"O verdadeiro objetivo de Israel é o caos na Cisjordânia; até mesmo a oposição teme os colonos". Entrevista com Amira Hass

Foto: UNRWA

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28 Julho 2026

Editorialista do Haaretz: "Cabe aos europeus dizer não e tomar medidas concretas. Os colonos devem ser detidos, e com eles todo o sistema que lhes permite prosperar."

Durante 35 anos, Amira Hass foi os olhos e a voz da Ocupação: colunista do Haaretz, a única jornalista israelense vivendo dentro dos Territórios Palestinos (primeiro em Gaza, depois em Ramallah), ela sempre relatou não apenas o que acontece além das cercas, muros e postos de controle que demarcam a Cisjordânia e Gaza, mas também a indiferença com que tudo isso é recebido em sua sociedade. Por isso, ela foi repetidamente criticada e atacada. "Por trás de cada israelense que queima ou bombardeia, há uma mãe ou esposa que se recusa a ver", é o título de um de seus artigos mais recentes no Haaretz.

A entrevista é de Francesca Caferri, publicada por La Repubblica, 28-07-2026.

Eis a entrevista.

Há meses o governo israelense vem alertando para uma possível explosão de violência antes das eleições: por que os avisos foram ignorados?

Porque o que está acontecendo é exatamente o que o governo queria. Temos visto as tensões aumentarem, dia após dia, de forma constante. Os palestinos vivem em um estado de calamidade permanente, e a situação piora a cada dia: por isso, não me sinto à vontade para dizer que estamos enfrentando um desastre hoje. Porque desastres acontecem todos os dias: e é exatamente isso que os colonos querem. Suas provocações são constantes. A única surpresa nessa história é o quanto os palestinos estão evitando responder com violência.

Por quê?

Porque sabem perfeitamente que o caos na Cisjordânia é o objetivo final deste governo e que devem evitar facilitá-lo. Existe uma máquina complexa em Israel destinada à destruição da sociedade palestina: os colonos, o exército, grande parte da classe política, mas também pessoas que se consideram normais. O problema não se resume ao que acontece diariamente nos campos e aldeias da Cisjordânia: por exemplo, se os fundos da Autoridade Palestina forem retidos, como Israel tem feito desde 2023, o governo em Ramallah não consegue pagar salários nem prestar assistência médica. As pessoas adoecem e querem ir embora.

Vamos falar sobre a classe política israelense: a Cisjordânia é a grande ausente desta campanha eleitoral. Ninguém está falando sobre isso...

Os políticos, mesmo aqueles que não apoiam Netanyahu, têm medo de confrontar os colonos. Isso também se aplica a muitos jornalistas, que sabem exatamente o que está acontecendo, mas evitam dizer isso. Ninguém em Israel hoje pode fingir que não sabe o que está acontecendo na Cisjordânia: é por isso que sou muito cética em relação às pesquisas que mostram que o desempenho de Netanyahu está em declínio. A grande maioria dos israelenses, mesmo aqueles que se autodenominam oposição, apoia as políticas antipalestinas que este governo está implementando. Portanto, duvido que as eleições, independentemente do resultado, mudem as coisas.

Além da violência dos colonos e do exército, o que mais chama a atenção ao viajar para a Cisjordânia é a completa ausência da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Agora, após vinte anos, parece que haverá eleições: será que essa eleição poderá influenciar os acontecimentos?

Quando falamos da Autoridade Palestina, precisamos distinguir dois níveis. Os funcionários, as pessoas comuns, fazem o que podem com o que têm: tentam, em uma situação muito difícil. Mas se falarmos do nível mais alto, a presidência e o governo são fracos: e usam essa fraqueza para não fazer nada. É por isso que as pessoas os odeiam. Não acho que eles tenham voz nessa situação.

Quem a tem?

Dentro de Israel, neste momento, não temos ninguém. Fora de vocês, a Europa. E ainda mais os Estados Unidos: se quisessem, mas não é o caso agora. É por isso que cabe aos países europeus dizerem "não" a Israel e tomarem medidas concretas: não sanções contra uma única pessoa ou entidade, mas algo que prejudique todos os israelenses. Àqueles que dizem que isso é antissemitismo, respondo que é para a salvação de Israel, não apenas dos palestinos. Os colonos devem ser detidos, e com eles todo o sistema que lhes permite prosperar: interromper a venda de armas, mas também o comércio e a colaboração científica. Só então, talvez, as coisas possam mudar.

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