06 Janeiro 2026
"Atendemos meio milhão de civis em Gaza. Vinte por cento dos hospitais dependem da nossa ajuda. A crise humanitária na Faixa é catastrófica. Nossas avaliações são médicas; não há o que discutir sobre elas. E, no entanto, não sabemos se seremos autorizados a ficar." A Dra. Monica Minardi é diretora da ong Médicos Sem Fronteiras Itália. Está trabalhando incansavelmente, com sua sede aqui e equipe no Oriente Médio, para evitar que a ONG, ativa em Gaza e na Cisjordânia desde 1989, seja excluída das listas de organizações autorizadas a continuar operando. Faltam apenas nove dias para a entrada em vigor das novas regras israelenses: a partir de 1º de janeiro, somente aqueles que não forem acusados de "terrorismo, antissemitismo, deslegitimação de Israel, negação do Holocausto e dos crimes de 7 de outubro" poderão trabalhar sob o rígido controle do governo de Netanyahu.
A entrevista é de Letizia Tortello, publicada por La Stampa, 23-12-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
A MSF soou o alarme: o tempo está se esgotando. Que explicações Israel está dando para manter vocês na espera por tanto tempo?
No momento continuamos operando. Alocamos um orçamento de 100 a 120 milhões de euros para 2026. Desde o cessar-fogo, as necessidades em Gaza pioraram significativamente. Estamos nos territórios ocupados ilegalmente há 36 anos, bem antes de 7 de outubro. Já vivenciamos muitas crises. Mas agora estamos seriamente preocupados: seria uma tragédia humanitária se perdêssemos nossa autorização para operar, o impacto seria enorme. Continuamos as negociações. Assinamos uma carta com outras 50 ONGs, mas até agora não obtivemos respostas.
Qual é o empenho de vocês em Gaza?
Em Gaza, apenas 18 dos 36 hospitais públicos estão funcionando, e mesmo assim, apenas parcialmente ou muito parcialmente, porque foram destruídos. Damos apoio a seis deles. Também cuidamos do abastecimento de água. Infelizmente, as restrições às ajudas humanitárias fazem com que ainda faltem medicamentos essenciais e equipamentos de diagnóstico. Temos centenas de caminhões presos na fronteira, com alimentos perto do vencimento e materiais que não podem entrar, porque, dizem, poderiam ser usados para outros fins.
De que material estamos falando, tão perigoso a ponto de ser bloqueado?
Painéis solares, peças de reposição para bombas de distribuição de água, equipamentos para esterilizar instrumentos cirúrgicos.
Certamente não armas ou equipamentos de guerra, em resumo. Qual é o fluxo de pacientes que vocês atendem diariamente?
Um em cada três recém-nascidos nasce em clínicas ou hospitais de campanha que apoiamos. Todas as semanas, centenas de pessoas desnutridas chegam, especialmente crianças e gestantes. E afirmo categoricamente que, antes de 7 de outubro, a desnutrição em Gaza não existia. Desde o cessar-fogo em outubro passado, houve mais de 500 violações da trégua, quase 400 pessoas mortas e 800 feridas. Recebemos regularmente crianças feridas por bombas não detonadas ou ataques diretos (das Forças de Defesa de Israel). Após o tufão dos últimos dias, a emergência são diarreias e pneumonias entre pessoas que ficaram com água até os joelhos em suas tendas. Há alguns dias, como vocês relataram, um bebê de 29 dias morreu de frio em Nasser.
Há 14 ONGs já formalmente excluídas. Outras, como a sua, aguardam aprovação e declaram que "qualquer crítica ao exército israelense, ou qualquer relato sobre a situação em Gaza", podem ser usadas para excluí-las. É isso mesmo?
Digamos que nossa preocupação é que as novas regras se tornem um forte impedimento para as ONGs estrangeiras. Entre os muitos pedidos que recebemos, consta uma lista completa com os nomes, sobrenomes e dados pessoais de nossa equipe que chega do exterior ou de habitantes de Gaza que trabalham conosco, bem como informações sobre suas famílias. Mas é claro que essas são informações sensíveis; não podemos fornecê-las levianamente. Primeiro, a arma da fome foi usada, agora tememos que o exército israelense use as novas regulamentações para excluir cada vez mais a presença de trabalhadores humanitários.
E o acesso ao atendimento.
Sim, de fato. Pode-se discutir planos de paz, mas não crianças mortas de frio ou condições traumáticas daqueles que foram deslocados várias vezes e não tomam medicamentos essenciais há muito tempo, ou aqueles com doenças crônicas — estou falando de adultos e até crianças com câncer, por exemplo, visto que não há mais tratamento oncológico na Faixa de Gaza. Não se pode discutir sobre acesso à água potável ou avaliações médicas que não têm nada a ver com política.
O que as crianças que vocês acompanham contam?
Em Gaza, há 6.000 amputados. As feridas de guerra são muito, muito mais complicadas de cicatrizar do que um corte de faca. Isso também acontece com a alma. Há crianças sem família, que querem se suicidar porque não têm mais nada, nem mesmo esperança. Além disso, temos que lembrar que as amputações muitas vezes são realizadas com paracetamol e ibuprofeno, em meio a gritos de dor, porque não há anestésicos suficientes.
Israel de um lado, Hamas do outro: o quanto isso cria obstáculos para vocês, entre a censura das listas de evacuação de pacientes e o acesso às instalações?
Sempre lidamos com os dois lados. Condenamos os crimes hediondos do Hamas após 7 de outubro, oferecendo nossa ajuda ao governo israelense. Continuamos negociando com todos. A maior preocupação, atualmente, está do lado israelense.
Qual o peso do uso da palavra genocídio na sua situação?
Esse termo que adotamos não alterou o empenho médico, a independência ou a imparcialidade da MSF. Sim, nossos funcionários são fortemente monitorados. Existem enormes barreiras administrativas. Mas sempre operamos com a máxima transparência, relatando movimentações e localizações por GPS. Até mesmo nosso complexo, que foi atingido no ano passado, era sinalizado. Um tanque nos atacou mesmo assim, e a filha pequena de um de nossos funcionários morreu lá.
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