Ellen David, sindicalista: EUA vem há anos aperfeiçoando uma limpeza social, e Trump vai concluí-la

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25 Fevereiro 2025

Após mais de meio século dedicando-se à luta pelos direitos dos trabalhadores, essa ativista reconhece que o retorno do magnata à Casa Branca inicia uma crise política sem precedentes.

Ellen David Friedman (Nova York, 1952) dedica sua vida à luta sindical há mais de meio século. "Já vi de tudo", reconhece essa mulher, que chegou a trabalhar dez anos na China. No entanto, ela afirma que nunca viu tanto "medo e desconcerto" como agora, depois que Donald Trump voltou à Casa Branca.

Apesar de já estar aposentada aos quase 73 anos, ela está à frente do Labor Notes, que é um projeto de comunicação e coordenação para sindicalistas de todo o país, uma ferramenta que considera “indispensável” após o governo do magnata, que, segundo ela, coloca em risco os “poucos direitos sociais que restam”. Ela visita Barcelona a convite da CGT no contexto de jornadas para prevenir a ascensão da extrema direita no trabalho.

A entrevista com Ellen David Friedman é de Sandra Vicente, publicada por El Salto, 23-02-2025. 

Eis a entrevista.

Quais são suas primeiras impressões após o retorno de Donald Trump à Casa Branca?

Toda pessoa com quem falei está assustada, aterrorizada, com raiva, ansiosa, deprimida e furiosa. Tenho quase 73 anos, acompanho a política a vida toda e nunca vi reações tão intensas a uma mudança como agora.

Depois, há aqueles que o apoiam, que acreditam que vão sair ganhando. Pensam que os preços vão cair, mas estão enganados, porque o protecionismo e as tarifas resultarão em muita inflação. Também há os que acreditam que sua vida vai melhorar com a expulsão dos trabalhadores migrantes, mas perceberão que estão errados quando eles forem deportados.

Os migrantes são a principal força de trabalho em setores como o agrícola. Os Estados Unidos podem sobreviver sem essa mão de obra?

Certamente não. Além disso, não se trata apenas das pessoas que vão ser expulsas, mas também de todas aquelas que agora olham para o nosso país e pensam que não querem vir porque é perigoso. É uma decisão terrível, porque um Estado precisa de diversos tipos de trabalhadores para se sustentar, não apenas daqueles que vêm com vistos tecnológicos. Principalmente quando já estamos com falta de trabalhadores. Se isso continuar, nossa economia vai desmoronar lentamente.

Acha que Trump pode corrigir suas deportações diante da evidência da falta de trabalhadores?

Ninguém sabe o que ele fará, ele é instável e imprevisível. Recentemente, durante aqueles dias em que ameaçava estabelecer mais tarifas, criticou publicamente um acordo comercial com o Canadá e ficou louco perguntando "Quem assinou isso?". Surpresa: foi ele.

O perfil do eleitor de Trump é de um homem branco, de meia-idade e classe operária. De fato, os republicanos conquistaram setores que sempre foram democratas, como os caminhoneiros. Por que os trabalhadores estão se tornando mais conservadores?

Nos últimos 50 anos, o neoliberalismo reorganizou a política e a economia com base nos interesses das elites. Para isso, foram muito agressivos contra qualquer forma de organização. Atacaram os sindicatos, os partidos e as associações. Tudo isso, enquanto a vida dos trabalhadores piorava muito: a disparidade entre ricos e pobres aumentou, os preços e os aluguéis subiram e os salários ficaram estagnados.

Então as pessoas buscam uma explicação. Historicamente, podiam procurar um sindicato, uma associação comunitária ou um partido político, mas se essas opções foram enfraquecidas ou destruídas, só resta à população a angústia e a frustração. Se ninguém pode fazer nada, é necessário um protetor, uma força poderosa para consertar as coisas.

Mas Trump...

Eu sei! Ele é um criminoso, misógino, um estuprador, mentiroso compulsivo. Um psicopata incrivelmente inconsistente. Mas isso não importa para muita gente, porque, de alguma forma, ele é a imagem da força. E dá uma resposta a uma desesperança que a democracia não consegue remediar. De fato, e em parte, as pessoas não estão erradas ao dizer que a democracia não funcionou, porque ela não aborda os problemas reais das pessoas.

E a inflação que sua política de tarifas trará ajudará a melhorar a vida da população?

Não. Já estamos em uma crise de desigualdade que está levando muitas pessoas ao limite, obrigando-as a fazer qualquer coisa para sobreviver. E essa sobrevivência está sendo criminalizada, como mostra o fato de que estão investindo em equipamentos militares para as polícias locais, em vez de apostar em ajudas públicas.

A pobreza está sendo escondida em vez de ser combatida. Um exemplo: antes da final do Super Bowl, Nova Orleans gastou dois milhões de dólares em uma operação para prender pessoas em situação de rua que estivessem perto do estádio. Vivi na China por 10 anos e conheço bem essas políticas de criminalização da pobreza e do protesto.

Mas o protesto já está criminalizado nos Estados Unidos. Menos de um ano atrás, 300 estudantes foram detidos em uma manifestação de apoio à Palestina. E isso aconteceu durante o governo de Biden.

Totalmente. Qualquer pessoa está sujeita a ser detida, a ter acusações contra si ou a ser demitida. Os Estados Unidos estão há anos aperfeiçoando uma limpeza social, e Trump vai culminá-la. A vida vai se tornar intolerável, e é possível que isso dê asas às organizações criminosas. Os mercados negros vão crescer, a economia paralela vai se expandir e os sindicatos do crime acabarão assumindo o controle dos sistemas agrícolas e da gestão de resíduos.

A senhora passou dez anos na China, um país caracterizado pelo protecionismo. Aprendeu algo lá que possa ser útil agora?

Que se pode fortalecer o protecionismo a partir da dominação econômica, mas é algo que países como os Estados Unidos não podem se permitir. Além disso, a China começou esse processo muito antes de sermos uma economia global totalmente integrada.

Há vinte anos estávamos em plena transição industrial, e muitas corporações ocidentais investiam na China porque ela oferecia preços competitivos graças ao quanto paga mal aos seus trabalhadores. Assim, o conhecimento industrial foi sendo transmitido, e agora podemos ver os resultados. A capacidade industrial deles é excelente e muito rápida, e só vai se beneficiar do tempo em que os Estados Unidos mantiverem suas tarifas.

A senhora tem trabalhado sobretudo no setor educacional. Historicamente, quando os republicanos estiveram no poder, os serviços públicos receberam muito menos recursos. Eles podem resistir a um novo corte?

Eu duvido. Eles estão terrivelmente ameaçados. Principalmente porque estamos vendo um fortalecimento das escolas charter que está sufocando as públicas. A isso se soma a supressão da liberdade acadêmica e de expressão: livros didáticos estão sendo proibidos e professores que não se alinham a essa censura estão sendo advertidos. É difícil que o pouco que resta dos serviços públicos sobreviva a Trump.

Ainda assim, acredito que a educação é o setor mais propenso a construir uma resistência democrática. Os professores estão conectados às crianças, às famílias e às comunidades. Eles têm um espírito de propósito social. É um dos setores mais organizados dos Estados Unidos.

Mencionava antes o direito ao protesto e queria perguntar sobre a possibilidade de o Departamento de Eficiência Governamental, dirigido por Elon Musk, absorver o Departamento de Trabalho. Foram realizadas manifestações de trabalhadores que temem que essa operação possa dar ao magnata acesso a denúncias de assédio no trabalho e filiações sindicais. A senhora compartilha esse medo?

Absolutamente. Acho que é justo dizer que, sem dúvida, é uma ação do neoliberalismo para tomar o poder estatal ilegalmente. Se Elon Musk está no governo não é porque tenha passado por nenhum processo eleitoral, mas porque Trump determinou isso. Após as eleições, nada do que foi decidido seguiu os procedimentos legais. Nem essa operação de absorção, que a Suprema Corte já disse que deveria ser interrompida. Mas não está acontecendo.

Isso vai significar a destruição total dos direitos dos trabalhadores, que já estavam muito enfraquecidos após 40 anos de neoliberalismo. Principalmente porque os sindicatos podem ser revogados de sua condição de agentes sociais. E tudo isso pode terminar muito mal, até com confrontos armados nas ruas.

O que os sindicatos erraram nos Estados Unidos para chegarem a essa situação?

Durante toda a minha vida adulta, trabalhei para sindicatos e sempre fui muito crítica. Diferente do que acontece em outros países com mais tradição anarquista, nos Estados Unidos os sindicatos, com honrosas exceções, aceitaram que têm um pacto com o capital. Que o trabalho deles é chegar a acordos com ele, não desafiá-lo. E a única maneira de mudar isso é democratizá-los.

Se conseguirmos que os próprios filiados possam chegar a dirigir o sindicato, teremos muitos mais militantes dispostos a lutar pelas suas necessidades. E me faz muito feliz dizer que esse processo começou, aos poucos, há uma década. Porque agora precisamos disso mais do que nunca.

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