O navio da caravana 'Our America' chega a Cuba com ajuda humanitária e ativistas de 30 países

Foto: Gladys Serrano/El País

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25 Março 2026

Quatro dias depois do previsto, a penúltima parte da delegação atraca em Havana. A oposição cubana classifica a ação como “turismo ideológico”.

A informação é de Noor Mahtani, publicada por El País, 24-03-2026.

O navio Maguro chega ao Terminal de Cruzeiros de Havana ostentando três bandeiras: a palestina, a cubana e uma branca. Faz parte do comboio Nuestra América, uma delegação de esquerdistas europeus que leva ajuda humanitária a uma ilha "sufocada" por um "bloqueio genocida" imposto pelos Estados Unidos, um bloqueio com mais de 60 anos de história e intensificado desde janeiro. "Abaixo o imperialismo! Viva a solidariedade entre os povos!", bradam cerca de 500 ativistas, o governador de Havana e membros do Comitê Central do Partido Comunista. Eles assistiam ao nascer do sol, aguardando sua chegada, atrasada pelo mau tempo desde sexta-feira. Num canto do terminal, uma senhora idosa tira os óculos para enxugar as lágrimas. "Essas pessoas estão arriscando suas vidas por nós, para nos ajudar", diz ela, com a voz embargada pela emoção.

Cuba é um exemplo de soberania e dignidade”, exclamou Thiago Ávila, ativista brasileiro, minutos após desembarcar da embarcação batizada de Granma 2.0, em referência ao iate que deu início às lutas guerrilheiras que culminaram no triunfo da Revolução de 1959. Segurando um kufiya, o renomado ativista, que também embarcou na flotilha de solidariedade com Gaza, agradeceu ao governo cubano e afirmou que este é “um ato de reciprocidade com Cuba, o país mais solidário do mundo”.

Ao lado dele atracaram cerca de 40 ativistas, influenciadores e membros de movimentos sociais de mais de 30 países. Os recém-chegados abraçaram com entusiasmo aqueles que passaram a última semana entregando suprimentos médicos e painéis solares a centros de saúde na capital. Os dois últimos veleiros devem chegar esta tarde. O governo ainda não explicou como distribuirá as 20 toneladas de suprimentos por todo o país, conforme prometido pelos organizadores do comboio, em meio à crise de combustível que assola a ilha.

Após a execução do hino nacional, Yanet Hernández Pérez, governadora de Havana, agradeceu às autoridades mexicanas e à tripulação por estenderem a mão à ilha. “Este é um gesto de profundo significado que demonstra que a solidariedade entre nações irmãs é mais forte do que o bloqueio.” “É difícil destruir o sistema mais cruel e poderoso do mundo, mas juntos somos mais fortes do que o império”, acrescentou Ávila. “Custe o que custar, Fidel. Custe o que custar”, concluiu.

Essas embarcações deveriam ter chegado a Cuba na última sexta-feira, mas, segundo os organizadores, “uma combinação de correntes marítimas, vento e superaquecimento do motor” atrasou a data de chegada inicial. Nos próximos dias, elas visitarão escolas, hospitais e campos agrícolas, onde pretendem entregar ajuda humanitária.

Dias após a chegada dos primeiros ativistas à ilha, o diretor da Open Arms, Oscar Camps, anunciou que outra flotilha partiria de Barcelona com geradores fotovoltaicos para “garantir que pelo menos a Unidade de Terapia Intensiva de um hospital pediátrico possa cuidar de recém-nascidos”. A embarcação, apoiada pelos partidos espanhóis de esquerda Podemos, Sumar e Bildu, fará uma viagem “simbólica”, com paradas ao longo da costa do Mediterrâneo e nas Ilhas Canárias “para realizar eventos de conscientização e arrecadação de fundos para financiar esta iniciativa”.

A jornalista Teresa Aranguren lamentou o aumento das tensões entre Havana e Washington e instou o governo espanhol e as instituições europeias "a expressarem sua rejeição à guerra econômica que os Estados Unidos vêm travando há mais de seis décadas", afirmou durante a apresentação. A chegada da flotilha está prevista para maio.

A chegada do comboio Nuestra América e o anúncio de Camps suscitaram críticas, principalmente da oposição cubana, que classifica o comboio como "turismo ideológico" e condena a politização da ajuda recebida. "Diante dos microfones, rejeitam a política de sufocamento contra a ilha, mas abraçam aqueles que nos silenciam, tiram fotos com aqueles que nos reprimem e sorriem ao lado daqueles que destroem nossa nação, forçando nossos filhos a emigrar e afogando nossa esperança", escreveu a jornalista Yoani Sánchez, diretora do portal de notícias 14ymedio, que vive em Cuba.

Para Elaine Acosta, pesquisadora cubana ligada ao Instituto de Pesquisa Cubana da Universidade Internacional da Flórida, esse comboio faz parte de uma “manobra política” mais ligada “à elite cubana do que ao público em geral”. Acosta teme que essa ajuda seja “desviada” para outros fins e “acabe sendo vendida” em lojas de artigos baratos. “A situação atual é tão crítica que, embora em outros momentos esse comboio pudesse ter sido de grande ajuda, hoje é um paliativo, porque a dimensão atual da crise não foi causada por atores externos, embora tenha sido exacerbada por eles.” Trata-se, afirma ela, de propaganda e ideologização excessiva.

Neste fim de semana, o grupo irlandês de rap Kneecap, que estava na capital cubana há vários dias como parte da caravana, fez um show gratuito para cerca de cem pessoas que os ovacionaram com gritos de “Cuba Livre, foda-se Trump, foda-se Netanyahu!”. O evento também foi amplamente criticado nas redes sociais. “Os hospitais estão sem energia, mas pelo menos tem um show de rap”, diziam alguns tuítes.

Ada Galano, membro da organização Mulheres Contra a Guerra, abraça emocionada Humberto, um ativista italiano com quem veio a Cuba para entregar mais ajuda médica durante a pandemia de COVID-19. “Gostaria de ver os compatriotas cubanos que tanto nos criticam enviando também ajuda. Se eles se juntassem a nós, talvez nosso povo tivesse menos necessidades”, exclama. Essa cubano-italiana passou a semana inteira compartilhando em suas redes sociais a entrega de medicamentos “para todos aqueles que acham que eles não chegarão onde são necessários”. Ela ergue a bandeira cubana e conclui: “Se eles têm tantas dúvidas, que venham e vejam com os próprios olhos. Será que nós, 600 pessoas, estamos mentindo?”

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