Venezuela, Trump e o fim da 'Pax Americana'. Editorial da revista America

Donald Trump (Foto: Gage Skidmore | Flickr cc)

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09 Janeiro 2026

O que os Estados Unidos representam entre as nações do mundo? Embora qualquer observador honesto da história possa apontar diversas exceções aos valores que os Estados Unidos afirmam defender, desde o fim da Segunda Guerra Mundial o país geralmente se posiciona como defensor de uma “ordem internacional baseada em regras”.

A seguir, reproduzimos o editorial da revista America, 07-01-2026.

Eis o editorial.

Esta era dificilmente trouxe consigo uma garantia de paz — guerras frias e quentes foram travadas em todo o mundo desde a ascensão dos Estados Unidos como potência hegemônica global em 1945, muitas delas iniciadas pelos próprios americanos. Mas ela mitigou a possibilidade de outra guerra mundial, particularmente ao conter outras superpotências em potencial, e frequentemente proporcionou uma estabilidade que permitiu o surgimento de instituições democráticas duradouras e relações internacionais sólidas.

Mas a Pax Americana — na medida em que outras nações podem confiar no que os Estados Unidos representam — acabou.

O ataque dos EUA à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa em 3 de janeiro parecem ter sido o golpe final. As especulações do presidente Donald J. Trump nos dias seguintes, de que ele poderia ordenar ações semelhantes contra a Colômbia, Cuba, ou mesmo o México ou a Groenlândia, deixaram claro que, quando se trata de política externa americana, a única garantia que resta é que não há garantias.

Menos de um mês antes de o Sr. Trump enviar unilateralmente forças especiais para uma capital estrangeira, a Casa Branca divulgou a Estratégia de Segurança Nacional, uma declaração de propósito que deixava claro que as últimas oito décadas de parceria e defesa mútua seriam mais violadas do que respeitadas.

O documento da Estratégia de Segurança Nacional critica as prioridades da política externa americana desde o fim da Guerra Fria em termos excepcionalmente duros, chamando-as de “listas intermináveis ​​de desejos ou estados finais almejados” que dependiam de uma “dominação americana permanente sobre o mundo inteiro”. Em vez disso, oferece uma ética de puro interesse próprio, visando explicitamente garantir que os Estados Unidos “permaneçam o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem-sucedido do mundo”, livre de uma “rede de instituições internacionais”.

Na medida em que as decisões de política externa do Sr. Trump se baseiam em uma estratégia mais ampla e coerente, a intervenção na Venezuela e a aprovação da “Doutrina Donroe” sugerem um novo objetivo de dominação declarada do hemisfério ocidental. Mas nem mesmo isso é totalmente confiável, visto que o presidente e seu secretário de Estado não conseguem chegar a um consenso sobre o que ele quer dizer quando afirma que os Estados Unidos “administrarão” a Venezuela.

Infelizmente, a realidade parece ser a imprevisibilidade, porque a maior potência militar e econômica do mundo tornou-se essencialmente um ator desonesto. O Sr. Trump desprezou todo e qualquer diálogo com o Congresso para autorizar o uso da força militar. E, dada a abdicação generalizada da maioria republicana em relação ao papel do Legislativo no controle do Executivo, parece improvável que ele precise fazê-lo. Na ausência de qualquer respeito, ainda que nominal, por regras e princípios, tanto os aliados quanto os opositores dos Estados Unidos ficam tentando adivinhar quem o Sr. Trump irá intimidar e ameaçar em seguida.

A nova declaração da Estratégia de Segurança Nacional revela que o governo entende os esforços passados ​​em prol do multilateralismo como mera fachada para os objetivos de uma elite desacreditada. Essa crítica não deve ser descartada de imediato. Muito aventureirismo militar tem sido disfarçado sob o manto de coalizões pela liberdade, e as Nações Unidas têm um longo histórico de pecados, tanto por ação quanto por omissão, nessa área. Contudo, descartar o disfarce e brandir a espada abertamente não representa uma melhoria.

O que a declaração da NSS desdenha como "vagas platitudes" eram, na verdade, os ideais que tornavam possível a cooperação internacional. Eles reconheciam uma lei superior à qual os Estados Unidos, seus aliados e seus inimigos estavam vinculados, mesmo que os Estados Unidos tendessem a se considerar o árbitro dessa lei. Em seu lugar, o governo agora não defende princípio algum, a não ser o que o Sr. Trump afirma como fato depois que uma intervenção militar já começou.

Embora essa situação possa levar outros países a temerem mais o Sr. Trump, ela não garante a segurança dos Estados Unidos. Intervenções militares sem princípios e imprevisíveis tornarão os conflitos regionais mais duradouros e destrutivos. Além disso, tais perturbações não serão contidas por fronteiras nacionais, resultando em deslocamentos e migrações ainda mais disseminados — apesar da declaração do documento da Estratégia de Segurança Nacional de que “a era da migração em massa acabou”.

Neste caso, a própria Venezuela serve de alerta: mais de oito milhões de seus cidadãos deixaram o país desde 2014, e qualquer instabilidade política ou econômica decorrente deste ataque poderá levar milhões a buscar segurança em outros lugares. O mundo poderá presenciar novamente um ciclo que se repete constantemente na América Latina — uma intervenção arrogante dos EUA que gera caos político e econômico, desencadeando uma migração em massa. No mínimo, podemos ter certeza de que as ações dos EUA hoje terão consequências de longo prazo imprevistas pelo governo atual.

O ensinamento católico sobre relações internacionais apresenta uma visão muito diferente da liberdade máxima de ação para os líderes mais poderosos. São João XXIII, na encíclica Pacem in Terris, explicou que “as nações são sujeitos de direitos e deveres recíprocos” e vislumbrou uma autoridade pública “estabelecida com o consentimento de todas as nações”. O Papa Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, apelou à reforma das Nações Unidas e das estruturas econômicas transnacionais “para que o conceito de família das nações possa adquirir força real”. O Papa Francisco, na encíclica Fratelli Tutti, afirmou que a solidariedade humana requer “organizações mundiais mais eficazes, dotadas do poder de prover o bem comum global”.

O que os papas reconhecem, além da esperança em uma ordem internacional baseada na justiça e na paz, é que até mesmo o interesse nacional está intrinsecamente ligado a um bem comum mais universal e global. Embora nenhuma nação possa presumir definir esse bem para todas as outras, abandoná-lo como objetivo compartilhado torna tanto as nações fortes quanto as fracas menos seguras.

A doutrina social católica pode nem sempre oferecer uma resposta suficiente para os desafios da cooperação entre nações soberanas. Mas ela se fundamenta na verdade de que o poder deve prestar contas a uma lei superior para que possa alcançar a verdadeira segurança e estabilidade que almeja, para nós e para as gerações futuras.

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