender esse processo e eu nunca vi uma greve geral que aconteceu em algum outro país sobre um tema internacional e não sobre uma pauta nacional doméstica. E isso é uma coisa que é motivo de orgulho, de que o povo palestino ao transmitir ao vivo o seu próprio genocídio mudou a história.
Por mais que a indústria cultural, os grandes veículos de comunicação até tentassem manter aquela ideia de que Israel é um país indefeso, cercado por vizinhos de uma origem árabe violenta e de uma religião islâmica violenta, ao mostrar a destruição de Gaza, os palestinos mostraram que é verdade, que debaixo daqueles hospitais não tinham bombas. Não tem mediação possível, não tem justificativa possível para matar crianças de fome e causar todas as violações que eles causaram.
Então se criou uma maioria social no mundo pró Palestina hoje. Isso é uma vitória dos povos. A mobilização foi incrível, mas o sistema imperialista tem seus mecanismos para tentar de outras formas, para mudar suas táticas, se adaptar às circunstâncias também. Eles têm muito dinheiro, muito poder, muitas armas e eles fazem tudo o possível para manter a sua hegemonia.
Então, depois da última edição da Flotilha, em que a gente conseguiu pautar a Palestina no mundo, com grandes manifestações, campanhas de boicote, greves gerais, inclusive ações governamentais de reconhecer a Palestina, de criar sanções a Israel, de rupturas diplomáticas, isso levou a um caminho insustentável que o próprio Donald Trump teve que reconhecer e aí mudou sua estratégia.
Antes ele falava sobre a erradicação total dos palestinos daquela região, a limpeza étnica total, onde levaria os palestinos ou para Egito ou para Cisjordânia, depois que esses países recusaram, passou a dizer que levaria para Eritreia, Sudão do Sul, sua Malilândia. E quatro meses depois ele teve que falar: “Não, eu sou promotor da paz, eu mereço ganhar o prêmio Nobel da Paz e eu tô obrigando Benjamin Netanyahu a aceitar um cessar fogo”, reconhecendo que não se pode lutar contra o mundo inteiro.
É muito raro os nossos inimigos de classe reconhecerem o valor da força popular. Mas nesse momento ele reconheceu que nós somos esse mundo inteiro, esse levante global que derrotou a estratégia da maior potência imperial do mundo e da ideologia mais odiosa da nossa geração, que é o sionismo. Então isso é uma vitória dos povos.
O problema é que o imperialismo tem muitas habilidades. Então a partir daí ele veio com a ideia da falsa paz, que é a mesma falsa paz de oito décadas na Palestina, em que eles beneficiam de falso cessar fogo para violar sucessivamente, não só na Palestina como no Líbano, em que eles vão avançando no seu processo de tomada de terra, de controle territorial, de hipervigilância, de assassinato seletivo e uma série de outras questões em que cinco meses do falso cessar fogo, mais de 650 palestinos foram assassinados.
Ajuda humanitária ainda não entra em casa. Uma média de 200 caminhões por dia estava entrando até agora quando começa a guerra contra o Irã. E aí fecham completamente a fronteira de Rafa e o povo palestino volta a sofrer o risco de mortes por desnutrição continuarem. Crianças ainda morreram de frio, crianças ainda morreram de fome, pessoas morreram de doenças curáveis e por falta de medicação básica em Gaza.
O acordo cessar fogo dizia que entrariam 600 caminhões por dia. A média nesse período foi de 200. Mas pior que isso, a perspectiva de tomada de terra, Israel tem avançado em Gaza com o que eles chamam de linha amarela, que é levar blocos de concreto amarelo gigantes que avançam. Cada semana eles avançam uma rua mais. E essa rua que eles tomam com esses blocos de concreto demarcando uma linha territorial, cada palestino que ultrapassa essa linha é executado imediatamente pelos snipers, pelos drones, pelos tanques, pelas bombas. Isso a gente não chamaria de cessar fogo em lugar nenhum do mundo. Se fosse em Londres, se fosse em Roma, se fosse em Washington, se fosse em Paris, nunca ninguém chamaria se mais de 650 pessoas assassinadas por drones, tanques, bombas, rifles, pessoas sendo mortas de fome e impostas a um bloqueio completo.
Pior que isso ainda é o projeto que eles têm para essa área, que é ser governado por um falso conselho de paz de bilionários de complexo industrial militar que lucram com a guerra, de milionários das big techs que tentam controlar as nossas vidas, de assessores ligados diretamente à política do genocídio, como Jared Kushner e Steve Witkoff e outros ligados ao sistema imperialista e dos dois maiores criminosos de guerra do mundo hoje, Benjamin Netanyahu e Donald Trump.
Donald Trump envolvido diretamente no caso Epstein, que é um caso que envolve desde tráfico de crianças, violação sexual de crianças até as coisas mais horríveis de canibalismo e tantas outras coisas. O mundo ainda precisa investigar mais, ainda precisa responsabilizar esses monstros por terem feito tudo que eles fizeram.
Quando estava vindo à tona esse caso, veio o ataque ao Irã…
O que é muito funcional para eles, né? Nesse momento, existe uma pesquisa nos Estados Unidos que apontou que as buscas no Google sobre o caso diminuíram 95% desde o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. Portanto, a gente vê como é funcional a um governo em crise que ambos se parecem, Donald Trump e Benjamin Netanyahu, ambos numa crise doméstica interna intensa, ambos batalhando pela sua sobrevivência política, porque se não conseguem se manter no poder, eles vão ser responsabilizados pelos crimes de guerra e as violações e corrupção e tudo que eles fazem de errado.
E ambos arrastando o mundo inteiro para um processo de destruição que é horrível, extremamente perigoso para manter a sua hegemonia, o seu poder.
Assim, a diferença agora é que na situação do ataque ao Irã, Estados Unidos obviamente sairá derrotado dentro desse processo, eles não conseguiriam impor ao Irã a tal da mudança de regime. O Irã demonstrou uma capacidade bélica muito maior, não tanto defensiva, mas uma capacidade ofensiva muito maior, a ponto de inutilizar boa parte das bases militares que os Estados Unidos têm naquela região do Golfo.
Assim como gerar uma crise no sentido do abastecimento de petróleo, uma que isso gera uma crise de derivativos no sistema financeiro mundial, que gera uma crise doméstica, porque Trump foi eleito dizendo que os democratas eram do complexo industrial militar, os fazedores de guerra. Além disso tá lidando com uma base de extrema direita que queria focar nos interesses nacionais dos Estados Unidos e não em ficar promovendo guerras eternas.
Então isso gera uma série de crises lá, ponto que a guerra no Irã nesse momento faz com que Donald Trump queira sair desse processo o quanto antes. Aceitou fazer uma guerra muito mais pelos interesses de Israel do que os dos Estados Unidos, mas agora gostaria de sair. Só que para Israel é justamente o oposto.
Benjamin Netanyahu precisa dessa guerra e precisa intensificar e avançar ela para uma guerra regional cada vez mais generalizada para se reeleger. É um sistema parlamentarista, mas para eleger uma maioria parlamentar da sua coalisão de extrema direita que o mantenha no poder e não responsabilizado por seus crimes de guerra e por seus crimes de corrupção em Israel.
Existe previsão de uma nova flotilha para a Palestina?
Nesse contexto de violações maiores do que nunca, de uma correlação de forças difícil, de que os nossos inimigos estão extremamente fortes, a mobilização diminuiu pela confusão do cessar fogo, mas também por um ataque ao movimento pró-Palestina no mundo inteiro.
Eles conciliaram uma série de táticas. Primeiro, agressões aos países vizinhos, tentar destruir aliados do povo palestino, concretamente naquela região, tentar perseguir organizações da solidariedade palestina no mundo e aí processos de lawfare, de criminalização diversos. Uma intensa difamação contra as pessoas, de chamar de terrorista. E eu mesmo, né? Antes era mais difícil para eles. Quando me chamavam de terrorista, estava lá eu com meu violão dentro de um barco, não pegava muito. Mas eles continuam insistindo nisso, a chamar a Greta de terrorista, com chapéu de sapo, né?
13 brasileiros da Flotilha Global Sumud reunidos na Jordânia, após serem libertados da prisão em Israel em outubro de 2025. (Foto: Divulgação/Global Sumud Flotilla)
Mas eles continuam insistindo nessas coisas. Uma campanha de criminalização, de difamação, um silêncio da mídia e uma censura das big techs. Essa conjunção de fatores tem levado junto ao cessar fogo e a confusão que as pessoas têm de que tá resolvido ou de que nesse momento tem problemas maiores, tem levado a um processo de desmobilização.
A gente entende que a Palestina não pode esperar para que as condições estejam maduras para o mundo voltar a falar das causas justas e que nós temos sim que pautar, porque o que acontece lá ainda é gravíssimo. São violações assim que o mundo ainda vai lembrar e vai se envergonhar ao longo de toda sua história.
Por isso a gente decidiu sim ter uma nova flotilha. E se as condições estão difíceis, a gente precisa ter uma flotilha muito maior do que a anterior. E se antes a gente contou com uma mobilização muito generosa das pessoas nas ruas, dessa vez essa mobilização precisa ser organizada dentro de um levante global intencional anti-imperialista e anticolonialista.
Nós estamos marcando manifestações, acampamentos, greves, estamos sonhando de novo com uma greve geral, congressos parlamentares, mobilizações em tudo quanto é lugar, comboios por terra e a nossa missão de barcos. Essa missão de barco com mais barcos do que ao longo de toda a história foi tentada desde desse bloqueio ilegal que já tem 19 anos, a gente vai levar mais barcos dessa vez do que todas as vezes anteriores somadas, porque nós entendemos que estamos num momento decisivo.
Todas as gerações que vieram depois de nós vamos falar desse momento e a gente precisa intensificar os esforços de que se a gente quer viver numa sociedade diferente da que é o plano desses senhores da guerra e senhor da destruição, a gente vai ter que fazer esforços extraordinários. E é a missão da Flotilha é um desses instrumentos. A gente espera que disso surja um movimento antiguerra, um movimento anti-imperialista, como em outros momentos da história já aconteceu.
O mundo derrotou o Apartheid, junto com, obviamente, a residência sul africana foi fundamental, mas a solidariedade nacional desidratou aquele regime a um ponto que parecia invencível, anos depois foi derrotado e implodiu. O mundo derrotou o nazismo e o fascismo. Então, a gente tem capacidade de derrotar o imperialismo nesse momento também. A gente só precisa trabalhar muito, se organizar, ter muita coragem e ter muita capacidade de análise estratégica e muita vontade também.
É difícil entender que a gente está vivendo a grande batalha da nossa geração. É, a vida não é fácil num sistema que não é feito pela nossa classe. Todo mundo que para militar precisa pensar em 1 milhão de outras coisas, tem 1 milhão de problemas, parece que o sistema todo atuando contra você atuar coletivamente no sentido comunitário, no sentido global, mas quando a gente faz isso, a gente vê que a gente tem capacidade de mudar a história, a gente tem capacidade de fazer alguma coisa. Na verdade, esse é o único caminho.
Por fim, qual a importância da 1ª Conferência Internacional Antifascista?
A Conferência Internacional Antifascista é um processo importante pra conjuntura que a gente vive. A gente vê tudo que está acontecendo no mundo, mas a nossa capacidade de organização nem sempre acompanha as necessidades históricas. Então, fazer uma conferência antifascista nesse momento, onde em tantos países a tendência é de fragmentação, a tendência é de desagregação, a tendência de desmobilização até pela correlação de forças difícil, é remar contramaré.
Mas entendendo que na luta revolucionária a gente não deve fazer o que a gente quer, a gente deve fazer o que é necessário fazer e que é necessário nesse momento é a gente derrotar esse mal existencial à humanidade, ao planeta, que é o sistema capitalista na sua etapa imperialista, que se expressa como válvula de escape em momento de crise no fascismo. E isso demanda de nós ter uma capacidade de alianças, alianças muito generosas no sentido de todo mundo que está disposto a fazer essa luta antifascista deve ser bem-vindo a fazer.
Pessoas que não entendem ainda o que é a luta antifascista, só entendem que esse sistema que tá vivendo não foi feito para ele, também devem ser convidados a fazer parte dessa luta. E essa conferência vem nesse sentido de interpretar os problemas do mundo, tanto no seu aspecto geral, mas também aspectos específicos continentais. E junto pensar uma caminhada que vem a partir de uma declaração de intenções, mas que, se tudo der certo, avança para uma perspectiva organizativa também da resistência. Essa é a nossa tarefa toda.
E eu fico feliz de poder estar aqui. Como você falou, a gente teve esse processo da criminalização no Panamá. Infelizmente isso tem acontecido com todo mundo que defende a causa palestina, não é de hoje. Tem oito décadas que quem defende a causa palestina é atacado no mundo inteiro. Eles têm muita capacidade de expansão e de ingerência, intervenção em outros países.
Eles têm uma agência de inteligência que é uma agência de assassinos profissionais, Mossad, e que assassina pessoas ao redor do mundo. Eles têm um processo de lawfare que eles criam sanções diversas, tanto de perspectiva doméstica e local como perspectiva internacional. As sanções que Francesca Paola Albanese, a relatora especial da ONU para Palestina, por exemplo, passa, é um exemplo disso, uma pessoa que sempre defendeu o direito internacional em relação ao que acontece na Palestina e que hoje não consegue ficar em um hotel porque não é aceita, não consegue acessar um banco porque sofre sanções, que sofre ameaças constantemente.
Eu também sofro muitas ameaças, não tanto quanto a Francesca. A gente também sofre muitas violações, muitos ataques. Eu cheguei no México, tentei trocar 20€ em peso mexicano e não trocavam porque era eu.
É um absurdo. Todo o país que eu vou ou eu sou muito bem recebido pelas autoridades locais que vem com muito entusiasmo o trabalho que a gente faz, ou eu sou muito mal-recebido. Na Itália a polícia invadiu o quarto de hotel que eu estava. Enfim, depois de tantas prisões em tantos países diferentes, tantos ataques, tantas violações, eu e todas as pessoas do movimento pró-Palestina só entendemos que isso serve para aumentar o nosso centro de urgência, que a gente precisa derrotar um sistema que pensa que pode fazer isso com as pessoas.
Eles fazem acreditando que as pessoas vão ficar com medo, vão se afastar. Eu posso dizer pelos militantes que estão nessa construção das flotilhas que isso não amedronta ninguém. A gente não tem medo deles. Eles quem tem medo do povo. E no que depender de nós, a gente vai concretizar esse medo neles, porque os povos vão sim derrotar esse sistema e botar um outro sistema no lugar desse.