Máquina de guerra israelense de Benjamin Netanyahu tem o financiamento sistemático norte-americano e do movimento sionista para seguir com o genocídio. Entretanto, é preciso força ética para não equiparar o sionismo com a população judaica
“Conhecemos vários judeus que estão entre os maiores críticos ao Estado de Israel, inclusive à sua existência como tal. Muitos judeus ortodoxos olham para o Estado de Israel e dizem que não foi isso que Deus lhes prometeu. O movimento sionista mobiliza o imaginário judaico divino para fins políticos terrenos, e essa é a sua maior perversidade, da qual palestinos, muçulmanos, israelenses e judeus são vítimas. Claro que não são vítimas simetricamente, porque os palestinos e muçulmanos são muito mais impactados. O fato é que precisamos estar cientes de tudo isso, pois esse tipo de pensamento irá nos permitir construir uma outra realidade possível, na qual a paz entre israelenses e palestinos é um horizonte concreto”. A reflexão faz parte da entrevista concedida por WhatsApp pela Profa. Dra. Silvia Ferabolli ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, antecipando aspectos que irá abordar no evento IHU ideias da próxima quinta-feira, 27 de março, intitulado Putin, Trump, Zelensky e Netanyahu: o mundo à beira da guerra total?
E completa: “Se não tivermos essa força de caráter, a paz entre esses dois povos não será possível. Nós, que não estamos no meio do furacão do conflito, precisamos ter essa força ética para conseguirmos conter as emoções e pensarmos que não seremos vítimas do discurso sionista, nos recusando a equalizar sionismo com os judeus. Ao nos recusarmos a fazer isso, abrimos a chance de pensar em formas de diálogo entre palestinos e israelenses”.
A pesquisadora argumenta que a política internacional que conhecemos, representada por Israel, fracassou. Quando “o imaginário de uma comunidade internacional ancorada em uma grande organização, que é a ONU, onde supostamente todos os países do mundo estão unidos em torno da manutenção da paz, do desenvolvimento e dos direitos humanos (...) é violado sistematicamente por um país e recebe apoio da potência que criou essa política internacional, que são os EUA, tudo começa a desmoronar”. Em sua análise, precisamos de uma nova política internacional.
Analisando o estilo de liderança política que se ancora na masculinidade dominante, caracterizada por agressividade, autoritarismo, força física e desprezo pela fraqueza, Ferabolli afirma que Trump é um expoente da ‘macho politics’, que sempre é correlata de seu contraponto, da ‘coward politics’, uma vez que “esse mesmo ‘machão’ Trump, que humilha Zelensky pública e mundialmente, é o mesmo que abaixa a cabeça para Netanyahu para que todos o vejam. Isso é covardia”.
Silvia Ferabolli (Foto: Arquivo pessoal)
Silvia Ferabolli é graduada em Jornalismo pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutora em Política e Estudos Internacionais pela Universidade de Londres, com a tese Rethinking the Idea of the Doomed Arab Region e pesquisadora visitante da Universidade de Yale. Leciona no Departamento de Economia e Relações Internacionais e no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais, ambos da UFRGS. Publicou os livros Arab Regionalism: A Post-structural Perspective (London: Routledge - Taylor & Francis Group, 2014) e Relações internacionais do mundo árabe: os desafios para a realização da utopia pan-arabista (2ª. ed. Curitiba: Juruá, 2013). Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos em Relações Internacionais do Mundo Árabe - NUPRIMA.
IHU – Em linhas gerais, poderia recuperar a gênese histórica da tragédia palestina?
Silvia Ferabolli – Se localizarmos um momento na história no qual começa a tragédia palestina, isso certamente ocorre com a realização do Congresso Sionista Internacional, que ocorreu em 1897 em Basileia, na Suíça, organizado por Theodor Herzel, considerado o pai do sionismo político moderno. O objetivo central desse congresso é a fundação do movimento sionista, marcando assim sua formalização como movimento político organizado, bem como a criação de um Estado para os judeus na Palestina, que ainda estava sob o domínio do Império Otomano. Houve muitas discussões sobre se esse Estado poderia ser concretizado em outro lugar, até mesmo na Argentina ou em algum país africano, mas essas alternativas nunca foram realmente consideradas. A ideia era realmente estabelecer um estado para os judeus em torno do Monte Sion, que é uma definição histórica para Jerusalém. Foi criada, também, a Organização Sionista Mundial, instituição encarregada de organizar os esforços para iniciar a imigração judaica para a Palestina e estabelecer uma infraestrutura econômica e política conexa. Essa organização, portanto, cria as bases econômicas para conseguir mobilizar recursos para levar a cabo o projeto sionista, que criou um Estado para os judeus na região da Palestina.
Em princípio, os sionistas são aqueles que defendem a ideia de criação de um Estado para os judeus na Palestina. É importante termos essa visão. Contudo, os sionistas não teriam alcançado seu objetivo sem o apoio de uma grande potência. E eles conseguem levar seu projeto a cabo em 1917. Durante a Primeira Guerra Mundial o Império Otomano colapsou e a Palestina era parte dele. Com esse evento, o Reino Unido, a maior potência mundial da época, assume o controle da Palestina sob o comando da Liga das Nações. Em 1917 o governo britânico emitiu a Declaração Balfour (1), prometendo apoio à criação de um lar nacional judeu na Palestina. Com isso, os sionistas tiveram o aval da maior potência da época para a realização do seu projeto efetivamente.
Importa pensar o que a Declaração Balfour significa. Ela foi, basicamente, uma carta enviada por Arthur James Balfour, político britânico que serviu como primeiro-ministro do Reino Unido e, mais tarde, como secretário das relações exteriores, enviou ao Lord Rothschild e na qual o governo britânico expressa apoio à criação de um lar nacional para o povo judeu na Palestina. Mas quem é Lord Rothschild e qual é a sua relação com a Declaração Balfour?
Balfour não era um judeu. Ele era um simpatizante da causa sionista e é figura central dessa política de imigração judaica para a Palestina e da construção do Estado de Israel, pois foi quando era o ministro das relações exteriores do governo britânico que essa carta foi enviada a Rothschild. Hoje, Balfour é lembrado como herói pelo movimento sionista e pelos nacionalistas árabes é tido como o arquiteto da tragédia palestina. Rothschild era um banqueiro, um dos homens mais ricos do mundo, influente e líder da comunidade judaica britânica, um dos maiores apoiadores do movimento sionista nessa época. Diga-se que essa família ainda hoje é uma das mais ricas do mundo. Para se ter uma ideia do que essa família representa, ela teve um papel importante no financiamento da dívida externa de vários países, inclusive do Brasil no contexto do século XIX. Os Rothschild foram os principais banqueiros internacionais que intermediaram empréstimos para o Império do Brasil e, também, desempenharam papel na negociação da dívida externa de Portugal após a independência brasileira.
Quando o Brasil se tornou independente, para oferecer o reconhecimento formal Portugal exigiu uma compensação financeira. Assim, em 1825 foi firmado um acordo entre Brasil, Portugal e o Reino Unido, no qual o Brasil concordou em pagar 2 milhões de libras esterlinas a Portugal como indenização pela independência. Esse dinheiro veio de um empréstimo contraído pelo Brasil com a Casa Rothschild, de Londres, que intermediou o pagamento a Portugal. Na verdade, os Rothschild têm um papel importante no financiamento da economia brasileira do século XIX, pois ao longo desse período nosso país contraiu diversos empréstimos junto daquilo que ainda se costuma chamar de Casa Rothschild. Isso fez com que esses banqueiros se tornassem os principais credores da dívida externa brasileira.
Tais empréstimos foram contraídos para financiar a infraestrutura de desenvolvimento brasileiro, escravizar africanos e estabilizar as contas do império brasileiro. Penso que precisamos fazer essas aproximações pois, quando falamos em Declaração Balfour, Lorde Rothschild, fica tudo muito solto e impessoalizado. Mas estamos falando de pessoas que têm um impacto ainda hoje e foram os principais credores da dívida externa brasileira no século XIX. Isso nos mostra o poder que estava por trás do movimento sionista internacional quando esses judeus começam a organizar a imigração massiva para a Terra da Palestina.
Então, de saída, os palestinos não tinham chances frente a essa força poderosíssima judaica. Ao mesmo tempo, isso nos mostra a capacidade de resistência desse povo que vem há mais de um século lutando contra algumas das forças financeiras mais poderosas do mundo. E eles ainda conseguem resistir. Essa gênese da tragédia também é a gênese do espetáculo da resistência palestina. Conseguir resistir a essa força é realmente algo impressionante se pensarmos em termos históricos.
IHU – Ao longo de todo esse tempo, o que mudou no conflito e o que permanece como linha de força estruturante?
Silvia Ferabolli – Do lado israelense o que permanece como linha estruturante é a ideia de eretz Israel, ou em termos bíblicos, the land of Israel, isto é, a ideia de que essas terras foram prometidas por Deus aos israelitas. Em Gênesis 15,18 fala-se que do Tigre até o Eufrates se estende esse território. Em Números 34, 1 a 12, há definições territoriais bem específicas correspondentes ao Estado moderno de Israel, que compreende a Cisjordânia, Faixa de Gaza, partes da Jordânia, Síria e Líbano.
Essas passagens sagradas são revisitadas pelo sionismo moderno como parte dos fundamentos ideológicos para legitimar o seu interesse naquela terra específica. Como conceito político, o eretz Israel, a Grande Israel, normalmente hoje se refere aos territórios das linhas que são contestadas do pré-1967. Há, portanto, um núcleo que não muda em relação às reivindicações sionistas sobre o território da Palestina. É a Palestina Histórica, formada pelo Estado de Israel, Cisjordânia e a Faixa de Gaza, bem como partes da Jordânia, Líbano e Síria. Isso, para os israelenses, não é negociável, mesmo quando dizem que é.
Devemos lembrar, sempre, da obra clássica de John Mearsheimer, intitulada Por que os líderes mentem? Eles mentem porque a política é feita em cima de mentiras e, se falarem sempre a verdade, nós não iremos apoiar suas políticas. Então, de tempos em tempos, Israel se mostra disposto a negociar. E repare: sem qualquer resultado. Não há Acordos de Oslo, Conferência de Madrid, Processo de Paz de Camp David (2) – nada vai adiante. Isso porque Israel simplesmente não vai abrir mão de seu plano inicial, pois está em seu planejamento de 1897, todo imbuído de um espírito de luta coletiva de um grupo que era pequeno, e sabe-se hoje que era formado de cerca de 200 intelectuais, banqueiros, empresários, magnatas e pensadores que participaram do I Congresso Sionista Internacional. Hoje, sabemos que há milhares de simpatizantes dispostos a investir dinheiro na manutenção do Estado de Israel, pois há, também, um apelo religioso e uma conexão fortes com o território.
Após a Guerra dos Seis Dias (3), em 1967, quando Israel ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental, a Península do Sinai e as Colinas de Golã, consolidou-se entre amplos setores do movimento sionista – especialmente os mais nacionalistas e religiosos – a ideia de manter esses territórios sob controle israelense. A vitória rápida e a ampliação territorial alteraram significativamente a percepção estratégica e ideológica dentro de Israel, dando novo fôlego à visão de uma “Grande Israel”. Até hoje apenas a Península do Sinai foi devolvida aos egípcios depois deles terem passado por uma via crucis com os EUA em Israel com os Acordos de Camp David (1978), quando termina qualquer reivindicação de luta egípcia para defender os palestinos para, em troca, ter a Península do Sinai. É importante pensar, portanto, que o Egito é hoje o segundo maior receptor de ajuda externa norte-americana no mundo, atrás somente de Israel. E por que os militares egípcios (que estão no poder desde 1952) recebem tanto dinheiro dos EUA? Para manter a paz com Israel. É importante percebermos o que em termos de política internacional os sionistas têm sido capazes de movimentar desde 1897.
Israel recebe 3.3 bilhões de dólares anualmente em assistência militar direta dos EUA, enquanto o Egito aufere 1.3 bilhão de dólares anuais para os mesmos fins, vindos dos cofres norte-americanos. Esses números nos dão a dimensão do custo político, econômico e estratégico da manutenção do Estado de Israel no lugar onde os sionistas decidiram que ele iria existir.
As forças estruturantes dessa conjuntura são a força do movimento sionista, a ajuda econômica norte-americana e a resistência palestina, que é impressionante e modelar para entendermos o quanto se é capaz de resistir frente a um agressor externo. Penso que o que estrutura essa resistência é a ideia de que realmente acreditam ter o direito de existir como povo na terra onde nasceram e nela permanecerem. Essa é a espinha dorsal da resistência palestina. Já o que estrutura a força israelense é a ideologia sionista, e o que garante o funcionamento de tudo isso (a agressão israelense à resistência palestina) é a ajuda militar norte-americana.
Na verdade, a Guerra de Yom Kippur (4), de 1973, tinha que ter sido se não vencida, ao menos empatada pelos estados árabes, pois na verdade ela foi vencida pelos árabes. Entretanto, a ajuda recebida por Israel dos EUA foi algo tão avassalador que era impossível de ser equiparada por qualquer outra potência, mesmo a União Soviética, que armava o Egito e Síria.
Teria sido bom os árabes terem vencido em 1973? Claro! Porque eles não iriam fazer uma vitória total contra Israel, pois não tinham condições para isso. Contudo, teriam obrigado Israel a negociar. A interferência dos EUA na Guerra de 73 é um marco histórico fundamental para entender a falta absoluta de disposição de Israel para negociar. Israel se recusa a negociar pois, desde 1973, entende que não precisa. Se chegar no limite, os EUA intervirão com força. Essa segurança dada a Israel nesse conflito permanece até hoje e ganha cada vez mais amplitude.
É triste pensar que, já em 1978, o Egito começa as negociações de Camp David, pois os estados árabes viram que não importa a organização e resistência: o fato é que não será possível combater os EUA. Israel sim, é possível de ser combatido, mas os EUA não. Aí o Egito joga a toalha e assina os acordos de Camp David e dá início a esse processo que assistimos, que é cada vez mais estados árabes normalizarem relações com Israel, o que é uma vergonha para o nacionalismo árabe e para o Islã.
A situação do povo palestino representa uma das maiores tragédias morais e políticas da era contemporânea, revelando o fracasso coletivo da comunidade internacional – e, em especial, das nações árabes – em assegurar a autodeterminação de um povo submetido a décadas de ocupação e violência. No entanto, é impreciso afirmar que os palestinos tenham sido completamente abandonados à própria sorte. A continuidade da resistência palestina ao longo do tempo indica a existência de apoios – materiais, ideológicos e estratégicos – provenientes de diferentes fontes no mundo árabe. Países da região, bem como setores das elites políticas, econômicas e militares árabes, têm, em distintos momentos históricos, oferecido formas de suporte à causa palestina, ainda que de modo fragmentado e, por vezes, condicionado por interesses próprios.
IHU – Em que aspectos a tragédia palestina aponta para um fracasso da política internacional?
Silvia Ferabolli – A política internacional é alicerçada em um conjunto de normas, valores e ideias que tomamos como verdade. Não significa que sejam, de fato, verdade, mas nós as tomamos como tal. Quando Israel viola sistematicamente as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, como a 242 e a 338, o que acontece é que Israel mostra para o mundo que uns podem violar as normas internacionais, enquanto outros não. Quando os EUA, na figura de Biden, acusam a Rússia de genocídio, violação de direitos humanos, tomada de território pela força e apoiam Israel fazendo a mesma coisa, o que acontece é que passamos a ver a política internacional como ela é, e não como deveríamos acreditar que ela é.
O fracasso da política internacional que Israel representa é a ideia de que Israel destrói o imaginário de uma comunidade internacional ancorada em uma grande organização, que é a ONU, onde supostamente todos os países do mundo estão unidos em torno da manutenção da paz, do desenvolvimento e dos direitos humanos. Quando isso é violado sistematicamente por um país e recebe apoio da potência que criou essa política internacional, que são os EUA, tudo começa a desmoronar.
Precisamos lembrar que o que hoje entendemos por política internacional é um mundo criado pelos EUA nos pós-guerra. Quando acaba a II Guerra Mundial, a Europa está destruída e metade de todo o ouro do mundo está nos bancos americanos. Os EUA construíram no pós-II Guerra o Mundo que conhecemos hoje: a ONU, a OTAN, o Banco Mundial, o FMI e todas essas instituições que formam a política internacional e que reconhecemos como as representantes daquilo que é a política internacional, inclusive a autodeterminação dos povos e a soberania estatal (que embora tenha seu marco fundador na Paz de Westfália) só a partir da I Guerra Mundial com os Pontos de Wilson (5) irão adquirir peso político.
Todas essas são questões constitutivas do que é a política internacional contemporânea. Quando Israel viola isso sistematicamente com apoio de quem criou tais estruturas, começamos a pensar que existe algo de muito errado com essa política internacional, que ela fracassou e não é capaz de impedir o genocídio, a violação dos direitos humanos, a aquisição de territórios por força, de fazer com que líderes ouçam o clamor dos povos do mundo pedindo para parar. Então, essa política internacional fracassou. Ela é um fracasso, o que aponta para a necessidade de uma nova política internacional.
Mas quem irá construir essa nova política internacional, e em que bases? E em benefício de quem? Isso deve ser decidido e está em estágios muito iniciais, pois ainda estamos vendo a ruína desse castelo erigido pelos EUA no pós-II Guerra Mundial. Nem começamos a pensar no que será construído em cima dessas ruínas. Mas precisamos refletir a respeito disso, pois como diz o lema do Fórum Social Mundial, um outro mundo é possível. E, nessa lógica, uma outra política internacional é possível, mas precisamos começar a pensá-la. Para isso, necessitamos de lideranças mundiais, em termos de Estado, indivíduos e movimentos sociais. Por isso devemos refletir acerca do nosso próprio papel na construção desse outro mundo possível.
IHU – Olhando para a conjuntura geopolítica atual, Trump segue aliado de Netanyahu. A novidade é sua aliança com Putin e o desequilíbrio de forças que isso representa não apenas para Zelensky e a Guerra da Ucrânia (de quem exige reparação pelo apoio militar norte-americano ao reivindicar as terras raras com minérios para que Musk siga com seus projetos de exploração espacial), mas para a Europa como um todo, que tem seu poderio fragilizado. Como analisa esse cenário e os impactos para além do conflito palestino? Estamos à beira de uma guerra total? Em que sentido o acordo Trump-Putin reedita o pacto de não agressão germano-soviético Molotov-Ribbentrop?
Silvia Ferabolli – Ao nos referirmos a essas lideranças mencionadas nesta questão, estamos falando de um conceito que chamo de ‘macho politics’. É um termo usado para descrever estilo de liderança, estratégia política, discursos que enfatizam características à masculinidade dominante, ao macho alfa, como a agressividade, o autoritarismo, força física e desprezo pela fraqueza. Quando colocamos Netanyahu, Trump e Putin juntos, vemos que é isso que ocorre de maneira clara. Na reunião entre Trump, Vance e Zelensky no salão oval da Casa Branca, claramente se tratava de dois machos tentando acuar um terceiro. Aquilo é ‘macho politics’. Interessante observar que todo ‘macho politics’ é, também, um ‘coward politics’, executor de uma política covarde, pois esse mesmo “machão” Trump, que humilha Zelensky pública e mundialmente, é o mesmo que abaixa a cabeça para Netanyahu para que todos o vejam. Isso é covardia.
É muito fácil ser macho na frente de um líder político que está enfraquecido por uma guerra que está perdendo. Difícil mesmo é ser líder frente a alguém como Netanyahu, um genocida, um assassino em massa e uma das figuras mais deploráveis que a humanidade já produziu. Para esse, Trump baixa a cabeça, aperta sua mão e o abraça, pois é um covarde. Todo machão é, no fundo, um covarde.
Todos nós já ouvimos aquela canção do sambista Bezerra da Silva, que diz: “Você com revólver na mão é um bicho feroz, feroz... sem ele anda rebolando e até muda de voz. Isso aqui cá pra nós”. Como brasileira, utilizo esse recurso cultural para fazer uma análise internacional invocando a sabedoria desse compositor. Portanto, à frente de Zelensky, Trump é um machão que dita o que será feito, ameaça e humilha. Na frente de Netanyahu, rebola e muda de voz. Porque na frente do líder israelense ele sabe com quem está lidando: indústria armamentista, forças financeiras internacionais das quais as empresas dele e dos seus aliados dependem. Para Zelensky, portanto, Trump é bicho feroz. Para Netanyahu, muda de voz. Isso é a expressão da ‘macho politics’ e da ‘coward politics’: a política do macho é a política do covarde, e é exatamente o que se manifesta no comportamento de Trump com relação a esses dois líderes.
Não penso que estamos à beira de uma guerra total. Trump faz parte da elite isolacionista norte-americana composta pelos republicanos, que entendem que os EUA são capazes de atingir seus objetivos globais sem a ajuda dos europeus ou sem a aliança atlântica. A outra parte da elite, que é mais internacionalista, entende a necessidade do apoio dos europeus e da manutenção da aliança atlântica para que os EUA consigam fazer seus objetivos de política externa em termos globais sejam atingidos.
Como diria a professora Cristina Pecequilo em seu livro A política externa dos EUA (UFRGS, 2003), onde faz uma análise histórica da política externa norte-americana desde a sua fundação até a atualidade, as elites norte-americanas estão orientadas para o mesmo fim: ter poder em nível global. A diferença é como essas elites entendem que isso será alcançado. As elites isolacionistas entendem que os EUA vão alcançar isso sozinhos, e as elites mais internacionalistas intuem que os EUA precisam de aliados, especialmente dos europeus ocidentais. Muda, na verdade, a estratégia, mas o objetivo e capacidade de ter alcance é igual entre as duas elites. Se ocorrer uma guerra total, não será por causa da Ucrânia, pois Trump já começou negociações “discretas” com Putin para encerrar essa guerra, que cá entre nós é absurda em todos os sentidos. E por causa da Palestina, só se ocorrer um fenômeno muito grave como o uso de armas nucleares por parte de Israel.
Evidentemente, rejeitamos a aquisição de territórios pela força, bem como o desrespeito à autodeterminação dos povos e as ameaças à soberania dos Estados e ao direito de definirem seu próprio futuro. No entanto, é preciso reconhecer a complexidade geopolítica do caso ucraniano. A Ucrânia, situada em uma região de extrema sensibilidade estratégica, na fronteira entre a Rússia e a Europa, anunciou sua intenção de se aproximar da União Europeia e da OTAN em um contexto histórico delicado. Desde o fim da Guerra Fria, a Rússia tem expressado frustração por não ter sido integrada plenamente como parceira pelo Ocidente, apesar de diversas tentativas de aproximação. Sentiu-se, muitas vezes, ignorada ou confrontada por ações estratégicas específicas – entre elas, a expansão da OTAN em direção às suas fronteiras. Diante disso, é compreensível que perceba algumas dessas movimentações como hostis ou contrárias aos seus interesses fundamentais.
A manutenção da OTAN após o fim da Guerra Fria representa uma anomalia estratégica difícil de justificar fora de uma lógica de contenção contínua da Rússia. Criada com o objetivo declarado de enfrentar a ameaça soviética, a aliança atlântica não apenas sobreviveu à dissolução da URSS e do Pacto de Varsóvia (6), como expandiu-se agressivamente em direção ao Leste Europeu, ignorando os compromissos verbais feitos no início dos anos 1990 de que isso não ocorreria. Tal expansão pode ser interpretada como a expressão de uma visão hegemônica do Ocidente, que insiste em afirmar sua supremacia geopolítica mesmo diante de novas configurações multipolares.
Nesse cenário, a aproximação da Ucrânia com a OTAN e com a União Europeia é inevitavelmente lida por Moscou como um gesto hostil. Ao se alinhar aberta e assertivamente com estruturas que historicamente excluem – e em muitos momentos confrontam – a Rússia, a Ucrânia deixa de operar como uma ponte entre dois mundos e se afirma como parte de um projeto civilizacional alternativo, liderado pelos EUA e seus aliados. A reação russa, por mais condenável que se considere do ponto de vista do direito internacional, inscreve-se em um longo histórico de ressentimento e resistência àquilo que é percebido como uma ordem mundial excludente e seletiva, que marginaliza vozes e interesses não ocidentais sob o pretexto da universalização de certos valores.
Quando Cuba colocou mísseis em sua ilha para se proteger dos EUA, o que os EUA fizeram? Quase iniciaram a III Guerra Mundial, pois na leitura americana, Cuba não deveria ter mísseis, pois é vizinha de uma superpotência, ao que Cuba argumentava que era soberana para isso. É exatamente a mesma situação em que se encontra a Ucrânia hoje em relação à Rússia. A Rússia age hoje como os EUA agiram na Crise dos Mísseis em Cuba (1962), ou seja, se for preciso, inicia-se uma III Guerra Mundial, mas vocês não vão fazer o que querem. Esse é o discurso de Putin.
Assim, uma chave analítica para compreender a estratégia de Trump é se dar conta desse cenário e obrigar Zelensky a capitular, já que a Ucrânia nunca deveria ter entrado em uma guerra contra a Rússia, uma vez que nunca teve nem mesmo condições para isso e, agora, sem apoio dos EUA, não há a menor chance de vencer. Por isso, a Ucrânia terá que aceitar os termos de uma paz fria com a Rússia: essa é a situação de um país que está geograficamente situado ao lado da segunda maior potência nuclear do planeta. Isso é realpolitik, aquele conceito que acaba definindo o que é a política internacional, de fato, e não aquele arcabouço de normas, regras e instituições que fantasiamos de forma necessária para nossa existência como cidadãos de um mundo globalizado.
Se acreditarmos que a política internacional é apenas realpolitik, ficamos em uma situação na qual todos começam a se armar para se defender e isso cria a corrida armamentista, gerando as condições para um mundo mais violento do que já é. Então, um pouco de fantasia e ilusão sobre o que é, ou não, política internacional, é extremamente necessário, pois aqueles que estão no comando dos complexos militares industriais do planeta querem as guerras, as desejam e as fomentam. Então, quanto mais acreditarmos que não é preciso ter guerra e precisamos viver em paz, melhor, pois menos capacidade de agir sobre nós essas forças militares industriais terão.
IHU – Mesmo que seu diagnóstico seja o de que não corremos o risco de uma guerra total, como analisa o rearmamento da Europa, que só na Alemanha deve chegar a 1 trilhão de euros?
Silvia Ferabolli – Realmente seu questionamento faz sentido. Parece-me que, mesmo que o cenário atual não aponte para um risco iminente de uma guerra total, no sentido clássico de um confronto militar global e direto entre grandes potências, o rearmamento europeu, especialmente os investimentos anunciados pela Alemanha, sinaliza uma transformação significativa na arquitetura de segurança do continente. Esse movimento deve ser analisado à luz de uma mudança profunda nas percepções estratégicas após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
A guerra trouxe de volta à Europa a ideia de uma ameaça militar concreta em seu território, algo que havia sido, em grande parte, relegado ao passado após o fim da Guerra Fria. O investimento alemão, que pode chegar a 1 trilhão de euros, reflete não apenas a pressão por parte da OTAN para que os países europeus aumentem seus gastos com defesa, mas também uma inflexão histórica na postura pacifista que predominava na política de segurança alemã desde 1945. Ao mesmo tempo, esse rearmamento levanta questões importantes: Qual é a natureza da ameaça que se busca conter? Estamos assistindo à consolidação de uma nova corrida armamentista agora em solo europeu? E, mais profundamente, será que a resposta à insegurança internacional deve necessariamente passar pelo fortalecimento militar, ou isso pode gerar uma espiral de tensões e desconfianças ainda mais perigosas?
Portanto, mesmo que a hipótese de uma guerra total pareça improvável no curto prazo, e essa é apenas a minha opinião: o atual momento exige atenção crítica. O rearmamento em larga escala pode tanto funcionar como um mecanismo de dissuasão quanto alimentar novas formas de competição geopolítica que, se não forem acompanhadas de diplomacia e canais eficazes de diálogo, podem tornar o cenário internacional ainda mais volátil.
IHU – As Forças de Defesa de Israel (FDI) utilizam um sistema automatizado de vigilância digital chamado Lavender para selecionar seus alvos humanos, ou seja, um sistema de inteligência artificial (IA), com modelo probabilístico, decide quem é terrorista ou não, e o dano colateral das mortes da população civil é perfeitamente factível dentro dessa lógica, embora em termos práticos sejam assassinatos. Como percebe essa despersonalização da pessoa humana em um território no qual essas vidas matáveis têm valor menor e podem morrer sem que haja uma comoção internacional?
Silvia Ferabolli – O episódio Men Against Fire (7), da série Black Mirror, já mostrava que a IA seria utilizada como tecnologia de guerra. Matar um ser humano não é algo que fazemos com naturalidade, mesmo aqueles soldados treinados para a guerra. Esses soldados israelenses não são nada mais do que jovens na casa dos 20 anos e que são realmente treinados para a guerra. Entretanto, colocar uma arma em suas mãos e mandá-los entrar em uma dessas casas palestinas, altamente densas populacionalmente, cheias de mulheres, grávidas, crianças, homens idosos com ordens de “evacuar” essas pessoas, não é algo tão simples. O que acontece é que as prisões israelenses estão lotadas de soldados que se recusaram a assassinar palestinos ou que rejeitam servir ao Exército de Israel e suas missões. O que tais números nos revelam é que é mais difícil para um soldado israelense matar um palestino do que pensamos, tanto que Israel vem desenvolvendo exatamente esse tipo de tecnologia de IA. Se as máscaras que os personagens usam no episódio Men Against Fire deformam os seres humanos e não permitam que os soldados sintam seu cheiro e de seus fluidos corporais, bem como de que não se ouçam os gritos de dor e por isso permitem uma morte “limpa e rápida”, a tecnologia que Israel está desenvolvendo é ainda mais perniciosa, pois exime do soldado a tomada de decisão.
O soldado fica livre do peso de ter que decidir quem vai morrer ou não, pois quem toma essa decisão é a IA, e não ele. Assim, não há uma decisão autônoma, consciente e racional. A “máscara” (aqui leia-se IA) diz para o soldado o que o “alvo” é a partir da deformação gerada pelo componente tecnológico da máscara. A partir daí ele age como um soldado “perfeito”, que não pensa, não é humano. Não é à toa que cada vez mais a IA e a robótica estão sendo usadas para substituir os humanos em locais de combate a fim de eliminar o último aspecto no qual o soldado pode parar e decidir não matar.
O que Israel está fazendo no desenvolvimento dessas tecnologias é tirar o direito humano dos seus soldados de não matarem. Israel está desumanizando uma geração inteira de jovens, pois eles não são simplesmente soldados, mas humanos treinados para utilizar IA a fim de que não sejam impedidos de matar. Israel, como um dos países que mais desenvolve tecnologias de guerra no mundo, sabe que se deixar para o ser humano, por incrível que pareça, este prefere não matar outro ser humano. Para nós é muito fácil olhar para um soldado israelense em situações extremas que ele comete e dizer que são todos iguais, máquinas e assassinos de guerra. Precisamos atentar para a falácia dessa retórica, primeiro porque os soldados israelenses também são tão desumanizados por esse governo, exercendo e executando um plano genocida em Gaza, quanto são os próprios palestinos.
O fato de os soldados serem louvados como aqueles que executam a ordem do Estado de Israel de limpeza do terrorismo, pois é assim que Netanyahu chama a sua limpeza étnica, não os torna menos desumanizados. Pergunto-me se algum dos leitores que está em contato com estas minhas ideias agora sabem o que representa, de fato, empurrar para o nada centenas de milhares de pessoas. Quanto sangue, morte e desespero um jovem soldado israelense tem que suportar diariamente para levar a cabo os planos genocidas dos comandantes de guerra em Israel.
Em hipótese alguma estou comparando o sofrimento e a dor dos palestinos que estão sendo empurrados para fora de Gaza, mortos, assassinados, esquartejados e estuprados, com o sofrimento dos soldados israelenses. Estou chamando a atenção para o fato de que temos que entender que, para se chegar a um ponto no qual se consiga fazer milhares de jovens agirem como máquinas de matar gente, é porque estas pessoas, se já não o foram, estão sendo completamente desumanizadas.
Penso que é isso que precisamos entender em termos de uso de tecnologias de IA para fins de guerra, pois elas fazem o homem perder a capacidade última que tem à frente de um poder decisório: matar ou não uma criança, e escolher não matar. Entretanto, o uso da IA não permite mais isso, pois essa tecnologia é quem define o que é o alvo, reconhece, mira e atira para matar. O soldado passa a ser um coadjuvante de um trabalho que é da IA, na verdade.
Precisamos recuperar também a origem do conceito de IA, que vem do campo da inteligência militar e é um tipo de inteligência diferente daquela humana. A inteligência militar não usa os mesmos instrumentos da razão humana para exercer suas funções. A IA dialoga diretamente com a inteligência militar, e isso é a tristeza do momento que vivemos, no qual assistimos a esse genocídio, passando a odiar esses soldados por vê-los como criaturas demoníacas, quando muitas vezes, não em sua integralidade, por óbvio, são vítimas de um sistema perverso do qual eles não têm absolutamente nenhuma força para dizer não.
Até porque sabem que dizer não significa irem presos, serem humilhados, sofrer todas as sanções de uma máquina de guerra como é o Estado de Israel e, muitas vezes, tais jovens não estão dispostos a esse sacrifício e aí terminam abdicando de sua essência humana, que é a capacidade de olhar para outro ser humano e por ele ter empatia. Isso é muito triste. A desumanização dos soldados israelenses pelo Estado de Israel neste momento específico da história desse conflito é, certamente, um dos maiores dramas humanos sobre os quais nós muito iremos conversar nas próximas décadas, que são os dramas humanos gerados pelo uso de IA para fins belicosos.
IHU – A hipótese de Giorgio Agamben do campo como paradigma da política moderna cada vez mais se demonstra correta. A partir das Relações Internacionais, como analisa a estratégia israelense de encarceramento dos palestinos a céu aberto na Faixa de Gaza?
Silvia Ferabolli – O professor Érico Esteves Duarte, do PPGEEI da UFRGS, ministra uma disciplina chamada História militar dos EUA. Ele relata que os alunos ficam frustrados pois chegam para a disciplina na expectativa de logo estudarem armas nucleares e tecnologia de guerra, quando 70% do curso é sobre a constituição do exército norte-americano, sobre como se formaram as forças armadas norte-americanas. E essa gênese ocorre sobre o genocídio indígena, através do processo de assassinato em massa dos povos nativos norte-americanos, quando o exército se constitui como a maior máquina militar de guerra da história.
A frustração que os alunos sentem é que eles pensam que a disciplina em questão irá estudar preponderantemente aviões, bombas, armas nucleares e mísseis de longo alcance. O que o professor Érico tensiona é que nos primeiros 300 anos do Exército Norte-Americano a tônica é o extermínio indígena, desenvolvendo técnicas de como matar os índios, como limpar o território do país da população nativa a fim de construir um Estado como os Founding Fathers queriam, um estado White Anglo-Saxon Protestant (WASP), para quem era destinado: homens brancos, sobretudo anglo-saxões, que vinham sobretudo da Inglaterra para transformar aquele lugar em um local para aquelas novas elites, em torno do qual várias outras se juntaram.
Para Israel, construir uma prisão a céu aberto como é Gaza não é muito diferente das prisões construídas pelos EUA durante seu processo de extermínio das populações nativas e de vários outros estados que fizeram o mesmo. Essa é uma das coisas que busco incessantemente explicar para meus alunos enquanto professora de Relações Internacionais: esse campo de estudos se ocupa das relações entre os estados dentro de um sistema de estados modernos. Como se constituem esses estados? Em sua maioria, pela força.
Vejamos como os EUA se constituem como o país que são. Olhemos para o modo como o Brasil se constituiu como estado, com genocídio indígena e negro. Israel está levando a cabo o genocídio palestino. Então, de alguma maneira, o comportamento de Israel não gera essa reflexão nos círculos maiores, mas pelo menos dentro da universidade estamos pensando sobre a constituição do Estado moderno. Será que é realmente possível construir um Estado Nação sem o extermínio da população que se opõe à construção desse Estado? Essa é uma pergunta interessante, pois durante muito tempo fomos assombrados pela ideia de que a nação precede o Estado, e que o Estado é, na verdade, uma resposta aos anseios da população.
Hoje, depois da publicação de Benedict Anderson, Nações e nacionalismos, sabemos que o que vem antes é o Estado, depois vem a nação. Emblemática nesse sentido é a frase de Massimo d’Azeglio por ocasião da unificação italiana: “agora que fizemos a Itália, precisamos fazer os italianos”, pois eles não existiam antes do Estado Italiano existir, assim como não existiam os alemães antes da unificação alemã, em 1871.
Mas o que é, afinal de contas, ser um italiano, um alemão ou um brasileiro? De alguma maneira os Estados precisam conformar uma ideia de nação a fim de convencer uma população integral, dentro de um território, a transferir lealdade, impostos, segurança, obediência e até amor a essa entidade do Estado. É preciso imbuir essas pessoas de alguma ideologia, que é o que chamamos de nacionalismo. A ideia de que somos todos iguais e pertencentes a este Estado e daremos a vida, se for preciso, pode ser compreendida por sua antítese, a de que então podemos matar por esse estado também.
Dessa forma, é interessante observar que Israel nos mostra hoje, em 2025, o que os estadunidenses fizeram contra os nativos norte-americanos e o que os portugueses fizeram contra a população nativa brasileira e com os negros. Pensemos na França e na questão da Argélia: quando começa a guerra de independência argelina, na qual morreram centenas de milhares de pessoas, sem contar os milhares de mutilados e inválidos, isso ocorreu em nome do quê? Os argelinos reivindicavam sua independência, pois diziam que eram árabes, e não franceses. Já os franceses diziam que a Argélia era francesa. Assim, não permitiam que a Argélia se separasse da França. O que a França fez com os argelinos não é muito diferente daquilo que Israel faz com os palestinos. Talvez seja por isso que Israel tenha apoio da França, da Inglaterra, dos EUA, pois esses países sabem como constituíram seus Estados e entendem que Israel não está fazendo nada de muito diferente do que aquilo que já haviam feito. Então, decerto pensam: “criticar para quê? Para mexer em feridas do passado?”
Ian S. Lustick tem um texto sobre a ausência de grandes poderes no Oriente Médio e nele fala sobre Israel, que só não concretizou seus planos plenamente de um eretz Israel ocupando tudo porque está em um momento histórico diferente. Por mais que critiquemos a comunidade internacional, as organizações internacionais, Israel ainda está sob o escrutínio desses organismos e da mídia. Por outro lado, cabe lembrar que a grande mídia está do lado de Israel, mas não consegue esconder tudo, uma vez que a mídia alternativa fura esse bloqueio.
Israel vive uma situação de que tudo que ele faz, o mundo todo fica sabendo na sequência. Imaginemos se Portugal sofresse tal escrutínio quando estivesse em seu processo de extermínio indígena, se os bandeirantes estivessem sob tal escrutínio enquanto estivessem levando a cabo seu processo de expansão das fronteiras interioranas brasileiras. É interessante pensar que Israel também se debate com essa situação de estar sob escrutínio constante e é por isso que mobiliza cada vez mais o lobby israelense e as instituições judaicas internacionais como o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) (8) que, na verdade, tenta convencer políticos, intelectuais, empresários e magnatas a adotarem a perspectiva de Israel e apoiarem suas ações.
Porém, entender o lado de Israel é aceitar seu plano de constituição da Grande Israel. E podemos ter certeza de que, por mais monstruoso que possa parecer aos nossos ouvidos, existem muitas pessoas no mundo, com grande poder político e econômico, que apoiam integralmente Israel e enxergam os palestinos e muçulmanos como terroristas, sendo inclusive eugenistas, pensando que uma guerra de tempos em tempos é salutar para limpar o mundo de determinadas pessoas.
No Brasil existiam até pouco tempo pessoas que se diziam abertamente a favor de esterilização em massa dos pobres, para que não se reproduzissem. O que esse discurso tem de diferente das tentativas dos israelenses de esterilizarem em massa os palestinos? Isso é extermínio de população e encontra ouvidos generosos em inúmeros lugares do mundo. É triste, mas é real e temos que aprender a lidar com isso para enfrentar essas forças, porque elas só poderão ser contrapostas quando as olharmos nos olhos, quando mirarmos o genocida e o eugenista nos olhos e fazermos com que eles nos digam exatamente o que pensam. Isso não é algo fácil, pois sabem o quanto choca a maior parte dos humanos o que eles pensam. Porém, essas pessoas não se acham humanas, mas super-humanas. Nós já vimos esse filme na Alemanha nazista nas décadas de 1930 e 1940, quando foi posta em prática a ideia da criação e desenvolvimento de uma grande raça de super-humanos. Isso em termos históricos ocorreu “ontem”. E, lamentavelmente, continua ocorrendo.
IHU – Trump não esconde que gostaria de transformar a Faixa de Gaza em um grande resort, como demonstra o vídeo produzido por IA que o presidente norte-americano publicou em suas redes sociais dia 26-02-25. Como analisa esse tipo de atitude?
Silvia Ferabolli – A proposta de transformar Gaza em um resort, ainda mais apresentada por meio de IA, revela uma lógica profundamente colonial: apaga a história, o sofrimento e a resistência de um povo, reduzindo um território devastado a um potencial ativo econômico. Do ponto de vista pós-colonial, essa atitude reatualiza a fantasia de dominação e reordenamento dos espaços do Sul Global segundo os desejos e interesses do Norte. É uma tentativa de reescrever a realidade por meio da tecnologia e da propaganda, despolitizando a ocupação e desumanizando os palestinos – como se a paz pudesse vir pela imposição de uma estética, e não pelo reconhecimento da justiça histórica. Além disso, ao propor a substituição de ruínas por um cenário de consumo, a narrativa apaga a violência estrutural que produziu aquela destruição, oferecendo em seu lugar uma utopia neoliberal de “reconstrução” que beneficia poucos e silencia os muitos. É uma forma de colonização simbólica e tecnológica, travestida de solução.
IHU – Tecnicamente, Israel é uma democracia parlamentar com características de um sistema semipresidencialista. De dentro dela, e sem paradoxo algum, uma vez que o sistema democrático via arcabouço jurídico permite que a exceção seja aplicada legitimamente pelo soberano, há uma assimetria em como os cidadãos israelenses e palestinos são tratados. Qual é a compreensão acerca da resistência palestina sob a ótica das Relações Internacionais, tomado em consideração essa realidade e a construção do povo árabe como inimigo/terrorista?
Silvia Ferabolli – Existem muitos palestinos que são cidadãos israelenses e que são árabes israelenses, compondo o parlamento israelense. Israel faz a mis en scene da democracia, havendo eleições periódicas, parlamento ativo, críticos a Netanyahu, forças de oposição, partidos como o Ra’am, bem como partidos de esquerda e direita. Mas de fato existe alguma diferença sobre quem está no poder e o que acontece em Israel? Talvez, quando partidos de extrema-direita, como o Likud, de Benjamin Netanyahu, assumem o poder, acabem apenas executando aquilo que partidos menos extremistas, como o Avodá, de Ehud Barak, não têm coragem de fazer – mas, em alguma medida, também desejam. Então, Israel se apresenta como uma democracia procedimental, na qual todos os trâmites são realizados, da forma mais correta possível. Acontece que os palestinos são cidadãos de segunda classe e o governo israelense não vê nenhuma oposição entre isso e a existência da democracia, porque Israel mudou a definição de cidadania do seu país. Para ser um cidadão pleno do Estado de Israel e dessa forma poder usufruir dos benefícios que a cidadania traz, deve-se ser judeu. (Ver Lei do Estado-Nação Judeu, de 2018. Os não judeus estão colocados em posição de inferioridade.)
Entendemos que o Estado Nação moderno não pode ter esse tipo de característica porque seu desenho jurídico transcende o campo da religião. A Paz de Westfália que constitui e lança as bases do Estado Nação moderno é justamente isto: a ideia de que a nação está acima da religião. Israel não leva isso em consideração ou não obedece a essa lei do Estado Nação moderno na constituição daquilo que entende por democracia. Trata-se de uma democracia para os judeus, como é um Estado para os judeus.
E por que os israelenses fazem isso? Porque entendem que se permitirem qualquer tipo de igualdade entre israelenses e palestinos, estes rapidamente começaram a ascender socialmente, economicamente, assumindo postos políticos e granjeando posições de igualdade com os judeus, algo que é absolutamente inaceitável do ponto de vista de um Estado constituído numa ideologia sionista de que aquele é o Estado dos judeus. Imagine caso se concretize a figura de um primeiro-ministro palestino muçulmano? Em Israel isso não é possível. Por certo que, dificilmente, um judeu chegará à presidência do Egito, mas esse país não se declara uma democracia a ser emulada pelo restante do mundo, como faz Israel. Nos EUA e no Brasil até pode, até na França seria possível, mas isso não é comum. O Brasil costuma ter presidentes brancos e cristãos. Um negro candomblecista se tornar presidente do Brasil não se viu até agora. Teoricamente é possível. Em Israel isso é impossível legalmente e, em segundo lugar, beiraria o colapso absoluto da ideologia sionista. Se essa ideologia sionista colapsar, não sabemos quanto tempo dura o Estado de Israel.
Quando Trump, Biden e todos os presidentes norte-americanos baixam a cabeça na frente das lideranças israelenses como Sharon e Netanyahu, não é para o Estado de Israel que eles se rendem, mas para o AIPAC, que é um dos maiores – senão o maior – grupo lobista dentro dos EUA hoje. Se lermos The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy de John Mearsheimer e Stephen Walt, veremos seu esforço para entender por que a política externa norte-americana para o Oriente Médio contraria tanto os interesses norte-americanos. Sua conclusão é porque a política externa norte-americana para o Oriente Médio não é ditada pelos interesses nacionais norte-americanos, mas pelos interesses do AIPAC, dessa comunidade sionista, que é a comunidade e o grupo mais rico dentro dos EUA hoje, os 3% mais ricos no país.
Edward Said já dizia há muito tempo que o problema não são os sionistas israelenses, que já abrandaram muito seu discurso no contato com os palestinos, vivendo com eles, olhando em seus rostos. O problema são os sionistas que estão na França, Inglaterra e EUA, pessoas que só têm a ideologia sionista para fazê-las agir e o dinheiro no bolso para bancar as ações nas quais acreditam. Essas, sim, são as forças a serem combatidas, pois o sionismo norte-americano, francês e britânico é que sustenta a existência de Israel como ele é hoje. Sem esse apoio, Israel nem se sustenta como Estado.
Entretanto, vale uma ressalva fundamental. Estamos sempre falando em sionistas, Estado de Israel, complexos militares industriais, extrema-direita, fascismo. Porém essas terminologias não são sinônimo de judeus, e nem mesmo de cidadãos israelenses. É muito fácil criticar os cidadãos israelenses por votarem em um partido como o de Benjamin Netanyahu, mas note que os brasileiros também votaram em Jair Bolsonaro.
Se ouvirmos as coisas que Bolsonaro disse antes de ser eleito acerca de estupro, negros, homossexuais e outras temáticas, veremos que essas posições, caso houvesse uma sequência de “Bolsonaros” eleitos, com o passar dos anos abririam caminho para ser plausível entrar em um local como o Complexo do Alemão e exterminar sua população inteira, sem que isso fosse visto como absurdo. Estamos vendo Netanyahu hoje executar um plano iniciado em 1897, e a ideia não era: “vamos genocidar a população local e fazer limpeza étnica, exterminar o povo”. As palavras não eram essas; isso foi se transformando com o passar do tempo, e a população israelense também é vítima de um sistema educacional, midiático e político que a mantém em uma ignorância em relação aos palestinos, com medo e nojo dessas pessoas, assustadas de que, a qualquer momento, o Hamas vai lançar um míssil. Quantos israelenses foram mortos por mísseis do Hamas para gerar esse pânico?
Em todo caso, esses discursos de ódio existem no mundo todo, e temos que olhar para os cidadãos israelenses com um pouco de compaixão, pois senão corremos o risco fácil de cairmos no antissemitismo, o ódio irracional ao judeu, o que não podemos permitir que ocorra outra vez. Assim como não podemos permitir a islamofobia, que é o ódio irracional aos muçulmanos. Devemos nos manter firmes em nossa postura em relação a esse conflito na ideia de que sionismo, a extrema-direita israelense, os complexos militares industriais não são sinônimos de cidadãos israelenses, ou judeus, porque isso não é correto nem verdadeiro.
Conhecemos vários judeus que estão entre os maiores críticos ao Estado de Israel, inclusive à sua existência como tal. Muitos judeus ortodoxos olham para o Estado de Israel e dizem que não foi isso que Deus lhes prometeu. O movimento sionista mobiliza o imaginário judaico divino para fins políticos terrenos, e essa é a sua maior perversidade, da qual palestinos, muçulmanos, israelenses e judeus são vítimas. Claro que não são vítimas simetricamente, porque os palestinos e muçulmanos são muito mais impactados. O fato é que precisamos estar cientes de tudo isso, pois esse tipo de pensamento irá nos permitir construir uma outra realidade possível, na qual a paz entre israelenses e palestinos é um horizonte concreto.
Se não tivermos essa força de caráter, a paz entre esses dois povos não será possível. Nós, que não estamos no meio do furacão do conflito, precisamos ter essa força ética para conseguirmos conter as emoções e pensarmos que não seremos vítimas do discurso sionista, nos recusando a equalizar sionismo com os judeus. Ao nos recusarmos a fazer isso, abrimos a chance de pensar em formas de diálogo entre palestinos e israelenses.
(1) Declaração Balfour – Carta de 02-11-1917 do então secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour, dirigida ao Lionel Walter Rothschild, o Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, para ser transmitida à Federação Sionista da Grã-Bretanha. A carta se refere à intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do Lar Nacional Judeu na Palestina, caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região.
(2) Camp David – Os Acordos de Paz de Camp David foram dois acordos políticos assinados pelo presidente egípcio Anwar Sadat e pelo primeiro-ministro israelense Menachem Begin em 17-09-1978, após doze dias de negociações sigilosas em Camp David, o retiro do presidente dos Estados Unidos no estado de Maryland. Os dois acordos foram assinados na Casa Branca e testemunhados pelo presidente Jimmy Carter. O segundo (Uma Estrutura para a Conclusão de um Tratado de Paz entre o Egito e Israel) levou diretamente ao tratado de paz Egito-Israel de 1979. Devido ao acordo, Sadat e Begin receberam o Prêmio Nobel da Paz de 1978 compartilhado. O primeiro acordo (Um Marco para a Paz no Oriente Médio), que tratava dos territórios palestinos, foi escrito sem a participação dos palestinos e foi condenado pela Organização das Nações Unidas (ONU).
(3) Guerra dos Seis Dias – Também conhecida como Guerra de Junho de 1967 ou Guerra Árabe-israelense de 1967 ou ainda Terceira Guerra Árabe-Israelense, foi o conflito que envolveu Israel e os países árabes (Síria, Egito, Jordânia e Iraque apoiados pelo Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão) entre 5 e 10 de junho de 1967. Pelo efeito surpresa do ataque preventivo, a guerra se transformou em uma clara vitória israelense, apesar da superioridade numérica e material dos árabes. A vitória esmagadora de Israel o elevou à condição de potência militar incontestável no Oriente Médio e lhe deu imenso prestígio em escala global. A guerra foi lançada por Israel em reação aos movimentos das tropas egípcias, após o bloqueio do Estreito de Tiran aos navios israelenses pelo Egito, em 23-05-1967 (os israelenses haviam anunciado anteriormente que considerariam este ato como um casus belli). Na noite do primeiro dia de guerra, metade da força aérea árabe fora destruída; na noite do sexto dia, os exércitos egípcio, sírio e jordaniano estavam derrotados. Os tanques do exército israelense empurraram seus adversários em todas as frentes. Em menos de uma semana, o Estado judeu triplicou seu domínio territorial: o Egito perdeu a Faixa de Gaza e a Península do Sinai; a Síria foi amputada das colinas de Golã, e a Jordânia perdeu a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, destacando-se o significado simbólico da captura da Cidade Velha de Jerusalém.
(4) Guerra do Yom Kippur – Também conhecida como Guerra Árabe-israelense de 1973, Guerra de Outubro, Guerra do Ramadão ou ainda Quarta Guerra Árabe-israelense, foi um conflito militar ocorrido de 6 a 26 de outubro de 1973 entre uma coalizão de estados árabes liderada por Egito e Síria contra Israel. O episódio começou com um ataque do Egito e da Síria. Planejado para o dia do feriado judaico Yom Kippur, forças egípcias e sírias cruzaram, respectivamente, as linhas de cessar-fogo no Sinai e nas colinas do Golã, territórios que haviam sido capturados por Israel em 1967 durante a Guerra dos Seis Dias.
(5) Paz de Wilson – Os “Quatorze Pontos” constituíam um plano para a paz mundial a ser tidos em conta nas negociações da paz após a Primeira Guerra Mundial, elucidados pelo presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson num discurso em 08-01-1918. A Europa em geral recebeu os Quatorze Pontos de Wilson, mas os seus principais colegas líderes Aliados (Georges Clemenceau da França, David Lloyd George do Reino Unido e Vittorio Emanuele Orlando da Itália) eram céticos quanto à aplicabilidade do idealismo wilsoniano.
(6) Organização do Tratado de Varsóvia – Oficialmente o Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua, comumente conhecido como Pacto de Varsóvia, foi uma aliança militar assinada em Varsóvia, na Polônia, entre a União Soviética e sete outras repúblicas socialistas do Bloco Oriental da Europa Central e Oriental em maio de 1955 durante a Guerra Fria. O Pacto de Varsóvia foi o complemento militar do Conselho para Assistência Econômica Mútua (COMECON), a organização econômica regional dos Estados socialistas europeus. O acordo foi criado em reação à integração da Alemanha Ocidental na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1955, conforme as Conferências de Londres e Paris de 1954. Dominado pela União Soviética, o Pacto de Varsóvia foi estabelecido como um equilíbrio de poder ou contrapeso à OTAN. Não houve confronto militar direto entre as duas organizações; em vez disso, o conflito foi travado numa base ideológica e em guerras por procuração. Tanto a OTAN como o Pacto de Varsóvia levaram à expansão das forças militares e à sua integração nos respectivos blocos.
(7) O título é uma clara referência ao livro ‘Men Against Fire: The Problem of Battle Command’ escrito em 1947 por S.L.A. Marshall, combatente da Primeira Guerra Mundial e historiador militar na Segunda Guerra Mundial, que entrevistou mais de cem mil combatentes da Segunda Guerra concluindo algumas das informações que vimos o personagem de Michael Kelly (House of Cards) expor nesse episódio: a cada 4 soldados em campo, apenas um disparava suas armas com a real intenção de matar os inimigos. Esse estudo teve enorme repercussão nas Forças Armadas Americanas que reformulou todo seu treinamento militar resultando em números muito mais expressivos na Guerra do Vietnã. Mas ainda havia um problema: a consciência e a empatia dos homens que viam, ouviam e sentiam o cheiro das mortes que provocavam. E é dessa brecha que nasce a famigerada máscara militar abordada nesse episódio.
(8) A American Israel Public Affairs Committee (AIPAC; em português, Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel), é um lobby criado em 1963 nos Estados Unidos para apoiar o Estado de Israel. Apoia fortemente a direita israelense e tem a reputação de ser próximo do partido Likud. Conta com uma rede de mais de setenta organizações judaicas afiliadas, cujos representantes fazem parte de seu comitê diretor. Todos os anos, o AIPAC organiza uma conferência em Washington, com a presença de influentes figuras políticas de ambos os países.