“Talvez seja o momento mais delicado da democracia estadunidense nos últimos dois séculos”. Entrevista com John Feeley

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28 Fevereiro 2026

John Feeley é um ex-diplomata estadunidense. Atende o telefone em Porto Rico e parece calmo, mas a situação em seu país e no mundo o altera um pouco. Feeley se formou em Ciências na Escola de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown, em 1983. Serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, de 1983 a 1990, e pilotou helicópteros de assalto anfíbios no Líbano, nãos anos 1980, após o atentado perpetrado em 1983 contra os fuzileiros navais, em Beirute.

A entrevista é de Hector Pavon, publicada por Clarín-Revista Ñ, 20-02-2026. A tradução é do Cepat.

Foi embaixador dos Estados Unidos no Panamá de 2015 até sua renúncia em 9 de março de 2018. É também diretor-executivo do Centro de Integridade de Mídia das Américas: “Nosso objetivo aqui é fortalecer o jornalismo de qualidade em todas as Américas. Diante do avanço do autoritarismo, a ferramenta mais poderosa é a verdade. Como dizia Thomas Jefferson, uma democracia não existe sem jornalistas fortes”.

Feeley é um observador e analista muito ativo na esfera política estadunidense. De Porto Rico, o ex-embaixador opina e aborda a complexa situação de seu país e a intrincada situação política global pendente das decisões e caprichos do presidente dos Estados Unidos.

Eis a entrevista.

O senhor fez parte do corpo diplomático dos Estados Unidos em diversos cargos. Como caracterizaria este momento da história das relações internacionais?

Em perspectiva, vemos ciclos que costumam se expressar como momentos revolucionários e contrarrevolucionários. Eu diria que hoje, nos Estados Unidos e em boa parte do mundo, estamos atravessando um momento contrarrevolucionário. Depois de 1945, com os Acordos de Bretton Woods, que regulamentou as relações monetárias, financeiras e comerciais do mundo, a criação da ONU e o estabelecimento de uma ordem liberal – sob a liderança estadunidense – conseguiu-se evitar uma conflagração nuclear por mais de oito décadas.

No entanto, com o tempo, as instituições democráticas deixaram de responder às expectativas de seus cidadãos. Isto ocorreu sobretudo no Sul Global, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Após a queda do Muro de Berlim, houve uma espécie de “coma democrático”. Ficamos concentrados na criação de riqueza e descuidamos do trabalho contínuo requerido para sustentar a democracia, como alguém que deixa de cuidar de um jardim.

Em sua avaliação, essa crise explica a emergência de figuras que questionam abertamente a democracia, como alguns magnatas da tecnologia?

Estamos, sem dúvida, em um ponto de virada. Talvez este seja o momento mais delicado da democracia estadunidense, nos últimos dois séculos. Embora soe paradoxal, vivemos uma contrarrevolução porque a verdadeira revolução foi construir uma democracia tão estável que a consideramos assentada. Não acredito que a resposta seja simplesmente voltar à democracia de 20 ou 30 anos atrás. Precisamos reforçar um novo conceito democrático, mais atento às reais necessidades das pessoas e menos capturado por corporações, bilionários e os “tech brothers”. A brecha obscena de riqueza entre esses setores e o resto da sociedade é uma profunda fonte de corrupção e, em termos filosóficos, de ganância.

Como o senhor enxerga o papel histórico dos Estados Unidos como “ordenador” do mundo, da América Latina ao Oriente Médio, e hoje com casos como o da Venezuela?

Li que alguém havia escrito uma frase em uma peça de roupa: “Roupa, você vai sentir falta da era estadunidense”... É justo dizer que os Estados Unidos sempre pregaram uma “boa nova”: democracia, transparência, anticorrupção, competitividade. E é verdade que muitas vezes não agiu de acordo com esses princípios. Isso é inegável. Mas também havia - e acredito que ainda existe - uma vocação para a liderança global, não necessariamente para ser o policial do mundo.

Hoje, estamos em um momento diferente. O governo Trump se vê como o novo xerife de um filme de faroeste: o caubói com chapéu e pistolas, onde rege a lei do mais forte. Não acredito que isso beneficie os estadunidenses, nem o resto do mundo. A verdadeira saída deveria ser uma refundação do compromisso cidadão com seu próprio destino: autodeterminação, sim, mas com cidadãos informados. Isto exige um grande investimento em educação cívica.

Voltou-se a falar dos Estados Unidos como um império. Isso o incomoda?

Nós, diplomatas estadunidenses, não gostamos dessa palavra, talvez porque às vezes ela descreva a realidade muito bem. O imperialismo clássico envolvia colônias. Os Estados Unidos tiveram bem poucas: Panamá, Porto Rico, Filipinas e Cuba. Mais do que colônias, sempre buscaram influência: comercial, política, estratégica.

Nesse sentido, durante o século XX, praticaram um tipo de neoimperialismo que, no geral, considero majoritariamente benigno. Durante décadas, os Estados Unidos foram o principal provedor mundial de ajuda humanitária, o país que mais recursos dedicou a promover a democracia – também na Argentina – e o maior mercado aberto do mundo.

Nossa história não é totalmente coerente, mas continuo acreditando que, com todos os seus erros, os Estados Unidos foram uma força majoritariamente positiva. Dito isso, estamos apenas a pouco mais de um ano da vitória de Trump, em 2024, e penso que começamos mal, especialmente com políticas como as relacionadas à Venezuela, mais orientadas ao acesso ao petróleo do que a uma verdadeira agenda democrática.

Existe algum projeto de divisão do poder global com a Rússia e a China, por meio de suas esferas de influência?

É interessante porque Trump nunca usa esse termo explicitamente, mas tem uma compreensão instintiva das esferas de influência, baseada em um modelo quase mafioso. Sua visão de mundo se formou na Nova York dos anos 60, 70 e 80, onde a máfia organizava a economia ilegal e negociava territórios. Como em O Poderoso Chefão, os chefões se sentavam para dividir as regiões. No entanto, não vejo que Trump tenha feito algo equivalente com Xi Jinping e Vladimir Putin.

Putin age como se a Ucrânia fizesse parte de sua esfera; a China considera o mesmo em relação a Taiwan; e Trump parece assumir que todo o hemisfério ocidental, da Groenlândia à Terra do Fogo, pertence à esfera de influência estadunidense. Existem outros atores relevantes no cenário global: Europa, Japão, Coreia do Sul, Índia. Não são tão poderosos militarmente quanto os Estados Unidos, a Rússia e a China, mas têm voz e voto.

É verdade que esses três líderes podem imaginar o mundo em termos de esferas de influência, mas enquanto não houver um acordo explícito entre eles, como aconteceu em 1945, com Bretton Woods e a criação da ONU, não haverá regras claras para a nova ordem internacional.

Que futuro enxerga para o direito internacional e organizações como a ONU, com os Estados Unidos retirando seu financiamento dessas instituições?

As instituições internacionais estão na UTI. Por décadas, muitos países criticaram o intervencionismo estadunidense, algo com o que lidei em toda a minha carreira diplomática. Contudo, agora, o mundo começa a dimensionar quanto dinheiro o povo norte-americano direcionava para que esses sistemas funcionassem. É verdade, os Estados Unidos ajudaram a criar essas instituições em benefício próprio, mas Donald Trump não acredita que essa rede de organismos tenha servido aos interesses do cidadão estadunidense e, em termos históricos muito rápidos, decidiu se retirar de quase todos.

Um caso particularmente trágico é o da USAID. Já existem relatórios preliminares que mostram um aumento das mortes - crianças, gestantes, populações vulneráveis – em consequência direta do desmantelamento da ajuda humanitária. Isto é devastador. No entanto, deve servir de alerta para o resto do mundo: se não quisermos entrar em uma etapa prolongada regida pela lei do mais forte, os países menores deverão se coordenar e pressionar os Estados Unidos a recuperar uma liderança baseada em valores, cooperação e paz internacional.

Como o senhor imagina o futuro político de Trump? É possível um impeachment? O que vem pela frente, na linha de sucessão?

Um impeachment depende, em última instância, do eleitorado estadunidense. O procedimento é claro: começa na Câmara dos Representantes e depois segue para o Senado. Isso já aconteceu com Trump duas vezes: a Câmara dos Representantes avançou, mas o Senado o absolveu. As regras constitucionais não vão mudar.

No entanto, a composição do Congresso pode mudar nas eleições de meio de mandato de 2026. Se os democratas recuperarem as duas casas, um impeachment é muito provável. O próprio Trump reconheceu isso. Dito isso, basta que uma das casas permaneça nas mãos republicanas para bloqueá-lo. E é aí que aparece uma brecha: Trump já perdeu apoio dentro de seu próprio partido, como se viu na rejeição de vários senadores republicanos ao uso de poderes de guerra na Venezuela. Esse é um calcanhar de Aquiles sério.

O senhor foi embaixador no Panamá até a chegada de Trump ao poder. Por que renunciou?

Sou um funcionário de carreira em segurança nacional. Minha lealdade sempre foi à Constituição, não a um presidente. Servi tanto a governos republicanos quanto a democratas. Durante a campanha de 2016, fiquei profundamente preocupado com a retórica de Trump: seu discurso sobre migrantes, sobre alianças como a OTAN, sobre a América Latina. Como servidor público, permaneci em silêncio o máximo que pude. Até que não pude mais.

O ponto de ruptura foi Charlottesville, quando ele disse que havia “pessoas muito boas dos dois lados”. Vi com meus próprios olhos neonazistas e supremacistas brancos (naquela manifestação de 2017, em que um carro dirigido por um supremacista atropelou uma multidão que protestava contra esses grupos extremistas, com uma pessoa morta e 19 feridas). Para mim, foi moralmente impossível continuar representando um presidente a quem não podia servir com honestidade e lealdade, por isso renunciei.

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