Leão XIV está mais próximo da Ucrânia, mas em um ponto o Papa Francisco continua sendo profético. Artigo de Marco Politi

Foto: Catholic Church England and Wales | Flickr CC

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28 Fevereiro 2026

No Vaticano, as nuances sempre contam. No último domingo, durante o Angelus, o Cardeal Prevost evocou a guerra "contra a Ucrânia" e convidou a rezar "pelo martirizado povo de Kiev".

O artigo é de Marco Politi, publicado por il Fatto Quotidiano, 25-02-2026. 

Marco Politi é biógrafo de três papas. Best-sellers internacionais: Sua Santidade (Wojtyla), com Carl Bernstein, e Joseph Ratzinger: crise de um Pontificado, antecipando o impasse que levou à sua renúncia, e Francisco entre os Lobos, que se tornou uma obra fundamental na interpretação do papado de Bergoglio.

Eis o artigo.

Em 25 de fevereiro de 2022, o Papa Francisco deixou o Vaticano para ir à embaixada russa. Pretendia abrir — confessou ele — uma "janela de diálogo" com Putin, talvez na esperança de que se repetisse o que João XXIII tornou possível na crise de Cuba em 1962: levar os EUA e a URSS a um acordo in extremis.

O milagre não se realizou.

Terminado o quarto ano de guerra, circula em Moscou uma piada feroz: "Em três anos Stalin chegou a Berlim, enquanto Putin está em Pokrovsk". A Rússia falhou nos objetivos da chamada "Operação Especial": Zelensky não foi derrubado, Kiev não foi conquistada, a Ucrânia não foi submetida e nunca o será. Nestes anos, a população mostrou uma resiliência extraordinária, os militares demonstraram uma eficiência, coragem e determinação excepcionais, e nasceu uma indústria militar de vanguarda na nova guerra de drones e em outros setores.

Tudo isso torna, aliás, improváveis os anúncios alarmistas sobre novas invasões russas. No entanto, nenhuma das partes em campo foi capaz de vencer o que o cientista político americano Ian Bremmer lucidamente definiu como uma "guerra híbrida entre a Otan e a Rússia".

Ficará para a história a pesada interrogação se não teria sido melhor que Washington e Londres apoiassem as negociações realizadas em fevereiro-março de 2022 entre russos e ucranianos, que estavam levando a uma solução. (Não à entrada de Kiev na Otan, nenhum obstáculo para a adesão à União Europeia, redução do exército ucraniano, situação da Crimeia congelada por 15 anos). Restavam abertos os capítulos dedicados às garantias de segurança para a Ucrânia e os mecanismos de defesa em caso de agressão. Era necessário um suplemento de paciência e tenacidade. Em vez disso, chegou a Kiev, vindo de Londres, o premiê Boris Johnson, que exortou a desistir e lutar para colocar a Rússia de joelhos.

No mesmo ano, um projeto de paz, elaborado pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais, foi recebido friamente pelos governos europeus e pela Otan como um incômodo inútil. No entanto, aquelas propostas eram, em parte, melhores do que as que estão sobre a mesa hoje. Mantendo o veto à entrada na Otan e o sim à adesão à UE, a Ucrânia permaneceria com a posse do Donbass (ao qual seria dada uma autonomia financeira, administrativa e cultural do tipo Tirol do Sul).

O balanço está diante dos olhos de todos: dois milhões entre mortos, feridos e desaparecidos.

A mudança de Francisco para Leão

Se Francisco havia colocado a Santa Sé em uma posição de equidistância, acompanhada de um forte empenho por ajuda humanitária à Ucrânia, o Papa Leão posicionou-se silenciosamente em uma linha mais próxima de Kiev. No Vaticano, as nuances sempre contam. No último domingo, no Angelus, Leão evocou a guerra "contra a Ucrânia" e convidou a rezar "pelo martirizado povo ucraniano e por todos aqueles que sofrem por causa desta guerra" (onde Bergoglio citava sempre a dor das "mães ucranianas e das mães russas"). Em outra ocasião, o pontífice fez questão de sublinhar que a "Otan não começou nenhuma guerra".

Sobretudo no tema do cessar-fogo, Leão XIV colocou-se próximo de Kiev e do grupo dos "voluntariosos" liderados por Macron e Starmer. "Que se chegue sem demora a um cessar-fogo — exclamou no domingo — e que se reforce o diálogo para abrir o caminho para a paz".

Para dizer a verdade, em nenhuma das guerras ocorridas nos últimos oitenta anos houve um cessar-fogo de trinta ou mesmo sessenta dias antes do início das tratativas. Pelo contrário, muitas vezes negociou-se secretamente durante a persistência das hostilidades. Mas os governos europeus insistiram nesta exigência, também para frear Trump, que pretende apressar um acordo de paz.

Trump, em campanha eleitoral, sustentava que poderia resolver o conflito em 48 horas. Uma bravata. Dizia também que, se fosse presidente em 2022, a guerra nunca teria eclodido. E ele tem razão. Nos ambientes da diplomacia vaticana — onde nada se esquece — tem-se bem clara a recusa de Washington, no outono de 2021, em garantir formalmente a Putin que a Ucrânia não entraria na Otan. Trump o teria feito.

Além disso, não existe o direito abstrato de uma nação aderir a blocos militares. Existem sempre no cenário internacional interesses a serem pesados. Por muito menos, os Estados Unidos exigiram do governo italiano (premiê Meloni) a dissolução do acordo comercial "Rota da Seda", firmado com a China.

A profecia de Francisco

Em um ponto, Francisco continua a ser profético: ao definir como "loucura!" a cega corrida armamentista. Não se trata de "mostrar os dentes", disse ele já em 2022; a verdadeira resposta "não são mais armas, mais sanções, mais alianças político-militares... mas um modo diferente de governar o mundo agora globalizado... um modo diferente de estabelecer as relações internacionais". Conceito mais válido do que nunca na era da desestruturação trumpiana das relações internacionais.

Do Vaticano, muitas vezes vê-se longe. Também para Leão XIV é necessário "fazer todo o possível para evitar uma nova corrida armamentista". Deve afirmar-se, declarou recentemente, uma "ética compartilhada... capaz de tornar a paz um patrimônio guardado por todos".

Reaparece aqui uma intuição bergogliana: empenhar-se por um novo Acordo de Helsinki global para garantir a convivência e a cooperação entre os Estados no século XXI.

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