O movimento MAGA reage enquanto o Papa Leão XIV defende os palestinos sitiados na Cisjordânia. Artigo de Christopher Hale

Foto: Vatican News

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19 Agosto 2026

"O Papa Francisco disse que um pastor assume o cheiro das ovelhas, talvez uma das frases mais famosas de seu pontificado, e ele fez isso de modo consistente com o povo de Gaza. Leão XIV também está assumindo esse papel."

O artigo é de Christopher Hale, jornalista, publicado por Letters from Leo, 18-08-2026.

David Friedman, embaixador de Trump em Israel entre 2017 e 2021, disse ao papa que ele estava prejudicando sua credibilidade e o tratou por "Vossa Eminência", título honorífico de cardeal.

Eis o artigo. 

O Papa Leão XIV voltou corajosamente a tratar do sofrimento dos palestinos na Cisjordânia nesta semana, mesmo com figuras do MAGA nos Estados Unidos e vozes israelenses o atacando por isso. Ele continua afirmando uma verdade moral básica: as pessoas têm o direito de viver em paz, sem que outros destruam suas casas e comunidades.

"Renovo meu apelo pelo fim da violência em curso contra a população civil palestina na Cisjordânia", disse ele durante o Angelus deste domingo, "e conclamo urgentemente a comunidade internacional a trabalhar para avançar a solução de dois Estados, em prol de uma paz justa e duradoura".

Ele falava uma semana depois do início do cerco a Qusra, vilarejo ao sul de Nablus onde colonos israelenses bloquearam três casas palestinas com pilhas de pedra e armaram uma tenda entre elas, depois de terem cortado a água e a eletricidade dessas casas ainda em julho.

Quinze pessoas estão presas ali, incluindo duas crianças. É digno de nota que uma das famílias é palestino-americana. Isso está muito mais perto de casa do que muitos americanos gostariam de admitir. Espero que um papa americano consiga soar o alarme de formas que outros não conseguem.

Loui Ridi, que administra uma rede de postos de gasolina em Toledo, Ohio, viajou até lá e chegou à casa na segunda-feira, onde subiu as escadas e hasteou uma bandeira americana sobre o telhado.

Os soldados já haviam desfeito o acampamento dos colonos até então, embora Ridi tenha contado pelo menos três homens ainda perto o suficiente para voltar caso o exército se retire. "Se eu precisar sair de casa, não consigo", disse ele à Associated Press. "Tenho que conseguir uma autorização e uma coordenação."

A reação veio em poucas horas.

David Friedman, embaixador de Donald Trump em Israel entre 2017 e 2021, citou a publicação do papa naquela manhã e respondeu a ele diretamente: "a esmagadora maioria da violência na Judeia e Samaria (presumo que você não tenha problema com a referência bíblica a esse território) é iniciada por bandidos palestinos". Ele instruiu Leão a "investigar plenamente os fatos antes de prejudicar sua credibilidade com publicações como essa". A postagem já foi vista mais de 200 mil vezes. 

Friedman abriu com "Vossa Eminência", o tratamento honorífico de um cardeal, não de um papa. Essa postura em relação ao ofício papal não é nova. Mas o fato de um ex-embaixador em Israel não conseguir usar o título correto sugere o quão pouco respeito ele tem pelo cargo.

Está abaixo da dignidade de um embaixador dar lições ao Vigário de Cristo sobre uma questão moral que envolve vida, morte e os direitos de civis. Leão não ignora o que está acontecendo, e o cargo merece mais respeito do que Friedman lhe ofereceu.

Uma objeção mais profunda já havia sido registrada um mês antes, e não tinha relação alguma com os palestinos.

Brian Burch, embaixador de Donald Trump junto à Santa Sé e ex-presidente da CatholicVote, disse ao New York Times em julho que "quando o papa age como líder soberano da Santa Sé, ele está em pé de igualdade com os demais líderes mundiais".

Leão não poderia julgar injusta a guerra no Irã, disse Burch, porque ele tem acesso apenas a "um conjunto limitado de fatos". E, quando condenou aquela guerra, ele o fez na condição de chefe político do Estado da Cidade do Vaticano, e não como líder da Igreja Católica.

Brian Burch tentou reduzir Leão XIV ao soberano de um Estado muito pequeno. Mas Leão fala como voz moral e como pastor de mais de um bilhão de católicos ao redor do mundo. Ele não está discutindo os detalhes de um memorando de política. Ele está falando sobre vida e morte, guerra e paz, e comunidades minoritárias que sofrem, temas que estão no centro daquilo para o qual foi chamado como padre, bispo e papa.

Roma respondeu em quatro dias. Andrea Tornielli, diretor editorial do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, escreveu que "o Sucessor de Pedro não fala como chefe de Estado. Ele simplesmente proclama o Evangelho". Ele nunca citou o nome do embaixador, embora ninguém em Roma ou em Washington tivesse dificuldade em entender a quem ele se referia. Burch esclareceu sua própria posição ainda em julho.

Ele diz isso desde a primeira semana

A paz em Israel e em Gaza tem sido o apelo mais constante do pontificado do Papa Leão XIV. É claro que ele também falou sobre a paz no Irã, as batidas de imigração aqui nos Estados Unidos e a violência contra cristãos na África. Mas ele tem falado sobre Gaza e a Cisjordânia de forma consistente desde o primeiro dia. Tratar isso como uma intervenção repentina é um absurdo.

Se, como pediram Burch e outros, Leão se calasse diante de questões de guerra, ele anularia o próprio propósito do pontificado. As primeiras palavras de Jesus a seus discípulos foram palavras de paz, e o primeiro propósito externo do papado é promover a paz.

O histórico de Leão é claro:

11 de maio de 2025: em seu primeiro discurso dominical como papa, pediu um cessar-fogo em Gaza, ajuda humanitária para os civis e a libertação dos reféns. "Nunca mais guerra!", disse ele.

Julho de 2025: depois que um obus israelense matou Saad Salameh, Fumayya Ayyad e Najwa Abu Daoud na Igreja da Sagrada Família, ele voltou a pedir um cessar-fogo.

Setembro de 2025: falou sobre sua "profunda proximidade" com os palestinos que vivem com medo e em condições inaceitáveis.

Dia de Natal: pediu à basílica que se lembrasse das famílias em Gaza vivendo em tendas sob chuva, vento e frio.

Fevereiro de 2026: o Vaticano recusou o convite de Trump para integrar seu "Conselho de Paz" para Gaza.

Desde que esse conflito começou, o Papa Leão e seu predecessor têm sido claros e consistentes quanto a pôr fim a ele e proteger crianças e inocentes. O Papa Francisco foi constantemente atacado por defender o povo palestino, mas seguiu em frente porque sabia que essa era a atitude certa. Leão XIV está fazendo exatamente a mesma coisa.

O Papa Francisco disse que um pastor assume o cheiro das ovelhas, talvez uma das frases mais famosas de seu pontificado, e ele fez isso de modo consistente com o povo de Gaza. Leão XIV também está assumindo esse papel.

Francisco ligava para a Paróquia da Sagrada Família quase todas as noites a partir de 9 de outubro de 2023. Ele conversava com o padre Gabriel Romanelli e com as pessoas abrigadas no complexo. Fez sua última ligação no Sábado de Aleluia, dois dias antes de morrer. As crianças o chamavam de avô. Leão deu continuidade a essas ligações, embora com menos frequência.

Um pastor que não acompanha seu povo deixa de ser pastor e se torna um burocrata. Francisco entendia isso. Leão também entende.

O custo bateu à própria porta

Embora o Estado nacional israelense sob Netanyahu queira minimizar esses ataques a cristãos, eles estão, na verdade, aumentando, e é profundamente preocupante que seu governo não tenha conseguido conter isso. Isso demonstra que ele está se alinhando a um movimento que não consegue controlar e liberando as forças mais sombrias dentro dele.

Três desses ataques atingiram o próprio rebanho do papa, e relatei cada um deles nestas páginas. O primeiro foi o bombardeio da paróquia na Cidade de Gaza. No Domingo de Ramos, em março, a polícia israelense deteve o cardeal Pizzaballa na Igreja do Santo Sepulcro. Não o deixaram entrar. Seu Patriarcado chamou o episódio de "um precedente grave" e "manifestamente desarrazoado". Segundo o comunicado, os chefes da Igreja não eram impedidos de participar da Missa de Ramos ali havia séculos.

Depois, em 28 de abril, uma religiosa francesa de 48 anos que fazia pesquisa na École Biblique foi jogada contra uma rocha em frente ao Cenáculo, no Monte Sião, e chutada enquanto estava caída. O padre Olivier Poquillon, diretor de sua escola, condenou "esse ato de violência sectária". Pizzaballa havia escrito no dia anterior que os lugares sagrados, "que deveriam ser espaços de oração, estão se tornando campos de batalha em torno de identidade".

O Rossing Center contabilizou 155 ataques documentados contra cristãos em Israel e em Jerusalém Oriental durante 2025, ante 111 no ano anterior, com as agressões físicas subindo de 46 para 61. A irmã Mary Meline disse à NBC News, na primavera passada, que pessoas cuspiam nela na rua.

Toda vida nessa região é sagrada. Todos têm direito a viver em paz, mas destruir a terra e as casas dos palestinos é uma afronta a essa dignidade e, em última instância, uma afronta a Deus. Leão XIV está absolutamente certo e, enquanto muitos líderes ao redor do mundo se afundam no medo, ele defende a verdade.

Ele não carrega isso sozinho

Pizzaballa disse o seguinte em Assis, em 6 de agosto: "Precisamos de rostos novos, de novos líderes. Isso os eleitores vão decidir". Ele também disse que a violência "se tornou a lente geral pela qual as relações são vividas em Gaza, na Cisjordânia, em Israel e na Palestina". Seu temor era que "possamos permanecer presos nessa condição de nem guerra, nem paz".

Pizzaballa está certo: Benjamin Netanyahu detém poder e controle, de alguma forma, há quase 30 anos. É hora de uma nova geração de líderes surgir nessa região, mas isso exige que os poderes constituídos se afastem de modo voluntário e deliberado.

Os embaixadores de Trump não conseguem concordar sobre quem está matando

Em janeiro, o embaixador Mike Huckabee havia atacado especificamente Pizzaballa em um ensaio sobre Jerusalém.

Depois, em 13 de agosto, Huckabee escreveu isto sobre Qusra: "As ações daqueles que cometeram esse ato horrível de terror, destinado a intimidar e assediar essa família, são repugnantes. Não há desculpa para um comportamento tão criminoso". Ele disse que a embaixada havia pedido às Forças de Defesa de Israel (IDF) e à polícia que removessem "os terroristas israelenses que estão fazendo isso".

Huckabee não merece muito crédito aqui. Mas ele acertou nesse ponto: trata-se de violência de colonos. É terrorismo. A ideia de que a culpa é dos palestinos equivale a pedir que não acreditemos no que vemos com os próprios olhos.

A publicação de Friedman veio três dias depois da de Huckabee, culpando "bandidos" palestinos. Afinal, qual é a versão certa? Huckabee fala em terroristas israelenses. Friedman fala em bandidos palestinos. Os dois serviram a Donald Trump. Quem está confuso aqui não é Leão.

Um bom padre sempre desafia todos os membros da congregação, e um bom papa faz o mesmo. Se limitarmos o papa a falar apenas quando concordamos com ele, deixamos de ter um papa. Passamos a ter uma bola de futebol partidária, um porrete político que só tiramos do armário para os nossos próprios interesses, e não um pastor profético.

Graças a Deus, Leão XIV é a segunda coisa.

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