O mundo acordou em choque em 2026. Neste episódio do IHUCast, analisamos a invasão da Venezuela pelas forças de Donald Trump, o sequestro de Nicolás Maduro e a nova face do imperialismo na América Latina. Do "capitalismo mafioso" à transformação da agência migratória ICE em uma milícia pessoal, exploramos as conexões entre passado e presente.
Sábado, 3 de janeiro de 2026. Passava das duas horas da manhã quando ao menos sete explosões romperam o silêncio da noite em Caracas, capital da Venezuela. Na sequência, as forças estadunidenses capturaram Nicolás Maduro e sua esposa. A invasão ao país latino-americano tornava-se, naquele momento, um teste prático da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos. No mesmo dia, à tarde, em meio a palmeiras e luzes, Donald Trump declarava que havia começado uma nova era para a América Latina. E, rompendo com qualquer verniz democrático, declarou que tomariam o petróleo e assumiriam o controle do país. O que se seguiu, ao longo da semana, foram declarações, blefes e ameaças aos demais países da região. O projeto neofascista de Trump é transmitido e compartilhado ao vivo 24 horas por dia pelas redes sociais e pela mídia tradicional. De algum modo, normalizou-se a barbárie quando quase não nos chocamos com frases como “o hemisfério é nosso”. Da Patagônia à Groenlândia, os Estados Unidos ambicionam o controle total para tentar garantir uma hegemonia frente à China.
A imagem que melhor ilustra a atual fase histórica do mundo é “um eclipse total da lua”. É a ela que o sociólogo José de Souza Martins recorre para dizer que “estamos vivendo um momento de ruptura dialética da historicidade social”. E mais do que isso: “estamos envolvidos num fazer história que não sabemos que história é”, alerta. “Não está acontecendo o que supúnhamos que aconteceria”, reitera Martins, fazendo referência às tendências sociológicas elaboradas nos últimos oitenta anos.
Para Martins, “o acontecimento de Caracas teve estilo e ritmo de fake news, foi ensaiado como fake. Não se sabe o que é falso e o que é verdadeiro, o que é teatro e o que é realidade. Parece ficção, que foi um golpe dos chavistas contra eles mesmos. E talvez tenha sido. Nunca saberemos se foi Donald Trump que organizou ou dirigiu o golpe ou se ele, oportunista como é, pegou carona em golpe alheio. É o que sugere a rapidez com que houve entendimento entre ele e a presidente chavista que assumiu o poder, tudo como se nada tivesse acontecido”.
"A hegemonia global dos Estados Unidos acabou. O ataque de Trump à Venezuela é apenas o primeiro passo em uma tentativa de reverter essa situação. Mas a resposta trumpista 'América Primeiro' ao declínio americano consiste em substituir a dominância global por um império hemisférico", afirmou Owen Jones, colunista do jornal The Guardian. Dando continuidade à análise, Jones aponta que nem tudo o que Trump diz são blefes. "Quando ele ameaça os presidentes democraticamente eleitos da Colômbia e do México, devemos acreditar nele. Quando ele declara, com entusiasmo mal disfarçado, que 'Cuba está prestes a cair', devemos acreditar nele. E quando ele afirma: “Precisamos da Groenlândia, sem dúvida”, devemos acreditar nele. Ele realmente pretende anexar mais de dois milhões de quilômetros quadrados de território europeu", salienta.
A imagem de Nicolás Maduro algemado, vestindo um casaco da Nike após a invasão americana é o símbolo máximo do que Ivana Bentes chama de "capitalismo mafioso". Para a pesquisadora, a captura do líder venezuelano não foi apenas uma ação militar, mas um espetáculo de marketing viral onde a pilhagem geopolítica do petróleo é naturalizada e convertida em entretenimento consumível para as massas digitais. Bentes argumenta que a estratégia de Donald Trump rompe com a diplomacia tradicional para governar através de memes e "extrativismo cognitivo". Ao expor Maduro com trajes casuais de uma marca global, o império esvazia a autoridade do adversário, transformando um prisioneiro político em um "garoto-propaganda involuntário" e reduzindo uma violação grave do direito internacional a um conteúdo banal e altamente compartilhável. O artigo alerta que vivemos em uma era onde as Big Techs e o design dos algoritmos ditam as regras, priorizando o choque e a monetização em vez da informação. Nesse cenário, a guerra na Venezuela é vendida como uma operação comercial lucrativa, onde a violência real é camuflada por uma enxurrada de lixo visual e inteligência artificial, consolidando um novo tipo de domínio imperial que sequestra tanto territórios quanto o imaginário global.
Iván Cepeda, candidato à presidência da Colômbia, explica que “não é correto entender cada um dos fatos e eventos que estamos constatando ao longo deste segundo período de Donald Trump como se fossem fatos simplesmente desconexos, que provêm de estados de espírito ou que são simplesmente o resultado de uma política desordenada e caótica. Trump não é um homem desequilibrado e lunático, mas sim a expressão de uma realidade política. Estamos falando de uma estratégia”, adverte. Para o político colombiano, “felizmente, já a temos escrita para que possamos tirar as conclusões necessárias. Essa estratégia tem uma característica muito clara: é a entronização de um modelo totalitário, eu diria neofascista, de compreensão do hemisfério ocidental, entre outras coisas”. Ele ainda nos lembra que ainda não aprendemos com o passado: “quando o nazismo surgiu, ninguém acreditava que seria o que foi. As piores coisas acontecem com a incredulidade das pessoas, precisamente porque são muito graves.”
O filósofo Vladimir Safatle defende que o ataque à Venezuela marca o início do "Colonialismo 3.0" — uma nova era de imperialismo explícito onde as potências abandonam o multilateralismo e o direito internacional em favor da pilhagem descarada de recursos. Para Safatle, o sequestro de um presidente e a expropriação de petróleo não são eventos isolados, mas a prova de que os EUA, diante da crise do capitalismo global, decidiram redesenhar o mundo pela força bruta, tratando a América Latina como um mero entreposto comercial. O professor faz um alerta contundente: o alvo principal dessa nova ofensiva não é apenas a Venezuela, mas o Brasil. Por ter uma estratégia geopolítica própria e menos dependente, o Brasil é visto como o obstáculo real aos interesses norte-americanos na região. O pesquisador ainda critica a elite liberal e a extrema-direita local por apoiarem essas intervenções, argumentando que a "estabilização" prometida é apenas uma fachada para o controle de energia e a neutralização de qualquer soberania nacional no continente.
Mas não podemos olhar para todos esses anos do regime chavista sem fazer as devidas críticas. Pablo Stefanoni, jornalista e historiador, aponta que a crise venezuelana e a deriva autoritária do regime de Nicolás Maduro representam para a esquerda latino-americana um marco de falência ideológica e política comparável à queda do Muro de Berlim para o comunismo soviético. Stefanoni argumenta que o chavismo abandonou a construção de um modelo democrático viável em favor de uma narrativa de "resistência", sustentada por uma repressão estatal severa. Esse cenário transformou a crise venezuelana em uma ferramenta política poderosa para a direita global, que utiliza o desastre do país para deslegitimar qualquer projeto progressista.
O padre italiano Tonio Dell’Olio propõe uma mobilização diante ao assassinato da Lei, no que ele classificou como estupro do direito internacional. Ele escreve: "Mataram a lei, e agora temos que inventar novas regras. Os governos mais esclarecidos precisam levantar suas vozes. E nós também, o povo dos Estados Unidos. Não podemos aceitar nem tolerar que os mais fortes imponham sua vontade pela violência. Além disso, o mais forte nem sempre está certo, e muitas vezes essa vontade corresponde aos seus próprios interesses. Algo precisa ser feito. Parem com essa deriva".
O jornalista Yago Álvarez Barba acredita que testemunhamos “a morte da ideologia que mantinha um consenso entre as elites e classes dominantes do Ocidente e uma parcela significativa das elites do Sul Global. Resta saber qual será o desfecho e o que florescerá nesse impasse. Encontramo-nos no que Gramsci chamou de “interregno”, aquele terreno onde o passado se torna obsoleto e o novo ainda não está totalmente formado, e onde, como disse o filósofo italiano, surgem monstros, referindo-se ao fascismo do século passado. Nesse interregno, o fascismo tem cabelo loiro e pele alaranjada”, destaca.
Com os olhos do mundo voltados a situação da América Latina, Trump continua extrapolando todos os limites democráticos com a política migratória americana, que há muito deixou de ser um sistema de controle de fronteiras para se tornar uma engrenagem de terror, operando sob uma lógica de lealdade cega ao presidente e com absoluta falta de transparência. A divulgação de um vídeo que mostra agentes do ICE, a polícia migratória dos Estados Unidos, matando uma mulher a tiros em Minneapolis, refuta a versão de "terrorismo" sustentada pela Casa Branca. As imagens revelam que, ao contrário do que foi alegado pelo governo Trump para justificar a agressividade das operações de imigração, a vítima não representava uma ameaça nem realizava um ataque no momento da execução. O episódio escancara uma crise de transparência e letalidade no sistema de repressão migratória dos EUA, sugerindo que a narrativa do "inimigo interno" está sendo fabricada para legitimar violações sistemáticas. A reportagem Como Trump transformou a agência anti-imigração em sua milícia pessoal denuncia "miliciarização" da agência anti-imigração dos Estados Unidos, expondo como o governo Trump transformou o ICE em um braço armado de perseguição ideológica e pessoal. Ao blindar os agentes com retóricas de impunidade e incentivar o uso da força desmedida, a Casa Branca não apenas atropela os direitos humanos mais básicos, mas destrói as instituições por dentro, criando uma força paramilitar que atua acima da lei para punir os grupos mais vulneráveis da sociedade.
É possível traçar um paralelo histórico perturbador entre o cenário atual e a ascensão do totalitarismo na Europa do século XX. O que vemos hoje é a ressurreição de uma estética fascista mediada por tecnologias de comunicação de alcance global: a semelhança entre Donald Trump e Benito Mussolini vai além do gestual autoritário e do culto à personalidade, atingindo o coração das instituições democráticas. Ao transformar o ICE em uma milícia pessoal que mata, agride, sequestra e prende migrantes, operando sob a garantia de imunidade absoluta, Trump replica a estratégia dos Camisas Negras do ditador italiano, uma milícia paramilitar utilizada para silenciar opositores e impor o medo sob alegação de "restaurar a ordem". Na retórica de Trump ecoa a estratégia fascista de criar um "inimigo interno" para justificar o fortalecimento de um braço armado leal ao líder, e não à Constituição. Ao garantir imunidade aos agentes e incentivar a brutalidade, o governo atual transforma o que deveria ser uma força de segurança em um instrumento de repressão que, assim como qualquer milícia, coloca a vontade do governante déspota acima dos direitos fundamentais, testando a resiliência das instituições democráticas diante de um autoritarismo que se veste com roupas contemporâneas.
Ainda estamos reverberando o tempo de Natal, onde a esperança nos convida a uma revolução ética e sensível para vislumbrar um futuro comum. Para tanto, precisamos substituir o orgulho exagerado dos líderes autoritários pelo "dom de apagar o ego", como propõe Massimo Recalcati, permitindo que a alteridade volte a existir. Esse novo tempo exige o resgate da temperança, virtude que Roberto Esposito aponta como essencial para frear os excessos de um mundo em ebulição, e uma imersão profunda no "enigma da teia da vida" descrito por Faustino Teixeira, onde a interconexão entre todos os seres substitui o isolamento do ódio. Inspirados pela neurobiologia vegetal e pelo Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, como discutem Guilherme Soares e Stefano Mancuso, devemos aprender com as plantas que a sobrevivência não vem da força bruta, mas da cooperação e da inteligência coletiva. A alternativa ao fascismo e à pilhagem de recursos naturais é, portanto, o reconhecimento de que somos parte de um organismo vivo planetário; defender a vida hoje é abandonar a lógica do domínio e abraçar a humildade biológica e espiritual como nossa única estratégia de futuro.
O declínio dos Estados Unidos emula o declínio do Ocidente. Isso não implica, evidentemente, que o fim do hemisfério ocidental seja na perspectiva espacial ou histórica, mas na necessidade de encararmos a tarefa de construirmos uma nova Era Axial, nos termos de Karl Jaspers. Nesse sentido, formas de pensamento e relação com o mundo não orientadas ao privilégio humano, entre as quais a neurobiologia das plantas, são mais que um convite a outros modos de se relacionar com o planeta, tornam-se um imperativo existencial para todos os viventes. Experiências místicas ligadas à terra e as expressões populares de religiosidade são mais que um retorno à ancestralidade, são um portal que se abre para um novo tempo que todo o início de ano somos convidados a esperançar. O fim do mundo, tal como anunciado pelo fascismo autoritário de Trump e também no fascismo cotidiano de quem massacra as populações empobrecidas - seja nos bombardeios à Gaza, à Ucrânia, ou nos territórios indígenas do Brasil, nas periferias - emergem como a possibilidade de um novo mundo. Há que confiar na oportunidade de construirmos paraquedas coloridos e saltarmos, junto com Krenak, autor desta proposta, em direção a outra Era Axial.
***
O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível nas plataformas de áudio e no canal do IHU no YouTube.
Acesse aos programas do IHU nas plataformas Anchor e Spotify. Ouça os episódios clicando aqui.