13 Janeiro 2026
"A Europa não deve esperar por uma eventual invasão; precisa dissuadi-la a tempo."
A entrevista com Erri De Luca, romancista, tradutor e poeta italiano, é de Antonello Caporale publicada por "Il Fatto Quotidiano" 12-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Erri De Luca, o trumpismo está desenvolvendo um padrão de pensamento violento que é mais forte hoje do que ontem. Pergunto: devemos esperar ações ainda mais terríveis e definitivas?
Não nós, mas os cidadãos estadunidenses, sim. Contra eles está se intensificando a arbitrária violência do ICE, que é um bando armado fascista com licença para prender, deter e deportar ilegalmente. Seu objetivo é aterrorizar e dividir os estadunidenses. Essa já é a quinta vez que eles cometem a infâmia de um assassinato deliberado. Após o assassinato da jovem mulher em Minneapolis, está crescendo a reação saudável das instituições locais e da opinião pública que votará no outono.
Até que ponto as democracias podem resistir a esse estresse?
É um teste da maturidade da democracia estadunidense. Nunca foi tão ameaçada pelo seu próprio poder executivo, nunca tão atordoada por distorções públicas da realidade. Mas não é a República de Weimar da Alemanha do primeiro pós-guerra. Acredito que resistirá ao teste da sua redução a tirania e que o sistema estadunidense de proteções e contrapesos emergirá mais reafirmado. Para a Europa fica a consternação de se ver segregada, pela primeira vez, por um governo estadunidense hostil, que a declara um parasita. Esse antieuropeísmo coincide praticamente com aquele da Rússia. Agora a Europa precisa de se unir, e está conseguindo isso com uma nova unidade de propósito com a Grã-Bretanha no apoio à Ucrânia.
Seremos todos chamados a acertar as contas com a prepotência, entendida como a regulação das divergências entre os homens? Quero dizer: por emulação a prepotência logo se tornará um código de conduta de massa?
A prepotência não regula as divergências; abre caminho a retaliações e disputas legais, como as apreensões ilegais de petroleiros. O sequestro de Maduro e sua esposa deixa intacto o sistema de poder na Venezuela. No passado, os EUA derrubavam democracias favorecendo golpes de estado militares que instituíam ditaduras. Serviam-se de forças armadas locais. Na Venezuela, executaram apenas um roubo habilidoso. Em vez de prepotência, eu chamaria isso de "exibicionismo", uma tentativa de afirmar o poder acima das leis. Mas o maior prejuízo é sofrido pelos cidadãos estadunidenses, já que qualquer um que não seja um cara pálida precisa se proteger contra sequestros. Tim Walz, governador de Minnesota, acusa Trump de se comportar como num reality show.
A escritora dinamarquesa Dorthe Nors também fala de reality. Eu não reduzo a realidade a encenação; os efeitos provocados por esse presidente prejudicam vidas humanas, não telespectadores de um programa. A tentativa de transformar uma democracia em tirania é um experimento terrivelmente criminoso, e seu responsável deve ser equiparado a tiranos da história, não a figuras do entretenimento.
O Ocidente, tanto estadunidense quanto europeu, tem os anticorpos para derrotar Trump?
A Europa criou uma constituição que freia o retorno aos nacionalismos. Na Itália, nenhum partido de direita fala mais de saída da União ou retorno à lira. A direita no poder entre nós é europeísta, com exceção de uma ala da Liga Norte que simpatiza com a Rússia. Nos EUA, porém, estes são anos decisivos para o sistema democrático. A constituição dos estados federados garante, pelo menos em parte, independência do superpoder do executivo e, além disso, existe uma capacidade civil de mobilização que sempre foi importante nos momentos cruciais. Portanto, acredito que o destino do sistema democrático nos próximos anos será decidido em solo EUA, e a Europa precisa agir com mais firmeza, a começar pelo caso da Groenlândia. A Europa não deve esperar por uma eventual invasão; precisa dissuadi-la a tempo.
Parece que Giorgia Meloni começa a mostrar insatisfação com essa amizade com Trump. Ela teme que a leve por um caminho errado. Qual a sua impressão?
Nossa primeira-ministra esperava servir de elo entre a nova presidência EUA e a Europa. Ela teve que perceber que o desprezo da nova administração pela Europa não deixava margem ou exceção para a Itália, inclusive em relação às tarifas. A Itália permanece na coalizão europeia liderada pela França e pela Alemanha.
Acredita que as ruas se encherão de protestos contra esses métodos, essas ações?
Considero a Ucrânia o conflito europeu mais importante desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos, não vi as ruas se mobilizarem contra a invasão russa.
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